sábado, 18 de dezembro de 2010

RUDOLPH E A BRUXINHA

Rudolph andava triste. O Natal estaria a qualquer momento batendo à porta e não conseguia tirar de si a angústia herdada pelos redemoinhos enfrentados nos últimos tempos, em que teve que se vestir de uma armadura a qual nem ele próprio se achava capaz de fazer uso com tanta coragem e segurança. Havia sido necessário. Era preciso enfrentar sem se permitir desabar. Mas agora que tudo acabara, que fizera o possível para evitar o fim, percebeu-se sem ânimo, sem vontade de seguir.

Envolto em seus pensamentos, sob a nuvem negra que insistia em não abandoná-lo, mal pode perceber a aproximação silenciosa de alguém que o observava um tanto à distância. Deu-se conta que havia quem o espiasse e pôs-se a esperar... Era um menina. Uma menina, não! Uma bruxinha! Mas não tão simples assim... Uma bruxinha carregando duas muletas a cada passo.

- Olá! – Falou a menina bruxinha, com sorriso um tanto tímido.
- Oi. – Respondeu Rudolph, sem entusiasmo algum.
- O que fazes aqui tão cabisbaixo? Por que estás triste?
- São problemas de adulto, menina... Tu não compreenderias!
- Como podes garantir? Não quer tentar? Pelo menos te ouvir eu sei que posso.
- Estou triste sim, bem observasses. Perdi há pouco alguém que muito amava e está sendo difícil essa minha nova realidade. Mesmo tentando, não consigo levantar, compreendes?
- Claro que compreendo. Como te chamas?
- Rudolph. E tu, como te chamas?  Pareces uma bruxinha... Mas bruxinhas não existem de fato, fazem parte do nosso imaginário.

A menina bruxinha pôs-se a rir, um riso aberto e alto, que lhe fazia apertar os olhinhos, despertando assim um certo ar de descontração em Rudolph. Fazia-lhe bem vê-la sorrindo, ainda que não soubesse explicar o porquê.

- Chamo-me Enelim! E sim, sou uma bruxinha... Mas não temas, existem bruxinhas boas, acredites. Mas não te sintas assim tão seguro, bruxinhas boas, ainda assim são bruxinhas...

Falava num tom de pura brincadeira, divertindo-se com o ar de surpresa do moço ao ouvir sua confirmação. Por um momento ele pensou tratar-se apenas de fantasia para alguma festa infantil.

- E o que houve com tua perninha, porque usas essas muletas?
- Ah... Às vezes as poções mágicas dão um tantinho errado. Acho que faltou um ingrediente lá que ninguém achou tão importante, aí deu nisso. Preciso de muletinhas pra me fazerem caminhar. Mas eu caminho, isso que importa, né?
- É sim! – Respondeu encantado com a espontaneidade da menina que se dizia bruxinha.
- Sabe, Rudolph. Você falou que perdeu alguém que amava muito, e essa pessoa também devia ter muito amor por ti... Estou certa?
- Estás certa. Ela foi, comigo, a minha própria vida. Minha companheira, cúmplice. Nada haveria sido sem ela.
- Que bonito isso... Quando eu crescer quero ter um bruxinho que me diga coisas assim. Que fui com ele sua própria vida... Mas Rudolph... E as outras pessoas? Como elas estão?
- Muito tristes também... E ainda mais por me veem assim.
- Elas precisam de ti, eu suponho... Devem pensar que tu existe pra que elas não se sintam tão desamparadas. Mas estás que é desamparo só!
- Por que não tentas fazer uma magia pra que eu me sinta melhor? Vês essa nuvem sobre minha cabeça? Afasta-a de mim, te imploro! Não és bruxa? Prova-me!



- Então vem cá antes de irmos. Posso dar-te um abraço?
- Ah... Como sabes que adoro abraço? Acho que és bruxo também! 

Dessa vez as gargalhadas de ambos ecoaram, fazendo a nuvem negra acelerar seu des A menina pôs-se a rir novamente, deixando-o um tanto aborrecido.

- Ora! Estás a chacotear da minha tristeza? Mas que raios de bruxinha boa és tu?
- Não ri de ti! Apenas da confusão que fazes a pensar que careces de alguma magia a te fazer sentir melhor. Não precisas disso! O que procuras esta aí, bem dentro do teu coração... Olha a ti mesmo! Percebe o tanto de amor que tens e quantas pessoas nesse momento querem senti-lo, sentir teu abraço e aconchego. Aí te encherás da mesma coragem que tivesses durante os momentos em que não pudesses chorar, apenas ser forte. Agora podes chorar! Mas só isso não basta... Sei que ela, aquela que foi tua vida, estará bem mais tranquila sabendo que aqui estás a cuidar das outras pessoas que também choram, e elas a cuidarem de ti.
- Engraçado! A nuvem negra foi-se. Foi como se tu tivesses lançado-lhe um feitiço involuntário... Enquanto falavas ela deve ter se sentido constrangida e partiu... Sinto-me mesmo melhor. Acho que já posso voltar a caminhar. Preciso ir pra casa, bruxinha, o Natal está para chegar.
- Também tenho que ir para casa. Bruxinhos gostam do Natal, sabia?

Rudolph sorriu enternecido com a firmeza inocente da menina.
aparecimento, enquanto davam-se um abraço cheio de ternura... Nunca mais ouviu-se falar nelas por essas bandas.


Texto: Milene Lima
Imagens: Rodolfo Barcellos




EM TEMPO: ESSAS IMAGENS ME FORAM ENVIADAS PELO RODOLFO, PRA QUE EU AS USASSE DA FORMA QUE QUISESSE. HÁ UM TEMPO ESTAVAM GUARDADAS, JAMAIS ESQUECIDAS. ARRISQUEI ESSA HISTORINHA, COM MINHA PECULIAR INSEGURANÇA... SALIENTO QUE NÃO É UMA ALUSÃO A COMO ELE SE SENTE EM VIRTUDE DO QUE LHE ACONTECEU, ELE NÃO ANDA PRECISANDO DE MAGIA A FAZÊ-LO SENTIR MELHOR. SÃO APENAS PALAVRAS... UMA TENTATIVA DE DIZER O QUANTO SUA AMIZADE ME É CARA E DO QUANTO DESEJO SEU BEM ESTAR, SEMPRE!

15 comentários:

  1. Ai ai

    que sono bom terei....existem pessoas como eu...que amam como eu..que se importam como eu...

    Memem e Rodolfo....que bom saber que existem


    beijocas


    Loisane

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  2. Modesta minha Memem...
    Que delicia de texto, essa bruxinha tem o dom de alegrar corações coloca ouvidos nos olhos e os faz de (in)quietos ah quietos até o fim...
    faz os cilhos baterem palmas de emoção fazendo brotar lágrimas do coração...
    adoroooo sempre..
    beijO amada minha!

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  3. Menina, que encantamento!!!
    Essa bruxinha chega de mansinho na vida da gente, e não é que vai afastando todas as nuvens escuras?
    Nem precisa chegar perto dela. É só ler o que ela escreve. Ah, e como a danadinha sabe escrever e tocar nosso coração!...
    E, de brinde, ainda deixa um sorrisão no rosto da gente :D
    Como bem disse a Déya...fez o cílios baterem palmas de emoção (gostei dessa...rs)
    Beijo grande querida

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  4. - Minha querida bruxinha Sassevasá Enelim:
    - Você disse-me uma vez - lembra? - que eu tinha o dom de "saber dizer".
    - Pois eu fiquei por quase uma hora sem saber o que dizer... fiquei embevecido, embasbacado, encantado, emocionado... enfeitiçado, olhando para uma tela que, por artes mágicas, se transformara numa janela para a vida! Fiquei rolando o texto para cima e para baixo, lendo e relendo cada palavra, bebendo cada gota de carinho, embriagando-me de prazer...
    - E vinha e voltava para ver as imagens que tão bem conhecia, mas que pareciam totalmente novas para mim...
    - Ah, bruxinha! Como faz bem ver que uma sementinha humilde que eu deixei em suas mãos de fada "pra você fazer o que quiser" - lembra? - foi cuidada e cultivada com tanto amor e carinho... como faz bem!
    - Com certeza hoje vou sonhar com meninas que viram bruxas e bruxas que viram fadas... Obrigado, Milene... obrigado!

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  5. É preciso amar sempre, sempre e sempre!
    Bjs.

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  6. Lindo e tão doce, mágico teu texto e as ilustrações de Rofolfo, lindas. beijos,tudo de bom,chica

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  7. Enelim and Rudolfh
    Um nó enorrrrrrrrrrrrrrme em minha guéla faz me faltar o ar e quase que em falência múltipla explodi em emoção...... CARÁI.... que lindo isso!!!!!!

    Foi o melhor e mais lindo conto de Natal que alguém poderia ter escrivinhado..... EU JURO

    Sabes como amo a ti e o Carinho um tanto reservado mas já explícito que tenho por Barcellos..... Nem que us mió escrevinhadores de todos os tempos ressucitassem não escrevinhariam um conto desses... e tejê falado ( escrivinhado )

    DeusssssssBençõe ocês Amém
    Tatto - com o nó ainda incomodando .. rss

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  8. E ainda tem bruxinhas que insistem em nos fazer acreditar no seu lado agri de ser!!! Mas, bruxinhas e "renas" tem o poder de, juntos, afagarem o nosso coração. Por favor, avise a Milene Lima que esse conto estou levando para contar, através de marionetes,para as crianças do Mário Pena e que já consigo enxergar o sorriso de OBRIAGADA e pedidos de bis à autora! O que devo dizer? Esperem...logo logo a bruxinha vai escrever tantos outros que sairá um livro!!!
    Beijuuss n.c.

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  9. Que lindo!

    Mais uma dupla que promete! Sintonia total heim, Memem e Rodolfo, PARABÉNS!

    Bjoss

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  10. Olá, Milene!
    Não sei o por que de tanto receio, a história é ótima!! Aliás, como sempre!!
    Bjs!
    Rike.

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  11. Memem


    eita orgulho danado de dizer: Amo oceis...

    beijocas


    Loisane

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. Enelim, que bruxinha nada! Mais parece uma fadinha, animando as pessoas tristes!
    Felizmente, existem pessoas como você, que se importam e querem que todos sejam felizes.
    Sua história singela e cheia de ternura mostra que a vida pode valer a pena!
    Abraços!

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  14. Anjo bom, anjo mau, anjos existem e são meus inimigos e são amigos meus... as fadas... fadas também existem, são minhas namoradas, me beijam pela manhã...anjo existem e são me escoltas...

    Rodolpho tem um anjo-bruxinha bem bom, né?

    Muito bom o texto.

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  15. Bonito e meigo, Milene, como tudo que vem de ti!

    Diga lá para o Rodolfo que de nuvens negras eu entendo e que elas sempre, sempre, sempre vão embora! Relaxa!

    Um abraço!

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