domingo, 1 de maio de 2011

SUPERSINCERIDADE



A mim pouco causa admiração os brados de suposto excesso de franqueza alheia. Na verdade minha curiosidade se ouriça ao extremo matutando sobre como se mede o grau de sinceridade de alguém.

Invariavelmente o sujeito supersincero promove esse adjetivo ao posto de superqualidade. Estranha mania essa de se vangloriar das atitudes absolutamente comuns. Sob o meu conceito desimportante, a condição de sincero é inerente ao ser humano, é obrigação e não uma virtude a ser premiada. Desconfio quando ouço alguém anunciando suas qualidades de extrema franqueza... Ora, se o é, não há necessidade de proclamar aos quatro cantos. Supõe-se que tal índole seja normalmente perceptível, sem carecer propaganda ou um atestado de autenticidade.

Faço ouvidos moucos aos que palavreiam como se tivessem nascido presos a um megafone. Aceno e sorrio para as repetições de “sou phóda, faço e aconteço”. Observo, quieta, as múltiplas opiniões acerca de um mesmo assunto, aonde o sujeito opinante se adéqua às conveniências, tendo como objetivo maior angariar simpatia e admiração acerca da sua valentia declamada.

Não compreendo os que se fazem valer da pseudo sinceridade para atirar nos outros palavras feito lanças afiadas. Ferem por prazer, esmiúçam supostas fragilidades alheias para usarem como armas, com uma ausência de coragem muito pouco peculiar aos proclamadores da sinceridade. A isso conheço como covardia disfarçada de arrogância. Desses me protejo com a mais segura das armaduras, a indiferença.

Para começar a semana, para açucarar a alma, poesia:



Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe                                (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço


(Fernando Pessoa)

13 comentários:

  1. Odeio pessoas que gostam de ficar falando que são sinceras, mas na verdade usam a sinceridade como arma e esquecem que as pessoas a usam para criar críticas construtivas.

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  2. E como tem gente FDP assim. Vivem no mundo só para "roubar" o oxigênio alheio.

    Bjs e uma excelente semana.

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  3. É. Penso eu que sinceridade se mostra
    no viver dos dias no acompanhamento dos
    acontecimentos e não em palavras desnecessárias ..
    Como sempre memem arrasou !
    Um beijo meu pra vc...

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  4. Por essas e outras os tipos de pessoas que mais me cativam são as que ficam quietinhas em seus cantos, apenas observando. ^^

    Ah, coincidência, também postei uma poesia do Pessoa. o.o

    Lindo blog, beijos. ;*

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  5. Acho que fiquei meio confuso, pois desta vez não consegui captar bem a ideia.
    Mas, começar a semana pensando positivo é legal, ainda mais com uma poesia de Fernando Pessoa.
    Abraços!

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  6. - A jóia falsa é vendida aos tolos com o rótulo de verdadeira. A gema legítima não carece rótulos ou propaganda. Basta-lhe quem saiba reconhecê-la... como você.
    - Beijos.

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  7. A sinceridade não precisa ser alardeada...Pode ser mostrada, sem falar...NOTA-SE, não?


    beijos,linda semana,chica

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  8. "A sinceridade é um dom como qualquer outro. Não é sincero quem quer. "

    Beijo.

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  9. Gosto demais de Pessoa e na sua pessoa, ficou belíssimo.
    Bom, quanto a 'verdade', cada um tem a sua. Mas, existem VERDADES,que são imutáveis e não apenas questão de ponto de vista.[fato.]
    Eu, sempre afirmo que falo a verdade, muito mais por comodismo do que por virtude, acho que mentir dá muito trabalho...
    Mas, como Fernando na pessoa de Caeiro, escreveu- NÃO TENHO FILOSOFIA, TENHO SENTIDOS.
    E completo com as Cartas de Paulo ao Coríntios[acho Paulo bem 'dicunforça']-Pouco me importa ser julgado por vocês ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a mim mesmo. Embora em nada minha consciência me acuse, nem por isso justifico a mim mesmo; o Senhor é quem me julga (I Coríntios 4:3-4).

    Bora andando, minha Milerninha, ainda temos bastante chão.
    Beijos meu bem!

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  10. Na espiritualidade chamam isso de "vampirismo"...e penso como Rodolfo: não há como ficar amarelo para todo sempre...um dia a casa cai!"A sinceridade e a generosidade se não forem temperadas com moderação conduzem infalivelmente à ruína."(Tácito)E é de Pessoa tb essa: "Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária."
    Sejamos amada, simplesmente sejamos.
    Beijuuss n.a.

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  11. Olá, Milene!
    Quando a esmola é demais, o Santo desconfia!kkkk
    Bjs!
    Rike.

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  12. Olá Mi!

    Ser sincero, espero que ainda seja qualquer coisa como como ser autêntico, seja qual for o estado de alma!!! Perfeição é coisa sobre-humana. Escapa-me a necessidade de adjectivar tal coisa, que deveria ser natural.
    De qualquer forma, ferir voluntariamente outrem, se escudando nessa, não é forma de estar.

    Beijo e kandandos meus.

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  13. adoro seu blog esse cantinho é divino...

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