terça-feira, 6 de agosto de 2019

AQUI JÁZ ESCORPIÃO CHINELADO E POEMA VISTOSO



Uma crônica! Era da minha querência assentar palavra por palavra sem obrigação de ser coisa alguma que não queira. Penso cá sem muita certeza que a crônica cumpre essa função, de permitir nela tudo quanto seja desejado. A crônica é tal qual amigos a quem a gente pode contar de um tudo, do bem aprumado até o desajeitado do sentimento. Tenha-se uma vontade de falar palavra escrita e pronto, a crônica permite escrivinhamento até umas horas.
Tenho hoje essa vontade agoniada de assentamento de palavra feita pra liberdade. Avoante que nem passarinho em fins de tardes de verão; que não é o caso, visto que faz um inverno nordestino pra lá de exibido no frio, embora sem tanta chuva. Pras bandas de São Paulo e outros sotaques devem é mangar que a gente treme de frio numa temperatura feita pra eles desfilarem de trajes praieiros. Eu é que não quero saber dessa arenga, toda noite a minha manta rosa que foi presente da minha cunhada Dayse é quem me livra do aperreio. Cada um cuide do frio que é seu e o meu é agrestinamente selvagem.
Selvagem também era o escorpião bem postado à beira da minha cama no sábado, quando o relógio quase apontava meia noite. Sem óculos, reparava o bicho querendo me convencer que era um fiapo de pano caído não sei de onde, porque escorpião não tinha precisão de ser. Decidi que era boa ideia cutuca-lo com o sapato da muleta, a fim de ter certeza de tirar de mim a teima. Qual o quê? Espinhei o bicho que deu foi um pinote de rabo pra cima e eu fiquei foi tesa. Certeza de que se fosse pegar carreira, ele ganharia de léguas de mim, então era preciso incorporar a Kate Marrone. Dei-lhe uma havaianada que passou foi batido e ele adiantou uns passos pra frente, mas parece que teve dó porque eu, caso ele saísse vencedor nessa peleja, dormiria na calçada do salão aqui da rua, esperou a próxima chinelada que dessa vez foi certeira.
Desculpa, escorpião, meu caro, mas tal da lei da sobrevivência é cabulosa.
Desculpa é o que estou arranjando, sem na verdade ter direito o que contar. Levei um fora da Imprensa Oficial, que achou os meus poemas descombinados. A bem da verdade eu também compartilho desse pensamento na maioria do tempo, sem saber direito o porquê do verso que querendo não rimou; ou teve vezes da rima ser um desgosto tão grande nesse mundo! Graciliano Ramos não teve nada a ver com isso; ele dá o nome do órgão, mas a leitura quem faz são outras mentes. Duvido que ele ajeitasse gosto na minha escrita, mas que eu ia gostar de ser pelo menos reclamada pelo mestre Graça, isso eu ia, sim senhor.
A gastura que me acomete andou ameaçando estragos. A fala me transbordou e fala transbordada sem precisão pode ser bastante danosa. Escapei, mas não sem ranhuras. Ao menos melhor que o escorpião, estou.
Escorpião chinelado. Eu, sem poema vistoso. A noite indo. Fim.



sábado, 27 de julho de 2019

SEMINÁRIO – PROJETOS INTEGRADORES DE LÍNGUA PORTUGUESA III


Manhã acinzentada de sábado, vinte e sete de julho, às horas insinuando fome.

Em sala, sobre a orientação do professor Cristiano, dialogamos sobre os gêneros digitais  e como eles podem ser inseridos no contexto de sala de aula de forma a enriquecer ainda mais o processo de construção do conhecimento.

Os gêneros digitais são, sem resquícios de dúvidas, uma realidade que não se pode mais ser deixada para trás no que se refere ao processo educacional.

A primeira equipe, composta por Marinalva, Fábio e Jefeson abordou o gênero digital You Tube, inserindo o conto. Ao fim, a equipe apresentou um conto de autoria da Marinalva, ilustrando como gêneros digitais e textuais podem ser de fundamental significação dentro da sala de aula.



A seguir, a equipe de duas, formada por Erijane, Juliene e o bebê desta segunda, abordaram o Hipertexto e as suas mil e uma possibilidades de apresentação. Siga-se um link e você nunca mais vai parar de conhecer. Usaram uma plataforma tão moderna nesse mundo!


O gênero digital Blog, apresentado nessa mesma página que vocês atenciosamente leem, mostrou como é possível derramar poemas no cotidiano escolar. Trata-se, aqui, de uma metalinguagem que a equipe composta por Dayara, Milene, Maitê e Ricardo tiraram muito bom proveito. Um adendo para a sentida ausência de Josivaldo Inacio, que tanto contribuiu para a realização desse trabalho.


Daniele, Jaelson, Aline e Josielma trouxeram o Wiki que se trata, se eu bem explico, de construção coletiva de texto sobre os mais infindos temas. Contaram que desenvolveram o trabalho a partir do Google Drive, o que configura numa modernização das ações coletivas, com as quais não sonharíamos décadas atrás.



Tivemos o Vlog trazido pelas mãos e ideias maravilhosas das meninas Las, Tassilaine e Rosiele. Vlog é um cabra mais metido a moderno que o meu querido Blog, irmão mais velho, já imitando caduquice, o bichinho tão querido do meu viver.


Se o nome dela é bonito, o tema escolhido para apresentação me preencheu toda de afetos. Elys Virginina, que é nossa colega em transitoriedade, trouxe a crônica no gênero digital blog. Repare que eu assistia e pensava: essa menina trouxe isso pra nós dois, Inquietude, meu amor.




Eu, que não sou eu, mas a Eunice, ajuntada com Poliana, Tamires, Elizeu e Luiz Reginaldo, trouxeram à bordo o documentário. Bastante pertinente a abordagem do gênero, visto que vivemos uma era em que a ebulição digital é vigente e incessante. Poliana, dessa vez, promete não derramar café na apresentação de ninguém. 




Quando o dia já apresentava cores da tarde, acabou-se a palestra. Um dia acrescido de conhecimento e troca.

Abraços.


quarta-feira, 24 de julho de 2019

SEQUÊNCIA DIDÁTICA





                    Bom dia, turma!             

          Hoje apresentaremos uma sequência didática que será trabalhada nas próximas aulas, abordando, vejam só que maravilha, um gênero literário que passe seja lá quanto tempo, jamais será esquecido. Trata-se do poema, que está presente aqui e lá fora, em qualquer lugar que se possa olhar com os olhos da alma.
                Não é maravilhoso que possamos degustar da poesia para além do papel? Num click, numa busca, e está ao nosso dispor o mundo maravilhoso de Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Mário Quintana, Adélia Prado, entre tantos poetas incríveis desse imenso Brasil e também do mundo.            

                 Vejam como acontecerão as nossas aulas:




        Para começo de conversa, vejamos o que diz a Base Nacional do Currículo Comum sobre as ferramentas digitais no contexto educacional:


Com isso, nós pretendemos:



        Fazendo uso de metodologias que possibilitem aos alunos compreensão e inserção na proposta.

              A sequência didática unirá os gêneros textual e digital durante as aulas de Língua Portuguesa das turmas de 1ª Série do Ensino Médio, durante seis momentos, trazendo para o contexto de sala de aula a poesia dentro de um blog. Para isso, serão utilizados questionários impressos, livros didáticos, papel sulfite colorido, canetas, data show, computadores em sala de informática, entre outros recursos didáticos. Inicialmente, o roteiro da sequência didática será apresentado à turma, explicando passo a passo e sofrendo as adaptações necessários conforme for transcorrendo na prática, especificando aos alunos qual o resultado final almejado com essa prática.

Passemos as etapas:

                   



           Quanto à avaliação, os alunos serão observados durante toda o processo da sequência didática. Idealiza-se que tirem de cada atividade o melhor proveito.


          Por fim, a Cecília declama um poema da Milene Lima, encantando os amantes da poesia com o mavioso toque infantil.     

               A poesia agradece.




            Abraço a todos e até a próxima.


Dayara
Josivaldo Inacio
Jessika Maitê
Milene
Ricardo






quarta-feira, 5 de junho de 2019

TANTA SAUDADE SENTIDA


Pensei em tentar um soneto para ele, onde estivesse, ficasse alegre. Rodolfo sempre ficava alegre e orgulhoso quando eu lhe mostrava poesia. Mas, repare, hoje soaria superficial e eu ando fazendo careta às superficialidades, embora nem toda hora consiga me livrar delas.

Rodolfo merecia o melhor soneto do mundo poesia inteiro. Ele, na verdade, era o mundo poesia inteiro. Não me lembro de pessoa que mais poesia tivesse na veia, na alma, na voz...

Faz hoje três anos que ele partiu. Engraçado como a gente fica procurando palavra menos dolorosa para dizer da morte. Ela, por sua vez, pouco se importa com a dimensão da dor que causa em quem fica.

O meu jeito de dizer saudade é esse, em conversa comprida tal qual tivemos tantas vezes, com assuntos tantos. Rodolfo era tão generoso nesse mundo! Um dia, eu às voltas com os ataques da minha vesícula (vulgarmente chamada de Vê), ele me disse:

- Miminha, faça logo essa cirurgia pra não ter um problema maior. Eu empresto o dinheiro e depois você me paga quando puder.

Eu obviamente declinei da oferta, mas fui comoção àquela noite; chorei descompassada porque um amigo lá de longe, que sequer havia me dito, me abraçava daquele jeito inocente.

Tempos depois nos encontramos em Maceió (Ama-se e ó) e foi incrível. Na areia da praia Simone, que também havia vindo do Rio de Janeiro para esse encontro, Giovanna e eu esperávamos ele, Dora e Denise – esta vindo de Curitiba.

Não me sai da memória a imagem daquele homem imenso, num caminhar lento, de bermudas, chinelos e meias, apoiado numa bengala, chegando cada vez mais perto. Ele era o que eu conhecia pelos blogs, meu e dele; ali estava o Rodolfo das chamadas de MSN, toda hora levantando pra pegar cerveja; o que me ensinou sobre métrica, embora eu nunca tenha aprendido o suficiente.

Quando nos despedimos, naquele fim de semana, choramos um choro que não era triste, embora já adiantando saudades. Todos esses anos eu tenho recorrente lembrança boa da imagem dele chegando e eu penso que foi por mim, embora tenha sido por todos nós que estávamos ali.

Foi muito rico o tempo em que convivemos. Eu provavelmente não seria hoje acusada de escritora ou poeta se ele não tivesse me incentivado tanto, inclusive em relação à publicação do livro, em coloio amoroso com Simone e Denise. A morte o levou antes do livro nascer e eu consigo imaginar o tanto de orgulho que ele sentiria de mim.

É assim quando se tem afeição, se torce um pelo outro; se abraça e faz um ajuntamento de ideia e carinho; se diz amorosamente que zodíaco é diferente de zoodíaco, embora no horóscopo tenha muito animal. Quando um afeto encontra outro, ama-se e, oh!

Não há lugar melhor pra dizer hoje da lembrança dele que é toda hora viva, do que aqui no blog. Empoeirado, portas um tanto emperradas, mas ainda é meu e dos retratos da minha memória. 



quinta-feira, 7 de março de 2019

BONITEZA


O carnaval acabou e eu quero dizer das coisas boas que soube dele. A ruindade, deixo pra lá que já foi é falada demais. Eu vi imagens e sons que me afagaram o coração, como se o bem tivesse sido feito a mim.

É nisso que consiste a simbologia máxima do carnaval, festa pagã, mundana, alegre, agregadora, democrática, plural, diversa. De um tudo se viu, o que não se quis ver, espiou-se pro outro lado. Eu quero dizer aqui do que me caberia se na folia eu estivesse.

Inclusão, palavra repetida nesses tempos novos, onde o politicamente correto é questionado por quem não quer mover pestana para mudar qualquer coisa que melhore a vida de alguém, mesmo que essa coisa seja apenas comportamental.

Inclusão quer dizer incluir, trazer pra junto de um grupo maior, um grupo menor e/ou indivíduo que não esteja inserido no contexto, na coletividade. Repare que essa definição eu ajeitei mais significação do que diz o dicionário, mas é como eu percebo.

Tem a ver comigo, bastante. Eu vi a moça nas cadeiras de rodas feliz da vida no bloco do Saulo e sorri de alegria por ela. O Saulo é maravilhoso e ainda diz poemas. Amá-lo menos seria impossível. O Saulo incluiu ainda mais a moça que estava incluída no bloco dele. Foi lindo.

Possivelmente eu não teria coragem de estar no meio do povo, porque me ocorre sempre a sensação de que algo vai acontecer de precisar todo mundo correr e sobraria eu e mais ninguém, perceba.

Eu não escondo de ninguém que dançar era coisa que eu queria muito ter feito nessa vida. A menina do bloco, de cadeira de rodas, o fez. Coisa linda! Dançar é lindo! E ainda que eu nunca faça o que ela fez, saber da possibilidade, saber que isso pode soar como algo de não causar espanto, é maravilhoso. Não gosto de causar espanto em seu ninguém, sou mais pelo acaso, o genuíno, o espontâneo.

Inclusão pra mim é quando você é diferente, mas se sente parte do todo. Você é singular e único, mas você é plural e vários. Inclusão é respeito, é chamar a pessoa e dizer “você pode” e ainda assim respeitar se ela quiser ficar só num canto rebeirando.

No carnaval, festa imensa, houve inclusão e a gente agradece. Eu agora sei que se eu quiser dançar eu danço, se eu quiser olhar eu olho. De jeito ou de outro, eu me gratifico.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

PEITOGRAFIA DÓI




Mas não tanto como pensei. Certo que pensei que fosse haver uma sucção daquela máquina e o pouco de carne que existe nos bichinhos sairia pelos mamilos, mas foram valentes e cá estou eu pra contar a história.

Acho a palavra peito mais bonita do que “mama”. Esta segunda induz a coisa que não tá muito bacana, é ciência demais e eu me aprumo mais no que é descombinação de poesia. Peito guarda um tanto de coisa, repare. É nele que mora o amor, as angústias que a gente tem vezes de carregar. É o peito que empurra pelo grão do olho a lágrima, ou estampa no rosto um riso. Alguém já escutou falar de coisa parecida morando na mama? A ciência que se resolva com o que lhe for de pertencimento. No meu peito mando eu e fui fazer hoje, pela primeira vez na vida, foi uma peitografia.

A espera durou uns oitenta e quatro anos antes de ser chamada à sala do exame, pela moça loira de sorriso em parcimônia. Antes disso pude escutar a conversa das duas mulheres tentando convencer uma terceira a participar junto delas do grupo religioso. Questionavam se ela rezava todo dia o terço, porque é preciso rezar. E que visitar doentes faz bem, a pessoa ajuda e se sente melhor com isso. Uma delas, depois, contava da mãe que agora tava mais abusada do que criança e dava um trabalhão cuidar. Pelo teor da conversa ela ajudava, mas não estava se sentindo melhor com isso.

Pra mais da metade das horas esperadas, resolvi atravessar a rua para tomar um café. Me lembrei de um amigo que, quando vem à minha casa, caminha pra bem cem metros a fim de poder atravessar a rua como se deve, pela faixa de segurança. Fiz o mesmo, caminhei um bocado pouco e, como os carros vinham a certa distância, confiei que o tempo a mim pertencia. Qual o quê? Um motoqueiro sem ser fantasma passou sem diminuir átimo de velocidade e ainda, com a cara mais descabreada do mundo, disse um “desculpa moça” que me tirou da fineza.

Elogiei-o de vários palavrões balbuciados, embora ele não tenha me oferecido risco, apenas falta de respeito e empatia.  Na volta, atravessei novamente pleníssima, sem apressar o passo, porque o tempo era de novo meu.

De volta ao hospital, antes de entrar na sala da peitografia, ainda tive tempo de ser pisada no pé esquerdo por uma senhora que disse estar “com a cabeça meia tonta”. Suponho que isso não fosse motivo pra ela sequer me dizer um pedido de desculpas, mas vim pra casa sem ele.

Carrego um pouco de remorso por não ter comprado a tortilete do rapaz que foi o primeiro a aparecer por lá tentando ganhar um dinheirinho. Depois apareceu o moço das balas com um discurso bem decorado e um menino vendendo o CD evangélico dele em parceria com o irmão. Achei simpática a ideia, mas quando ele, no seu discurso bem ensaiado, disse que cantava pra Deus e não para o mundo, desisti. Quis perguntar se Deus não era, por si, o mundo, mas a vontade de esticar conversa naquele instante era nenhuma.

Peito esticado pra um lado e pro outro, a moça dizia: não se mexa. Quis dizer a ela que o medo de ficar despeitada de vez era tanto, que eu poderia brincar de estátua para sempre.
Exame feito, chamei o Uber que não tardou. Me abriu, sem descer do carro, a porta de trás e eu entrei receosa, porém sem dificuldades. No caminho respondi monossilabicamente as suas perguntas, tentando dizer a ele que prosa eu não tava na querência naquele momento. Viajava tal qual personagens de filmes de amor, com a cabeça levemente inclinada para a janela, apreciando paisagem imaginada.