quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A PORTA AZUL



Cora Coralina e os seus relatos sobre A Casa Velha da Ponte eram  minha companhia para as horas de espera. Mais de sessenta minutos era certeza de ficar ali, naquelas cadeiras desconfortáveis, ouvindo as vozes cruzadas formando um surreal estampado sonoro no corredor. Hospitais guardam frios e tumultuados corredores estampados.

A bem da verdade elas ecoavam, mas eu não as escutava. À minha frente estava a porta azul, larga, de soleira gasta, trancada. O que haveria por trás daquela porta da cor do céu? Eu desviava meus olhar do livro e fitava o pedaço de madeira morta, ela parecia me falar, vociferar silenciosamente, me intimando a um indigesto encontro comigo mesma.

Enquanto eu e a porta azul nos fitávamos, lembrei-me da mulher sábia com quem falara momentos antes. Suas palavras me ecoavam mais do que a confusa tentativa de comunicação das pessoas àquele instante. A mulher sábia me perguntara por que às vezes a caminhada é toda a vida em círculos, acabando por estacionar sempre no mesmo lugar... Ou em lugar algum. Imensuráveis e vãs andanças interrompidas, talvez, por não se saber ao certo o que se espera encontrar no fim da estrada.

A mulher sábia acendeu essa questão e eu não parava de pensar numa resposta. A porta azul parecia exigir que eu solucionasse imediatamente esse imbróglio interno.

Voltei-me às histórias contadas por Cora Coralina e ela me disse sobre a pedrinha de briante a qual nós todos procuramos, com afinco, pelos caminhos da vida.  E me pus a pensar que eu talvez tivesse até tropeçado na minha pedrinha de brilhante num caminho qualquer e nem me dei conta, tolamente ignorei o seu valor. Mas talvez ainda esteja por aí a minha pedrinha, esperando que eu a encontre.  Ela me dará todas as respostas e as voltas a lugar algum finalmente cessarão. Eu só preciso continuar caminhando...

A reunião findara. A mãe e o irmão chegaram acenando com a hora de voltar pra casa e antes que a porta azul continuasse a me destilar seu olhar inquisidor, pedi licença à Cora Coralina para guardá-la, levantei da desconvidativa cadeira e segui, deixando pra trás o corredor e seu surreal estampado sonoro.

13 comentários:

  1. Da soleira gasta ao brilhante perdido, locupleto-me, te lendo!
    Beijo, minha querida!

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  2. E novamente vocÊ brinca com as palavras e nos brinda com mais esse lindo texto, e lembro de uma porta verde gasta na casa da minha avó, não tem nada a ver mas lembrei, beijão Mi :-)

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  3. Que beleza, Milene!
    Só você mesmo, escrever com esta segurança, inteiramente a vontade!
    E, em companhia de Cora Coralina, você transformou esperas desagradáveis em viagens de sonho!
    Abraços!

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  4. E disse a porta azul:
    - Decifra-me ou te devoro!
    E veio a mulher sábia:
    - Eu já a devorei...
    E a cronista, ouvindo os ecos silenciosos:
    "Ainda estou com fome."

    Bon apétit, chérie... Beijos.

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  5. PS: Gostei do marcador... "qualquer coisa".

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  6. O que posso dizer deste texto tão sutil e leve de se ler,mas que estampa uma sensibilidade profunda e deixa-me sensações reticentes e surreais, como a porta azul...
    Lindo!
    Abraços

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  7. Chama de indigesto o encontro com si? Ah se de todos eles saísse sempre assim...briante!
    Beijuuss, cronista amaaada,n.a.
    P.S: fico só matutando, se o dia que ficar famosa, escrevendo numa revista ou jornal, vai continuar me amamando? Pq na madrinhagem de Rodolfo arrasou!

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  8. kkkkkk saiu amamando no lugar de amando...e vou deixar...pq gostei!

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  9. Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
    Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
    E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
    Cora Coralina

    Bjs.

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  10. olá Mi!

    caminhando, percorrendo os mesmos trajectos. talvez agora palmilhados numa outra perspectiva. colhendo os elementos menos reluzentes e lhes possas tu dar vida, fazer cintilar como nos fazes com tua alma e luz própria, aquela que a cada parágrafo me faz vibrar... porque te ouço na escrita.
    encantado... fico divagando e cerzindo os espaços que deixas em aberto para cada um de nós completar.

    beijo e kandandos meus a atravessar tanto mar, carinho de amiga querida.

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  11. Milene..

    Tudo que vc escreve me encanta.
    Não podia ser difente com esta sua cronica.

    Parabéns pelo seu DOM de encantar... Florzinha Rosadinha...

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  12. E quando você lança o seu livro?
    Minha amiga, você olha o mundo a sua volta com um olhar poético, com uma sensibilidade incrível e ímpar. Fita cada detalhe, com dedicação.
    Eu viajo, e como viajo, ao ler cada crônica tua. Me vi em Maceió, agora. Sentada, no hospital, a ouvir as vozes cruzadas e diante da porta azul, de soleira gasta. O cenário, falava mais do que as vozes, ao meu redor. Ao lê-la.
    Cora Coralina como companhia, é delicioso. Mas as reflexões trazidas pela sábia mulher, também interessantes, me fizeram dividida entre Cora, os pensamentos e a porta azul. Mas agora, eu só consigo estar aqui para você, minha amiga. Para te aplaudir e dizer do quanto te admiro. Que escrita perfeita! Magnífica!

    Beijos mil,
    Débora.

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  13. Mi... acabei de visitar o blog da Debora. E i a homenagem que ela fez a vc. Merecida.
    Vc esta linda ainda mais bela naquelas fotos... adorei!!

    bj

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