sábado, 7 de maio de 2011

A FOLHA DA TERRA




Eram dias especiais aqueles vividos entre meados de setembro e os primeiros de outubro. Mulheres, meninos, homens em minoria, enchiam os galpões com sua alegria ruidosa o dia inteiro, ecoando ao longe as gargalhadas misturadas.

Os primeiros a chegar ocupavam os cantos privilegiados, preferencialmente perto da porta, onde o vento podia oferecer um frescor momentâneo ao ambiente, pois a matéria-prima a ser trabalhada jamais seria classificada como perfumada.

Munidos da pequena ferramenta de trabalho, a faquinha produzida especialmente para tal função, todos tomavam seus lugares, sentando em banquinhos ou um reles pano no chão, a fim de minimizar o desconforto. No meio do salão um amontoado de folhas de fumo prontinhas para serem destaladas e mais tarde arrumadas em molhos (leia-se mólhos). O processo de juntar o fumo consiste em dispor as folhas bem abertas, umas sobre as outras, até aonde tivesse sustentação. Os maiores mediam uns bons cinquenta centímetros e entre as destaladeiras algumas sempre se destacavam nos quesitos agilidade e estética. Essas eram as produtoras dos mólhos mais arrumados, com as pontas em harmonia, folhas bem esticadas e tamanho considerável. A plástica de nada acrescia nos dividendos, mas dava ao seu “artista” uma certa pompa.

A cada trouxa de fumo destalado, os talos iam sendo amontoados do lado de fora do galpão, formando uma pequena montanha exaustivamente explorada pelas crianças menores, proibidas (inutilmente) de estarem muito próximas ao fumo.

A atividade ocorria normalmente, até que alguém fosse acometido de uma tontura brava, se ausentando do local a fim de respirar um ar mais leve. Esses momentos destoantes se resumiam, aliás, nos raros aonde os danos causados pelo tabaco vinham à tona. Importante mesmo era chegar ao fim do dia e pesar a produção individual. Havia entre as crianças uma competição divertida para saber quem acumulou mais quilos, devidamente anotados no caderninho do capataz e remunerados no fim da semana.

Ninguém ali lamentava o fato de estar colaborando na produção de um dos maiores vilões da saúde. Não havia espaço para conscientização. A cidade vivia em função do fulano de cheiro forte, não sendo atoa a denominação de “Capital Brasileira do Fumo” e lidar nessa cultura, para muitos, era questão de sobrevivência.

À época da destalação a renda familiar melhorava um tantinho. As crianças juntavam uns trocados para investirem num calçado, uma peça de roupa mais precisada, mas nada de brinquedos. O dinheirinho suado deveria ser investido em algo importante e não em besteira, segundo rezavam pai e mãe. Para as mulheres, donas de casa, a época implicava na oportunidade única de trocar as coisinhas do lar: louça, roupas de cama e quem sabe um agradozinho pra ela própria, já que com o salário do marido (normalmente trabalhador agrícola), esses pequenos agrados seriam inviáveis.

No salão a farra corria solta. Um amontoado de gente a compartilhar lorotas e adivinhações, histórias de trancoso (faz-de-conta) cheias de malassombro (bicho-papão), a fazerem arregalar os olhos cansados dos pequenos trabalhadores mirins, ansiosos por dar fim ao monte de fumo ainda pra ser ajuntado, quando a lua há muito iluminava...

Eu estava lá.

15 comentários:

  1. MIlene..muito bem escrito o seu texto.
    Me vi na cena. Para mim tão peculiar.
    Não em relação a fumo..mas com seis anos de idade eu ja ia com minha avó na roça..amendoim, café, algodão...Quem me ve hj...nem por um segundo imagina qtas histórias eu tenho para contar.
    E quantas cicatrizes..algumas no coração..que nem dói mais...
    Sabe Milene...eu não era infeliz, e nem sou. Sou muito feliz e agradeço a Deus por ter pasado por tudo aquilo.
    Porque eu tenho historia pra contar. Sei o que é ter e o que é não ter. Mas o mais importante não ´ter ou não ter. É o SER. Não falo isso como se diz uma frase feita. Creio realmente nisso. O Brahma Kumaris me ensinou.
    A gente sente falta quando temos parametros para comparar. Como eu não tinha vivia entre os iguais..eu não sofria.
    Toda vez que vejo uma criança num farol, eu penso: eu poderia ter sido igual a eles. Mas graças a Deus não fui.
    Tive um pai e uma mãe que apesar de cinco filhos sempre trabalharam para o nosso sustento.
    Desculpa .. vc nem me conhece. Mas a sua historia me remeteu a minha.

    Beijo..
    Ma Ferreira

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  2. - Histórias de vida, quem não as tem? Mas poucos as terão tão ricas como as suas, e ninguém saberá contá-las como faz você. Lindo!
    - Parabéns, querida minha. Beijos e carinhos.

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  3. Que lindo jeito de contar que tens em ti,Milene.

    Nos encanta e prende! Um lindo fds,beijos,chica

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  4. Olá minha cara amiga Milene Lima, cada vez que por aqui passo fico maravilhado com seus textos, inteligentes e gostosos de ler, parabéns. Esse me faz recordar os tempos de criança, o trabalho que sempre dignifica nossa vida.

    Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
    Mas porque a amo, e amo-a por isso,
    Porque quem ama nunca sabe o que ama
    Nem por que ama, nem o que é amar...
    Alberto Caeiro

    forte abraço

    C@urosa

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  5. Uma bela experiência, contada em narrativa deliciosa de acompanhar.

    Bjs.

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  6. Olá, Milene!
    Adoro seus causos!kkkk
    Bjs!
    Rike.

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  7. Adorei o texto, como sempre muito bem escrito senhorita Mi, dá até pra imaginar os cheiros e sensações do local, beijão.

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  8. Mais uma viagem do tempo, que me transportou magicamente para o ambiente da produção do famoso fumo "das" Arapiraca, do qual eu tanto ouvia falar, quando vivia por essas bandas!
    Obrigado, Milene por mais esta envolvente descrição!
    Abração!

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  9. Milene..obrigada por sua visita a meu blog e pelos comentários tão simpáticos.
    Bacana vc me seguir.
    Um super beijo...

    Ma Ferreira

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  10. Que lindo... fiquei sentido, sério.
    Às vezes acho que eu precisava ter vivido algo assim pra ser menos antissocial e egoísta.
    Pensar menos na primeira pessoa do singular e mais na do plural...

    E você contou o relato de forma não a mostrar a miséria desse retrato falado, mas mostrando a humildade...
    Gostei muito.

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  11. Milene,
    Muito bem relatado, quase parece uma cena de literatura realista.
    A sobrevivência tem os seus desígnios mas, para o bem e para o mal, há marcas que ficam para sempre.

    Beijo :)

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  12. Vida vivida, sentida e descrita de maneira singular...a sua, minina-ternura!!! Lindo... e senti daqui (entre lágrimas) cada linha.
    Beijuuss n.a.

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  13. Passando para desejar um excelente Dia das Mães!!
    Que o domingo nasça em FLOR>>>
    Abraços

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  14. Momentos de lembranças da infância, fazem com que possamos resgatar algumas "coisas", ou valores, que ainda quando crianças, não se faziam percebidos. Penso, que cada recordar, é um aprendizado...alguns anos mais a frente, verá que esse mesmo texto, já lhe mostrará algo mais valoroso, valioso, pois ele é parte da sua história e da nossa história, tiraremos aprendizados eternos.
    Como sempre falo a você. Você é uma escritora nata, sabe-se expressar muito bem e tem muita intimidade com as palavras, encaixando-as exatamente no lugar certo.
    Parabéns e novo parabéns, por ter uma história para contar, não com dor, mas como aprendizado.
    Uma bela noite minha amada amiga.
    Um grande abraço.

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  15. Milene, minha amiga, que texto maravilhoso!!

    Você sabe que adoro este tipo de texto, não é? Sempre tento pescar algo assim por onde vou. Tenho um, inclusive com um pequeno filme, de uma casa de farinha, esperando que o tempo me deixe mexer com as imagens.

    É uma grande alegria entrar aqui e ler algo assim, ainda mais vendo que você fez parte da história. E escreveu com uma leveza deliciosa de se ler.

    Parabéns!

    Grande beijo!

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