segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

PINGOS DE AMOR



Sujeito ímpar! Vadio, boêmio, maloqueiro, bonachão, gente boa pra caramba! Desde cedo começou a travar grandes embates com o pai em virtude desse seu comportamento porra-louca, o que implicava em pouca responsabilidade em casa, já que era o primogênito. Mas para ele não havia regras. ou melhor, o grande barato era transgredi-las. Casou-se aos 17 anos com uma guria de 14, casou “apuço”, porque desonrou a donzela. E como era de se esperar, pouco durou esse casamento. Não deixou nem por um segundo sua vida de boemia. Não amava a guria. Amava a vida, os prazeres que foi descobrindo a cada dia, entre eles a bebida, causadora principal dos seus embates com o pai. Era daqueles, bebia, chegava a casa sabe-se lá que horas, ouvia todos os impropérios do seu genitor, abria um sorriso encantadoramente cara-de-pau e ia dormir. Em tempos em que alta tecnologia resumia-se em poder ligar pra longe usando fichas em orelhões, era um designer quando nem se sabia o que isso significava. Pintava letreiros, faixas, cartazes em supermercado. Todas as funções que o computador se encarregou de desempenhar ao passar dos anos.

Numa dessas inúmeras situações de vadiagem, sofreu um acidente sério, o carro em que vinha com mais dois amigos capotou e ele foi o único a ter graves lesões na cabeça. Todos diziam: se escapar dessa, não morre mais! No hospital as moçoilas se alternavam incessantemente olhares ressabiados de uma pra outra, como se querendo descobrir quem de fato era a namorada oficial.  Eu dizia: Aquela minha amiga lá da escola, aquela morena, disse que é tua namorada. Ele replicava: minha??? Bom, ela deve me namorar, mas eu não a namoro não. To soltinho! E não era bonito o sujeito! Mas tinha lá aquele sorriso despudorado, um carisma incomparável e agradava bastante o público feminino. Na volta pra casa, toda a família estava convicta de que agora o cabra se aprumava, impossível que não houvesse  aprendido a lição. Ledo engano! Logo o pai teve que sair furioso à caça do sujeito, que estava a passear nos cabarés, seu reduto preferido, a desfilar a cabeça inchada e toda enfaixada. Escapou de levar uma baita surra. Herdou do pai o carisma e sedução que em nada se relacionava à beleza física. O pai,  aquele seu companheiro de embates, e que de certa forma foi responsável pela sua ida pra Recife, aonde foi tentar a vida, buscar novos horizontes. Uma vez, numa de suas raras visitas depois de estar morando lá, apareceu com um Black Power estilosíssimo, porém, um pouco além do tolerável pra os costumes da época. Logo ouviu-se de Seu Luís: Aqui na minha casa ele só entra se cortar esse cabelo! Tá decidido! Voltou pra Recife sem que os dois se vissem, pois não abriu mão do look provocador.

Certa vez recebi uma carta sua, se derramando em amores por mim, como era o costume, afinal eu era a sua bonequinha galega. Disse que qualquer dia viria me buscar pra passar férias com ele e iríamos passear muito. Escrevi uma cartinha pra lhe responder, mas qual não foi minha decepção quando a tal missiva retornou, constava o CEP errado. Me entristeci com medo dele achar que eu não mais o amava... Que tola! Sei que não pensou isso de mim, não desacreditou do meu amor por um segundo! Me amou até o último instante...

Numa manhã de janeiro do ano de 1984, acordo com minha mãe aos pés de minha cama, trazendo consigo um olhar penoso e antes mesmo que eu perguntasse o porque ela estava a me acordar, foi logo dizendo: Filha, seu irmão ouviu no rádio agora, o Niraldo está morto!

Ele estava morto! Eu chorei... Eu chorei! Mas não acreditei! Ele não morreria lá, sozinho, sem ninguém pra o socorrer... Ele não faria isso comigo! Tá errado isso, mãe! Não dá pra acreditar em notícias de rádio!

Mas era sim verdade. Ele havia sido assassinado em circunstâncias que até hoje não se sabe bem quais foram. Uma moça, sua amiga, conseguiu ligar pra uma rádio daqui da cidade na tentativa de que a família escutasse. E seguiram pra Recife meu pai, um dos meus irmãos, um tio e um amigo dele. Pedi ao meu pai que o trouxesse pra casa, mas sabia que era impossível. Não tínhamos grana. Apenas essas 4 pessoas se despediriam de um cara que foi popular como poucos, que agregava, atraía a atenção por onde passava. Estava com ar de riso ele, falou meu pai, sem esconder o nó na garganta ao contar como foi chegar num necrotério de um lugar que não é seu e se deparar com o filho morto, jogado no chão, coberto por um saco preto.

Aqui, a casa ficou cheia, muita gente veio nos abraçar e chorar, incrédulos e tristes.
Durante muito tempo esperei que ele viesse, à noite, me dizer que era tudo um grande engano, que estava bem e pra eu parar de me sentir culpada pela carta que jamais havia chegado. Esperei, chamei tanto que no meu sonho ele veio, com sua habitual alegria e o sorriso que só significava coisa boa.

Ainda hoje me pego pensando em como seria se a carta tivesse chegado. Eu nem ia mais querer saber da boneca que chora, pedido interesseiro que seguiria junto com o tanto de amor a lhe enviar. Só queria saber que ele teria me doado lá de longe o seu sorriso... E teria certeza de que o amava... Eu o amava muito!

Até hoje qualquer um de nós ao ouvir casualmente essa música fala rapidamente: A música do NIraldo!

E o mais bacana é que o Paulo Diniz  está a cara dele na imagem...

Beijos a todos!



15 comentários:

  1. - Lembranças pugentes, feridas que se transformam em cicatrizes... cuja dor se dilui mas nunca se vai. Sim, assim é a vida. Um beijo e um abraço especialmente carinhosos pra você, Milene-Memem. E muita LUZ, também.

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  2. Os dramas também fazem parte da vida, e este é daqueles que morará sempre na mesinha de cabeceira...
    Comovido, deixo um forte abraço!

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  3. MememNoel, amada!!!!
    Custei prá te "Rê"conhecer no novo visual...
    Custei prá conter as lágrimas...
    "Degustei" cada linha dessa escrita pingada de amor (a princípio achei que era outra pessoa a escrever...depois, nos entretantos, percebi as pétalas meio sumidas exalando o perfume em cada palavra sentida)
    Posso sugerir? Leva esse tb pro Relicário!
    Beijuuss, minha minina-ternura, n.c.

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  4. Sei exatamente o que é essa saudade! É como Rodolfo falou, uma cicatriz, a gente aperta, e não dói como antes, mas a marca estará sempre lá.


    Por isso não me furtar de deixar algo aqui, que vc saberá bem do que estou falando:
    "Nada sei da vida do mosquitinho que mato, indiferente, na parede, mas,suspeito que era a unica que ele tinha".

    Com certeza, seu irmão porra-louca, sabia que o a galeguinha dele sentia, independente de carta ou não, os inconsequentes são mais conscientes das coisas do coração,pode ter certeza.



    Sigo te amando.
    Beijo !

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  5. Milene...
    Macaco fica sem palavras.. Sabe "comosô" préças coisa né..!!
    Eu sabo viver e sobreviver disso quando me acontece, Mas num sabo ensinar como se faz....
    Mi.. Apenas SINTO... fica bem
    bejô
    Tatto

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  6. "A Melhor mensagem de Natal é aquela que sai em silêncio
    de nossos corações e aquece com ternura os corações daqueles que nos acompanham em nossa caminhada pela vida"

    Um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de Paz,
    Amor, Saúde e Amizade.

    Bjs.

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  7. A vida é cheia de peças e somos atores obrigados a participar. E nem sempre o final é feliz.

    Bjs.

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  8. ENGRAÇADO COMO AS PESSOAS PODEM SER FELIZES DO JEITO QUE ELAS QUEREM...SABE EU SENTI EXATAMENTE O JEITÃO DO NIRALDO ??AQUELE TIPO MOÇO FELIZ MODERNO ZOANDO COM AS PESSOAS MAS QUE TINHA UM CORAÇÃO IMENSO QUE SO QUERIA UMA COISA SER FELIZ!!!SENTI FOI ISSO EM TUDO QUE DESCREVEU ..ALGUEM FELIZ ..UM DOM JUAN NORDESTINO MAS DE BOA FÉ....FIQUE FELIZ POR ELE TER FEITO PARTE DA SUA HISTORIA QUERIDA ..E SEMPRE DIGO ..ESTÃO VIVOS MAIS DO QUE AGENTE POSSA IMAGINAR E MAIS PERTO DO QUE NOSSOS OLHOS POSSAM VER..PODEMOS SOMENTE SENTI LOS....
    BJS
    OTILIA

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  9. A vida passa antes de a viver-mos.

    Abraço.

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  10. Ai Memem do meu core, nem consigo dizer nada.
    a lágrima se fez presente , sabe quando se sente na alma? senti. meus olhos escutaram tua saudade.
    me arrepiei e me calei.
    bêjO! linda minha...

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  11. Milene,
    Esse tipo de saudade dói demais.
    Adorei o texto.
    Um beijo,

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  12. Uma história comovente e bem contada, acompanhada de uma música linda!
    Valeu, galeguinha (há quanto tempo eu não ouvia essa palavra) Milene!
    Abraços, continue escrevendo coisas bonitas!
    Talvez menos tristes...

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  13. Memem

    espero que Deus já tenha te confortado..e aos teus tmbém

    beijocas

    Loisane

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  14. Saudade, palavra que só existe em nossa dicionário, não é mesmo? Pena que as pessoas só dão importancia pra vida quando o bonde passa e os bons momentos viram só saudade... Tem texto novo no Sub Mundos. Bjs.

    http://submundosemmim.blogspot.com

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  15. Olá, Milene!
    Fazia tempo que não ouvia essa música!
    quanto ao seu pedido, é claro que sim, seria uma honra! Pode pegar o que quiser, tanto imagem quanto textos que eu tenha escrito. Fique sempre â vontade!!
    Bjs!
    Rike.

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