terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Menina Que Não Morreu


Ouvia sempre a avó dizer que não podia misturar abacaxi com leite. Os olhinhos curiosos tentavam sozinhos buscar a resposta, mas não resistia a perguntar... E como gostava de perguntar a menina.
- Mas porque não pode misturar, Vó?
- Por que não! Abacaxi e leite junto é que nem veneno, a gente morre na hora – Dizia a avó miudinha, de olhinhos pequenos e cheios de vida, passando adiante aquilo que havia aprendido com seus pais, sem também ter muita certeza do por que.
Cultura popular é assim, se arraiga sem muita precisão de explicação. Aprendeu-se que é assim e ficou valendo o dito. Pelas bandas do Nordeste era comum se ouvir falar que fulano morreu de uma dor, de repente apareceu-lhe a dor e catapimba, foi-se!
Ela sabia da venenosa combinação do leite com abacaxi, estava caduca de ouvir tal comentário, mesmo sem alcançar a compreensão do verdadeiro motivo. Mas naquele almoço estava por demais afoita para ir à escola. Vestiu sua galeguice com o uniforme, cabelos loirinhos bem penteados e sentou-se à mesa para almoçar. Queria que a hora passasse ligeiro, teria festa e era sempre divertido. E assim almoçou sem ao menos mastigar direito, queria mesmo era acabar rapidinho.
Mas do abacaxi bem lembrava. Estava delicioso, amarelinho, suculento.
Mal terminou de devorar a rodela generosa do fruto quando ouviu do irmão:
-Oxente, tu não comeu o arroz de leite que a vó fez?
- Comi sim, porquê? – Perguntou a bichinha um tanto dispersa.
- E é doida? Quem já viu misturar abacaxi com comida que tem leite? Agora lascou-se, vai morrer, viu?
Misericórdia! O pequeno mundo da menina despencou! Como pode ter esquecido isso e ter ingerido o tal veneno? Agora não tinha mais jeito. Morreria! E todos pensariam que a morte foi causada por uma dor, simplesmente uma dor. Se ao menos o irmão lembrasse de espalhar que a culpa foi do leite misturado ao abacaxi e assim evitar que outras pessoas sucumbissem... Mas ele nem parecia muito preocupado. Deu-lhe a notícia fatídica e saiu pro mundo, brincar.
- Vó... – Falava enquanto puxava na saia da senhorinha a fim de ser percebida com urgência, antes que fosse tarde demais.
- O que foi, menina? Tô ocupada, tenho que cozer a calça do seu avô que descosturou na bainha – A avó se perdia nas horas no seu cantinho de costura, pequenino como ela, imenso em acolhimento.
- O Jean disse que eu vou morrer porque comi abacaxi depois do arroz de leite – Os olhinhos marejados pediam amparo.
- Que besteira. E tu liga pras doidices do Jean? Ele disse só pra te aperriar... Tinha pouco leite no arroz e faz tempo que você comeu, não deu pra fazer estrago não.
- Deixe eu ficar em casa hoje, acho que minha barriga vai doer. – Se era pra morrer, que pelo menos fosse em casa, pensou.
- Deixe de manha! Num tava tão ansiosa pra ir pra escola hoje? Pois vá! Vai perder a festa que tanto queria ir, fia?
A avó deu-lhe as costas, saindo pra cuidar dos seus afazeres, deixando a moleca absorta em seus últimos pensamentos. E agora? O irmão disse que não passava de 24 horas vivo a pessoa que por desgraça se via em tal armadilha.
Seguiu para o quintal. Um terreiro generoso, embora não tão grande. Lá havia a pequena horta cultivada tão amorosamente pela Vó de todos, a pequenina senhorinha cujas mãos faziam brotar o que se propusesse a plantar. Tinham também os pés de comigo–ninguém-pode, lindos, viscosos, a decorar o oitão da casa, entre outras plantas menos vistosas. E os coqueiros eram dois, com seus enormes cachos lá no esplendor de sua altura. A mangueira era emprestada. Vinha do quintal do vizinho e doava metade de sua sombra, além das mangas-espada em generosa doçura a se deixarem cair do lado de cá. Adorava brincar de fazendinha, aonde os bois eram feitos com as pequenas mangas verdes que não vingavam e caíam no quintal. Era só espetar quatro palitinhos e pronto, fazia-se uma boiada.
Lá se pôs diante dos comigo-ninguem-pode. Fascinavam-lhe aquelas folhas verdes em tons de amarelo, lustrosas, imponentes. Pôs-se a conversar e chorar. Chorava baixinho, temendo que a qualquer instante a morte, que ela nem sabia bem o que era, viesse lhe buscar. Havia cometido um erro imperdoável e agora tinha que partir.
- Eu queria me despedir de vocês. – Falava entre soluços copiosos, acariciando as folhas como se as consolando, fazendo surgir uma vermelhidão em seu rostinho como se houvesse ficado horas ao Sol – Meu irmão disse que vou morrer hoje por causa do leite e do abacaxi. Eles não podem ficar juntos, vocês sabiam? É, eles não se gostam e eu esqueci. A Vó não deixa eu ficar em casa. Talvez se eu ficasse em casa ela esquecesse de mim, a morte. Mas a Vó disse que tenho que ir, então acho que não vou mais ver vocês, nunca mais!
As folhas seguiam o ritmo do vento e balançavam como num balé, parecendo compreender a angústia naquele coração tão pequeno.
Na escola, todo o tempo olhava para a porta da sala. Pensava em como seria ela. Devia ser muito feia, já que todo mundo tinha tanto medo. Ouviu uma vez alguém dizer que a tal carregava uma foice. A qualquer momento ela entraria para lhe pegar pela mão, trazendo a foice sobre o ombro.
A tarde findou-se e nada aconteceu. Já em casa, de banho tomado para o jantar, não tinha fome. Beliscou qualquer coisa a fim de que ninguém lhe perguntasse o que havia. Resolvera que não ia mais falar no assunto, ninguém estava muito interessado em seu sofrimento, era o que parecia. Todos em casa agiam como se nada trágico estivesse prestes a acontecer. Aquilo lhe doía muito. Ninguém gostava dela de verdade?
Tentou ao máximo evitar entregar-se ao sono. A fulana não lhe pegaria de surpresa, ah isso não! Fitava o telhado do seu quarto, por vezes imaginava a porta levemente empurrada, dependurava-se a espiar embaixo da cama... E nada! Quando se deu conta, os raios de Sol davam as boas vindas a um novo dia, pelas frestas do telhado e ela saltou incrédula, quase a se beliscar.
- Estou viva!
Correu o que podia para chegar até o irmão e fazer-lhe compreender que o fato de ser mais velho não lhe garantia saber de tudo.
- Estou viva, tá vendo? – Dizia antes de exibir-lhe o tanto quanto uma língua infantil pode ser posta em exibição.
- Pronto, endoidou de vez. E era pra ter morrido por quê?
- Oxente... O abacaxi e o leite... Você falou.
- E tu acreditou? – Ouviu-se uma gargalhada estrondosa do irmão, enquanto a menina que não morreu o espiava, enchendo-se de raiva... Não por não ter morrido, percebam, mas por ter tolamente caído na conversa daquele menino que nem lembrava mais da brincadeira de mau gosto que havia feito.
Num impulso, rapidamente antes que ele se escafedesse e fugisse ao seu alcance, marretou com gosto uma das muletinhas, na época de madeira, no dedão esquerdo do pé do moleque, que saiu a pular num pé só feito saci branquelo, chorando a procura da avó para fazer a queixa...
Foi assim a história da menina que não morreu.




26 comentários:

  1. Miloukinha....
    (muitos risos)- Deliciosamente feito sorvete de Abacaxi com Leite eu saboreei o conto da "pestinha Albina" que não mórrrrrrrrrreeeeeuuuuuu!!!! óiê que tontinha...
    Tão viva quanto a historinha que contou...

    Munitinho e doce feito "arroz de leite" que aqui chamo de arroz-doce.... hehehe

    Deusssssskiajude
    bejo do Tatto

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  2. É por essa e outras vezes que "AMOVOCÊ"
    bem assim sem pausas...
    Um dia seguido do que tive ontem , sem
    a menor pretensão de sorrir, você me arranca
    gargalhadas assim como essas de agora..

    Só fiquei com pena do dedão do seu irmão...
    rsrrs e as mangas de palitinho que vira boisinho
    eu brinquei e muito também, imaginei aqui a cena, nostalgia pura...
    as caixas de fósforo da mamãe viviam sumindo..
    hihihi, vixe xo parar... to me esticando um tantão aqui.. rsrrs
    beiJO minha memem amada ... e "gaiata"...

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  3. OLHA ESSA AQUI FOI UMAS DAS HISTORIAS MAIS LINDAS QUE JA OUVI POR ESSES DIAS..DIGO OUVI POR QUE FOI EXATAMNETE ASSIM QUE SENTI..VOCE SENTADA COM UM LIVRO E NÓS TODOS BRINCANDO DE SER CRIANÇAS ESCUTANDO AS HISTORIAS DE SHERAZADE SABE AQUELA MESMA DOS CONTOS ARABES?POIS É EU TAMBEM TINHA MEDO DE MANGA COM LEITE...NOSSA NO DIA QUE COMIA MANGA FICAVA MAL POIS NA MERENDA DA ESCOLA ER A LEITE CANJICA ARROZ DOCE SRSRS E LEITE EM PÓ...DAI NÃO PODIA COMER.RSRSR MAS OLHA A CADA PALAVRA EU SENTI A AFLIÇÃO DA MENININHA DE CABELINHOS LOIROS QUE NÃO MUDOU QUASE NADA NA FISIONOMIA DE HOJE....NOSSA MILENE VOCE DEVRIA PENSAR EM ESCREVER UM LIVRO INFANTIL COM ESSES CONTOS POR QUE ME DEIXOU AQUI GRUDADINHA NA CADEIRA TENDO QUE ME APRESSAR PARA IR AO BANCO MAS JAMAIS SEM LER O FINAL DA HISTORIA AGORINHA....LINDO MESMO..ADOREI A MENINA QUE NÃO MORREU...
    BEIJOS
    FOI LINDO DE VERDADE..
    PENSE NO LIVRO....

    BJS
    OTILIA

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  4. Milene,
    A história é adorável, prendeu-me do princípio ao fim quase sem respirar.
    Muito boa a narrativa!

    Beijo :)

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  5. Milene, uma "história" cruel e alegre ao mesmo tempo. Criança sofre!
    Os adultos muitas vezes falam um monte de besteiras, esquecendo que as crianças são sérias, e levam tudo a sério. Sabem muito pouco do mundo e do hábito que as pessoas tem de mentir e falar coisas inconsequentes!
    Mas, felizmente, a galeguinha não morreu e ainda de quebra fica nos presentando com esses textos lindos!
    Abraços!

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  6. Ah Milene, que belo conto !
    A inocência infantil as vezes pode mudar o rumo de muitas estórias de gente grande.
    Te lendo lembrei de um filme muito singelo mas de um tocante especialíssimo que vi e revi algumas vezes. "Cria Cuervos". O filme fala justamente sobre as implicações da mente infantil e todas as suas dúvidas e medos, muito bom, se puder veja, você vai amar.

    beijo carinhoso

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  7. Coisa mais linda e divertida! Sempre arrasas!beijos,chica

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  8. Eu aprendi que era leite com manga, mas como foi dito e o sorvete de abacaxi que é delícioso e feito com leite, mas interessante saber de onde será que nascem essas lendas urbanas por assim dizer, agora que irmão sacana :-) hehehehehe, mereceu ficar pulando num pé só com certeza.

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  9. Grato pela partilha desta historinha fabulosa.

    Beijo.

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  10. Olá, minha amiga Milene! Tudo bem com você?

    Que delicia seu texto! Aliás, uma graça a foto da criancinha que sobreviveu. :)

    Como éramos moldados pelas crendices em nossa época de crianças, não é? Não podia tomar banho depois de comer ou olhar no espelho. Manga com leite, comer carne na Quaresma virava lobsomem.

    Hoje as crianças não temem tanto. Tanta tecnologia parece que afastou esses medos.

    Muito boa a aventura da pequena sobrevivente. :)

    Grande abraço!

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  11. Minina-ternura amaaaada
    Os olhim apertadim, a carinha se fazendo agri brava, séria são a mesma, mas os cabelos...quanta diferença heim lôra????? Por aqui cresci com a mesma crendice...mudando a fruta: manga com leite morte na certa. Né brinquedo nauuuummmm esse mano véio heim? Adorei a muletada que deu nele! Bem feito por ter agoniado minha Pétala...bem feito messsssmo.
    Beijuuss n.c.
    P.S. Tô mandando um imeio prá tu.

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  12. MI adooooooooooooooru esse texto! Sou sabedora dele, adorei ler again!

    A fotinhu é massa!
    bjka ... saudade

    Ahhh e vê se vai bolando o teu poema pra Maratona.
    xau cara mia!

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  13. kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Ah, tadinhaaaaa... que Jean cruel!
    Vó miudinha.... quantas saudades!
    Bjosss

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  14. Uma história bem contada, um texto bem construído faz diferença e nos transporta para dentro do fato.
    Vc tem esse dom.
    Bj

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  15. Leite com manga, com abacaxi...minha àvo Ana Joaquina,também falava dos malefícios.
    mas isso era apenas uma das lendas criadas pelos senhores de engenho,na época da escravidão. visto que o leite era escasso, e seus recipientes eram sempre manuseados pelos escravos. como as frutas eram em abundância(especialmente mangas)criaram essa lenda para que não tomassem o escasso leite às escondidas.

    Na minha modesta opinião, esse foi o seu melhor texto postado aqui no inquietude.

    Sofri com sua agonia de menina , ao mesmo tempo que Ria descompassadamente.

    Uma maravilha essa postagem !

    Um beijo!

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  16. Adorei o texto, uma linda história que me fez viajar nas palavras, verdadeiramente me prendeu.
    Abraços forte

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  17. MAS É SERIO MESMO QUE TE FALI DE UM LIVRO INFANTIL VIU?VOCE DEVE CONHECER TATIANA BELINKY UMA SENHORINHA AMADA ...QUE ESCREVE LIVROS ..COM A MESMA ESCRITA SUA..DETALHANDO AS COISAS FAZENDO A GENTE SE PRENDER NO QUE LE...LEVE A SERIO ...HOJE ESTA MAS FACIL O ACESSO AS EDITORAS..E DEPOIS QUE ESCREVER UM TENHO CERTZA É SUCESSO NA CERTA....SO TEM UMA COISA QUERO O MEU ..NUMERO UM AUTOGRAFADO KKKKKK BEIJOS QUERIDA OBRIGADA VOCE POR SER TÃO SENSIVEL E PASSAR COISAS BOAS PRA NOS....

    OTILIA

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  18. Sabe bem prender a atenção da gente na leitura. Tem uma forma doce de escreve e descrever. Fez-me lembrar,como seu texto, que na minha época também, era cheio de "folclore" os ensinamentos a nós menores. Não poderia misturar, leite com manga, ovo com manga também... leite com mais não sei o que...e assim ia. Talvez para não ficarmos a comer tantas "besteirinhas" antes das refeições.
    Sei que depois que crescíamos, mais folclore: cuidado com o que vai aprontar..."beijar na boca em pé, engravida..." (risos)...e outras coisinhas que nem posso citá-las aqui...se não serei expulsa.(risos).
    E assim a gente cresce e descobre , que era só folclore mesmo, só cultura, que ia passando de pai para filhos.
    Mas é divertido tudo isso...
    Brinquei também de fazendinha com as vacas de manga, acho que todos nós pensávamos igualmente naquela época... ai me veio a lembrança, bolinha de gude, finca, ... quem nunca brincou?
    Adorei Milene, bom voltar ao passado...e você é catedrática nessa arte de puxar nossa atenção, para coisas boas assim...tem muita propriedade no que diz e escreve.
    Parabéns.
    Uma tarde brilhante.
    Beijinhos.

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  19. Olá Milene!

    Estou aqui conhecendo seu espaço, e eu que jurava que isso matava em segundos, acho que por isso sempre tiveantipatia por abacaxi, ja que nao dispenso leite.

    Eu gostei muito!

    Se puder, venha conhecer conhevcer meu blog, "Alma do Poeta"

    Tenha uma ótima noite!

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  20. So posso te deixar um beijo pelos eu lindo comentario anjo, obrigado e beijos , quero sempre vc por la, fique bem e muita luz

    Gustavo Sinder ( rabiscando poesias )

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  21. - Milene, aquela menina que não morreu é linda... e como escreve bem! Ah, mas um dia eu chego lá, com meus bois-de-chuchu, meus "não pode manga com leite" e tantas outras coisas...
    - Ô Si, isso é um conto ou uma crônica? Não importa, é bonito pacas!
    - Beijos, Mi...

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  22. Olá, Milene!
    Gostei - como sempre!!!
    Bjs!
    Rike.

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  23. rs... é verdade, as nossas avós sempre contavam destas, as crendices meio doidas que ninguém sabia aonde começou.

    hahaha pior foi aguentar a gozação do irmão. e passar o medo por causa da mistura hahaha..

    boas lembranças né rs

    bom dia

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  24. Mememmm


    que saudade de voceeeeee.....

    a saudade é tanta que nem magoei com suas traições.....kkkkkkkkk

    logo eu volto

    muitas novis


    beijocas


    Loisane

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  25. Ola Milena adorei o conto muitas crendices s~~ao faladas pra nós quando somos crianças e as vezes ainda adultos acreditamos nelas, e irmão é fogo neh rsss.
    Bjinhoss, se cuida.
    adorei seu cantinho.

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  26. Lindo texto. Até hoje lembro que minha mãe também
    falava sobre essa mistura do leite rsrsr
    Quanta inocência! Adorei reviver tudo isso.
    Bjssss

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