quinta-feira, 7 de abril de 2011

A Ausência do Nexo




Dessa vez não se tratou de um caso corriqueiro de violência na cidade maravilhosa. A polícia não terá que se explicar pelas balas perdidas a atingirem inocentes nas suas incessantes batalhas contra os traficantes. Um dos seus representantes inclusive evitou que a cena se tornasse ainda mais dantesca, detendo o assassino e impedindo a morte de um número ainda maior de pequenos. Os governantes posam chorosos em frente às câmeras, lamentando o ocorrido, enquanto emitem um silencioso “ufa!” por não serem dessa vez culpados, afinal os EUA produzem crimes assim há tempos e todos consideram uma fatalidade. Os noticiários não se cansam de explorar o assunto, passam e repassam a mesma matéria com os mesmíssimos depoimentos, sugando o máximo de audiência. A imprensa sabe bem agir nessas situações, pois tem a exata noção de quão inesgotável é o senso de absorção do público brasileiro por notícias trágicas. Um cidadão teve o cuidado de municiar os noticiários com as oportunas imagens feitas através de seu celular, caminhando calmamente no meio da loucura, pessoas gritando, correria, sangue, desespero, voluntários tentando colaborar e ele lá, preocupado exclusivamente em filmar o caos... Adentrou o prédio da escola, filmou o corpo do sujeito e deve ter se lamentado bastante por não ter conseguido ir além e filmado um amontoado de meninas mortas, afinal o acesso do seu video no You Tube seria infinitamente maior. Bizarro!

Mas tudo isso é tão ínfimo comparado com o absurdo da situação. Um sujeito simplesmente planejou, friamente planejou esfacelar crânios infantis. Mirou certeiro em várias crianças e impediu por motivos inexplicáveis que suas vidas, ainda botõezinhos, florescessem. Isso atinge feito um soco no estômago a todos a quem resta um mínimo de sensibilidade.

As famílias devem estar tentando interrogar Deus sobre os motivos de tamanha barbárie com seus miúdos e esse direito não lhes pode ser negado. Um misto de incredulidade, indignação e compaixão é o que resta nesse momento de absoluta impotência em se tratando de aliviar a dor alheia, seguido de um certo constrangimento pela involuntária falta de proteção àqueles a quem deveriam ser dadas todas as garantias de vida tranquila.

Um tio de uma das vítimas falou numa das incontáveis matérias na TV: “Se não  podemos mandar nossos filhos pra escola, vamos mandar pra onde então?”...
Alguém sabe a resposta?

Oxalá fosse possível acolher no colo todas as crianças do mundo, impedindo que se aproximassem delas qualquer sensação de medo ou desamparo... Talvez até mentir devagarinho a elas dizendo que o mundo não é assim tão feio e cruel.

Hora de dormir, apesar da desolação em saber não ser tudo isso parte de um filme policial, cujo bandido foi morto por um corajoso homem da lei e todas as vidas foram salvas.

Por que vez ou outra a vida não imita a arte?

12 comentários:

  1. - Hora de dormir. Não sei se hoje terei pesadelos ou se sonharei com anjinhos. Anjinhos novos. Ou com demônios e assassinos. Ou com prefeitos, governadores e secretárias de segurança. Ou com policiais heróis. Ou com âncoras da TV. Não sei...
    - Boa noite, para quem consiga tê-la. Beijos, Mi...

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  2. Eu que tenho filho fico agoniado com essa história toda, penso nos pais e mães que perderam seus filhos que Deus possa trazer conforto a seus corações.

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  3. Pior é saber que isso acontece o tempo todo, e no mundo inteiro. sendo eu também da raça humana , eu ja não tenho nem mais cara para olhar-me no espelho...

    um beijo , querida!

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  4. Foi uma noite bem agiada, pois os notíciários nos mostrando a barbárie foram tristes demais. Tragédia sem nexo...beijos,chica

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  5. Sem delongas, um trecho do meu coment la no
    MARCIO JR.

    "Chega dessa mer** de proteção a bandido... rigidez maior e treinamento intensivo aos nossos policiais... Chega de fazer olhos cegos a certos tipos de comportamento.... Se é pra chamar de preconceito "podem me crucificar" mas certas seitas estão se proliferando sem uma base concreta... INVESTIGAÇÃO TOTAL... Eu que não DEVO nada a ninguém estou a disposição para tal investigação.... Pô!!"

    Se estiver de acordo leia na integra seguindo o link... obrigado!

    DeusssssssNosProteja
    Tatto

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  6. Mas o que deixa o fato mais escabroso é a exploração do fato. Políticos e mídia vão se alimentar dos cadáveres até a próxima tragédia, infelizmente.

    Bj.

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  7. Milene, o pior é que coisas deste tipo são praticamente indefensáveis, pelo fato de serem imprevisíveis.
    Não são como assaltos, que seguem linhas definidas e típicas, e são executadas por criminosos de um perfil determinado e até certo ponto previsível.
    Tragédias como esta e a do atirador no cinema de S. Paulo são crimes sem motivo, praticadas por pessoas perturbadas por drogas ou por traumas psíquicos, ou herança genética.
    E, como você (que não deixa passar nada) bem lembrou, essas tragédias ainda trazem consigo as sub-tragédias: a farra da demagogia e da audiência!
    Tudo muito triste!
    Sinto muito, Milene.

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  8. Tô aqui, como já escrevi em alguns amigos, pasmada.Quanto mais ouço as notícias menos compreendo... Talvez agora, Memém, entenda o buraco - lá embaixo - da minha "crise profissional". Que mundo é esse? Que Homem é esse dessa tal pós-modernidade? Tem nada prá comentar...só uma tristeza, uma falta de sentido...
    Beijuuss, minina-ternura, n.a.

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  9. Memem não sei comentar...
    Leio releio tudo, cada hora me assusto
    mais.. E dói porque sou mãe.
    Imagino a dor de cada uma,e sofro por imaginar..
    Beijo meu pra vc...

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  10. Memem

    é o circo dos horrores....

    mostrar tudo à exaustão, para conseguir o tostão...é nojento...revoltante

    como se o acontecimento não não fosse o suficiente..

    beijocas

    Loisane

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  11. Não dá pra esquecer... Foi muito forte tudo isso.
    Noticiários, comentários populares... O fato é que não temos palavras para descrever um "ser humano" desse. Que Deus acolha a cada anjinho e às famílias, muita força e superação.
    Abracemo-nos enlutados.

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  12. Dá vontade de mudar, sair, sumir para um lugar onde o maior risco seja a própria natureza, de quem não se espera raciocínio e nem lógica...

    Assistir à mães desesperadas me fazia segurar as lágrimas, pensando no momento de pânico das crianças e nos pensamentos das mães, igualmente vítimas da tragédia...

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