sábado, 30 de outubro de 2010

MEMÓRIAS DE ALGODÃO

Minha memória é meio ingrata, esconde de mim mesma coisas que adoraria compartilhar, mas sozinha, sem ela não consigo. Pensamentos que se encontram fragmentados e vez em quando tento juntar os pedacinhos. Uma amiga me diz que esse meu desencontro com ela, a memória, se dá em função do uso de adoçante artificial... Os componentes do dito cujo são agressivos por demais. Deve mesmo ser isso...
Enfim, embora fragmentados, os pensamentos de minha infância me trazem uma saudade gostosa, me fazem abrir um riso nostálgico e feliz. Remeti-me ao tempo em que meus pais moravam em fazendas alheias, em povoados da região. As férias eram aguardadas com muita ansiedade, lá era o meu destino, brincar com meus irmãos e primos era algo que me causava um prazer indescritível. Meu tio, a quem todos lá de casa chamamos até hoje de padrinho, por ser um dos meus irmãos afilhado dele,  sempre levava meu pai pra trabalhar aonde ele estava, então era uma farra todos nós juntos. Eu devia ter uns sete anos, uma prima já adulta descia do ônibus comigo no colo e todos, primos e irmãos, iam nos receber com olhos admirativos e felizes. Eles não compreendiam muito bem o porquê de eu não conseguir caminhar com minhas próprias perninhas, me enchiam de perguntas, mas logo tudo se transformava em brincadeiras extasiantes. Lembro que numa dessas fazendas – foram pelo menos quatro – não havia energia elétrica. A mim, rata de cidade, era tudo muito surreal. Cada minuto ali me fascinava, cada descoberta, cada susto com os sapos enormes, aranhas caranguejeiras e outros bichinhos adoráveis que encontrávamos nos arredores ou dentro de casa.
Já maiorzinha e causando menos espanto, lembro com felicidade da pequena plantação de algodão existente na casa de uma vizinha, numa dessas fazendas. Era delicioso colher o algodão do pé. Presenciar o milagre da natureza sem compreender como aquilo podia acontecer. De que forma aquele troço, macio, clarinho, podia nascer ali, sem um invólucro, sem uma caixinha pra o proteger depois que desabrochasse? Indagávamos isso sem obter resposta alguma, mas não nos importava. Eu me sentia a própria camponesa, não me cansava nunca.
Nessa mesma fazenda, localizada numa área já mais urbanizada, aos sábados seguíamos, todas as crianças, cortando fazenda adentro em meio as plantações de fumo, em procissão rumo à casa do patrão de nossos pais para assistir Daniel Boone - por Deus, alguém aqui faça a gentileza de lembrar desse seriado - A sala do homem ficava abarrotada de tanto menino buchudo, mas todos razoavelmente educadinhos. Televisão, até mesmo pra mim que morava na cidade, era um sonho distante, então ficávamos concentrados, aproveitando cada instante dessa viagem ao mundo do nosso imaginário. Depois de uma boa caminhada de volta pra casa, íamos praticar o que vimos no seriado. Nos quintais enormes dividíamos espaço com as galinhas para brincar de mocinho e bandido. Os meninos, mais ousados, subiam ao topo das árvores e lá trocavam tirinhos em forma de “pijum”, brincadeira imprópria aos olhos dos politicamente chatos, mas naquela época isso não implicava em coisa alguma na nossa personalidade. Não era algo agressivo, mas sim a fantasia de crianças que não dispunham de muitas opções de divertimento. Nossa imaginação era nossa fábrica, e como elas produziam! Brincávamos de fazendinhas e tínhamos enormes boiadas, feitas com mangas verdes, pequeninhas, que não vingavam e caiam prematuramente do pé. Colocávamos palitos de fósforos para serem suas patas e pronto, estava montada a boiada.
A noite chegava e nos encontrava exauridos e plenos. Mas ainda havia tempo pra brincar na frente de casa, no “terreiro” como ainda é comum se ouvir por aqui. Barra, boto, rouba-bandeira, anel... Cada dia uma novidade a compartilhar. O tio/padrinho, exímio contador de histórias, nos entretinha com suas anedotas e desafios. E dormíamos feito anjos. E logo o dia nasceria para nos conduzir a novas aventuras.
Ainda é possível fechar os olhos e sentir a maciez daquelas bolinhas de algodão que colhi como se fossem minúsculas nuvens caídas do céu.
Sou grata à vida por isso... 
E por muito mais.


Beijos de uma pétala saudosa, porém feliz.



20 comentários:

  1. Jesus... como tu pode reclamar da memória exibindo detalhes tão saborosos de uma infância sadia como as que hoje não existem mais... hein ? me diga menina... rsss

    Lampiões e fogão a lenha são coisas que não me saem da lembrança...
    E o video então... uhhh coisa boa...
    Mas não me esqueço do velho taberneiro "Sincinatus"...

    Valeu pela acordada em nossas lembranças
    Tatto

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  2. Milene,
    Que infância feliz você teve, minha amiga!
    O seu relato é tão bom que consegui imaginá-la com seus primos e amigos em plena fazenda...

    Beijo :)

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  3. Maravilhosas recordaões, ricas em detalhe.Adorei!um beijo,tudo de bom,chica

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  4. Olá, Milene!
    teves uma infãncia bem feliz e lúdica - além de ter uma mémoria sensacional!
    Bjs!
    Rike.

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  5. - Ah, moça... que saudade do sítio da Jatiboca, das fugidas em carro-de-boi, das brincadeiras com a "primalhada", do boi-de-xuxu... Que saudade da bola de meia, do xuque-xuque e do apito da maria-fumaça, da jabuticaba saboreada no galho da jabuticabeira... das matinês no pulgueiro da pracinha - Roy Rogers, o Falcão Negro - que foram para mim o que o Daniel Boone foi para você... saudades!
    - Obrigado por lembrar-me de tudo isso... você sabe como pilotar essa máquina do tempo. Carinhos.

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  6. Milene, querida!

    Que maravilhosas recorações!
    Como é bom ter essas lembranças, tão vivas e tão importantes, dentro de nós.

    Também tenho muitas lembranças de fazenda dos meus avós, no Rio Grande do Sul, onde eu passava as minhas férias. Tenho saudades muito parecidas com as que você descreveu.
    E o Daniel Boone então? ai ai como é bom lembrar!

    Beijos
    Lia

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  7. Claro que lembro de Daniel Boone, não perdia um seriado!
    Vigilante Rodoviário, Agente Fantasma, Nacional Kid, Os Herculóides (o máximo), Speed Race, Pepe Legal, Matraca Trica, Tartarura Tuchê, Coelho Ricochete, Zé Colmeia, O Poderoso Mightor, Super Homem (filme e desenho) , ufa... São tantos mais!

    Boas lembranças.

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  8. Milene, eu lembro, sim do Daniel Boone.
    Quando eu li este seu inspirado post, tive toda a impressão de ter aberto um livro, em uma página aleatória, e ter lido um pequeno capítulo!
    Não sei se você já escreveu ou está escrevendo um livro, mas acho que deveria. Nada mais belo do que essas recordações simples e sinceras dos tempos em que tudo era mágico! Todos nós tivemos esses tempos, nas nossas infâncias!
    Abraços, menina!

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  9. Ó... Daniel Boone não é do meu tempo, não, desculpa... sou nova...hahahahaha

    Viajei juntinho com você e com os olhos cheios d'água, igual criança que não entende muito essas coisas de vida... eu digo : eu também tava lá, não tava???

    Ler sua memória é coisa fantástica! ( e eu adoro os fantásticos...rs )

    De alguma forma eu tbm estava lá, pq eu te amo desde sempre!

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  10. Assim... ser criança para sempre, ainda que noutro corpo e dimensão! :)
    Gostei de ler e do seu espaço!

    Um bom domingo!
    Beijinho

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. E COMO ME LEMBRO DE TUDO ISSO ..DANIEL BOONE NOSSA COM AQUELE CHAPEU DE PELE DE BICHO ACHO UM GAXINIM NÉ?E A SEU FIEL AMIGO INDIO ..NOSSA E TINHA MAIS,...RIN TIN TIN..TINHA ZORRO..DURANGO KID E MUITOS OUTROS LEMBRA DO TUNEL DO TEMPO...E PERDIDOS NO ESPAÇO COM O DR SMITH AQUELE VELHO COVARDE QUE COLOCAVA TODOS EM ENORMES CILADAS..RSRSR .MAS EU TBEM FIZ ESSAS VAQUINHAS ..COM MANGA VERDE ..LEMBREI DE TUDO..E VOLTEI AO TEMPO...VELHOS TEMPOS BELOS DIAS..COMO É BOM TER MEMORIAS PRA RECORDAR..E NA NOSSA EPOCA ERA TUDO TÃO SIMPPLES TÃO NATURAL..CRIAVAMOS UMA VERDADEIRA DISNEY COM FRUTAS VERDES CAIDAS NO CHÃO NÃO TINHAMOS DINHEIRO MAS TINHAMOS FANTASIA E DA PURA ..SEM MALDADES SEM MALICIAS FANTASIAS DE VERDADE..POR ISSO ERAMOS TÃO FELIZES..
    BJS
    OBRIGADA POR ME LEMBRAR DISSO
    OTILIA

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  13. "O tempo pretérito se torna presente pela memória, e o futuro pela nossa imaginação ."


    Abraço.

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  14. KKKKKKKKKK Misericórdia!! Claro que lembro de Daniel Boone e de tantos outros seriados.

    Ah Mi, que gostoso ler tuas lembranças e participar contigo delas. Que bom, que temos essas histórinhas de vida, né não miga?

    Ver o algodão surgindo?! Nooossaa que lindo deve ser isso. E o video da aprensentação do filme entaum?? Meus sais, viu!!!

    Obrigada caríssima por esses momentos(lúdicos).

    Meu afeto, linda!
    super beijo da Lu

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  15. Mi.......

    Concordo com o Leonel: vc já pode ir pensando em escrever teu livro de memórias........

    ou teje presa, sim senhora, bela adormecida!!

    Que lindo seu texto!!Tenho uns dois, meio parecidos...tão bom recordar!!!!

    Beijosss

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  16. os melhores anos de nossas vidas são aqueles que lembramos com um sorriso no rosto.

    um beijo nesse seu sorriso inquieto !

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  17. Milene

    que delicia lembra disso tudo

    Daniel Boone, e tem um outro que nã lembro o nome, mas terminava com todo mundo dizendo boa noite...lembro de um...boa noite Mary Ellen...kkkkk

    lindo post


    Loisane

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  18. BOA NOITE JONH BOY..BOA NOITE ELISABETH..E ASSIM IA ..LINDO DE LEMBRAR ..KK AMEI SUA LEMBRANÇA..

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  19. Oi Otilia, nem fale... eu adorava os Waltons!

    Que saudade!

    bj pra vc!!

    Lu

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