quarta-feira, 26 de maio de 2010

FÊSSORA!

PESSOAS QUERIDAS, NÃO ESTOU SURTANDO POR TROCAR DE TEMPLATE TODA HORA. O CAUSO É QUE A ANTERIOR (VERMELHA, FATAL...RSRS...ESTAVA DANDO PROBLEMA. E COMO EU, ASSIM COMO O LENINE, SÓ "FINJO TER PACIÊNCIA", DECIDI MUDAR.
MAS PROMETO FICAR COM ESSA ATÉ...ATÉ...UM TEMPO INDEFINIDO...
TENHAM PACIÊNCIA!


VAMOS AO POST?   
                             
Ser professora de escola pública quando não se tem lá muito talento pra coisa, quando não se teve peito pra recusar a “sugestão” da titia também professora e a bem da verdade, por pura falta de opção, foi uma experiência que não me deixou muita saudade.

A minha passagem estilo “cometa” na arte de lecionar se deu mais expressivamente em 1998 (por favor não façam as contas...ou façam... sintam-se à vontade). Me foi destinada uma turma de 3ª série do antigo Primário, com seus quase 40 adolescentes inquietos, muito pouco ávidos a ouvir o que eu tinha pra lhes dizer.

Complexa tarefa. Todos os dias era travado um duelo não declarado entre o meu despreparo aliado a sua rebeldia, contra a minha súplica latente em tentar fazê-los enxergar que podiam ser bem mais do que o mundo esperava deles.

Ainda lembro de boa parte da turma (apesar de ter uma memória que me coloca em apuros muitas vezes). Como permaneço trabalhando na mesma escola, ainda que não mais lecionando, volta e meia me deparo com alguns deles. Hoje foi um desses dias, e esse encontro me deixou feliz, orgulhosa até por perceber que os ideais às vezes valem muito a pena.

Não! Não reencontrei algum ex-aluno que se tornou médico, advogado ou qualquer outra profissão conceituada. Reencontrei Géo, era esse seu apelido. Tinha 16 anos quando nos encontramos em sala de aula. Aos 16 anos e ainda cursando a 3ª série, pasmem! Era o mais velho e mais gaiato da turma. Ganhou minha simpatia de cara, pela espontaneidade, bom humor e espírito de liderança que exercia sobre os colegas sem que se desse conta. Claro que eu não deixava transparecer tal situação, mas me sentia segura quando ele estava na aula, pois certamente me ajudaria a contornar quaisquer situações extremas. Nos seus dias de não muito bom humor, era fácil perceber. Sentava-se no fundo da sala, com cara de poucos amigos, e quando solicitado pra alguma tarefa dizia: "Fêssora, deixe eu quieto no meu canto só hoje."

Não era difícil imaginar o porquê desse descontentamento. Por vezes presenciei o pai indo chamá-lo na escola, visivelmente alcoolizado, e o mesmo me contara que a relação dos dois não era das melhores. O pai tinha o poder de amedrontá-lo e envergonhá-lo muito mais do que despertar amor ou respeito.

Ao final do ano letivo foi aprovado, não com louvor, confesso aqui que o ajudei a conseguir passar de ano, e não guardo remorso algum por isso. Não podia deixar aquele quase homem continuar estacionado, dando razão pra os que bradavam que meninos como ele não tinham futuro algum.

A vida seguiu, nos perdemos de vista, ele foi aventurar em São Paulo, como tantos garotos nordestinos em busca do seu sonho. Eis que um dia estava em minha calçada, quando ouço um grito do outro lado da rua: “Fêssora Milene!” . Parou sua bicicleta e veio logo me contar as novidades. Casou-se, tornara-se padeiro na terra da garoa (com curso e tudo, Fêssora – fez questão de afirmar). Evangélico, atribuiu a Deus as vitórias que estava conseguindo em sua vida, assim como se culpava por ter parado de estudar.

No início deste ano ele foi na escola, agora pra matricular seu filho. Brinquei  dizendo pra orientar o menino a não fazer na sala de aula o que ele fazia comigo. Riu e depois, num tom sóbrio falou: Não, Fêssora. Com esse muleque vai ser diferente. Falou olhando pro filho, num misto de ternura e zelo com o qual jamais teria sido tratado.

Hoje mais uma vez meu ex-eterno-aluno foi à escola. Queria uma declaração, pois se inscreveu num curso de panificação e haviam lhe cobrado o dito documento. Mais uma vez falou do arrependimento em não ter continuado a estudar, mas que estava fazendo muitos cursos pelo SENAI. Aí perguntei:

- Ainda está trabalhando na padaria, Géo?  
_ Não, Fêssora. Agora eu tenho uma lanchonetezinha, que funciona como pizzaria também. Devagarzinho to fazendo minha vida.

Ah, que orgulho senti daquele menino!

Então, completando meu raciocínio perdido atrás, não reencontrei um ex-aluno agora médico, advogado ou afins. Encontrei um homem, digno, com brilho de vencedor no olho, que tinha tudo pra ser um alcoólatra como o pai, ou ter sido assassinado cruelmente como alguns colegas da mesma turma, ou estar vendendo CDs pirateados, empurrando um carrinho de mão sob sol ou chuva, como tantos outros também daquela classe sem objetivo nenhum na vida, os quais encontro todos os dias à caminho da escola.

Me encontro hoje de alma lavada. Sem a menor pretensão de me dar algum louro dessa história. Apenas feliz porque as pessoas da própria escola que insistiam em dizer que dali não saíria "ninguém que prestasse" estavam enganadas. Que a velha história da oportunidade é pertinente, sim senhor! 

Queria que todos os meus alunos tivessem se tornado homens, cidadãos, sonhadores e realizadores.

Quisera eu que todos eles tivessem se tornado Géos.

10 comentários:

  1. professor não é valorizado no brasil. lamentável!

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  2. Lindo,Pétala ou Fessora Milene!
    Para isso que Deus nos deu o dom do ensino.
    Nada melhor do que ver a realização de um aluno.Mais que títulos,uma história feliz.
    Bjs!

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  3. O Brasil não é valorizado...
    Assim, como professores, domésticas,mecânicos,médicos... Quando o povo aprender que o saber é a grande libertação, seremos mais respeitosos e respeitáveis.
    Belo texto tamanduazinha.
    Bjs

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  4. Olá querida!

    Que linda história! E você foi parte dela! E uma parte muito importante, tanto que ele não te esqueceu!
    Me emocionou muito e fiquei feliz com o final!

    Beijos
    Lia

    Blog Reticências...

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  5. Olá querida Pétala-Rosadinha, as portas ficam sempre abertas para todos, principalmente para receber os gentis comentários de amigas como você, que estão sempre preocupadas com o semelhante. Seja sempre bem vinda, adorei seu blog, sensível e inteligente, estarei te linkanda para acompanhar melhor seu trabalho.

    forte abraço

    C@urosa

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  6. Deve ser muito bom estar diante de alguém que, de alguma maneira, contribuimos em algum momento para que crescessem e continuem crescendo na vida.
    Cadinho RoCo

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  7. Ai que história emocionante... fia...fiz uma viagem lá na minha salinha lembrando dos meus pequeninos mas com historia de vida gigante pro tamainho deles.

    Belo texto... como td que tu escreve fia
    Bjãao

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  8. Pétala, amada!
    Que bom que não surtou rsrs Prá mim tá lindo e delicado (adoro borboletas)e o mais importante: INQUIETO! Seu post de hoje é prá ter orgulho messsmo e me fez lembrar uma crônica do Rubem Alves onde ele alertava que DIPLOMA NÃO É SOLUÇAO!!!
    Beijuuss n.c. Fêssora, amada!

    www.toforatodentro.blogspot.com

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  9. Querida Pétala Rosadinha

    Que pode mais desejar um/a professor/a além de que "todos os [seus] alunos tivessem se tornado homens [e mulheres], cidadãos, sonhadores e realizadores."

    Mas não é possível. Quando um dia reclamei com um amigo dos meus alunos [sou professor universitário], ele perguntou-me se eu não alcançava os meus objetivos pedagógicos pelo menos com um ou dois alunos por ano. Disse-lhe que sim, que por ano teria, talvez, dois ou três alunos em que eu despertara a vontade de ‘fazer futuro’. Respondeu-me: "Então és um homem de sorte. Tens ganho todos os anos..."

    Reencontro alguns desses alunos e relembram-me sempre as minhas 'provocações' visando sacar deles a inquietude, a criatividade, a ambição, a ousadia, a determinação - e alguns contam-me como fui fundamental nesse trecho do seu percurso.

    Também acho que tens sido fundamental a certo trecho do percurso deles. Isso é inevitável quando se está com alguém durante um bom tempo e a intenção é fazer esse alguém crescer.

    O rapaz foi guiado espiritualmente por ti, e por isso faz questão de te mostrar que foi capaz. Só se enganou quando “atribuiu a Deus as vitórias que estava conseguindo em sua vida”, porque essas vitórias foram dele mesmo, inspiradas numa deliciosa pétala (muito) rosadinha!

    Beijos Gloriosíssimos!

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  10. Muito bacana... e muito bem escrito... fluidez... texto bom de ler!
    Quanto a impaciência... como uma alma inquieta como a sua, poderia ter paciência??? rs
    Beijo... e não aceite imitações... fique com o único, inigualável, o verdadeiro ANÔNIMO...

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