quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CINDERELA DO SAMBA

Ninguém compreendia essa sua urgência em viver o carnaval.
Comentavam pelos cantos sobre o absurdo de uma pessoa que passava o ano inteiro fazendo mágica pra sobreviver com o pouco que recebia em suas faxinas diárias, gastar tanto numa fantasia.
Não se importava com os falatórios. Durante todo o ano economizava, guardava cada tostão que podia sonhando em como estaria plena na avenida.
Se quisesse, poderia sair com uma fantasia melhor. Era só aceitar o convite do diretor da ala ‘Um Sorriso No Caminho’ para lhe fazer companhia depois que todos fossem embora da quadra, após o ensaio.
Há tempos ele insistia. Há tempos ela se fazia de desentendida, desde a época em que faxinava na casa dele e tinha que contornar qualquer tentativa de aproximação, afinal a esposa dele sempre a tratara com muita consideração, ao contrário da maioria das esnobes senhoras pra quem prestava serviço, que praticamente não a enxergavam.
Não cedeu às investidas. Não queria confusão pra si. Além do mais tinha esperança de reatar com seu amor que estaria de volta à cidade justamente no dia do desfile.
Finalmente era chegada a hora. Arquibancadas lotadas. Começou a imaginar que tudo aquilo era pra ela, era sua hora de soberania. Seu corpo mulato cintilava coberto de purpurina. A fantasia minúscula ganhava ares de exuberância face a sua beleza genuinamente brasileira, que só era enaltecida em épocas de carnaval.
Na concentração, os tambores já ensaiam os primeiros roncos. Ansiosa, espera o início do desfile, seu momento de rainha. Era hora de esquecer dos problemas do dia-a-dia. Ali não haveria patroas, reclamações, ônibus lotado, contas pra pagar. A harmonia da escola contagiava o público presente e ela se deixou contaminar por essa alegria. A cada passo, se entregava mais ao samba cujo amor lhe dedicava desde menina.
Uma hora e meia. Esse foi o tempo exato do seu sonho. Na dispersão encontrava-se em estado de êxtase, felicidade absoluta. Havia valido a pena cada centavo gasto com muito sacrifício. Exausta, recostou-se num dos carros alegóricos que acabara de parar, quando sentiu um leve toque no seu ombro.... Seu coração parecia querer saltar do peito ao virar-se e se deparar com ele, seu amor. Ele realmente havia voltado.
Ao vê-lo sorrindo, não teve mais dúvidas. Agora sim, tudo estava perfeito.




Por: Milene Lima

12 comentários:

  1. Bela cronica transcrita,by Milene Lima,quanto a vida de uma carnavalesca,poupando o ano inteiro,para ver seu amor chegar, e viu os dois,o carnaval e ele! muito bom!amei!
    Prazer enorme Pétala ,ter voce em campos meus de girassois,além de semeador ,garimpeiro sou,de humanos seres sensíveis e escriba,para a vida tributarmos,sim amiga com a maior alegria sou sim,seguidor seu!Merci!Viva La Vida!

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  2. a cinderela cumpriu bem o seu papel de ser feliz . pelo menos em seus noventa minutos,sambando felicidades.

    parabéns pelo conto.

    o ritmo é bom e cadenciado.
    como os passos da mulata...

    beijo imenso pra voce !

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  3. Conto envolvente,o cotidiano de tanta gata borralheira
    sonhando com sua noite de Cinderela. É bem real; trabalhar, economizar, se sacrificar para realizar um sonho, um propósito.Resistir as investidas,as pedras que estão lá para tropeçarmos e nos tirar do caminho.Não há felicidade sem prazer e essa bela história nos mostra que quando se tem motivação a gente vence e quando a expectativa é reencontrar um amor então...Tudo parece perfeito,essa é a plenitude que tanto buscamos. Amei! Montão de bjs

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  4. Este é digamos que um texto de semi-ficção... ou semi-verídico...
    Sei não! Digamos ficção-verídica!Pois o caso de tal personagem é real na vida de milhares e milhares de mulheres - homens também - no Brasil inteiro!
    Foi bom ter lido!

    A propósito! Seus peixes são gulosos hein!

    Voltaremos!

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  5. Milene!

    Sabia que comentei teu texto no Empório... sem saber que era seu????

    pensei tratar-se de 'outra' Milene...rsrs

    De qualquer forma, reitero aqui, tudo que disse lá, e novamente, parabéns!!!

    Um beijão, amigona escritora.

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  6. Olá Pétala
    Excelente contadora de histórias, pelo que posso apreciar.
    Um conto que nos ressalva a ideia de que nada se consegue sem sacrifícios.
    Por outro lado apesar das dificuldades do nosso dia a dia, nunca devemos ir por atalhos para atingir os nossos objectivos, porque o que parece fácil, escamba em problemas que só agravam a nossa caminhada.
    Gostei e pendo voltar e francamente não sei em que blog te encontrei, mas fico extremamente satisfeito por ter dado com o teu cantinho acolhedor. As minhas felicitações.
    Recebe um kandando a atravessar tanto mar

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  7. Bom texto!mas quanto à personagem, acho um desperdício tremendo juntar dinheiro pra uma coisa tão inútil quanto o carnaval.


    Mas por um sonho, tudo vale, né?


    Quanto ao template, ficou realmente muito bom!


    beijo

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  8. Gostei do texto.
    cada um tem seus momentos de cinderela.
    FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja uma boa noite para você.
    Saudações Florestais !

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  9. Como diz uma amiga minha que gosta de carnaval, "até as Cinderelas tm direito de viver feliz para sempre em dias de carnaval. Tem texto novo no Sub Mundo. Bjus.

    http://submundosemmim.blogspot.com

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  10. Muito bom teu conto. Tudo pelo sonho, né?

    beijo e obrigado pelas felicitações de aniversário

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  11. Obrigada pelo carinho e um final de semana excelente(sem medo)rs... Montanhas de bjs e abraços rs...

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  12. Bacaninha o texto... gostei do conjunto, continua assim minha loirinha favorita!
    Do seu anÔnimo galego...

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