sábado, 21 de maio de 2011

ALÉM DA MINHA VÃ COMPREENSÃO



Situação comum é escutar sobre o estado especial e inigualável de ser mãe. Nesses momentos eu me calo, pois sei apenas ser filha, sempre foi dessa forma e pra sempre será. Meus sentimentos em relação a tal assunto são contraditórios... Me vem a inevitável frustração enquanto mulher – sempre tive vontade de usar o termo “enquanto mulher, enquanto ser humano”, enfim consegui uma brecha... Uhuu! – podia ter me revelado uma boa parideira e a sensação é de certa imcompletabilidade, como se eu jamais pudesse me considerar por inteiro uma mulher.  Ao mesmo tempo isso me provoca um alívio egoísta, confesso. Talvez a natureza me apontasse os caminhos de como agir pra ser uma mãe razoável, mas isso me causaria pânico... Um filhotinho ali, totalmente dependente de mim??? Misericórdia, que péssima leoa eu daria.

Enfim, os deuses, a natureza, a minha falta de vontade devem saber bem o que fazem... Nesse caso especial, o que não fazem. Os filhotinhos estão a salvo da minha completa falta de comprometimento.

A motivação principal desse texto foi ter assistido agora há pouco, na Band, o programa A Liga. Não vejo muito, mas gosto do que eles fazem. São matérias jornalísticas sem apelação, sem lagrimômetro... Apenas a exposição dos fatos intrigantes, situações do cotidiano sob um ponto de vista totalmente responsável.

O tema de hoje falava sobre desaparecidos, mais especificamente sobre a luta incansável das mães em busca dos seus filhos sumidos inexplicavelmente. Me postei estática diante da TV pensando que jamais saberia dos verdadeiros sentimentos daquelas mulheres pelo simples motivo de não ser mãe e de imediato a sensação de alívio novamente me tomou. Dentre as matérias mostrou-se as mães de Luziânia e a angústia sofrida por elas até terem notícias dos seus meninos, mortos covardemente por aquele psicopata cujo convite a se inserir novamente ao convívio social foi gentilmente feito pela justiça brasileira... O moço não se fez de rogado e dois dias depois de ter saído da prisão começou a matança por lá. Uma das mães rezou em voz alta, quase em êxtase, após saber que seu filho havia sido encontrado... morto. Ela só queria uma notícia, uma resposta. Pelo menos agora saberia onde ele estava, ainda que não pudesse tê-lo nos seus braços.

Lá em São Paulo, uma das mãe da Sé procura sua filha desaparecida há quinze anos. Está sozinha porque a família não resistiu à dor e se desintegrou, mas segue firme na sua luta, viajando aonde quer que lhe indiquem pista. A mãe de Stephanie, de 11 anos, desaparecida na esquina de casa à luz do dia, há mais de um ano, todas as manhãs sai a procura da menina antes de ir trabalhar, sozinha, sem apoio nenhum. Já foi quatro vezes ao IML e é difícil dizer se sua sensação ao sair de lá com uma resposta negativa seja de alívio ou frustração pela continuação do martírio. Uma outra senhora contou que seu filho foi internado há dois anos em virtude de um surto psicótico. No dia seguinte, indo visitá-lo, o moço de 22 anos já não se encontrava. Havia saído provavelmente pelo portão da frente sem que ninguém o impedisse. Essa mãe, como todas elas, vive numa aflição impossível de ser descrita. Certo dia levou um soco de um mendigo quando levantou o cobertor com o qual o mesmo se cobria numa calçada qualquer, na esperança de ser o seu menino... Levantou-se, machucada mais na alma do que no rosto e seguiu.

Nesses momentos é delicado tentar saber que tipo de dor causaria mais estragos numa família, se a confirmação de uma morte ou a incerteza dolorida acerca dos fatos. Suponho, mas só suponho, o tamanho da agonia diária, o sono desassossegado, a espera sem fim por uma simples notícia que na maioria dos casos não virá.

Hipnotizada por cada depoimento, minhas lágrimas caem diante das palavras de amor e fé dessas mulheres, cuja possibilidade de dizerem “agora chega dessa procura inglória” é nenhuma. Ser mãe é de fato uma condição humana sublime, muito além da minha vã compreensão, mas ao alcance da minha admiração imensurável.

Beijos.

14 comentários:

  1. Este caso de Luziânia foi de fato uma lastima.
    Acompanhei de perto cada reportagem senti a dor
    de cada mãe me colocando no lugar delas..
    E pior de tudo foi o estado indenizar a familia
    do morto assassino ..
    Porque então não indenizaram as mães que perderam tanto, que perderam seus filhos covardemente para a fúria de um (louco)?
    Será que era mesmo louco?
    ou o advogado da familia dele usou deste artifício para tirar um punhado de 'dindin'
    do estado... não entendo jamais vou entender ..
    Sigo minha querida com minha indignação com meu nó na garganta por essas mães que poderia eu ter sido uma delas...

    Meu beijo..:(

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  2. - A condição de "ser mãe" é tão especial que homens e mulheres se horrorizam nos raros casos de abandono de recém-nascidos, onde a doença psíquica subverte a condição humana.
    - Por outro lado, essas mães que buscam seus filhos extraviados merecem todo o apoio moral, material e afetivo que o Estado e a sociedade (leia-se NÓS) lhes puderem proporcionar.
    - E parabéns, Mi... não só pelo texto apaixonado e apaixonante, mas também pelo simbolismo perfeito da ilustração escolhida. Beijos.
    - PS: Acho que você daria uma ótima mãe...

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  3. Milene, casualmente, eu, que nem costumo assistir este programa, estava vendo exatamente este trecho que você descreveu.
    Realmente impressionante a esperança de uma delas em encontrar seu filho vivo, quando todos os indícios são de que ele foi morto.
    Mas, eu mudei de canal quando fiquei sabendo que mais uma vez,uma série de crimes tinha sido obra de um daqueles assassinos julgados condenados e...soltos, beneficiados por indultos, para "ver a mamãe" no dia das mães ou para "passar a páscoa com a família", como se fosse uma pessoa isenta de culpa e confiável, e não um indivíduo perverso, multi-homicida, que mata pessoas como quem mata baratas!
    É claro que os juízes que os libertam deveriam ter critérios, mas eu vi numa reportagem recente um deles admitindo que entrega a pilha de processos a assessores, as vezes jovens estagiários...
    Mas, como não poderia deixar de ser, a responsabilidade por tais coisas acontecerem está naqueles distintos senhores cuja função é criar, reformar e aperfeiçoar as leis! O chamado Poder Legislativo, composto por aqueles... representantes do povo que somos!
    Supõe-se que criando leis que favorecem a impunidade e facilitando a saída da prisão de assassinos como aquele estejam fazendo a vontade de quem os elegeu!
    Bem, o cara apareceu enforcado na própria sela logo após estes crimes! Parece que alguém teve uma noção melhor de justiça!
    Abraços!

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  4. Nossa só de imaginar essa agonia só consigo pensar no meu pimpolho que tanto adoro, e que me traz tantas alegrias, e que essas mães consigam encontrar seus filhou ou filhas e tirar esse peso dos ombros.

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  5. Querida..mesmo com todo nosso esforço, de tentar-mos nos colocar no lugar dessas mães, nunca saberiamos o tamanho da dor.
    Só de pensar me da uma angustia. Imagima vc lá, na situação.
    A espiritualidade e a fé em Deus, talves sirva de muleta para que elas continuem a sua procura.
    Meu coração esta dolorido, só de pensar.
    bj
    Ma

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  6. Nem sabia da reportagem, não assisto mais televisão, tenho aversão à mídia. Prefiro ficar por fora das desgraças (sejam elas verdadeiras ou falsas) do mundo. Sim, sou um pouco egoísta... Mas também sou extremamente empático.

    Meu maior medo em ter filhos é exatamente essa dor de perda terrível. Esse mundo de hoje anda uma desgraça pra se criar até um bicho de estimação, imagina um filho?

    Acho que não consigo. =/

    (e sobre o sonho, foi só um sonho escrito, não um sonho sonhado. Por isso nem te preocupes ta? =p)
    Beijos.

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  7. Muito reflexivo...interessante seu texto...

    \o> abraços

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  8. Ah, nem se preocupa!
    A postagem nova foi errada, era pra ser no outro blog. Daí tive que deletar. Hehehe. =p

    Essas confusões. ^^
    Postagem nova só amanhã que pretendo colocar uma frasesinha boba. ;p

    Beijão mesmo assim pela persistência e consideração querida! ;*

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  9. Mãe é a própria esperança. Mãe que tem essência de mãe é especial.

    Bjs.

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  10. Olá, Milene!
    Também assisti um pouco, pois confesso que não consegui ver tudo, achei muito triste.
    Bjs!
    Rike.

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  11. Olha, vou te contar um segredo: não ando em condições de assistir a tanta dor...mexe, ultimamente, sobremaneira com minhas fragilidades e medos...só de imaginar que pode(ria) ser comigo enlouqueço! E aí fico assim... pas-ma-da com essas histórias (Principezinho diferente)e todas que insistem em esfregar nas minhas fuças esse mundão doido que faço parte...vulnerável, perdida e só.
    Beijuuss, amaaada minha, n.a.

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  12. Boa noite amiga!
    Visite meu blog, nesse endereço e pegue o desafio literário, para você responder aqui em seu blog...você foi indicada , tudo bem?
    Um grande abraço.

    http://blog.daysesene.com/2011/01/presentes-recebidos-dos-amigos-selinhos.html

    Te aguardo.

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  13. É Milene! Não é fácil ser mãe. Principalmente quando vemos nossos meninos sofrendo...é algo que nos mata a cada minuto.
    Confesso que se perdesse um filho por "desaparecido", morreria viva. Acredito, que mesmo que a notícia não é a que esperamos, mas encontrá-lo, nem que seja morto, ameniza a nossa longa procura em busca do nada...pois é tão difícil achá-los. Sabe Deus onde estariam, como estariam, e acima de tudo sem a nossa proteção.
    Definitivamente eu morreria...acredito que não suportaria essa dor.
    Que Deus me conserve sempre perto dos meus filhos, e que onde quer que eles cheguem a ir, que meus olhos os alcancem, para que minha alma não morra antes da hora.
    Muito triste realmente tudo isso.
    E devemos estar solidárias a essas mães, que nunca mais terão sossego, se não encontrarem seus filhos perdidos.
    Triste amiga...Triste.
    Só de pensar nos dói tanto, não é mesmo?
    Que Deus dê conforto a essas mães.
    Amém.
    Uma boa noite amiga.
    Se cuida.
    Fique com Deus, sempre.

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  14. Filhos? Melhor não tê-los.
    Mas como sabê-los?

    Estranha essa frase, mas deve ter lá seu fundamento. Eu só sei que de depois de ser mãe percebi o tamanho do amor que te faz prisioneira, voando alto, pelo simples ato de proteger.(Louco paradoxo)

    Um doce beijo minha linda amiga e doce menina!
    Lu C.

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