quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A BOIADA E O SERESTEIRO


Não há no mundo coisa mais obediente do que despertador. Na hora marcada o infeliz berra, fazendo qualquer pedra sair da cama aos pulos. Hoje não foi diferente, às cinco e meia da matina estava eu querendo estourá-lo no chão, mas recobrei o bom senso e fui logo pro chuveiro. Daqui a pouco era momento de seguir em mais uma viagem a Maceió.

Às seis estávamos saindo. Em quase meados de outubro pensei ser um disparate levar casaco, o Sol havia surgido, lindo e imponente feito os melhores dias de verão em plena primavera. No som do carro tocava um sujeito meio seresteiro, misturando MPB, forró pé-de-serra, uns trashs nacionais dos anos 80... Suportável até ouvi-lo cantar Marisa Monte “Amor I Lhove You”... Lhove foi demais pra minha cabeça sonolenta. A muito custo sufoquei o riso, afinal o moço motorista estava sendo muito gentil em conduzir Miss_Lene e não seria bacana constrangê-lo.

No caminho a paisagem agradava. A chuva dos dias passados dispôs os tons de verde nos pastos e lá no alto dos morros, as boiadas branquinhas ganhavam destaque no colorido cheio de vida... Gosto de observá-los ali, pendurados no terreno íngreme, quietos, mais parecendo peças sem vida de uma imensa maquete. Mergulhada na minha vã filosofia, constatei que sempre os achei um tanto taciturnos. Devem saber o quão efêmera é a sua existência.

Dessa vez a viagem não se dá pelo litoral, então não há nada senão asfalto, casebres e os bois a me inquietarem com sua vida vulnerável . Aqui e acolá uns pedaços de mata esquecidos nas serras surgem às minhas vistas tornando menos enfadonho o caminho... Fragmentos da natureza, firmes no propósito de não desaparecerem por completo.

Definitivamente o verbo ir é um dos quais aprecio desconjugar, mas percebi que maturidade é colocar adiante dos meus melindres o que realmente tem significado na minha vida. E essas viagens são decisivas na retomada por uma vida que deixei escapar lá atrás. Preciso ir.

Quase duas horas depois das seis da manhã, estávamos na lanchonete do hospital providenciando um desjejum. Peço ao meu irmão que vá confirmar se a doutora já chegou e quando ele volta com o meu cartão hospitalar ainda na mão, estranhei um tanto, pois no ambulatório eles o recolhem pra acrescentar ao prontuário do paciente no ato da consulta. Sem mais, ele me diz: “Eles não quiseram recolher o cartão simplesmente porque não tem nenhuma consulta marcada pra hoje”... Tentei retrucar um “como assim?”, ao tempo em que dava uma espiada no dito cujo e para minha total palidez de alma, estava lá muito bem assinalado o dia CINCO DE OUTUBRO e não SEIS feito euzinha havia memorizado...

Infelizmente a máquina do tempo só existiu em De Volta Para o Futuro e assim sendo não pude ser atendida numa consulta que aconteceu ontem.

Minha mãe solidarizou comigo. O motorista gentilíssimo não soube que saiu de casa e rodou em vão tantos quilômetros. Meu irmão toda hora me olhava e balançava lenta e negativamente a cabeça...

Na volta, os bois continuavam penduradinhos no mesmo lugar, mas dessa vez mostravam uma cara branca mais descontraída. Eu diria irônica. Debochariam de mim os ingratos?

O seresteiro voltou a cantar Amor I Lhove You... E dessa vez, solidária com outro integrante do movimento do “sem-noçãonismo”, até cantarolei com ele.

11 comentários:

  1. Vaiiiiii boiadeiro que o dia ja vem.....
    Leva o teu gado e vai pra junto do teu bem... rss

    Deussssssssssssssssssskiajude
    Beijuuuu muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
    Tatto

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  2. Vixe Mi... Ninguém merece!
    Solidária contigo, minina...

    Relaxa que talvez não fosse hora de passar no médico. Nada acontece por acaso!!

    bacios cara mia
    fica bem

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  3. É minha amiga! Dizem que nossa mente grava muita coisa, mas o que ela nos faz esquecer, é por que era para ser jogado fora. Tudo tem a hora exata para acontecer... na realidade, a sua consulta, seria para verificar como "andaria os seus nervos" e você já os conferiu indo e voltando na sua viagem...percebeu, que indo, estava mais tensa e irritada com o I love you...percebia-se alteração no humor e na volta, mesmo perdendo a consulta, você até cantarolou. Conclusão!!! Saúde 10(dez), nervos? Que nervos? O importante é ser feliz...está é cantarolando.... É isso ai Milene. Bola para frente...

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  4. Crescem em número os Sapiens que caminhamos a teu lado; mas cresce também a tua criação de pequenos primatas. E mais que tudo, cresce o teu talento para aliciar os primeiros com as belas crônicas com as quais vestes, em cores vivas, os segundos...
    Beijos, Mi.

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  5. Tuas crônicas são excelentes e ficamos com gosto de quero mais ao terminar.LINDA! beijos,chica

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  6. Mizinha...sabe..acredito que nada é por acaso.
    Até o que da errado da certo.
    Sério mesmo.

    Talvez o médico que iria te atender não fosse bom.. quem sabe?

    E pensa... ganhamos uma bela cronica...com seu jeito inconfundível de tirar agua de pedra de maneira tão linda.

    Esta semana aconteceu isso comigo. Cheguei um dia depois tb..mas e dáí?

    As vezes precisamos aprender a dizer.. ah é: esqueci? f.....

    Beijokinhas de amizade a carinho!!

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  7. Olá Mi querida.

    O que não tem remédio, remediado está.
    E assim regressaste aceitando o facto e cantarolando. Atitude positiva, e que deu direito a uma crónica bem disposta que foi um prazer ler.

    Antecipando, fica o desejo de um óptimo fim de semana.
    Beijo e kandandos a travessar tanto mar...

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  8. Ola Mi,
    Eu gosto muito de textos sobre o cotidiano e você os escreve muitissimo bem.
    Um beijo,

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  9. Eu não acredito em coincidências...

    Gostei tanto do teu texto, Milene!

    Beijos.

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  10. Milene... tu gastou a verve aqui, hein? primor de texto... delícia de ler.
    "Devem saber o quão efêmera é a sua existência"... será o contrário não? eles não sabem, não percebem a efemeridade do momento, a proximidade do abatedouro e gastam as horas mascando o capim ruminado, feito nós, que consumimos o tempo remoendo injúrias, bobagens, esquecendo tb da nossa própria condição efêmera, onde não "somos", apenas "estamos"... transitoriamente.
    beijo do seu anônimo preferido e apaixonado...

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  11. Da crônica o de sempre: meu encantamento. De um jeito tal que até parecia que eu estava junto nessa perda de viagem.
    Da consulta (se penso que sei do que se tratava): BOICOTE purinho! Inconsciente, fia, é fédapulicía...então trate de verificar cum ele o que tá acontecendo???!!! "E essas viagens são decisivas na retomada por uma vida que deixei escapar lá atrás."
    Agora digo mais: se for prele servir de mote pra essas crônicas que a-do-ro...hum...boicota mais, pediria eu.
    (Tô esprimida entre o desejo de istapiá-la todinha e o quero maisssss crônicas!aff)
    Beijuuss, di-vi-di-dos, n.a.

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