quarta-feira, 16 de março de 2011

A Pequena Grande Ene




Ene e Efe, o amor na tradução mais viva já contada por essas bandas, se perceberam cedo um na vida do outro.

Efe, o sujeito, era do tipo tranquilão, caseiro, camarada. Fumava escondido do pai, baixinho brabo, mesmo já adulto e independente. Não era do tipo namorador, embora apresentasse uma boa figura e conversa agradável.

Ene, a enfermeira, miúda do sorriso gigante, alma doce, encantou o coração do sujeito esticado.

Efe suspirava pelos cantos dizendo ter achado a mulher da sua vida... “ainda vai ser minha aquela princesa”, dizia o sujeito. E não sem razão, pois não tardou e suas histórias eram uma coisa só.

Logo o pequeno fruto desse encontro veio para fortalecer de vez o elo... Eram três. Estavam felizes.

Ene era frágil, de aparência e saúde. Seus rins passaram a lhe judiar, constantes internações, sessões da cruel hemodiálise, até que o parecer médico foi enfático: a paciente terá que ser submetida a um transplante. Criou-se o inevitável pânico, jamais imaginaram uma cena assim ruim em seu conto de fadas. Mas não havia tempo para lamúrias, era preciso agir e tirá-la daquele sufoco.

A irmã de Ene ofereceu-se como doadora. Um ato de puro desprendimento e amor, certamente sanaria o problema. Realizada a cirurgia, um novo horizonte se abria para ela, que mesmo nos momentos de maior angústia jamais deixou cair o sorriso e a fé. Foram três anos de sossego. O rim doado fazia muito bem o seu trabalho e tudo corria na mais perfeita ordem até que os problemas ressurgiram. Não podia ser verdade, o organismo frágil de Ene havia se desgostado do agregado e queria expulsá-lo. Não houve jeito de segurar ali o rim presenteado. De volta a angústia, de novo o sofrimento de outrora, com as hemodiálises tão terríveis quanto necessárias.

Ela, no auge de sua debilidade física, mostrava uma coragem que envergonhava a todos os insistentes em se lamentar por quase nada. No rosto sempre o sorriso meigo, exibindo no peito um cateter como se fosse o mais lindo dos pingentes. Não se abatia aquela mulher.

Estava pronta para um novo transplante. A solução era esperar na fila gigantesca ou contar com a sorte de um outro doador. Mas quem? Estava decidido, Efe faria todos os testes e tentaria doar um pedaço de si a sua Ene. Não era justo tanto sofrimento por tantos anos, isso agora acabaria, ele a salvaria.

Tudo certo, os exames todos aprovados e agora não tardariam a cessar as angústias. A cirurgia para a retirada do rim de Efe transcorreu perfeita e agora era só guardar lá dentro dela esse pedaço que a faria ter de novo uma vida normal. Mas os imprevistos jamais podem ser ignorados e dessa vez se mostraram presentes. Num raríssimo acontecimento, uma trombose nos arredores da cavidade onde se alojaria o novo rim impossibilitaram a conclusão do ato . Os médicos não acreditavam, aquilo era de uma probabilidade quase zero, mas estava lá, era fato e irremediável. Todo o esforço de Efe havia sido em vão, o rim iria pra algum laboratório como instumento de pesquisa e a sua Ene continuaria sua saga.

Via-se depois disso um marido inconsolável, mutilado por nada. Questionava o porquê de tanto sofrimento, renegava as explicações divinas, de que tudo acontece por um motivo o qual não alcançamos. Ela, se refazendo do baque, esperaria mais 6 meses pra uma nova tentativa. Mas eram seus cúmplices o sorriso cativante, as palavras de força e a vontade de jamais desistir.

Essa é uma história cujo final não aconteceu. Ene continua seu martírio, agora mais frágil, calejada pelas hemodiálises que agora são feitas em casa, num quarto adaptado para evitar sua ida ao hospital, pois não suportaria uma infecção simples. Não imaginem, porém, uma mulher amargurada, revoltada com algo que decerto não fez por merecer. Imaginem a fortaleza em forma de mulher miúda, insistente na arte de existir.

14 comentários:

  1. Linda e intensa história, mas que força dessa mulher... Garra,não? um beijo,chica

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  2. História interessante e forte !!
    Passando para uma visita de quarta-feira.
    Beijos,
    CArla Fernanda

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  3. Que história de determinação e vontade de viver, Milene !
    Acredito que não há nada, nem ninguém, que possa mudar o curso das coisas que devem acontecer, mas encarar a dor com suavidade, é uma lição de sabedoria.

    beijo grande pra vc !

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  4. - Sou um otimista incurável. Tudo dará certo para Ene e Efe, e você será a narradora de sua felicidade!
    - Beijos, Eme...

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  5. Olá, Milene!
    Gostei muito da estória, da vontade apesar de tudo!
    Bjs!
    Rike.

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  6. Milene, uma história muito triste!
    Mais ainda porque parece muito real!
    Eu gostaria que houvesse mais esperança de uma sequência mais favorável. Não digo um final porque isto não é um filme e a vida continua.
    E na vida, o final é sempre o mesmo.
    Abraços!

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  7. Mememmmm

    e nos queixamos por nada...

    que linda história..tomara que tudo acabe bem...


    beijocas

    Loisane

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  8. É na força do AMOR que encontramos coragem e superação para as dificuldades. E é nesse amor, nessa cumplicidade, que Ene e Efe com certeza, haverão de superar todos esses obstáculos.

    "Dê a quem você AMA: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar."
    Grande beijo, amoreee.

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  9. Memem amada minha!
    A fé acompanhada de amor sempre vence...

    Creio ....A-C-R-E-D-I-T-O....

    Acredite ...
    Rodolfo tem razão.
    Repito suas palavras.
    'Você será a narradora dessa felicidade!

    beijo linda minha.

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  10. É a força de uma mulher que sabe ser mulher, uma mulher de verdade!

    Bjs.

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  11. Uma vez um poeta falou (não me lembro qual foi)

    que o pássaro em dias de tempestade,procura o galho mais alto de uma árvore.
    e la ele fica , imóvel ,pois ele esta acuado...

    mas mesmo assim ele canta...ele canta porque sabe que a tempestade não vai durar para sempre. e principalmente porque sabe que ainda tem asas para voar.

    quero acreditar muito nas asas dessa guerreira!
    vou torcer por ela !

    um beijo!

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  12. A força e a superação, acredito eu, vem da vontade de viver.
    uma linda noite.
    Um sono tranqüilo.

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  13. Pequena Ene, que o amor e a fé agiganta... tudo dará certo!
    Beijo...

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