segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

INTRÉPIDA SEGUNDA-FEIRA



Encarar uma segunda-feira com preguicinha é algo impensável para quem trabalha em escola pública, ainda mais improvável em se tratando do primeiro dia de matrícula para os alunos novatos.
Começo a romaria de bons dias e sorrisinhos sonolentos até cruzar toda a calçada que leva à secretaria. Gente, muita gente! Encontro meu birô essa coisa organizada da imagem acima. Quero voltar pra casa, pro aconchego da minha caminha, mas não dá, é necessário encarar.
De pronto duas mulheres começam um papo meio surreal sobre os tarja-pretas potentíssimos com os quais se mantém “sob controle” por um tempo considerável. De repente o diálogo tragicômico:
- Esse remédio dá um sono da gota, a gente fica mole.
- Massa é quando misturo com cachaça, aí ninguém me segura.
- Tu tem sido internada ultimamente?
- De vez em quando vou lá.
- E as enfermeiras do CAPS ainda dão banho nas pacientes?
- Dão sim! E eu adoro quando elas cortam as unhas da gente.
- Ah! Eu gosto mais do ITA, lá a gente come bem que só!
Enquanto o papo seguia, eu quietinha lembrava que há dias havia tido um pequeno entrevero com uma das... Como direi? Por favor me ajudem aí com o politiquês correto... Sigo chamando de maluquinhas belezinhas. O fato é que escapei de levar no mínimo uns cascudos. A propósito, CAPS e ITA são dois hospitais psiquiátricos de minha cidade.
A manhã segue e a muvuca também. As pessoinhas falam alto e todas ao mesmo tempo, meu Deus do céu! Me remeteu à época em que ia às segundas-feiras pra feira livre aqui da cidade pajear meu pai enquanto ele dizia que “moça bonita não paga mas também não leva”. Era uma curtição! Ficava sentadinha nos caixotes grandões aonde ele transportava suas miçangas, como costumava chamar. Era massa observar a interação entre os feirantes, a sintonia com os visitantes, que vinham de todos os cantos desse agreste querido. Meu pai adorava exibir a branquelinha fofa dele para os colegas camelôs e eu me sentia a própria Princesinha da Feira Livre (não ousem desmerecer meu quase-título!). A propósito, parte dois, foi por muito tempo a maior feira livre do Nordeste. Quem duvidar consulte o mister Google.
De volta à realidade, acelero o processo de preenchimento das matrículas, enquanto mães e avós a minha volta, ouvem vez ou outra a negativa diante de sua solicitação de vaga. Os olhos pidões suplicam que revejam seu caso... Dá vontade de me por, de mãos no queixo feito a dona do divã verdadeiro e dizer:
- Me conte aí seu problema!
Ou tal qual a Dora, personagem de Fernanda Montenegro em Central do Brasil e ficar horas ali ouvindo as histórias reais e sofridas de cada um.
-Eu crio sozinha essas duas meninas, o pai delas morreu. Não tenho com quem deixar, elas tem que estudar perto de casa.
- Sou avó dele, mas crio desde pequeno. A mãe nunca quis saber. Eu já to véia, não dá pra levar pra uma escola longe.
- Moça, meu marido bebe. Ele vai de noitinha pegar a bichinha lá na outra escola e vem por essa pista de bicicleta com ela, cheio de cachaça. Se não tiver vaga aqui ela vai ficar sem estudar, porque eu morro de medo.
E tenho que reafirmar pra essas pessoas,inclusive a essa última, grávida, que cai num choro compulsivo ao terminar de falar, que infelizmente não há o que fazer. As salas não comportam a quantidade de vagas solicitadas, apesar das alegações de que incluindo só o seus filhos não fará muita diferença. Os olhos suplicantes se sucedem proporcionalmente ao nosso constrangimento em negar os pedidos e simplesmente seguir. Os órgãos da educação – município e estado – disputam a tapas os alunos no início do ano letivo. Cada matrícula feita é sinônimo de máquina registradora fazendo aquele barulhinho... É grana nos cofres. Então, que amontoem-se crianças nas salas de aula sem oferecer ao professor a mínima condição de desenvolver um bom trabalho. O negócio é faturar e fabricar bons índices de desempenho para enviar ao MEC. E a essas pessoas que só querem facilitar a vida das suas crianças e a delas próprias, com um tanto menos de sacrifício... O que dizer?
Bem-vindos ao (faz-de-conta) Sistema Educacional Brasileiro!

15 comentários:

  1. Nossa memem comecei sorrindo
    (não ousem desmerecer meu quase-título!)
    mas terminei com um nó na garganta...
    nem dá pra dizer nada...

    beiJO e força na piruca pra enfrentar tudo por ai... rsrs

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  2. Segunda-feira...
    Mas tem você em todas as feiras, sábados e domingos.
    Bjs.

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  3. Que pena issoe é a realidade cruel...ATÉ QUANDO???beijos,chica

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  4. Olá, triste isso. Que a literatura salve essas crianças, abraços

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  5. Milene,
    As fragilidades do sistema educativo dizem muito das intenções dum país... Oxalá as coisas mudem!

    Beijo :)

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  6. - "Um país se faz com homens e com livros", já dizia Monteiro Lobato, e eu acrescentaria "e se desfaz com escravos do dinheiro e do poder". Ainda bem que temos, para contrabalançar esses energúmenos, as professoras (e professores), heróis e mártires, vítimas e vencedores, que abrem seu caminho num matagal de burocracia e ignorância, abrindo picadas nesta selva; e podemos ver, atrás deles, trilhando essas picadas com dificuldade mas com segurança, os jovens - futuros homens e mulheres que construirão uma nova realidade.
    - É um sonho? É. Mas mostrem-me uma realização humana que não tenha sido um sonho, um dia.
    - E vamo que vamo! Mais um ano letivo pela frente! Trabáia, trabáia, trabáia, sôra...
    - Beijos, professorinha que nem se toca que é uma heroína...

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  7. Milene, querida
    o sistema é podre mesmo. E a gente ainda se assusta com certas coisas.
    Eu também lido com isso, e bem sei o que é uma sala da aula amontoada e péssimas condições de trabalho. Resultado? Vemos o que é esse país ...

    Não vou me alongar.


    beijos querida !!!

    bom início de ano letivo.

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  8. Olá Moça!

    Infelizmente no nosso país é assim mesmo, o importante é enviar a criançada na escola, assim nosso país fica bem com os gringos.

    Abraços

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  9. Sim eu morando em Brasília conheço esses problemas de perto já fiz estágio no MEC, e lá vc vÊ que realmente o caminho da educação, assim com o da saúde.

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  10. Primeiramente agradecida pela mudança das letrinhas...ajudou (nem faz ideia)a titia aqui rsrsrs
    Segundamente num tem uma vaga aí nos hospitais da cidade nauuuummmm (tô pegando!)
    Terceiramente me vi no lugar dessas mães/avós que tentam - com o que tem - fazer o que não se tem nesse nosso Brasil il il = educação, saúde, segurança, respeito e dignidade...
    Então minha Memem amaaaada, faz um cadiquim de mágica (não por eles lá do planalto)por essas crianças...faz o que não pode, mas faz esse impossível ser possível!
    Beijuuss, sabor de pernilongo rsrs, n.c.

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  11. A educação e a cultura de um povo, a forma como trata seu património cultural, é a escala de sua grandeza.

    Evolução, só é possível através de um optimizado sistema de ensino que produza novas e preparadas mentalidades para enfrentar os desígnios exigidos para um estado de equilibro e justiça social. Desenvolvimento.

    A Educação deveria ser a primeira das prioridades do Estado.

    Os professores que ingloriamente travam a batalha diária,não somente por cumprimento profissional, mas sim por querer doar conhecimento cedo compreendem as dificuldades, provações a que irão estar sujeitos.

    A realidade no Brasil não foge muito à falta de condições vividas no meu país, tanto a nível dos que leccionam, como dos alunos.
    Mais parece que o obscurantismo serve os interesses dos políticos.
    Pessoas educadas e inteligentes, são potenciais críticos do sistema.

    Beijo e kandandos meus.

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  12. Olá, Milene!
    Essa escola é de outro mundo!!kkkk
    Bjs!
    Rike.

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  13. Mememmmmmm


    muita saudades....

    mas só semana que vem..não me esqueça

    aguarde

    rsrs


    beijocas


    Loisane

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  14. Mi...
    Hoje eu tô ansim sabe.:-
    Quenêm aquele gato que faz cara de pasmo nos videos do youtubícu "óóóóóóóóóóóó"
    Axô que deu LEZURA.. nos norônhos do Macaco...
    Sem coments... sigo lendo, só lendo

    Deussssssskiajude
    Bejo catastróficús
    Tatto

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  15. OI Mi, esse é outro assunto que entra ano sai ano é sempre o mesmo perereco, o mesmo caos.
    O governos federal nem aí, o estadual então cruzando os braços ... o jeito é virar faixa preta e dar uma de Bruce Lee.

    Força aí caríssima, que vc chega lá, pois tem boa vontade.
    meu beijo

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