segunda-feira, 1 de outubro de 2018

ENTRE TEMPOS, FLORES SECAS E CANÇÕES


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A gente faz aniversário e uma ebulição meio doida acontece dentro da gente. Há quem acuse o tal inferno astral que rodeia a data, uma espécie de TPA – Tensão Pré Aniversário. Será? Sei lá. Talvez seja puro pretexto para desinquietar ainda mais do que o costumeiro. De inquietude, inclusive, eu bem entendo.

Tenho saudades desse canto, inquieto e repleto de falas, de gente a quem carrego pra sempre. De gente que se foi daqui, mas que de lá repara em mim, eu sei. Tenho saudades, Rodolfo. Tenho saudades das conversas desimportantes e tão relevantes.

Repare que já desaprumo a prosa. Era de aniversário o conversado. Do tempo indo, do tempo ido e constante, que não me espera, mas que se eu correr, ele me leva.

Mantemos, eu e ele, essa relação amistosa, sem estabelecimento de cobrança rigorosa de ambas as partes. Eu sei do poder do tempo. Ele sabe da minha indelével preguiça.  Então eu o percebo passando e deixando marcas no meu rosto. Eu sorrio e elas saltam, não há muito o que eu possa fazer sobre isso, a não ser usar o disfarce do “não me importo”.

Eu me importo com o que me diz o espelho e por isso muito pouco o consulto. Mas, é decidido por mim que meu riso persistirá toda hora que der. Não o riso eufórico de se tentar mostrar felicidade à todo custo, mas o riso genuíno de se poder encontrar, descuidadamente, um motivo ou outro para se ser alegre.

São quarenta e nove anos de vida e eu não desejo aqui listar adjetivos para ela. “Se chorei ou se sorri”... Vocês sabem a continuação dos versos do Roberto. Há tempos que deixei de fazer o balanço do feito, do arrependido, do amado, do que foi dolorido... a alegria e o abismo. Viver é essa salada sentida. Viver é vastidão. Eu que me adeque num sentimento aqui, outra hora noutro acolá, tentando um equilíbrio, mas meio assimétrico, porque eu não vejo tanta beleza nessa coisa muito sob medida.

Repare que, talvez, esteja aí uma boa desculpa para justificar os desmantelos de ser.

São quarenta e nove anos e eu sou a mesma mulher, embora outra distinta da que fui ano passado por essa mesma hora. Um bocado de estranheza e outro tanto de boniteza. Eu estou aqui, sem saber direito o porquê, mas pretendo estar enquanto a mim for permitido.

Entre palavras, afetos e desalentos, eu vou.

Abraços.




quinta-feira, 15 de março de 2018

MATARAM, TAMBÉM, A ESPERANÇA




Estava aqui tentando elaborar um texto-fala para um seminário de Linguística II, que acontecerá na manhã de sábado. Pois é, enquanto muitos aproveitam o sábado para coisas outras, eu estudo, porque sou dessas... louca. 

Pois bem. Faltam ajustes. Que eu vou gaguejar, é certo. Avermelhar, também. Mas nem me incomodo como antes. Depois de cada apresentação eu me abraço, digo a mim mesma que já sabia do gaguejamento, afirmo, confiante, que me amo mesmo gaguejante e incerta, e fim...

Enquanto destrincho, ou tento, Ferdinand de Saussure e decido que o chamarei pelo primeiro nome, porque o segundo é complexo para quem mal fala a língua nativa, percorro, com medo, o olhar pelas redes sociais. Soubemos, todos, da execução da vereadora carioca, Marielle Franco.

Soubemos e precisamos nos indignar, enquanto choramos. Aqui tão longe eu obviamente não havia escutado sequer falar o nome dessa moça. Mas não seria absurdo se tivesse ouvido, já que o seu trabalho era tão contundente no sentido de abrir os braços e acolher os oprimidos. Marielle viveu para minimizar os abismos. Marielle não aceitava a opressão. Marielle lutava inclusive por quem hoje ousa escarniar sobre a sua morte, como se alguma coisa nesse mundo justificasse tal absurdo.

Leia comentários nas matérias sobre esse crime e lamente pela sociedade que estamos construindo: sem nenhuma empatia, estupidamente polarizada e inumana. Eu sinto raiva, me entristeço e arranjo pra mim um tanto de desesperança difícil de apartar.

Não importa se você é de esquerda, de direita ou do centro do oco do mundo, se você é um lascado no sentido de ser minoria oprimida, vai precisar que muitas Marielles existam para lutar por você, contra um sistema maldito e insistente em dizer que a cadeira destinada a cada um na sociedade é uma consequência natural e melhor que lutar para atenuar isso, é apenas compreender e aceitar. Aceite que o papel da mulher é o que lhe queiram dar. Aceite que a sociedade atual não tem culpa do que o povo negro sofreu. Aceite que homem com homem e mulher com mulher só é legal se você não der pinta e se comportar perante as pessoas de bem... e olhe lá!

Marielle não aceitou e por isso foi morta com não sei quantos tiros na cara. E aqui eu digito o nome dela mil e novecentas vezes, se preciso for, por que eu jamais vou me esquecer do nome dessa mulher e do quanto ela fará falta a esses a quem tentava proteger. E também a nós, com um pingo de humanindade nesses nossos corações destroçados.

Merielle presente!



sábado, 19 de agosto de 2017

Qual É a Música?


Às vezes, muitas, eu gosto de passear pelos sons do you tube escutando música que eu gosto, descobrindo música que eu não sabia que gostava. Ontem, à noite, foi uma dessas vezes muitas. Demorei no som do Vander Lee. O peito apertou quando me dei conta de que ele já foi, tão cedo, cantar não sei aonde. Se é onde ou aonde eu só tenho incerteza e a essa hora do dia me encho de desvontades de procurar saber.

Escutei Vander Lee tanto, passei na sua poesia e voz doce. Desconfio que ele era um sujeito doce, daqueles que se pode conversar das coisas mais densas e a palavra que se tem de volta é boa, sábia e suave. Desconfio apenas.

Você já escutou “Por Causa de Você”? E a parceria de palco com ele e a Elza Soares, infinita? Muita coisa boa. Muito bálsamo pra ajeitar efemeramente as mazelas da alma da gente. Música boa. Música boa?

Sorri, desgostosa, ao ler os comentários dos amantes da música boa. Comentários, aliás, em qualquer assunto é coisa chata demais de se ler. As pessoas perdem a noção e isso acontece inclusive quando se trata de música, que é coisa pra ser agregadora, pra ser de amor ou de transformação.

É bizarro, por exemplo, que se deseje a morte de “cantores de música ruim” quando morrem Vander Lee, Belchior, Luiz Melodia. “É uma pena a música perder um gênio como Fulano de Tal, enquanto lixos como ... (segue-se lista infinda de cantor desqualificado)”.

Desde a minha meninice, e repare que isso faz é tempo, escuto esse papo chato de música boa, música ruim, bem me quer, mal me quer. Não é novidade, embora insistam em dizer que agora só se escuta porcaria. A porcaria musical sempre existiu. A preciosidade também. E gente pra gostar disso tudo, que é por isso o encantamento de viver.

Então ontem, quando li as pessoas lamentando porque cantor bom morre e cantor ruim fica sobre a terra sem precisão de ser, eu decidi ali, naquele momento crucial, ser uma revolucionária. Não que nunca antes tenha escutado música chamada de ruim, escuto e muito, aliás, mas saí dali, pedindo licença ao Vander Lee e corri abrir vídeos do Luan Santana. Tinha ele cantando pagode, samba com a Marrom, música boa com o Caetano, acordando de amor o prédio todo. Morri não. Nem amei menos o Vander Lee.

Só não sei se eu ainda posso ser considerada uma pessoa de bom gosto musical, como tantos me dizem e eu apenas sorrio, porque acho esse rótulo leve, quase esvoaçante. O que alguém gosta e lhe diz coisa boa, ela pegue pra si e pronto.


“O mundo é grande é cabe nessa janela sobre o mar”, diz Drummond. O mundo é grande e cabe de um tudo, inclusive os gostos todos. 

Licença, eu peço, que agora tem um Johnny Hooker, maravilhoso, me esperando pra ser sentido.


terça-feira, 9 de maio de 2017

Imponderável

Não era uma noite quente, mas precisava um ventilador girando as suas hélices para afastar os mosquitos insistentes em exageros. Uma blusa de pijama de mangas compridas sobre a camisola ajudava a evitar o friozinho sem precisão e assim a noite passaria bem.

Pela manhã a blusa de pijama estava jogada entre o travesseiro e a cabeceira da cama e de jeito nenhum eu me lembro de tê-la tirada. Acordada enquanto fazia isto, pelo menos eu não tenho memória.

Não é a primeira vez desse acontecimento, são várias as vezes, aliás. Então, eu gosto de pensar que é a vó que vem de noite e sabe que estou com calor. E ela me ajuda a tirar a blusa de mangas compridas sem que eu nem perceba. É o amor dela que vem e me cuida. Eu acho bonito pensar assim, mas não sei de que jeito, porque eu não acredito no sobrenatural.

Não se trata de sobrenatural essa história que na verdade não passa de uma vontade minha, que a vó pudesse vir de onde tivesse pra me dizer uns afetos de vez em quando e isso não implicasse em eventos outros e inexplicáveis. São apenas vontades, lembranças e saudades.

O fato é que a blusa saiu-se de mim e como isso aconteceu eu verdadeiramente não sei, não me recordo, não compreendo. Tem aqueles instantes em que a gente, feito criança, está “bêbado de sono” e possivelmente faça coisas instintivamente. Mas eu acho essa explicação tão sem poesia, por isso a rechaço. Prefiro ater-me ao amor, meu e da vó, que é daqueles além de nós duas, além do ponderável, além do que se pode ajeitar definição repleta de lógica.

Eu gosto mesmo é do que o coração inventa, que é pra gente suportar a realidade com outras forças e uma dose extra de boniteza.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Desconvexa

Era bom poder dizer da vida só da sua beleza. Já inicio capengando na conjugação verbal, mas eu pouco me importo com ela, com isso, com tantas coisas feitas para serem chatas. Conjugação verbal foi coisa feita pra ser chata, porque é quase exata como uma fórmula matemática, embora se orgulhe de ser a dona das exceções. A língua é cheia de exceções. A língua é cheia de si. A língua nos movimenta.

Não é sobre língua ou matemática com suas exatidões e exceções que se trata essa conversa. Na verdade eu mesma sei pra onde caminhará tais palavras. É, talvez, uma vontade de sair de asas por aí e voar pra longe do feio do mundo. Que o mundo anda feio, você deve saber. O mundo, aliás, sempre o foi. Sempre teve nele de tudo um pouco, da leveza ao pesado, da boniteza à feiura, do suave e do absolutamente rude. O mundo sempre foi essa vastidão de caminhos e possibilidades e a gente é quem escolhe para onde ir, a gente quem escolhe com que cores pinta as paredes da casa e da alma.
As minhas mãos, de escrever e de agir, estão de certa forma amarradas na imensa sensação de impotência em que me encontro diante do que me tem apresentado o mundo. Não quer dizer, porém, que eu esteja lá sendo a melhor pessoa, a mais altruísta, a mais incrível e sem falhas do universo. Valha-me Deus que eu não sou assim tão iludida. O mundo é feito de errantes e eis o desafio nosso de cada dia, penso eu, aprender nas horinhas que se seguem que é possível ser errante com vontade de acertar. O erro como aceno pro crescimento, pra melhora pessoal e consequentemente a melhora do ao redor.

Esse papo está qualquer coisa meio Augusto Cury, aquele cara que eu pouco li e já nem tenho vontade nenhuma de seguir lendo. E eu sou ruim para autoajuda porque implica em ajudar primeiro a si mesmo, eu suponho, e assim ser tão incrivelmente bem resolvido a ponto de salvar os autoprecisados.  

Nada de querer salvar quem quer que seja do que eu suponha ser caminho pintado de feio. Queria eu, apenas, escrever um punhado de letra bonita, florida, fingindo esquecimento da visão cotidiana daquilo que fere o olhar e o coração. Queria eu, mas não dá. Esse querer, aliás, vem carregando aquela prepotência de suposta perfeição que a gente teima em querer ter só porque não arrasta correntes de ódio amarradas ao pé. A gente pode não ser tão bom o quanto pensa; também não é, talvez, aquela ruindade toda que parece ser. Mas a gente pode querer ser amanhã diferente do que foi hoje e plantar uns baratos bons de se sentir, de se propagar. A gente precisa mesmo é de umas revoluções, inclusive de sentimentos. Sair um pouco de si, misturar-se no outro. Empatia, a tão falada e pouca usada empatia, que permite uma viagem ligeira ao sentir do outro e assim, quem sabe, viver o seu choro e riso.

O que eu quero dizer com isso tudo você não espere compreender. Nem eu mesma sei. Apenas a vontade de choro sentido é o que eu tenho. Apenas um lamento pelo feio interior, pela face macabra das mãos que sacodem palavras ruins e elas os fazem porque os sentimentos que lhes movem são ruins. Não esperemos que o mundo seja por inteiro bondade e beleza. Não esperemos, jamais, perfeição. Mas, esperemos, quem sabe, uma vontadezinha de ajeitar evolução. O mundo se alegra e dança.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

As Letras

Uma das matrículas que fiz hoje, a senhora estava toda contente porque o filho agora fará o segundo ano do Ensino Médio. O menino sorria de canto a canto da boca. Ela, jeito retraído, lenço na cabeça, daquele tipo de gente que deve ter um dia a dia exigente, sofrido, guerreiro mesmo. Apenas mais uma das tantas mães que querem mesmo é fazer o filho ser gente, ter vida melhor do que a que tiveram. Na hora de assinar a matrícula, falou sem graça e mostrando o polegar, que era com o dedo a sua assinatura.  “Nunca dei valor pros estudos e agora me arrependo porque estou velha e já é tarde”. Disse a ela, numa daquelas falas bonitas de auto ajuda, que nunca é tarde para nada nessa vida. Disse a ela que na TV toda hora mostra pessoas com mais de oitenta anos arranjando diploma em faculdade e isso é lindo, quando é da vontade da pessoa. “Eu ainda posso, né?”. Afirmei, categórica, que se ela quisesse poderia sim. Mas disse também pra ela não ficar com vergonha de não saber fazer o próprio nome. Falei isso envolvida num sentimento de ternura por aquela mulher, contrastando com um pouco de pena. Não saber assinar o próprio nome deve dar à pessoa uma espécie de sensação de aprisionamento. Como se não se fosse completamente dono de si. Falta algo, um pedaço, por menor que seja. Eu tenho um irmão que faz pessimamente o próprio nome e imagino que não passe pela sua cabeça a possibilidade de se sentar numa cadeira qualquer a fim de ensaiar a repetição das letras, a essa altura da sua vida. Seria bonito se ele quisesse. Mas eu sei que as pessoas sem alfabetização possuem uma leitura da vida que é bonita demais. É singular e várias. Viver é essa vastidão de possibilidades. Cada um que faça a sua poesia com as letras que lhe aprouver.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Vocabulei-me

Eu gosto da palavra bonita, nas suas variáveis todas. Eu gosto mais de dizer que uma pessoa está bonita do que linda, por exemplo. Obviamente isso não tem significado científico algum, ou religioso, ou qualquer coisa que o valha. Mas eu sigo dizendo que gosto mais do bonito do que do lindo.

Como se o bonito combinasse mais com poesia do que o lindo. O bonito é vasto. O bonito é sonoro. Sem querer desqualificar a lindeza, longe disso. Que uma coisa linda é coisa boa de se ser, mas o bonito, repare, é tão mais completo.

O bonito é amplidão. Como se desse pra se sentir o bonito para além do que se olha. É também o que não se vê pelo lado de fora.

Se eu digo que uma coisa é bonita, quero dizer que ela é estupenda. Se eu digo que uma pessoa é bonita, estou dizendo que ela é tão incrível nesse mundo e olhar pra ela faz-me bem aos sentires todos.

Essa fala era para defender coisa nenhuma. Que o bonito e o lindo vão seguir sendo bons de se dizer e se escutar sem precisarem se desmantelarem em si para um ser melhor que o outro.

Mas que a palavra bonita é mais bonita, isso é sim senhor.