quarta-feira, 14 de abril de 2010

VOU ALI...

Ia começar esse texto dizendo que me afastarei um pouco daqui porque de repente me vejo sem inspiração. Mas ora! Isso soaria bastante pretensioso, pois indicaria que sou uma poetisa, escritora, alguém cuja inspiração é algo indiscutível.
Então como dizer?

MOTIVAÇÃO: Espécie de energia psicológica ou tensão que põe em movimento o organismo humano. (Michaelis)

É ela, a motivação, ou melhor, a total ausência dela que me fará ficar fora da blogosfera por um tempo que não sei quanto. É inerente a mim, volta e meia tenho que lidar mais de perto com meus fantasmas e confesso que eles andam me assustando bem mais agora, a essa altura da minha vida.

Mas não podia ir sem dizer um tantão de OBRIGADA aos meus amigos que tanto me fizeram crescer com seus comentários ou simplesmente companhia, enquanto eu me inquietava. Graça, Kimbanda, Elaine, Poeta, Doutor, Regina, Lia, Léo, Miguel, Taís, Daniel, Chica, Lu, Fernando, Lu (meu anônimo preferido), Roni (muso inspirador do "Pétala Rosadinha), Cida, Wagnéia, Jaci, Cláudio... perdoem-me se esqueci alguém. Muito obrigada pela generosidade de vocês para com essa alma inquieta que vos escreve.

Então é isso.
Quem sabe a gente se encontra outra vez, num breve amanhã...

Beijos e fiquem bem, amores meus.


Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.


(Cecília Meireles)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

ENCARCAR PODIA

Mais uma época importante do ano, cá estou eu e meu saudosismo, pra falar sobre a Semana Santa da minha infância. De família católica, acostumei-me a seguir os ritos que caracterizavam essa data, mas devo ressaltar que aqui não haverá uma explanação do ponto de vista religioso a que essa data se refere, e sim nuances de cultura acerca da mesma.
Imagino que mesmo a Semana Santa tendo um sentido abrangente pra todos os cristãos, em cada região as práticas funcionem de forma diferenciada. Ado, ado, ado...e a conclusão dessa poesia ultra-mega-maxi-conteporânea todos já sabem.
Aqui relato o que minha memória conseguiu salvar depois de anos ingerindo um exterminador de cérebro em potencial, o adoçante.
A mim particularmente causava um certo medo. Nada era permitido especialmente na sexta-feira santa. Era um tensão incrível pra conseguir chegar até o final do dia e ir dormir sem pecado. Ficávamos nos vigiando e competindo pra ver quem cometeria menos deslizes e salvaria sua jovem alma de ir pro inferno. E o jejum? Aqui admito sempre ter sido uma cristã muito sem compostura. Nunca jejuei na vida, sob anos de protesto de minha mãe e avó que acabaram sendo vencidas pela minha falta de apego religioso, aliada à preguiça gigantesca de acordar cedo e NÃO comer.
Depois de estar fora da cama, sem banho tomado porque também era pecado, era chegada a hora das romarias pra pedir a benção a tudo quanto fosse tio, padrinho, pais e avós obviamente. Era muito divertido chegar na casa de parentes que não víamos com tanta freqüência, com a maior cara-de-pau disfarçados de anjinhos, dizer “bença tia” e sair com uma lata de goiabada na mão. Gente, sou do tempo da goiabada em lata. Bem mais deliciosa por sinal.
Pois é, os padrinhos e tios tinham que estar municiados com doces ou um “trocadinho” pra atender a procissão de crianças pidonas que certamente não deixariam de visitá-los.
Aí ficávamos o dia sem ter muito o que fazer, pois a censura de Deus apareceria de todos os lados. Ninguém queria ser o Judas, então todos pelo menos tentavam se comportar. Andar de bicicleta, correr, usar roupa sem manga, dar uns cascudos...nada era permitido. Ah, mas encarcar podia. Em vez de dar uns tabefes ou cascudos, a gente podia apertar o outro segurando nos ombros, forçando pra baixo, aí não tinha risco de pecar, não me pergunte porque, mas você poderia soterrar um amigo de tanto “encarcar” e tava liberado do pecado. Bacaninha, né?
Nunca mais encarquei ninguém. Saudadinha de encarcar.
Tantas vezes fui dormir aterrorizada com medo de não ir pro céu, porque tinha usado uma roupa inadequada, deixado escapulir um palavrãozinho de nada, cantarolado uma música mundana. Uma vez folheei uma revista de fotonovela e me senti a última das criaturas. Me diziam que não podia, eu não compreendia o porque mas tentava ser uma anja, pelo menos naquele dia.
O sábado era o dia do alívio. Estávamos liberados pro pecado... com moderação, obviamente. Podíamos fazer quaisquer brincadeiras e principalmente devolver com juros e correção monetária todos os “encarques” gentilmente recebidos no dia anterior. Além de ser o dia de malhar o Judas, que diga-se de passagem, eu tinha a maior peninha de ver o coitado sendo destroçado e sempre me excluía dessa missão.
Agora tenho que ir ali tomar um chazinho, porque hoje a comilança foi pesada no cardápio à base do coco. Feijão no coco, peixe, bacalhau, camarão, sururu e um tal bredo que minha mãe adora, tudo obviamente preparado à base do coco.
Ufa!
Ainda bem que o coco só se apresenta assim de forma tão contundente uma vez no ano.

Beijoquinhas achocolatadas de Feliz Páscoa pr’ocês, amores meus.
Cuidem-se e não pequem!