domingo, 24 de abril de 2011

O POETA E A FLOR


RENDIÇÃO



Antes da queda duelei com o tempo.
(maldita efemeridade que não dorme)
E minha causa até parecia ter sentido.


Porém descobri que o tempo
Não é somente uma lei;
é também uma pedra esculpida em meus ossos.

Antes da queda , eu era um homem que se movia
emigrado da falsa claridade da noite.
mas mesmo na penumbra, eu possuia as minhas
armas de defesa e ainda trazia comigo o fresco
vigor dos embates.

Hoje me cumpro em varias mortes.
E me despenco entre meus ossos;

Um poeta sem livros e sem filhos...

E agora ?

Quem herdará de mim a fraca memória de datas
e a vermelha flor de fogo que trago entre os dentes?

Quem ?



(Moisés Poeta)





Cansado das lutas inglórias ele relembra antigos duelos. Sob seu olhar firme todos os passos do tempo eram registrados, marcados à ferro e fogo. Ousava tamanho desafio, resistindo a cada golpe da espada afiada atingindo de raspão o seu corpo valente. Aos poucos percebia minarem suas forças, já não era mais o guerreiro de outrora, petulante, incansável, altivo em suas convicções... Seus desejos se afastavam de si e as pernas relutavam em correr atrás do seu algoz, este absoluto em sua transitoriedade, sorrindo sarcástico pela impossibilidade de ser alcançado.  Não há como rever brevidades, remendar passos incertos, o tempo ruma impiedoso levando consigo o viço outrora transbordante, moendo sonhos acordados. Ao longe ecoava o seu lamento, o pranto de desesperança e perguntas não respondidas, temendo e contraditoriamente ansiando o iminente embate final. Era muitos em sua solidão, mas agora receava estar realmente só, sem uma maldita sombra a quem pudesse confiar o bastão de seus poemas e tal sensação causava imenso amargor. Quão distraído era o poeta, não se lembrava do poder das palavras em encantar o tempo. Se esqueceu de que a flor de fogo presa entre seus lábios enquanto caía ferido, rasgada pela espada afiada, permanecerá acesa feito uma fogueira imortal.


 (Milene Lima)



16 comentários:

  1. O tempo realmente é um cobrador impiedoso, e quando cobra não há volta.

    ResponderExcluir
  2. - Os filhos do poeta são os seus poemas, gerados pelas musas que aceitaram sua semente de fogo.
    - Abraços, poeta. Beijos, Musa.

    ResponderExcluir
  3. Sempre que leio RENDIÇÂO, me rendo aos pés do poeta Moisés, e lhe digo..." tão profundo, quanto chegar a verdadeira alma do poeta", sempre um enígma a desvendar.E você amada Milene, me faz com suas letras, deliciar a beleza das entre linhas,que eu não conseguia alcançar.
    Uma noite linda.
    Um grande abraço.
    te gosto muito.
    Beijinhos.

    ResponderExcluir
  4. O tempo... Nosso companheiro e traiçoeiro.
    Abraços! Kenny Rosa
    (http://cronicandocomvoce.blogspot.com)

    ResponderExcluir
  5. MEUS SAIS! Sinceramente não deu pra ir dormir sem ler essa belezura.

    Poema impecável e impagável desse moço Moisés que nasceu poeta e desse carma (maravilhoso) não há como livrar-se - e nem precisa!
    Permita-me, com todo este sono que me embriaga, dizer de teus versos:

    "Continuas um bravo guerreiro, sem livros nem filhos como tu proferiu. Mas tu és filho da poesia e teus livros, fecundos filhos de ti, na brandura cálida ao sabor do fogo em flor"

    E para tanto, finalizando a leitura, me deparo com a prosa feito bordado em colcha de rei, nas palavras de Milene Lima, a moça cronista que encanta e canta pepitas de ouro. complementando o espetáculo que me conduzirá, sabe-se lá onde... quando me deitar e sonhar.

    Aplausos e já aviso: QUERO BIS!

    meu carinho aos dois amigos de quem sou admiradora.

    Lu C.

    ResponderExcluir
  6. Lindo e inspirado poema por aqui .Adorei! beijos,linda semana!chica

    ResponderExcluir
  7. Ai que saudade daqui.
    Tão pouco e virou um tantão.
    Sentia me assim feliz, mas faltando algo..
    Minhas idas e vindas , meus passeios pela
    madrugada, minhas surpresas que por aqui sempre
    as tenho.
    E esses versos quando li lhe comentei né?
    O quão forte são as letras de Moisés ...
    E aqui re leio com prazer, e complemento com sua
    compreensão mais que perfeita...

    Mil beijos meus pra vc sempre...
    E beijos a este moço poeta ..

    ResponderExcluir
  8. Milene

    onde foi e o que perdi?
    O tempo? mas nunca o tive...

    beijocas

    Loisane

    ResponderExcluir
  9. Oh! Beleza de dueto!
    Poesia e prosa se completam em bela combinação!
    Parabéns a ambos pela beleza das ideias e das palavras!

    ResponderExcluir
  10. Seu blog é muito bom por isso vim até o seu espaço e gostei muito do que li por aqui. Tenho um blog Tb gosto d++ de poemas. E estou te seguindo se VC puder da uma passada La no meu blog. E VAI SER UM PRAZER SE PUDER ME SEGUIR...Bejs . Déia.........
    Esse é o link do meu blog
    http://wwwdeiablog.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  11. Êita que essa dupla está - cada vez mais - dinamicamente póetica. Sôdades minha minina amada. Fui alí e volto, visse?
    Beijuuss n.a.

    ResponderExcluir
  12. Que maravilha !

    Aqui o poema ganhou nova vibração,
    atrelado a sua prosa impenitente.

    Obrigado , querida !
    Essa Rosa que voce ergueu no Horizonte,
    Transita em minhas veias...

    beijo-te

    ResponderExcluir
  13. Amiga! Está convidada para a festança lá da bicharada... depois passe lá ok? Beijinhos e uma excelente tarde.

    ResponderExcluir
  14. Que forte este poema,que belo de se ler,é profundo e é para se ler e reler e pensar.Preciso arrumar este tempo.....Beijos.

    ResponderExcluir