segunda-feira, 11 de abril de 2011

Diferença... O Que É?

OPERÁRIOS - Tarsila do Amaral

Dia desses minha sobrinha Maria Clara iniciou um papo sobre preconceito racial, do alto dos seus incompletos 10 anos, me questionou sobre o fato da maioria dos bandidos em filmes e novelas serem negros. Fiquei na dúvida entre formular uma resposta bacaninha ou lançar um “titia não tem todas as respostas, Clara”. Conversamos sobre o assunto e tentei clarear a sua cabecinha confusa sobre essa chaga maldita chamada preconceito. Mas é uma luta difícil, porque as crianças convivem com essa sujeirada de discriminação todo o tempo em coisas aparentemente sutis, como ouvir alguém lamentar por um sujeito boa pinta, preso por um crime qualquer, porque o pobrezinho não tem cara de bandido.

São coisas supostamente sem importância, mas na cabeça delas permanece o registro da informação de que o sujeito de “boa aparência” tem menos possibilidade de ser um marginal. É literalmente o (pré) conceito. Julga-se pela figura, aceita-se os esteticamente selecionados enquanto marginaliza-se os “estranhos”.

Meu amigo Clayton, lá do Apenas 1 DJ, me contou sobre o dia em que foi abordado por uma viatura da polícia, tirado do carro sob os gritos de “desce seu preto! Achou mesmo que ia fugir? Você é muito burro pra isso”. Coisas assim acontecem todo o tempo, mesmo quando as campanhas politicamente corretinhas tentam dizer o contrário.


Estamos num país teoricamente bacaninha no sentido de oferecer acessibilidade. Os concursos públicos oferecem vagas com maior facilidade aos portadores de necessidades especiais (especiais?), que maravilha isso! Mas não se enganem, é puro assistencialismo pra ocultar a discriminação. Fosse a situação realmente como querem nos fazer acreditar não seria necessária essa “força”, pois o deficiente teria a mesma possibilidade de disputar o mercado de trabalho, sem precisar embrenhar-se pelo serviço público. Ah, mas as empresas agora estão contratando as pessoinhas especiais, uhuuu!!! Não se enganem mais uma vez, meus caros! Essa não é nenhuma atitude ultra-mega-moderna de gestão ou coisa que o valha, é tão somente o cumprimento da lei. O setor privado se vê obrigado a oferecer vagas aos deficientes, mas cabe aqui a informação de que quanto menos deficiente o sujeito for, melhor pra empresa contratante. Uma unha encravada, a pessoa mancando um tiquinho, pronto, está contratado! Os muito deficientes não são visto com bons olhares.

Vi num programa esportivo esses dias uma matéria sobre um jogo de vôlei, aonde toda uma torcida, em uníssono, ecoou um grito de “bicha, bicha” direcionado a um jogador do time de Araçatuba, salvo engano. Crianças, mulheres, senhores, todos se divertiam com o coro bem ensaiado. O atleta não aceitou a brincadeira estúpida e entrou com uma ação contra o time adversário, a respectiva torcida, o raio que o partisse... Massa!

Isso me faz refletir sobre a resposta ainda não formulada na minha cabeça para dar à Maria Clara nas suas questões sobre preconceito. O correto era falar a verdade, nua e crua. Dizer da feiúra do mundo, do quanto as pessoas podem ser cruéis em se tratando de criarem castas implícitas, ou de como a intolerância não perde fôlego. Deveria lhe dizer de como a tia dela sofria ao entrar todos os dias no ônibus pra ir pra escola, no primeiro ano estudando mais longe de casa, tendo de conviver com a gozação recorrente de um idiota que fazia todo o percurso dizendo pro Fernando que a “namorada” dele tinha chegado. Fernando era um garoto também deficiente e isso era motivo suficiente pro babaca inventar um namoro, chacotear à vontade, lançar comentários jocosos enquanto sorria sarcástico, sob a conivência dos demais passageiros. Tanto eu quanto o garoto suportamos tudo calados, por um ano inteiro. Agora, séculos depois, descobri que aquele tormento ganhou o nome bonitinho de bullying... Vos digo, pra uma criança é feito ter pesadelos diários com os monstros mais tenebrosos, se dar conta de que eles de fato existem e estão embaixo da sua cama.

Talvez eu diga pra ela que a humanidade pode ganhar uma nuancezinha mais bonitinha, desde que ela e sua geração se transformem em adultos praticantes, de fato, do amor e respeito ao próximo, cientes de que as diferenças existem a fim de tornarem mais bacana a mistura e não devem em absoluto significar muros intransponíveis.

Sigamos!
Beijos!

16 comentários:

  1. Misturar é preciso, viver é mais que preciso.

    Bj.

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  2. Apesar dessas coisas eu ainda tenho fé de que a sociedade um dia vai conseguir julgar uma pessoa pelo que ela é realmente e não pela cor de sua pele, sua religião, ou qualquer outra característica que seja "diferente" aos olhos da sociedade.

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  3. Mileninha, você pode levar a Maria Clara no meu blog e mostrar pra ela que eu sou preto mas sou herói dum filme, pelo menos na versão do Tatto!
    E você é uma heroína, na minha versão!
    Beijo!

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  4. Memem

    eu quis dizer tré e escrevi lé...nada com nada...maldita tinta barata...rsrs

    Diga pra sua pequena que ela terá tempo de saber de tudo isso...que as vezes o mundo é colorido, outras tem tons de cinza,mas que sempre vale a pena viver...

    beijocas

    Loisane

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  5. - Qual o momento certo de dizer a uma criança que Papai Noel não existe?
    - Não... é preferível dizer-lhe a verdade: que Papai Noel existe, sim, mas sob diferentes formas e aparências... e uma dessas formas são as pessoas que a amam.
    - Acho que é por aí...

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  6. É memem isso é serio .
    Acho que eu teria dito..
    'titia não tem todas as respostas'.
    Mas vc como arrebenta .
    Além do coração, o discernimento ...
    Isso não é fácil ..

    beijo meu pra vc linda minha.

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  7. É difícil responder essas perguntas, mas pouco a pouco, elas próprias vão vivendo e prestando atenção. Pena que vão ver taaaaaaaaanta coisa! beijos,chica

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  8. Olá, Milena! Tudo certinho? Que tudo esteja 100% com você!
    Encontrei o seu blog e vim fazer uma visitinha!
    Muito bacana o post! Lúcido e apaixonante como o paresentou! Parabéns!
    Sua sobrinha endenderá [cada dia mais, e a seu tempo] que não somos brancos, pretos, amarelos, ricos, pobres, cultos, marginais, presidentes ou papas. NÓS ESTAMOS! [é o que eu acho!]

    [Sou expatriada] Sai do Brasil em 2000 e fui para os USA estudar na Harvard, onde estudei até 2002. Desde 2003, moro na Holanda - sou casada com um holandês.
    [O choque cultural existe e acaba sendo benéfico - de uma maneira ou de outra -. Sou da opinão que existem coisas boas e ruins em qualquer lugar do planeta! Nós é que temos que ressignificá-las à nossa moda!]

    Será uma alegria se visitar o meu cantinho virtual, que é: http://josanemary.wordpress.com/mevrouw-jane/

    E será uma outra alegria, se quiser ler o prefácio do meu livro: Mevrouw Jane (o prefácio não foi feito por mim, mas por um outro escritor, um já reconhecido no mundo literário). Se gostar – ou não - por favor, deixe um comentário; vou adorar ler a sua opinião!

    Tenha um ótimo dia!
    Grande abraço.
    Josane Mary

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  9. Lembra o que eu disse a voce sobre essas brincadeirinhas... Mas, graças a D'us, mesmo que não se acredite, alguns sofrem, mas recebem amor que cura tudo.Pense em que sofre e não tem nada e ninguém a quem se apoiar? Com certeza, virará um assassino em série e terminará com um tiro dado na cabeça, por ele mesmo... Acho que já vimos essa história por aí...

    [ ...E o venerável cardeal disser que ver tanto espírito no feto e nenhum num marginal...]

    Pare o mundo eu quero descer!
    Excelente post!
    Beijos!

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  10. Danadinha essa minina...também com uma titia dessas! Sabe minha minina, não sei se ainda estarei nesse plano prá ver o dia que as pessoas se relacionarão assim: respeitando uma as outras pelo simples fato de serem!
    Beijuuss n.a. de sua - forever - Madame Surtô rsrs

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  11. Olá, Milene!
    Puxou a tia essa sobrinha! Não tenho dúvidas de que convivendo com você, ela passará muito além disso!
    Bjs!
    Rike.

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  12. Não poderia ser assim? "Todos nós somos iguais, independente de cor, raça..." O que importa Maria Clara, é o coração, que nasceu para amar e ser amado. tá "titia? Bjo querida.

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  13. Preconceito!
    Um "Pré- conceito", feito a alguém, sem ao menos conhecê-la, sem ao menos dar a ela chances de mostrar quem é.
    É um "pré- conceito" feito a alguém, talvez avaliando-os por que, já carrega consigo o preconceito de si próprio.
    Pois os preconceitos nunca irão acabar, existem em todos os lugares, não é só de cor e nível social não, de tudo, preconceito dos contrastes, tipo: gordo e magro, branco e preto, alto e baixo, inteligente e menos inteligente, religiões,as leis, que muitas vezes são mais para o menos favorecido,( quando é para punir, para beneficiar, beneficia muitas das vezes, os melhores ,já favorecidos) e assim vai...
    O preconceito existe nas diferenças , que sejam individuais, econômicas, sociais...o preconceito...infelizmente não irá "morrer", pois há quem defenda o PRECONCEITO , como sendo liberdade de expressão...eu aguento? Não!
    NÂo...NãO..NÂO...mas temos que conviver com ele.
    Um dia lindo minha amiga linda ... Sucessos e paz para seu coração.
    Beijinhos.

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  14. Olá minha querida amiga Milene Lima, realmente,temos que apostar nessa nova geração, qualquer forma de preconceito é abominável,eu acredito que com um pouco de paciência e trabalho educativo podemos mudar e futuramente termo uma geração mais educada e respeitosa. Muito bom o seu texto, como sempre.

    forte abraço do amigo leitor,

    c@urosa

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  15. Milene, criança apronta cada uma... uma vez Ana Clara foi com minha esposa ao banheiro do restaurante, e no caminho passaram por uma senhora levemente morena com vitiligo, com a pela toda manchada de branco. Ana parou, olhou espantada e disse: "olha mamãe, que mulher feia!". Depois de uma dessas vem o momento de pensar em como fazer para mudar esse tipo de reação e o conceito visual das coisas. Se para um adulto já é difícil lidar com isso, imagine uma criança...

    Por sorte, ela tem um DVD do Cocoricó onde aparece um personagem cego que é integrado no grupo de amigos do Julio, além de um Mexicano com suas roupas e estilo diferente dos brasileiros, e a mensagem central é mostrar que todos temos diferenças, apesar de sermos iguais como pessoas. Também já dei a ela um livrinho onde o cavalo Alípio coloca aparelho nos dentes e se esconde dos amigos de vergonha por sua nova aparência diferente. Nesse, Júlio o consola mostrando que todos ali possuem diferenças, e cita cada uma delas, mas mostra que isso não tem importância nenhum, pois o que vale é a amizade de todos eles.

    Então falei para Ana Clara sobre isso ilustrando com essas historinhas que ela já conhecia, e explicando que não podemos ficar falando da aparência diferente das pessoas, pois elas podem ficar magoadas e até chorar...

    Parece que ela entendeu, pois não me lembro de outras situações onde ela tenha falado da aparência de alguém.

    Criança é assim mesmo, um mundo de coisas novas para aprender, rsrsrs

    Beijos!
    Adriano

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