sábado, 19 de agosto de 2017

Qual É a Música?


Às vezes, muitas, eu gosto de passear pelos sons do you tube escutando música que eu gosto, descobrindo música que eu não sabia que gostava. Ontem, à noite, foi uma dessas vezes muitas. Demorei no som do Vander Lee. O peito apertou quando me dei conta de que ele já foi, tão cedo, cantar não sei aonde. Se é onde ou aonde eu só tenho incerteza e a essa hora do dia me encho de desvontades de procurar saber.

Escutei Vander Lee tanto, passei na sua poesia e voz doce. Desconfio que ele era um sujeito doce, daqueles que se pode conversar das coisas mais densas e a palavra que se tem de volta é boa, sábia e suave. Desconfio apenas.

Você já escutou “Por Causa de Você”? E a parceria de palco com ele e a Elza Soares, infinita? Muita coisa boa. Muito bálsamo pra ajeitar efemeramente as mazelas da alma da gente. Música boa. Música boa?

Sorri, desgostosa, ao ler os comentários dos amantes da música boa. Comentários, aliás, em qualquer assunto é coisa chata demais de se ler. As pessoas perdem a noção e isso acontece inclusive quando se trata de música, que é coisa pra ser agregadora, pra ser de amor ou de transformação.

É bizarro, por exemplo, que se deseje a morte de “cantores de música ruim” quando morrem Vander Lee, Belchior, Luiz Melodia. “É uma pena a música perder um gênio como Fulano de Tal, enquanto lixos como ... (segue-se lista infinda de cantor desqualificado)”.

Desde a minha meninice, e repare que isso faz é tempo, escuto esse papo chato de música boa, música ruim, bem me quer, mal me quer. Não é novidade, embora insistam em dizer que agora só se escuta porcaria. A porcaria musical sempre existiu. A preciosidade também. E gente pra gostar disso tudo, que é por isso o encantamento de viver.

Então ontem, quando li as pessoas lamentando porque cantor bom morre e cantor ruim fica sobre a terra sem precisão de ser, eu decidi ali, naquele momento crucial, ser uma revolucionária. Não que nunca antes tenha escutado música chamada de ruim, escuto e muito, aliás, mas saí dali, pedindo licença ao Vander Lee e corri abrir vídeos do Luan Santana. Tinha ele cantando pagode, samba com a Marrom, música boa com o Caetano, acordando de amor o prédio todo. Morri não. Nem amei menos o Vander Lee.

Só não sei se eu ainda posso ser considerada uma pessoa de bom gosto musical, como tantos me dizem e eu apenas sorrio, porque acho esse rótulo leve, quase esvoaçante. O que alguém gosta e lhe diz coisa boa, ela pegue pra si e pronto.


“O mundo é grande é cabe nessa janela sobre o mar”, diz Drummond. O mundo é grande e cabe de um tudo, inclusive os gostos todos. 

Licença, eu peço, que agora tem um Johnny Hooker, maravilhoso, me esperando pra ser sentido.


terça-feira, 9 de maio de 2017

Imponderável

Não era uma noite quente, mas precisava um ventilador girando as suas hélices para afastar os mosquitos insistentes em exageros. Uma blusa de pijama de mangas compridas sobre a camisola ajudava a evitar o friozinho sem precisão e assim a noite passaria bem.

Pela manhã a blusa de pijama estava jogada entre o travesseiro e a cabeceira da cama e de jeito nenhum eu me lembro de tê-la tirada. Acordada enquanto fazia isto, pelo menos eu não tenho memória.

Não é a primeira vez desse acontecimento, são várias as vezes, aliás. Então, eu gosto de pensar que é a vó que vem de noite e sabe que estou com calor. E ela me ajuda a tirar a blusa de mangas compridas sem que eu nem perceba. É o amor dela que vem e me cuida. Eu acho bonito pensar assim, mas não sei de que jeito, porque eu não acredito no sobrenatural.

Não se trata de sobrenatural essa história que na verdade não passa de uma vontade minha, que a vó pudesse vir de onde tivesse pra me dizer uns afetos de vez em quando e isso não implicasse em eventos outros e inexplicáveis. São apenas vontades, lembranças e saudades.

O fato é que a blusa saiu-se de mim e como isso aconteceu eu verdadeiramente não sei, não me recordo, não compreendo. Tem aqueles instantes em que a gente, feito criança, está “bêbado de sono” e possivelmente faça coisas instintivamente. Mas eu acho essa explicação tão sem poesia, por isso a rechaço. Prefiro ater-me ao amor, meu e da vó, que é daqueles além de nós duas, além do ponderável, além do que se pode ajeitar definição repleta de lógica.

Eu gosto mesmo é do que o coração inventa, que é pra gente suportar a realidade com outras forças e uma dose extra de boniteza.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Desconvexa

Era bom poder dizer da vida só da sua beleza. Já inicio capengando na conjugação verbal, mas eu pouco me importo com ela, com isso, com tantas coisas feitas para serem chatas. Conjugação verbal foi coisa feita pra ser chata, porque é quase exata como uma fórmula matemática, embora se orgulhe de ser a dona das exceções. A língua é cheia de exceções. A língua é cheia de si. A língua nos movimenta.

Não é sobre língua ou matemática com suas exatidões e exceções que se trata essa conversa. Na verdade eu mesma sei pra onde caminhará tais palavras. É, talvez, uma vontade de sair de asas por aí e voar pra longe do feio do mundo. Que o mundo anda feio, você deve saber. O mundo, aliás, sempre o foi. Sempre teve nele de tudo um pouco, da leveza ao pesado, da boniteza à feiura, do suave e do absolutamente rude. O mundo sempre foi essa vastidão de caminhos e possibilidades e a gente é quem escolhe para onde ir, a gente quem escolhe com que cores pinta as paredes da casa e da alma.
As minhas mãos, de escrever e de agir, estão de certa forma amarradas na imensa sensação de impotência em que me encontro diante do que me tem apresentado o mundo. Não quer dizer, porém, que eu esteja lá sendo a melhor pessoa, a mais altruísta, a mais incrível e sem falhas do universo. Valha-me Deus que eu não sou assim tão iludida. O mundo é feito de errantes e eis o desafio nosso de cada dia, penso eu, aprender nas horinhas que se seguem que é possível ser errante com vontade de acertar. O erro como aceno pro crescimento, pra melhora pessoal e consequentemente a melhora do ao redor.

Esse papo está qualquer coisa meio Augusto Cury, aquele cara que eu pouco li e já nem tenho vontade nenhuma de seguir lendo. E eu sou ruim para autoajuda porque implica em ajudar primeiro a si mesmo, eu suponho, e assim ser tão incrivelmente bem resolvido a ponto de salvar os autoprecisados.  

Nada de querer salvar quem quer que seja do que eu suponha ser caminho pintado de feio. Queria eu, apenas, escrever um punhado de letra bonita, florida, fingindo esquecimento da visão cotidiana daquilo que fere o olhar e o coração. Queria eu, mas não dá. Esse querer, aliás, vem carregando aquela prepotência de suposta perfeição que a gente teima em querer ter só porque não arrasta correntes de ódio amarradas ao pé. A gente pode não ser tão bom o quanto pensa; também não é, talvez, aquela ruindade toda que parece ser. Mas a gente pode querer ser amanhã diferente do que foi hoje e plantar uns baratos bons de se sentir, de se propagar. A gente precisa mesmo é de umas revoluções, inclusive de sentimentos. Sair um pouco de si, misturar-se no outro. Empatia, a tão falada e pouca usada empatia, que permite uma viagem ligeira ao sentir do outro e assim, quem sabe, viver o seu choro e riso.

O que eu quero dizer com isso tudo você não espere compreender. Nem eu mesma sei. Apenas a vontade de choro sentido é o que eu tenho. Apenas um lamento pelo feio interior, pela face macabra das mãos que sacodem palavras ruins e elas os fazem porque os sentimentos que lhes movem são ruins. Não esperemos que o mundo seja por inteiro bondade e beleza. Não esperemos, jamais, perfeição. Mas, esperemos, quem sabe, uma vontadezinha de ajeitar evolução. O mundo se alegra e dança.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

As Letras

Uma das matrículas que fiz hoje, a senhora estava toda contente porque o filho agora fará o segundo ano do Ensino Médio. O menino sorria de canto a canto da boca. Ela, jeito retraído, lenço na cabeça, daquele tipo de gente que deve ter um dia a dia exigente, sofrido, guerreiro mesmo. Apenas mais uma das tantas mães que querem mesmo é fazer o filho ser gente, ter vida melhor do que a que tiveram. Na hora de assinar a matrícula, falou sem graça e mostrando o polegar, que era com o dedo a sua assinatura.  “Nunca dei valor pros estudos e agora me arrependo porque estou velha e já é tarde”. Disse a ela, numa daquelas falas bonitas de auto ajuda, que nunca é tarde para nada nessa vida. Disse a ela que na TV toda hora mostra pessoas com mais de oitenta anos arranjando diploma em faculdade e isso é lindo, quando é da vontade da pessoa. “Eu ainda posso, né?”. Afirmei, categórica, que se ela quisesse poderia sim. Mas disse também pra ela não ficar com vergonha de não saber fazer o próprio nome. Falei isso envolvida num sentimento de ternura por aquela mulher, contrastando com um pouco de pena. Não saber assinar o próprio nome deve dar à pessoa uma espécie de sensação de aprisionamento. Como se não se fosse completamente dono de si. Falta algo, um pedaço, por menor que seja. Eu tenho um irmão que faz pessimamente o próprio nome e imagino que não passe pela sua cabeça a possibilidade de se sentar numa cadeira qualquer a fim de ensaiar a repetição das letras, a essa altura da sua vida. Seria bonito se ele quisesse. Mas eu sei que as pessoas sem alfabetização possuem uma leitura da vida que é bonita demais. É singular e várias. Viver é essa vastidão de possibilidades. Cada um que faça a sua poesia com as letras que lhe aprouver.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Vocabulei-me

Eu gosto da palavra bonita, nas suas variáveis todas. Eu gosto mais de dizer que uma pessoa está bonita do que linda, por exemplo. Obviamente isso não tem significado científico algum, ou religioso, ou qualquer coisa que o valha. Mas eu sigo dizendo que gosto mais do bonito do que do lindo.

Como se o bonito combinasse mais com poesia do que o lindo. O bonito é vasto. O bonito é sonoro. Sem querer desqualificar a lindeza, longe disso. Que uma coisa linda é coisa boa de se ser, mas o bonito, repare, é tão mais completo.

O bonito é amplidão. Como se desse pra se sentir o bonito para além do que se olha. É também o que não se vê pelo lado de fora.

Se eu digo que uma coisa é bonita, quero dizer que ela é estupenda. Se eu digo que uma pessoa é bonita, estou dizendo que ela é tão incrível nesse mundo e olhar pra ela faz-me bem aos sentires todos.

Essa fala era para defender coisa nenhuma. Que o bonito e o lindo vão seguir sendo bons de se dizer e se escutar sem precisarem se desmantelarem em si para um ser melhor que o outro.

Mas que a palavra bonita é mais bonita, isso é sim senhor.




sábado, 14 de janeiro de 2017

A Palavra Em Silêncio

Mais de seis meses passados sem que palavras fossem gritadas nesse canto. Sequer sussurradas. Perdi as chaves, digo, a senha. Bati à porta porque queria entrar e se quisesse ficar muda. Ou não. Gritar aos quatro cantos. Abrir as janelas. Ventilar um verso. Dançar. Por que não? Dançar sim senhor! Dizer umas coisas, calar outras tantas. É de falar que a gente entende. É no falar que a gente erra. É de sentir que a gente vive. O que será eu não sei. Eu sequer sei o que sei. Desconfio um tanto. Incerto outros. Transito. Desisto. Ir-me eu pretendo. Para onde? Para quê essas questões difíceis? “Deixe-me ir, preciso andar”. Deixe-me ficar, se eu quiser. Apenas deixe. Por ora, o que eu digo é isso. Quase coisa nenhuma. Enquanto Betânia canta, eu sustento o olhar sobre palavras já ditas. Benditas palavras renascidas, revestidas. Palavras, poemas. Betânia canta. Eu sinto. Talvez eu chore. Quem sabe gargalhe, feito louca quebrando em mil pedaços o silêncio dessa manhã ainda escura e adormecida. Talvez eu apenas durma.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Do Cotidiano



Banho é uma coisa bacana. Todo mundo deveria praticar antes de sair de casa e ir conviver em sociedade. Ninguém nesse mundo é obrigado a sentir catinga alheia. Futucar as narinas do lado da pessoa na mesma recepção médica também não é bacana. Pessoa catinguenta, da próxima vez sente bem longe de mim.

Meio dia o médico chegou. Eu era a décima colocada na espera e previ sair de lá no fim da tarde. Qual o quê? Assim teria sido se o dotô não fosse mais ligeiro que o Usain Bolt nos seus 100 metros. Mal tive o trabalho de sentar e já estava de pé com receita médica e prescrição de exame para ver o que se passa com a minha coluna de cem anos.

Falando em cem, de repente me lembrei que preciso vender CEM livros...

Voltando aos fatos da metade do dia: estava sentada esperando o táxi, porque sou pobre porém ryka, e passa o médico com sua maleta preta em direção à porta de saída. Perguntei à moça da recepção se ele ainda voltava para atender no turno vespertino. Qual o quê? Cumpriu sua única hora de carga horária e #partiu para outros afazeres provavelmente mais rentáveis. O desconhecido que usou meu telefone para dizer à esposa que corresse com bebê do casal antes que o médico fosse embora, chamou em vão. A bebê nasceu, segundo o médico paridor, com uma luxação no quadril e precisa de ajuda ortopédica para ficar boazinha e sem dor. Não havia de ser hoje porque o profissional pago com o dinheiro do imposto dele cumpriu ÚNICA hora no estabelecimento e partiu para outros afazeres mais rentáveis. Isso eu já falei, né?

E eu já falei também que preciso vender CEM livros até o dia 31 de julho? Pois é... Quem sabe?

Antes do táxi chegar, ainda tive tempo de investigar a vida pregressa de algumas pessoas. O rapaz de pouca idade me contou, por exemplo, que estava ali por causa de um desacerto que levou há um tempo. “A senhora lembra do show da Marisa Mendonça, faz dois meses, lá na Feira Grande?”... Fingi que sabia quem era a Marisa mendonça e que me lembrava do show. Levou uma garrafada no pulso, vários cortes provocados pela mesma garrafa em outras partes do braço, chutes, socos e muita coisa apanhada pra uma pessoa só. “Quase morri, mas meu santo é forte. Semana passada trombei de moto e quase quebrei o pé. E faz um ano que levei uma batida”... Eu disse pra ele apenas parar de querer ser vida lôka e por garantia arranjasse um benzedor potente, porque vai que o santo dele canse de tanto trabalho, né não?

CEM livros... 31 de julho. Falei, já?

No táxi, uma moça a quem dei carona porque ela mora não tão longe da minha casa e teria de pegar dois busões até o seu destino, dizia que o médico não demorava muito por lá mas era um excelente médico e um tempo que ficou afastado fez muita falta. Olhei pra ela com cara de zangada e falei que ele ali não fazia favor a ninguém, era trabalho e tinha salário bom pra isso. Que se não for o salário merecido, que reivindique, mas o usuário do serviço público não tem que pagar pela sua insatisfação.

CEM livros.


CEM, aqui. Fim.