segunda-feira, 20 de junho de 2016

Do Cotidiano



Banho é uma coisa bacana. Todo mundo deveria praticar antes de sair de casa e ir conviver em sociedade. Ninguém nesse mundo é obrigado a sentir catinga alheia. Futucar as narinas do lado da pessoa na mesma recepção médica também não é bacana. Pessoa catinguenta, da próxima vez sente bem longe de mim.

Meio dia o médico chegou. Eu era a décima colocada na espera e previ sair de lá no fim da tarde. Qual o quê? Assim teria sido se o dotô não fosse mais ligeiro que o Usain Bolt nos seus 100 metros. Mal tive o trabalho de sentar e já estava de pé com receita médica e prescrição de exame para ver o que se passa com a minha coluna de cem anos.

Falando em cem, de repente me lembrei que preciso vender CEM livros...

Voltando aos fatos da metade do dia: estava sentada esperando o táxi, porque sou pobre porém ryka, e passa o médico com sua maleta preta em direção à porta de saída. Perguntei à moça da recepção se ele ainda voltava para atender no turno vespertino. Qual o quê? Cumpriu sua única hora de carga horária e #partiu para outros afazeres provavelmente mais rentáveis. O desconhecido que usou meu telefone para dizer à esposa que corresse com bebê do casal antes que o médico fosse embora, chamou em vão. A bebê nasceu, segundo o médico paridor, com uma luxação no quadril e precisa de ajuda ortopédica para ficar boazinha e sem dor. Não havia de ser hoje porque o profissional pago com o dinheiro do imposto dele cumpriu ÚNICA hora no estabelecimento e partiu para outros afazeres mais rentáveis. Isso eu já falei, né?

E eu já falei também que preciso vender CEM livros até o dia 31 de julho? Pois é... Quem sabe?

Antes do táxi chegar, ainda tive tempo de investigar a vida pregressa de algumas pessoas. O rapaz de pouca idade me contou, por exemplo, que estava ali por causa de um desacerto que levou há um tempo. “A senhora lembra do show da Marisa Mendonça, faz dois meses, lá na Feira Grande?”... Fingi que sabia quem era a Marisa mendonça e que me lembrava do show. Levou uma garrafada no pulso, vários cortes provocados pela mesma garrafa em outras partes do braço, chutes, socos e muita coisa apanhada pra uma pessoa só. “Quase morri, mas meu santo é forte. Semana passada trombei de moto e quase quebrei o pé. E faz um ano que levei uma batida”... Eu disse pra ele apenas parar de querer ser vida lôka e por garantia arranjasse um benzedor potente, porque vai que o santo dele canse de tanto trabalho, né não?

CEM livros... 31 de julho. Falei, já?

No táxi, uma moça a quem dei carona porque ela mora não tão longe da minha casa e teria de pegar dois busões até o seu destino, dizia que o médico não demorava muito por lá mas era um excelente médico e um tempo que ficou afastado fez muita falta. Olhei pra ela com cara de zangada e falei que ele ali não fazia favor a ninguém, era trabalho e tinha salário bom pra isso. Que se não for o salário merecido, que reivindique, mas o usuário do serviço público não tem que pagar pela sua insatisfação.

CEM livros.


CEM, aqui. Fim.


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Sobre o Sonho Nascido

Já passam das dez da noite e eu estou aqui sem ter tanta certeza do que dizer sobre o quão o dia de hoje foi, está, especial. Grandessíssima novidade em se tratando de alguém cujas certezas tem a duração de um sopro. Às vezes dois sopros, ou vinte. Sei lá. Eu gosto dos sopros, dos ventos, dos ares.

Depois de tantos anos de conversa com um amigo aqui, outro acolá, mais alguns ali a uns dois passos, estou à beira de parir um livro. O livro. Não sei se serei boa mãe sequer de um, avalie vocês se planejo uma penca de filhos de papel com linhas inquietadas. Não sou boa em planejamentos.

Chama-se “Pés de Sonho” o meu primogênito e está agora disponível no site do Instituto Memória dando início nesse treze de junho às pré vendas planejadas, repare lá o planejamento outra vez, de exatos cem exemplares a fim de garantir a publicação. Sem esse número par, duas vezes cinquenta,  meio surreal em se tratando de alguém que sequer é boa em vender rifas de liquificador, nada de pés de sonho crescido.

Do que ele é feito? Dos sonhos, feito se entrega no próprio nome de batismo; das coisas de sempre, que vocês já conhecem desse canto e de outros, da minha alma em rebuliço; do meu olhar às vezes ligeiro, outras preguiçoso; do cotidiano, da dor, das alegrias... de amar e viver.

Eu, quando tudo estava pronto, conversei com meus irmãos sobre achar o preço um tanto suntuoso e questionando como eu faria pra convencer as pessoas a comprarem comigo esse sonho. Ela amorosamente apenas disse pra eu mesma começar a acreditar no meu trabalho, senão como os outros o fariam? Então, é assim o descombinado, a ninguém tentarei convencer a gastar cinqüenta reais garantindo que a leitura é boa, ou revolucionária, ou qualquer coisa que o valha.

Já adianto um pedido de paciência aos meus amigos que, assim como eu, acha pouca graça em ser marcado em postagens infinitas, isso decerto me constrange. Mas, vocês sabem, é preciso uma certa dose de inconveniência nessa vida e eu estou agora me valendo da minha. Sei que saberão me compreender e esperar. Eu esperanço.

Eu espero que quem se atreva a cometer esse ato de absurda amizade e apoio, que é o de entrar no site e comprar esse livro, que goste da leitura, que talvez se emocione e lance risos doces, que sinta e se alegre. Que saiba que eu serei, sempre, envaidecida e grata.

E Rodolfo, se eu daqui atirar bem pro alto um desses livros azuis apelidado de sonho, lá das estrelas onde ele está morando, haverá de segurá-lo? Não fosse ele, não fossem eles. Eu tenho amigos e isso é verdadeiramente bom.




domingo, 5 de junho de 2016

O Derradeiro e Infinito Voo

Era madrugada de sexta feira quando a Bia me contou da sua partida. Eu tentava pintar as unhas nesse instante porque no dia seguinte teria um passeio e queria parecer vaidosa, sabe? Você sabe. Você sempre soube tudo de mim. Você sempre me soube tanto, sempre.

Eu chorei. Silenciosa e triste. Eu chorei muito enquanto as memórias passavam ligeiras e boas. Eu misturava dor e gratidão no meu choro e pensava que você ter partido assim, sem que tivesse sido direito a hora, não era justo comigo. Eu chorava silenciosa, triste, grata e egoísta, porque a justiça dessa hora não tinha que ser pra mim e sim pra você que talvez precisasse realmente seguir os seus vôos por outros cantos.

Eu chorei de saber que não haverá mais “Miminha” no bate papo do Facebook, nem eu lhe puxando as orelhas eruditas porque você tomou por mim uma decisão aperreada, mesmo eu dizendo que não fizesse e o fez pensando em cuidar de mim, em me proteger, em zelar pelas letras minhas que tanto gostou, sempre. E depois se desculpando tão doce e menino. E depois o silêncio, porque você precisou calar e se cuidar.

Eu chorei, meu querido, mas sei que em breve tudo será memória boa dos tantos versos que me fez, dos seus pitacos de gente sabida, das correções espirituosas que ninguém mais fazia. Meu riso vem até hoje quando me lembro de postar sobre o “zoodíaco” de libra para aquele dia e você comentou no mais inteligente dos humores que “apesar de ter muito bicho lá, não era zoodíaco, era zodíaco”. E a comunheira que na verdade se chamava cumeeira? Você sabe, eu não tenho culpa se essas coisas vivem, desavisadamente, mudando de nome.  

Eu e você choramos juntos um choro alegre, você se lembra? Era a despedida daquele nosso encontro em Maceió em que nos divertimos tanto, compartilhamos tanto, nos enriquecemos ainda mais de amizade e cumplicidade. As rosas, os poemas, as canções. Eu, você, Simone, Denise, Dora, o mar. As comidas e prosas, o frio noturno na orla, vocês ajeitando as minhas idéias para a realização de um livro. O seu carinho, cuidado e amizade que eu já sabia da existência e grandeza, eu vi de perto, eu senti no seu abraço e olhar afetuoso. Eu sou absurdamente grata por você ter vindo. Eu sou monstruosamente grata por você ter decidido estar na minha vida e tê-la enriquecido por isso. Eu até nem me importo tanto se só Simone e Denise ganharam canções suas... Bem, agora eu disse meia verdade, repare.

Não há como preterizar o seu verbo. Será que você aprovaria esse neologismo mal aprumado? Será que me corrigiria apontando um caminho mais adequado? Eu hei de pensar que sim. As flores, os versos, os vôos, o Fluminense, Niterói... o mundo. Tudo há de sentir a sua falta, mas você estará incrivelmente presente porque as suas letras o eternizarão, o seu carinho pela vida, pelo outro, o eternizará. A sua gentileza será o seu retrato, meu querido bruxo, num mundo tão exaurido de inquietação equivocada.

A mim resta agradecer de forma incansável o tamanho da generosidade que de si eu recebi e as pessoas talvez não saibam o quanto. E ontem, quando contei para alguns da sua partida, a maioria me disse: “ele gostava muito de você”. Eles estão certos. Eu sei disso desde o seu primeiro comentário no blog envelhecido. Eu sinto isso e sentirei não importa quanto tempo passe. E sou tão grata.


Obrigada, bruxo, meu querido. 
Eu também te amo.




terça-feira, 3 de maio de 2016

Do Inexplicável Botafoguismo

O Rui, meu querido amigo botafoguense de Portugal e do mundo, levou a minha figura fofa para o seu blog. Fiquei meio besta, confesso.

Era domingo à noite e eu deixei recado pra minha irmã Cristiane pedindo a ela emprestada a blusa do Botafogo que eu havia lhe dado... Prometi devolução. Tenho pensado.

Era domingo à noite e o Botafogo acabava de perder pro Vasco quando eu decidi que trabalharia no dia seguinte uniformizada pelo meu amor que é preto e branco, que é branco e preto, que tem uma estrela grandiosa no peito, que me pulsa, me sonha, me canta que ninguém cala esse nosso amor, que me encanta, e pronto.

Domingo que vem tem outro jogo, o segundo e derradeiro dessa peleja e eu já decidi que vou novamente, noutra segunda-feira, me vestir dessas listras e ir a fim de quem quiser me ver e achar bonito, ou achar estranho, ou desdenhar, ou dizer “que massa”. Tomara que dessa vez eu vá vestida de vitória com V de Vasco. Tomara.

Essa coisa de botafoguismo entranhado na gente não é coisa de se explicar muito não, é de se sentir, e só. É de não saber como dizer da grandeza da emoção, é sofrido e bom, é incrível! A gente escuta as histórias passadas e românticas e chora. E pensa que se agora está um momento assim não tão vitorioso, a gente tem raiva, xinga, sofre... mas segue amando. A gente ama mais e espera, e esperança.

A gente quer dar uns cascudos no Botafogo, mas no instante seguinte colocar no colo e dizer que está tudo bem, que a gente se importa, que a gente vai estar sempre junto. Você entende? Acho que não, mas não tem muita importância a sua compreensão ou falta dela. A gente vai ser assim pela vida toda, zelando pelo Botafogo como algo de uma preciosidade única... e tão bonita.

Um abraço... Na verdade, dois abraços, um pra vocês e um especialíssimo pro Rui, do Blog Mundo Botafogo.  Até.



segunda-feira, 11 de abril de 2016

Moedas



Saiu de casa pela manhã com algumas moedas de sentimento no bolso. Havia fome, muita,  e por isso pensava em comprar uma porção sonhos, grandes e doces, a lhe conformarem o apetite voraz pelo viver cheio de mistérios e sons, cheiros, gostos e tais. Mas, o quê!? Viver era caro, era o que descobria enquanto lhe era oferecida apenas meia dúzia de ilusões frias e desbotadas de sabores. A isso recusava aceitação. Seguia em frente, assim, inventando jeitos de caminhar à crise a lhe assombrar bolsos e pensamentos. 




sexta-feira, 1 de abril de 2016

O CHÃO E AS ASAS



- E você não dança?
Perguntou-me o menino.
- Não! Só com a minha alma eu danço,
Afirmei, categórica e lamentosa.
O corpo não me tira do chão.
O corpo não me tira do chão!
Maldito corpo cheio de erros!
Bendita alma cheia de asas.
Eles são a minha casa
Meu desvario
E eu não me caibo de inquietude
Nessa canção
De me dançar. 


segunda-feira, 28 de março de 2016

Uns Quilos e Outras Considerações


Essa coisa do tempo medido e contado na sua exatidão me dá um pouco nos nervos. Posso bem, se eu quiser, contar as coisas de um jeito aproximado e mesmo assim elas terão o valor de um aniversário.
Pois bem. Já faz pra quase um ano que a minha voz continua a mesma, mas o meu cabelo, quanta diferença! Essa fala roubada do comercial antigo da TV não se trata de uma pintura capilar ou qualquer coisa que o valha. Meu cabelo, que era até bonito e sem pintura nenhuma, hoje é estranho, alheio, frágil... Eu não me importo. Ou me importo pouco. Sei lá. A verdade é que reparo nele quase nada que é pra não perder muito tempo com inquietação desnecessária.

Já faz pra quase um ano que o meu cabelo nem imaginava que ganharia transformação obrigatória porque o meu organismo também sofreu mudanças impostas a ele, sem que sequer lhe fosse consultada a opinião. É preciso adaptar-se, eu vivo repetindo para esse meu corpo, mente, e tais, desde que estive naquela mesa de cirurgia oferecendo o meu estômago em sacrifício. Mudança extrema. Mudança para a vida toda. Emagrecimento constante e radical. Peles aos montes, desnecessárias, mas fundamentais no sentido de apontarem a todo instante que o caminho feito foi bonito sim senhor!

Eram cento e vinte e um quilos naquela manhã de quinta feira, em que sem nenhum pingo de ansiedade eu estive acordada por poucos minutos no centro cirúrgico. A partir de então, nunca mais estes cento e vinte e um quilos foram reais. São só lembranças do que eu fui a vida quase inteira e eu não os repugno. Eles foram o que eu fui externamente. Eles foram as minhas dificuldades, o sedentarismo absurdo, comodismo, falta de força de vontade... qualquer coisa que você quiser que tenha sido, mas eles foram o que eu fui.

Hoje, nessa segunda feira que eu não fui trabalhar porque meu maxilar dói uma dor misteriosa, porque tenho cólica, porque amanheci de lábio inchado pelo beijo do mosquito, me fiz pensamentos desse quase um ano de quilos indo embora sem que eu possa ou queira controlá-los. Segundo me disseram os da equipe do doutor Guilherme, homem de jaleco branco mais gente boa do universo, são dois anos nesse processo de desengordar. Depois... depois é fazer valer o sacrifício e não se permitir emburrecer, o que nesse caso implica fundamentalmente nos cuidados para não comer todos os quilos outra vez.

Quarenta e três quilos ficaram pela estrada como sementes enfeitando o chão. Sou, nessa hora, feliz por motivos tantos que eu nem preciso listá-los, você, caro leitor, bem pode supor.

Mas eu não sei e nem quero ser porta bandeira da causa do emagrecimento. É de lei da vida cada um saber de si o seu melhor e se para mim os verbos viver e emagrecer haveriam de fazer parceria, para outras pessoas não necessariamente. Que se oferecer a esse ato extremo de viver a vida comendo num pratinho de sobremesa é de ser feito apenas se a pessoa não encontra para si outra alternativa de seguir. Não vou nunca sair por aí aconselhando estômagos reduzidos porque pra mim está dando certo. Como diria o Jânio da vassoura: “fi-lo porque qui-lo”, mas o fiz muito bem pensado.

Não consigo fazer um texto motivador sobre o quanto minha baixa estima deu uma sacudida nesse tempo de quase um ano. Baixa estima, aliás, é um rótulo simplista demais para resumir o quão uma pessoa pode estar se sentindo frustrada porque ninguém sabe exatamente os seus motivos. Eu não estive vivendo a vida me sentindo inferior por ser gorda. Eu não estou me sentindo superior por estar emagrecendo. É muito mais intenso que isso. Estive triste porque certo dia chovia e eu queria Sol. Estive alegre porque certo dia chovia e eu gostava de espiar as gotas deslizando pela vidraça da minha janela. Viver é tanto! Não simplifiquemos os sentimentos dos outros só porque fingir compreendê-los nos torna supostamente sábios e boas gentes.


Abraços.