segunda-feira, 6 de junho de 2011

A CADA ESTAÇÃO UMA DOCE LEMBRANÇA


Gosto da saudade. Ela jamais foi pra mim uma tirana, ao contrário, é o meu elo de ligação com o mundo deixado pra trás a cada passo do meu inevitável caminhar. Consigo sorrir em quase todos os momentos nesse trem de ferro viajante no caminho de volta. São minhas lembranças, algumas marcantes, outras frágeis feito um cristal... Elas me trouxeram até aqui e lhes devo gratidão.

Sorrio quando dessa viagem paro lá nos quintais da casa da Madrinha. Me lembro que brincávamos de “rouba-bandeira”, eu, irmãos, primos, amigos... E eles fingiam não conseguir me alcançar nas vezes em que eu me aventurava a atravessar o campo adversário e eu voltava orgulhosa com a bandeira "inimiga". Aprendi desde então o significado da palavra “companheirismo”, na forma mais lúdica e genuína possível.

Seguindo adiante, recordo as tardes invernosas na rua sem calçamento. Pobres tanajuras, o chão se tornava um tapete preto tantas eram as bichinhas bundudas sobre ele, atordoadas tentando fugir dos caçadores implacáveis. Falava-se até em comer as pobrezinhas fritas, mas jamais tive o infortúnio de presenciar tal banquete exótico.

Adorava o cheiro da terra molhada, mas sobre isso só podia pensar. A Vó dizia que “fazia mal” se admirar desse aroma e eu jamais entendi porque a chuva ou a terra se zangariam por alguém dizer que gostava do encontro delas. Eu perguntava e ela apenas respondia que “fazia mal “ e pronto, me dando as costas, se dirigindo ao minúsculo quartinho de costura. Lá também moram muitas das minhas saudades, dos retalhos acumulados numa caixa, guardados feito um tesouro pra vestirem minhas bonecas, especialmente a que chorava, presente de minha tia, trazida de São Paulo.

Espiava minha tia com cara de veneração desde que ela havia voltado de São Paulo. Pra mim era um lugar inimaginável, distante toda vida e só as pessoas destemidas conseguiam chegar até lá. Olhava pra minha boneca e pensava: “esta não é qualquer uma, é mais especial, veio de São Paulo e até chora”.

Nessa minha incursão às memórias pueris, me vejo saindo desse trem para subir numa carroça de burro que me conduziria tal qual uma Miss Dayse caipiria à fazenda onde moravam meus pais, num dia de São João, num vestido vermelho de bolinhas brancas, trancinhas loiras, achando toda aquela viagem sacolejante o máximo. A ocasião era bem conveniente a essa aventura rústica... na falta de transporte adequado, incorporamos o espírito junino e ganhamos as estradas esburacadas. Meu pai era o melhor dos anfitriões, muita gente, fogos (ainda que eu os deteste), sanfoneiro, milho verde... Tudo conspirava pra alegria nem pensar em sair dali.

Ah, nenhuma viagem pode seguir sem interrupção. Devo parar numa próxima estação. O trem, movido à lembranças, há de ficar esperando outro embarque em busca das doces saudades. Feito o Trem de Ferro de Manuel Bandeira, cuja leitura era a minha preferida nos livros didáticos das primeiras séries, “vou depressa, vou correndo, vou na toda”... O presente me espera, ávido.

A vocês que docemente me acompanharam nesse breve passeio, uma semana bacaninha.
Beijos!!!

20 comentários:

  1. que delícia esse post, o texto flui que a gente lê tão gostosamente.

    viagens e saudades... quantas saudades das histórias que vivi nas viagens! rs

    bom dia!

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  2. Lindo,Milene e as lembranças e saudades sempre nos acompanham...

    uma linda semana, beijos,chica

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  3. Boas!

    Adoro este blogue!

    Podes adicionar o meu aos teus links sff?

    http://davidjosepereira.blogspot.com/

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  4. Sabe quando vc lê e pensa: quando escrevi isso?...pois é Mi, algumas poucas alterações, e poderia ser minha essa viagem - a saudade existe pq há um caminhar, são nossas lembranças, a mostrar a estrada que nos trouxe até aqui.
    Adorei!!

    Bjo e o desejo carinhoso de uma semana linda!

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  5. Uhááá! Quero passear mais, tia Mi!
    Pra mim, um saudosista que vive metade no presente, metade no passado, um prato feito!
    Abraços, Milene!

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  6. Tem pessoas que fazem ou melhor deixam saudades pelo resto da vida pessoas especiais...

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  7. Oi Mi, quer saber? A saudade em mim muito tem a perturbar. Ela dói e vem de mansinho, abrindo o telão das lembranças e dá-lhe viajar no tempo e encontrar momentos tão bons de viver (e foram - todos). Mas que pena, eles são impalpáveis e invariavelmente imaginários, completando o THE END ao final da fita...

    Acendem-se a luzes da realidade e lá se foi mais uma saudade.

    Ótima blogaga miga.
    meu afeto

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  8. Pessoas otimistas guardam boas lembranças, as pessimistas só se lembram de coisas tristes.
    A sua forma de contemplar a memória mostra que aproveita o bom sabor de viver.
    Abraços!

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  9. Tenho que confessar, ja comi tanajura... Coisas da infancia, férias no interior do Rio, em Passa Tres. Lá, a sra tanajura atendia pelo nome de saúva. A bundinha dela fritinha com farofa era uma delícia[ coisas do Manel, meu pai...]
    No pique bandeira, eu lembro sempre de apelar e não admitia nunca ser pega...'SOU DESSAS!'
    Adorei o passeio e como sempre te digo, lembro de tudo, eu estava lá e pronto.
    Beijos!

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  10. - Tanajura, Saúva, Içá... Meninas de cabelos louros em vestidos vermelhos com bolinhas brancas... o som fanhoso do parquinho de diversões (Maringá, Maringá)... ôpa! Meu trenzinho viajou mais do que o teu, menina! Mas a gente se encontra na volta. A gente sempre se encontra.
    - Beijos, Memem... carinhos.

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  11. Mais uma delícia!
    Nossa, lembrei tanta coisa de minha infância, das histórias da minha avó, sobre o interior, sobre a vida, como era mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo. Me fizestes recordas as brincadeiras, o cheiro da terra, as superstições, as coisas que mamãe diz porque ouvia da avó, e que ninguém sabe explicar, por mais que afirmem veementemente que é real.
    Milene, eu não me canso de lê-la.

    Beijos,
    Débora.

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  12. Bom Milene sou suspeito pra te elogiar, mas como sempre um show de texto e me fez lembrar das minhas próprias memórias, mas confesso que a festa junina deu uma inveja básica hehehehe, beijão linda :-)

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  13. Primeiro: Desculpe-me a demora pra comentar aqui nesse cantinho seu que amo tanto, você sabe, minha cabeça não estava boa. ^^

    Segundo: Já disse antes! Adoro suas memórias saudosistas! E eu amo nostalgia por natureza de quem sou. Nunca andei de trem sabia? Sempre quis... Ah... o mais gostoso da saudade é quando você sente falta de coisas que não viveu, principalmente das memórias que não são suas.

    Beijos saudosos do olhão. ;*

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  14. Ah que de trem entendo um cadiquim...rsrs e nesse,viajei feliz contigo. Nada como o seu lado doce - insistente - para me lambuzar! Bem sabes que nesses últimos tempos minhas saudades andam doídas, mas sei/sinto que um dia se acomodarão de tal forma que serão assim...doces.
    Beijuuss, minina-ternura, n.a.

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  15. Mi,
    Suas lembranças são deliciosas;;; E lembrar de forma leve nos faz bem sim.
    Adoro a forma como escreves.
    Um beijo,

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  16. Olá, Milene!
    A cada estação esse blog, e seus posts, estão melhores!!!
    Bjs!
    Rike.

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  17. Ah, Milene linda! Saudades desse tempinho bom.
    Parece que aqueles momentos de infância, eram intermináveis...tão bons. Até apareceu ai na sua vida uma Dayse, Miss Dayse (risos), legal.
    Meus tempos de menina pareciam bem aos seus, até nas tanajuras, e eu além de brincar de "finca", "bolinha-de-gude", brincava também de casinha, com direito a batizar as bonecas e até trocas os compadres, quando brigávamos. Veio tudo a lembrança ao ler seu texto...bom poder lembrar esses momentos, que vão e voltam com uma certa constância em nossas vidas, talvez para nunca esquecermos que um dia fomos crianças.
    Lindo texto, e uma saudade deliciosa.
    Parabéns linda, por nos proporcionar parte da sua vida.
    Um final de tarde, quase noite de terça-feira, bem feliz.
    Um abraço carinhosinho.

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  18. Milene...juro cada dia que passa te admiro mais.
    Vc nos conta as coisas tão lindamente, tão ricamente em detalhes, que a vontade que dá é que seu texto não termine.
    Vc contando de suas saudades eu lembrei das minhas..
    Sou filha de lavradores.. minha história daria um filme..mas isso não vem ao caso.
    Mais uma vez parabéns, e saiba, de coração, eu gosto muito de vc.
    Um beijo..
    Ma

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  19. Tem selinho nessa página para você.
    http://blog.daysesene.com/2011/01/presentes-recebidos-dos-amigos-selinhos.html

    Bom soninho.
    Abraços carinhosos.

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