quinta-feira, 7 de março de 2019

BONITEZA


O carnaval acabou e eu quero dizer das coisas boas que soube dele. A ruindade, deixo pra lá que já foi é falada demais. Eu vi imagens e sons que me afagaram o coração, como se o bem tivesse sido feito a mim.

É nisso que consiste a simbologia máxima do carnaval, festa pagã, mundana, alegre, agregadora, democrática, plural, diversa. De um tudo se viu, o que não se quis ver, espiou-se pro outro lado. Eu quero dizer aqui do que me caberia se na folia eu estivesse.

Inclusão, palavra repetida nesses tempos novos, onde o politicamente correto é questionado por quem não quer mover pestana para mudar qualquer coisa que melhore a vida de alguém, mesmo que essa coisa seja apenas comportamental.

Inclusão quer dizer incluir, trazer pra junto de um grupo maior, um grupo menor e/ou indivíduo que não esteja inserido no contexto, na coletividade. Repare que essa definição eu ajeitei mais significação do que diz o dicionário, mas é como eu percebo.

Tem a ver comigo, bastante. Eu vi a moça nas cadeiras de rodas feliz da vida no bloco do Saulo e sorri de alegria por ela. O Saulo é maravilhoso e ainda diz poemas. Amá-lo menos seria impossível. O Saulo incluiu ainda mais a moça que estava incluída no bloco dele. Foi lindo.

Possivelmente eu não teria coragem de estar no meio do povo, porque me ocorre sempre a sensação de que algo vai acontecer de precisar todo mundo correr e sobraria eu e mais ninguém, perceba.

Eu não escondo de ninguém que dançar era coisa que eu queria muito ter feito nessa vida. A menina do bloco, de cadeira de rodas, o fez. Coisa linda! Dançar é lindo! E ainda que eu nunca faça o que ela fez, saber da possibilidade, saber que isso pode soar como algo de não causar espanto, é maravilhoso. Não gosto de causar espanto em seu ninguém, sou mais pelo acaso, o genuíno, o espontâneo.

Inclusão pra mim é quando você é diferente, mas se sente parte do todo. Você é singular e único, mas você é plural e vários. Inclusão é respeito, é chamar a pessoa e dizer “você pode” e ainda assim respeitar se ela quiser ficar só num canto rebeirando.

No carnaval, festa imensa, houve inclusão e a gente agradece. Eu agora sei que se eu quiser dançar eu danço, se eu quiser olhar eu olho. De jeito ou de outro, eu me gratifico.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

PEITOGRAFIA DÓI




Mas não tanto como pensei. Certo que pensei que fosse haver uma sucção daquela máquina e o pouco de carne que existe nos bichinhos sairia pelos mamilos, mas foram valentes e cá estou eu pra contar a história.

Acho a palavra peito mais bonita do que “mama”. Esta segunda induz a coisa que não tá muito bacana, é ciência demais e eu me aprumo mais no que é descombinação de poesia. Peito guarda um tanto de coisa, repare. É nele que mora o amor, as angústias que a gente tem vezes de carregar. É o peito que empurra pelo grão do olho a lágrima, ou estampa no rosto um riso. Alguém já escutou falar de coisa parecida morando na mama? A ciência que se resolva com o que lhe for de pertencimento. No meu peito mando eu e fui fazer hoje, pela primeira vez na vida, foi uma peitografia.

A espera durou uns oitenta e quatro anos antes de ser chamada à sala do exame, pela moça loira de sorriso em parcimônia. Antes disso pude escutar a conversa das duas mulheres tentando convencer uma terceira a participar junto delas do grupo religioso. Questionavam se ela rezava todo dia o terço, porque é preciso rezar. E que visitar doentes faz bem, a pessoa ajuda e se sente melhor com isso. Uma delas, depois, contava da mãe que agora tava mais abusada do que criança e dava um trabalhão cuidar. Pelo teor da conversa ela ajudava, mas não estava se sentindo melhor com isso.

Pra mais da metade das horas esperadas, resolvi atravessar a rua para tomar um café. Me lembrei de um amigo que, quando vem à minha casa, caminha pra bem cem metros a fim de poder atravessar a rua como se deve, pela faixa de segurança. Fiz o mesmo, caminhei um bocado pouco e, como os carros vinham a certa distância, confiei que o tempo a mim pertencia. Qual o quê? Um motoqueiro sem ser fantasma passou sem diminuir átimo de velocidade e ainda, com a cara mais descabreada do mundo, disse um “desculpa moça” que me tirou da fineza.

Elogiei-o de vários palavrões balbuciados, embora ele não tenha me oferecido risco, apenas falta de respeito e empatia.  Na volta, atravessei novamente pleníssima, sem apressar o passo, porque o tempo era de novo meu.

De volta ao hospital, antes de entrar na sala da peitografia, ainda tive tempo de ser pisada no pé esquerdo por uma senhora que disse estar “com a cabeça meia tonta”. Suponho que isso não fosse motivo pra ela sequer me dizer um pedido de desculpas, mas vim pra casa sem ele.

Carrego um pouco de remorso por não ter comprado a tortilete do rapaz que foi o primeiro a aparecer por lá tentando ganhar um dinheirinho. Depois apareceu o moço das balas com um discurso bem decorado e um menino vendendo o CD evangélico dele em parceria com o irmão. Achei simpática a ideia, mas quando ele, no seu discurso bem ensaiado, disse que cantava pra Deus e não para o mundo, desisti. Quis perguntar se Deus não era, por si, o mundo, mas a vontade de esticar conversa naquele instante era nenhuma.

Peito esticado pra um lado e pro outro, a moça dizia: não se mexa. Quis dizer a ela que o medo de ficar despeitada de vez era tanto, que eu poderia brincar de estátua para sempre.
Exame feito, chamei o Uber que não tardou. Me abriu, sem descer do carro, a porta de trás e eu entrei receosa, porém sem dificuldades. No caminho respondi monossilabicamente as suas perguntas, tentando dizer a ele que prosa eu não tava na querência naquele momento. Viajava tal qual personagens de filmes de amor, com a cabeça levemente inclinada para a janela, apreciando paisagem imaginada.



domingo, 17 de fevereiro de 2019

A PRECISÃO DE NÃO SER


A essa altura da vida, minha, aos quase cinquenta, porque eu já adianto logo a idade que é pra quando ela bater à porta não me pegar de surpresa... Pois bem, repare, tenho caminhado nessa coisa de aprender e desaprender, enlaçar e desenlaçar, persistir e desistir.
Nunca fui afeita às práticas motivacionais e não há aqui desagrado nenhum com quem o faça. Apenas eu não sei fazer e por um tempo me questionei por isso. Hoje não mais o faço, não me exijo andar, de pés descalços, sobre caminhos de brasas.

Para uma pessoa como eu, que tem duas pernas além das de nascimento, foi praticamente mantra alheio escutar sobre a minha capacidade, superação, coragem e todos os eteceteras. E eu sempre quis ser apenas limitada, no sentido mais humano da palavra. Quis ser o que sou e o que pudesse aprender, sem precisão de ultrapassar obstáculos dito por alguém que seria incrível e eu conseguiria.

A Fórmula perfeita para se viver e ser um vencedor, a mentalização de se poder subir ao topo da montanha mais imensa, a luta diária para se superar obstáculos intransponíveis e assim, apenas assim, poder ser de si o pertencimento da vitória. Isso, a mim, parece verdadeiramente desinteressante.
Dei a mim o direito da desistência quando o caminho me parecer cansativo demais, desnecessário demais, valoroso demais, mas não para mim. Dei a mim o direito de não me sentir fracassada quando, na metade desse caminho, botar as mãos na cintura e me perguntar porque estou indo por ali, se o que desejo é ir por outro lado, ou simplesmente não ir.

São padrões que inventou-se pra tudo nessa vida, inclusive pro pensamento da pessoa, que tem que ser o tempo todo positivo, vibrante e tal. Que chateação! Viver é, também, caos. As paredes das cidade são, também, acinzentadas e chorosas. E o que tenho tentado é passar pelos dias em busca da mais profunda honestidade de ser, que eu puder conseguir. Não dá pra ser leve todo dia, não é possível fechar os meus olhos e o meu coração pra tanta feiura vista e sentida.

Eu me permito, portanto, ter dias de me entristecer pelo caos estendido. Eu me permito chorar dos meus desgostos. Eu posso estar fraca e depois encher o peito de valentia e me sentir pronta pra lutar contra os monstros. Se vencerei ou não? Só o depois é quem saberá.

O que eu rechaço são as cartilhas do “dez passos para viver com perfeição”. Eu não quero sequer tentar a perfeição e não é pelo medo do fracasso. A infalibilidade a mim me parece absurdamente danosa.

É a liberdade de ser o que eu me proponho todos os dias, quando acordo sem saber quem estou.



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

ENTRE TEMPOS, FLORES SECAS E CANÇÕES


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A gente faz aniversário e uma ebulição meio doida acontece dentro da gente. Há quem acuse o tal inferno astral que rodeia a data, uma espécie de TPA – Tensão Pré Aniversário. Será? Sei lá. Talvez seja puro pretexto para desinquietar ainda mais do que o costumeiro. De inquietude, inclusive, eu bem entendo.

Tenho saudades desse canto, inquieto e repleto de falas, de gente a quem carrego pra sempre. De gente que se foi daqui, mas que de lá repara em mim, eu sei. Tenho saudades, Rodolfo. Tenho saudades das conversas desimportantes e tão relevantes.

Repare que já desaprumo a prosa. Era de aniversário o conversado. Do tempo indo, do tempo ido e constante, que não me espera, mas que se eu correr, ele me leva.

Mantemos, eu e ele, essa relação amistosa, sem estabelecimento de cobrança rigorosa de ambas as partes. Eu sei do poder do tempo. Ele sabe da minha indelével preguiça.  Então eu o percebo passando e deixando marcas no meu rosto. Eu sorrio e elas saltam, não há muito o que eu possa fazer sobre isso, a não ser usar o disfarce do “não me importo”.

Eu me importo com o que me diz o espelho e por isso muito pouco o consulto. Mas, é decidido por mim que meu riso persistirá toda hora que der. Não o riso eufórico de se tentar mostrar felicidade à todo custo, mas o riso genuíno de se poder encontrar, descuidadamente, um motivo ou outro para se ser alegre.

São quarenta e nove anos de vida e eu não desejo aqui listar adjetivos para ela. “Se chorei ou se sorri”... Vocês sabem a continuação dos versos do Roberto. Há tempos que deixei de fazer o balanço do feito, do arrependido, do amado, do que foi dolorido... a alegria e o abismo. Viver é essa salada sentida. Viver é vastidão. Eu que me adeque num sentimento aqui, outra hora noutro acolá, tentando um equilíbrio, mas meio assimétrico, porque eu não vejo tanta beleza nessa coisa muito sob medida.

Repare que, talvez, esteja aí uma boa desculpa para justificar os desmantelos de ser.

São quarenta e nove anos e eu sou a mesma mulher, embora outra distinta da que fui ano passado por essa mesma hora. Um bocado de estranheza e outro tanto de boniteza. Eu estou aqui, sem saber direito o porquê, mas pretendo estar enquanto a mim for permitido.

Entre palavras, afetos e desalentos, eu vou.

Abraços.




quinta-feira, 15 de março de 2018

MATARAM, TAMBÉM, A ESPERANÇA




Estava aqui tentando elaborar um texto-fala para um seminário de Linguística II, que acontecerá na manhã de sábado. Pois é, enquanto muitos aproveitam o sábado para coisas outras, eu estudo, porque sou dessas... louca. 

Pois bem. Faltam ajustes. Que eu vou gaguejar, é certo. Avermelhar, também. Mas nem me incomodo como antes. Depois de cada apresentação eu me abraço, digo a mim mesma que já sabia do gaguejamento, afirmo, confiante, que me amo mesmo gaguejante e incerta, e fim...

Enquanto destrincho, ou tento, Ferdinand de Saussure e decido que o chamarei pelo primeiro nome, porque o segundo é complexo para quem mal fala a língua nativa, percorro, com medo, o olhar pelas redes sociais. Soubemos, todos, da execução da vereadora carioca, Marielle Franco.

Soubemos e precisamos nos indignar, enquanto choramos. Aqui tão longe eu obviamente não havia escutado sequer falar o nome dessa moça. Mas não seria absurdo se tivesse ouvido, já que o seu trabalho era tão contundente no sentido de abrir os braços e acolher os oprimidos. Marielle viveu para minimizar os abismos. Marielle não aceitava a opressão. Marielle lutava inclusive por quem hoje ousa escarniar sobre a sua morte, como se alguma coisa nesse mundo justificasse tal absurdo.

Leia comentários nas matérias sobre esse crime e lamente pela sociedade que estamos construindo: sem nenhuma empatia, estupidamente polarizada e inumana. Eu sinto raiva, me entristeço e arranjo pra mim um tanto de desesperança difícil de apartar.

Não importa se você é de esquerda, de direita ou do centro do oco do mundo, se você é um lascado no sentido de ser minoria oprimida, vai precisar que muitas Marielles existam para lutar por você, contra um sistema maldito e insistente em dizer que a cadeira destinada a cada um na sociedade é uma consequência natural e melhor que lutar para atenuar isso, é apenas compreender e aceitar. Aceite que o papel da mulher é o que lhe queiram dar. Aceite que a sociedade atual não tem culpa do que o povo negro sofreu. Aceite que homem com homem e mulher com mulher só é legal se você não der pinta e se comportar perante as pessoas de bem... e olhe lá!

Marielle não aceitou e por isso foi morta com não sei quantos tiros na cara. E aqui eu digito o nome dela mil e novecentas vezes, se preciso for, por que eu jamais vou me esquecer do nome dessa mulher e do quanto ela fará falta a esses a quem tentava proteger. E também a nós, com um pingo de humanindade nesses nossos corações destroçados.

Merielle presente!



sábado, 19 de agosto de 2017

Qual É a Música?


Às vezes, muitas, eu gosto de passear pelos sons do you tube escutando música que eu gosto, descobrindo música que eu não sabia que gostava. Ontem, à noite, foi uma dessas vezes muitas. Demorei no som do Vander Lee. O peito apertou quando me dei conta de que ele já foi, tão cedo, cantar não sei aonde. Se é onde ou aonde eu só tenho incerteza e a essa hora do dia me encho de desvontades de procurar saber.

Escutei Vander Lee tanto, passei na sua poesia e voz doce. Desconfio que ele era um sujeito doce, daqueles que se pode conversar das coisas mais densas e a palavra que se tem de volta é boa, sábia e suave. Desconfio apenas.

Você já escutou “Por Causa de Você”? E a parceria de palco com ele e a Elza Soares, infinita? Muita coisa boa. Muito bálsamo pra ajeitar efemeramente as mazelas da alma da gente. Música boa. Música boa?

Sorri, desgostosa, ao ler os comentários dos amantes da música boa. Comentários, aliás, em qualquer assunto é coisa chata demais de se ler. As pessoas perdem a noção e isso acontece inclusive quando se trata de música, que é coisa pra ser agregadora, pra ser de amor ou de transformação.

É bizarro, por exemplo, que se deseje a morte de “cantores de música ruim” quando morrem Vander Lee, Belchior, Luiz Melodia. “É uma pena a música perder um gênio como Fulano de Tal, enquanto lixos como ... (segue-se lista infinda de cantor desqualificado)”.

Desde a minha meninice, e repare que isso faz é tempo, escuto esse papo chato de música boa, música ruim, bem me quer, mal me quer. Não é novidade, embora insistam em dizer que agora só se escuta porcaria. A porcaria musical sempre existiu. A preciosidade também. E gente pra gostar disso tudo, que é por isso o encantamento de viver.

Então ontem, quando li as pessoas lamentando porque cantor bom morre e cantor ruim fica sobre a terra sem precisão de ser, eu decidi ali, naquele momento crucial, ser uma revolucionária. Não que nunca antes tenha escutado música chamada de ruim, escuto e muito, aliás, mas saí dali, pedindo licença ao Vander Lee e corri abrir vídeos do Luan Santana. Tinha ele cantando pagode, samba com a Marrom, música boa com o Caetano, acordando de amor o prédio todo. Morri não. Nem amei menos o Vander Lee.

Só não sei se eu ainda posso ser considerada uma pessoa de bom gosto musical, como tantos me dizem e eu apenas sorrio, porque acho esse rótulo leve, quase esvoaçante. O que alguém gosta e lhe diz coisa boa, ela pegue pra si e pronto.


“O mundo é grande é cabe nessa janela sobre o mar”, diz Drummond. O mundo é grande e cabe de um tudo, inclusive os gostos todos. 

Licença, eu peço, que agora tem um Johnny Hooker, maravilhoso, me esperando pra ser sentido.


terça-feira, 9 de maio de 2017

Imponderável

Não era uma noite quente, mas precisava um ventilador girando as suas hélices para afastar os mosquitos insistentes em exageros. Uma blusa de pijama de mangas compridas sobre a camisola ajudava a evitar o friozinho sem precisão e assim a noite passaria bem.

Pela manhã a blusa de pijama estava jogada entre o travesseiro e a cabeceira da cama e de jeito nenhum eu me lembro de tê-la tirada. Acordada enquanto fazia isto, pelo menos eu não tenho memória.

Não é a primeira vez desse acontecimento, são várias as vezes, aliás. Então, eu gosto de pensar que é a vó que vem de noite e sabe que estou com calor. E ela me ajuda a tirar a blusa de mangas compridas sem que eu nem perceba. É o amor dela que vem e me cuida. Eu acho bonito pensar assim, mas não sei de que jeito, porque eu não acredito no sobrenatural.

Não se trata de sobrenatural essa história que na verdade não passa de uma vontade minha, que a vó pudesse vir de onde tivesse pra me dizer uns afetos de vez em quando e isso não implicasse em eventos outros e inexplicáveis. São apenas vontades, lembranças e saudades.

O fato é que a blusa saiu-se de mim e como isso aconteceu eu verdadeiramente não sei, não me recordo, não compreendo. Tem aqueles instantes em que a gente, feito criança, está “bêbado de sono” e possivelmente faça coisas instintivamente. Mas eu acho essa explicação tão sem poesia, por isso a rechaço. Prefiro ater-me ao amor, meu e da vó, que é daqueles além de nós duas, além do ponderável, além do que se pode ajeitar definição repleta de lógica.

Eu gosto mesmo é do que o coração inventa, que é pra gente suportar a realidade com outras forças e uma dose extra de boniteza.