domingo, 9 de janeiro de 2011

NUDEZ EM CHAMAS

Enfim a lida acabara. Gostava do que fazia... Sentia-se privilegiado em ter como cenário de trabalho aquele pequeno mundo de imensurável beleza, a serra e suas cachoeiras fantásticas. Gostava de ser bicho-do-mato, fazer da casinha perdida o seu abrigo. De lá ouvia o canto das corujas, o uivo dos lobos-guarás em constante cio e os morcegos passeadores da noite. A morcegada fazia a festa, levando-o a perceber, só assim, que a solidão não é sua única companheira. Chegara encharcado, a chuva não dava trégua. Tomaria um banho e deitaria na rede, caneca de café na mão, ouvindo um radinho AM, quando não havia interferência, e olharia pro teto... Gostava de pensar olhando pro teto, ouvindo o barulho da chuva que parecia cadenciar feito música.  Antes, porém, fumaria um cigarro na janela, observando a chuva insistente. A fumaça faria os pernilongos lhe darem uma trégua momentânea. Ali, contemplando a chuva a lavar o mato e a alma, lembrou-se das telas inacabadas que havia deixado na cidade. Estavam lá, suas mulheres nuas e abstratas, esperando para serem concluídas. Amava pintar o abstrato. Sua única maneira de vomitar pensamentos psicodélicos sem academicismo. Amava pintar nu, livre, numa comunhão perfeita com a poesia que compunha através das cores. Achava legítimo por-se nu a pintar suas mulheres nuas. Sentia-se pleno. Excitava-o a pintura bem como a natureza. Era magnética sua relação com ambas, a tranquilidade da serra se contrapondo com a vulcanicidade de suas telas. Gostava de vê-las queimando depois de prontas, em chamas, num desenho vivo perfeito... Ali se dava a magia, a loucura! Não as guardaria para admirá-las e encher-se de pedantismo ao exclamar: Que lindas elas são! A beleza era efêmera, decerto ia-se nas chamas. Haveria de voltar para a rede, voltar seu olhar para o teto. Pensaria sobre o nada fitando o teto... E dormiria na plenitude de sua fiel e tranquila insanidade!


Milene Lima



Obrigada a Lu Cavichioli pelas conversas sempre enriquecedoras, 
as quais ajudam a tornar minhas palavras no mínimo mais consistentes. 

13 comentários:

  1. Mi, querida

    A loucura desenfreada de um artista é sempre um vulcão prestes a entrar em erupção. E com esse pintor vê-se claramento que o teto de seu quarto eram só labaredas.
    O texto em si é de boa construção, com figuras de linguagem e imagens certeiras.
    E como a beleza é efêmera sua insanidade continuaria.

    Genial o fechamento do texto! Você sempre surpreende!
    Obrigada pela menção que fez a mim, sempre com carinho!
    Adoro-te, menina!

    beijos mil
    Lu

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  2. Olá,
    Conheci seu blog no espaço Toforatodentro, e gostei muito.Acho que ter um blog significa ter um espaço para dividir com pessoas de todo lugar do mundo, coisas que gostamos, pelas quais nos apaixonamos, aquilo que move nossa alma e nosso coração.Você faz isso muito bem. Parabéns!
    Quero te convidar para conhecer meu blog, com o apoio da editora cia. das letras, estou sorteando um livro, acho que vai gostar.

    http://sabordaletra.blogspot.com/

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  3. - E aqui o manto diáfano da fantasia arde ao contato da nudez crua da realidade, e a irrealidade da razão queima ao sopro da materialidade da loucura. Ou será o contrário? Fui eu que escrevi isto? Que é mesmo que eu queria dizer?
    - Melhor eu ir dormir... essa Mi-nina me deixou confuso.
    - Beijos, CRONISTA DE CRÔNICAS FANTÁSTICAS!

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  4. Milene, o teu artista não é tão insano assim...
    Ou eu talvez seja um pouco...
    Mais uma peça para a coleção desta artista das letras, bruxinha na horas vagas!
    Abraços sinceros!

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  5. E eu já virei até pro lado,sSabe lá se resolvo também ficar olhando pro teto, meu Deus!

    Um beijo minha bela cronista.

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  6. Olá, Milene!
    O Certificado de Excelência é mais do que certo e justo, pois suas crônicas estão a cada dia melhores!!
    Bjs!
    Rike.

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  7. E nasce uma escritora...
    Linda crônica Mi!!!
    Parabéns :)
    E um ótimo domingo pra vc
    Beijão

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  8. O pudor inventou a roupa para que se tenha mais prazer com a nudez ...

    Abraço.

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  9. Seremos nós esse artista? Ele caminha na tenue linha entre a insanidade e a concretude do real, parabens pela contruçao fiel de um pequeno perfil de um cidadao comum(comum?) Beijao aqui da Serra da Canastra

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  10. e esse continho aí heim... Léo Santos que se cuide...
    Se não fosse por duas ou tres coisas que não concordei, estaria mais que perfeito... Então, eu que não sou chegada a perfeição, AMEI.
    Construiu, belamente o cenário, minha mente conseguiu ver tudo.

    beijos

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  11. Milene,
    Eu bem digo, você fica melhor a cada post que passa. Desta vez deixou a crónica e aventurou-se noutro tipo de escrita, e ainda bem que o fez.
    Gostei muito, amiga!

    Beijo :)

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  12. Memem minha!
    Dizer o que?
    se amo você!
    Sou suspeita sempre...
    beijO AMADA !

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