terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CANÇÃO DO ALEGRE VIVER


Tão simples lhe parecia a vida, ali sobre a areia da praia, descobrindo conchinhas desnudas pelo toque insinuante das águas. Se deixava molhar. Sorria, absorta naquela brincadeira tal qual uma criança cuja realidade não se aproxima de si.


Seus pensamentos iam-se não se sabia pra onde, deixando por lá a sua memória frágil, que outrora sucumbira à tal doença traiçoeira, ladra de lembranças, usurpadora de vida alheia. 


Restaram-lhe os fragmentos como a compor uma pequena canção que vivia a entoar repetidamente. Cantava a irmã gêmea, os irmãos meninos, queridos e companheiros. Cantava o prazer de haver sido professora por trinta anos e ter cumprido dignamente essa missão. E cantava o marido, o gaúcho barrigudo, descendente de italianos, bigodes fartos contrapondo à careca lustrosa.

Merecia versos especiais o homem, nessa música de alegre viver. Largara tudo, a vida atribulada, as responsabilidades de industrial, nada era mais importante do que a vontade de estar ao lado dela, Lia, a sua criança grande, da barriga esguia que se orgulhava em exibir graciosamente, como se a estimulá-lo a perder ao menos parte da sua generosa pança. 


Por toda a vida foram companheiros de caminhada e agora ela estava assim, indefesa, sem saber muito sobre si própria, a não ser pela curta canção a qual cantarolava como se a querer juntar os fragmentos deixados por aí, em qualquer esquina do tempo. Estaria ao seu lado como ela sempre esteve lhe velando a vida. Não foram sós desde que se conheceram, não seriam sós agora. Cantaria pra ela a canção de alegre viver até o último instante. 


A bordo de um suntuoso trailer, partiram Nordeste afora, se guiaram pelo Sol, descobriram horizontes novos e em cada parada muitas conchinhas desnudas pela investida do mar, cúmplice naquela música de alegrar. 


O homem compôs para ambos novos versos musicados de vida, cuja letra e melodia acolheriam sua mulher que se tornara menina, impedindo-a de se perder, fazendo-a protegida pelo mais sublime amor.

18 comentários:

  1. Aiii Memem, os cílios não param, batem palmas pra esse coração, que exala amor, e quer esconder mas não consegue, porque perfume de rosas.. vai longe!

    beijo memem amada minha..

    adorei...
    "A bordo de um suntuoso trailer, partiriam Nordeste afora, se guiariam pelo Sol, descobririam horizontes novos e em cada parada novas conchinhas desnudas pela investida do mar, que parecia gostar daquela músia de alegrar".

    beiJO beiJO beiJO..

    ResponderExcluir
  2. Tão gostoso de ler e sentir esse texto Mi.
    Sutilezas de amor nas entrelinhas e uma infinita canção para um bem viver, mesmo quando os campos da existência extinguirem-se.

    Lindo momento este, menina!
    Quando gosto é de verdade e aqui você arrasou, no tema, na linguagem, nas imagens e no conteúdo.
    love forever!

    bacio cara mia!

    ResponderExcluir
  3. Deus do céu, com que direito vc escreve assim...
    Como vc pode escrever assim, minha cara...
    E eu dependo de tudo isso pra ser melhor, para melhorar a minha vida, para iluminar a minha alma...
    CANÇÃO DO ALEGRE VIVER- como busco essa canção, como quero um amor assim, que a sua personagem encontrou...É de uma simplicidade exuberantemente bela.

    Nem sei o que dizer diante dessa beleza, dessa belíssima construção, desse conto tão bem construído que eu quase consigo tocar.

    [sim, estou parecendo aquela pessoa...rs] Me perdoe a enorme extensão de letras derramadas nesse comentário ... Falei, falei e não disse nada diante do impacto feliz que esse texto me causou.
    Beijos, minha caríssima.

    ResponderExcluir
  4. - Mi, acabamos de conversar no MSN sobre esse texto, e vc sabe que eu lhe disse que a Si era melhor crítica que eu. Está provado isso.
    - Quanto à comparação que eu fiz com a Agatha Christie, foi em relação à técnica - não ao estilo. Não me consta que ela tenha escrito com tanto sentimento quanto você - nem você com o suspense dela.
    - Mas que tem um pouco de mistério nesse texto, lá isso tem!
    - Beijos, Mi.

    ResponderExcluir
  5. Lindo Milene... por isso sou apaixonado por vc... vc sussura poesia e sentimentos aos nossos ouvidos...
    beijos... Luck

    ResponderExcluir
  6. Interessante este pedaço de uma história...
    Fico imaginando onde começou e como vai terminar.
    Mas gostei da idéia de viajar de trailer pelo nordeste!
    Abraços!

    ResponderExcluir
  7. Ficou bacana sim!
    Tem Muito de voce Nesse texto, suas ¨pegadas¨.
    Sua emoção Transparente ficou bem Evidente. acho Que Traçamos Um pouco do que Somos na nossa Escrita. muito embora usamos personagens Diversos, em determinados textos.

    ficou legal a construção , a narrativa...!

    Um Grande beijo . Menina que adoro !

    ResponderExcluir
  8. JésuisssCristinho....

    Mió eu fica quéto senão vai sobra pro "careca lustrosa"...

    Farta-me tuas palavras....
    DeussssssskiTeAbrace
    Tatto

    ResponderExcluir
  9. Olá Moça!

    Nossa que belo texto, parabéns moça da madrugada ..rsrs.

    Moça, sumi pq estou estudando para um concurso vê se torce por mim..rsrs. AH e tbm minhas férias acabaram queri que vc eterna mas infelizmente acabaram. E tbm estou trabalhando á noite isso ninguém merece.

    Um forte abraço!

    ResponderExcluir
  10. Olá, Milene!
    Não estranharei se ver seu nome indicado a Academia Brasileira de Letras!
    Bjs!
    Rike.

    ResponderExcluir
  11. Esse blog está cada dia mais lindo e mais inquietante! Pena que eu não tenho tido o tempo desejado para estar aqui todos os dias. Quando chego tenho tanto para ler, rsrsrs...

    Esse texto foi simplesmente incrível!! Estou aqui pensando: ainda há de se tornar capítulo de um lindo livro de crônicas de nome "Para gostar de amar".

    Grande abraço!
    Adriano Berger

    ResponderExcluir
  12. Afff minhas virgens... Cê num tá brincando em serviço nauuummm!!! Num vou dizer é nadica...senão istraga a belezura!
    Beijuuss, minha minina ternura, n.c.

    ResponderExcluir
  13. É sempre maravilhoso passar por aqui e ler os seus escritos.

    Beijos meus.

    ResponderExcluir
  14. Poesia pura o que acabei de ler! Adoro vir aqui. Tem texto novo no Sub Mundos. Bjus.

    http://submundosemmim.blogspot.com

    ResponderExcluir
  15. Olá, Déya falou tão bem de você, que vim correndinho te conhecer e te ler.
    Ela tem toda razão, que delícia que é esse seu cantinho.
    Gostei muito do nome, Inquietude, super original.
    Suas palavras me invadiram, amei.
    Se permitir, rs, voltarei.
    Beijos no ♥ e uma deliciosa noite.

    ResponderExcluir
  16. Miga, caramba! Fala sério! Você é escritora profissional né?! Emociona e gente e prede a atenção até o final e olha que sou preguiçosa viu! Amei as corujinhas, não sei porque rs...E ainda me pede pra postar meus poemas no Relicário,você é humilde heim! Eu que me sinto honrada,pode postar qual quiser e sempre que quiser. MOntão de bjs eabraços

    ResponderExcluir
  17. A Déya postou lá um carinho pra vc e é mais que merecido!
    Fui lendo o texto, montei um filminho pela cabeça... num trailer pelo nordeste (coisa boa demais).

    bom dia

    ResponderExcluir
  18. Que maravilhosa canção essa.Ficou tri legal e inspirada! Um beijo daqui da praia onde estou em férias...chica

    ResponderExcluir