quarta-feira, 12 de outubro de 2011

JK, UM BRASILEIRINHO



O menino dorme. No seu sonho lúdico ele até sorri, um riso inteiro e puro.  Ele gosta da companhia do super-herói imbatível que o mantém a salvo dos perigos do seu pequeno mundo cheio de conflitos. O Super-Herói Amigo envolve com suas enormes mãos de pelúcia as orelhas do menino e nenhum ruído monstruoso o amedronta.

JK gosta desse seu sonho, queria mesmo era viver pra sempre nele. Mas aos poucos começa a perceber a ausência das enormes mãos de pelúcia a lhe protegerem. Pensa que talvez o Super-Herói Amigo  tenha saído às pressas, sem tempo de avisá-lo. Estava mais uma vez sozinho diante do ruído monstruoso e sente medo. Sua inocência de quase oito anos não o permite compreender porque é preciso acordar do seu sonho e viver tudo aquilo de novo: seus pais, quase tão meninos quanto ele, e o tio gostam das festas na madrugada, quando voltam da rua. E o miúdo JK , desperto pela música alta, gritos e brigas constantes, não consegue mais dormir. Talvez, pelo menos dessa vez eles não peguem seu caderno... Quem dera pudesse escondê-lo e não permitir que lhe arrancassem folha por folha pra fazer aquele cigarro estranho. A Vó tanto reclama e de nada adianta, eles sempre fumam o caderno do menino. JK espia e não compreende.

O menino não gosta de ver a Vó zangada, se preocupa com ela. Muitas vezes a ouvia tentando aconselhar os filhos, dizendo que a madrugada foi feita pro sono, eles apenas riem, debocham dela. Uma vez o menino ficou com muito medo; tanta era a baderna em sua casa que ela, num desespero compreensível, tentou machucar o pai de JK, seu próprio filho, com uma faca. Por sorte nada mais sério aconteceu. O moleque gostou de pensar que o seu Super-Herói Amigo veio ajudá-lo, mesmo ali não sendo seu sonho.

Em noites assim o menino nem dorme. Assiste resignado, torcendo pra tudo acabar e logo chegar a hora da escola, mesmo descansando só um pouquinho. Ele gosta da escola, lá tem merenda todo dia. Lá ele brinca com a turma e nem se importa quando a molecada fica rindo do seu chinelinho gasto ou fazem algazarra do seu cheiro pouco agradável. Ele prefere ouvir isso é do que estar estar em casa vendo o pai, a mãe e o tio bebendo, dizendo aqueles nomes feios que a Vó diz pra ele nunca falar, cheirando uma farinha esquisita e fumando o seu caderno.

E a tia da escola é boa com ele. Quando o menino chega muito atrasado ela já imagina o acontecido durante a noite. A Vó um contou tudo pra ela. Então a tia espia JK com olhos de lamento, coloca a mão em sua cabeça num gesto instintivo de proteção e diz pra ele entrar na sala. No armário há sempre um caderno pra ser reposto, até virar o cigarro estranho novamente. Uma dia a Vó pediu pra professora tirar umas fotos do menino. A pobre senhora queria mostrar pra mãe de JK como o menino era feliz na escola e se nunca saísse de lá, podia crescer gente de bem.

No dia combinado pra sessão de fotografia, chegou JK vestido na sua camisa menos judiada, abotoado até o pescoço, carregando um sorriso nos lábios e um brilho no olhar de um menino comum dos seus quase oito anos, ao invés do olhar perdido trazido das noites não dormidas. Feliz, a Vó levava pra casa as fotos reveladas pela professora, feito fossem peças de um valioso relicário.

Quando era outra vez de noite, o menino esperava ansioso pelo seu sono. Quem sabe o Super-Herói Amigo com suas enormes mãos de pelúcia passaria com ele a noite inteirinha, a proteger seus ouvidos de qualquer barulho monstruoso, amém!


Qualquer semelhança com a realidade NÃO é mera coincidência. Ouvi da minha prima CIDA, a tia da escola, relatos sobre esse menino e isso volta e meia visita minhas lembranças. Ontem, quando perguntei mais detalhes dizendo a ela que gostaria de escrever algo sobre o assunto, a moça chorou lembrando especialmente do episódio das fotografias. Segundo me disse, foi contagiante a alegria dessa avó levando pra casa as fotos do seu menino. Não é a primeira vez que me emociono ouvindo Cida, emocionada, contar dos seus alunos. Assim sendo, rendo através dela as minhas homenagens também ao DIA DO PROFESSOR, essa pequena e brava mulher, porque é uma professora que se importa. A ela, meu beijo e meu orgulho. Quanto ao Super Herói Amigo e suas imensas mãos de pelúcia, foi costurado por mim nesse enredo, mas espero que JK tenha qualquer outro amigo imaginário, que o ajude a suportar provação tão cruel para uma criatura de oito anos de idade.


12 comentários:

  1. Com olhos de lamento li tua homenagem tão bonita - e estendida ao Dia do Professor - mas tão doidamente corriqueira nas casas de crianças que carregam no olhar sua experiência dura.

    Emocionante, Mi.
    Passo a tarde de amanhã num orfanato, levando mais do que o presente de meu afilhado, a presença, o carinho, o toque, o "me importo com você"...não posso mudar o mundo, mas faço o que posso com minha ideia de um mundo melhor...

    Beijo, minha amiga sensível.
    Admiro tanto vc...

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  2. Dura realidade esta narrativa, que deve servir para vários outros JKs que existem por aí.
    Infelizmente, muitos serão absorvidos pela influência do meio e trilharão caminhos tortuosos...
    Abraços, Milene!

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  3. Parabéns Milene...

    Que texto bacana, muito bem escrito, me levou até a ficar me lamentando...rsr

    Assim, o papel de professor se mostra mais eficaz, no meio de uma família desestruturada...

    Flores a ti...

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  4. O verdadeiro super-herói é a tia da escola. É a prima Cida. São tantas outras... e você, também.
    Beijos, Mi.

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  5. Ah, Milene... só vc pra transformar a história do JK num texto bem elaborado e gostoso de se ler. Me emociono sempre ao lembrar dele e de outros JKs que tenho na minha sala de aula... cada um com uma historinha de vida bem complicada.
    Obrigada pela homenagem... obrigada ao Barcellos pelas palavras.
    Beijosss

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  6. Ser professora tem disso!
    A gente vê e escuta casos, que nos deixam emotivas, independe do tempo que lidamos com a profissão.
    Tenho depoimentos registrados em minha mente, inesquecíveis. Histórias parecidas a essa e outras até bem piores. Mas tenho também histórias lindas, de exemplo de vida de muitos alunos.
    E fico cá pensando a força que essas crianças maltratadas têm, mesmo sofrendo tudo isso e ainda se salvam vivas, nesse mundão "cinzento".
    Mas são os "ossos do ofício"
    Professores também nasceram para serem heróis de muitos alunos, nasceram para poder pelo menos perto deles, tentarem ajudar, mesmo que seja mínimo necessário.
    Mas é bom relatarmos alguns casos assim, para se não pudermos ajudar o suficiente, pelo menos não reclamarmos da vida que temos. Há de saber, quantos sofrem nessa vida a fora não é mesmo?
    Aproveito a "deixa" e deixo também, meu abraço a todos os professores, que por aqui passarem, pelo seu dia, que já está pertinho.
    Uma bela noite minha amiga Milene.
    Um grande abraço.
    Bons sonhos.

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  7. Estava a assistir, há pouco, o telejornal. Uma matéria triste, lamentável, sobre crianças. Família desestruturada, fuga, rua, drogas, crime, dor, morte. Era basicamente esta a linha traçada para cada criança. E olha, como me doeu, ver aqueles seres, tão pequenos, com uma vida tão sofrida, com tantos problemas e dores, mágoas, cicatrizes mais do que exteriores. Ao ver histórias como a do JK, como as que vi hoje, no telejornal, me pergunto o que farei para mudar isso, e ao ver as crianças na África, e as do Congo, e a prostituição e as mortes, e tudo, sempre me pergunto o que farei. E como me dói pensar que eu não vou conseguir extinguir isso tudo de uma vez. Eu não tenho o poder de estruturar todas as famílias ou destruir todas as armas. Talvez, se eu pudesse tocar no coração das pessoas, de cada uma delas, mas acho que não, há tantos outros, pela história, tantos outros hoje, que utilizam os meios de comunicação para incentivar, conscientizar, e parece, às vezes, que nem há mais solução. Que extinção disso tudo, é utopia. Ah minha amiga, é tão difícil ser espectadora do mundo.
    Mas olha, parabéns pelo texto, eu senti as dores desse menino e, como é o que me cabe agora, o colocarei nas minhas orações. Acredito que isso tudo servirá de estimulo para que ele cresça e conquiste, e ele lembrará da vovó que tanto lutou para que ele não fosse afetado por essa realidade, lembrará também da tia Cida, aquela que pôs a mão na cabecinha dele e o compreendeu, o ajudou, segurou a sua mão na hora de subir os degraus para a próxima fase.
    Bem, Mi, que saudade senti daqui. Me desculpe a ausência, é aquela correria que você bem sabe, rs. Mas é sempre um prazer estar por aqui.

    Beijos,
    te amo!
    Débora.

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  8. Me dóem esses JK's, me dói a minha sensação de impotência.

    Lindíssimo teu texto, Milene, parabéns!

    Um beijo.

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  9. Pena que existem tantos desses JKs na vida real,não?

    Emocionante e lindo! beijos,chica

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  10. Quantos meninos assim existem espalhados pelas estradas da VIDA.
    Os rostos são sempre os mais belos, carregados de sonhos e risos que aos poucos vão sumindo para darem espaços às amarguras, tristezas e coisas mais aterrorizantes ainda.
    As mãos de pelúcias, as tias das escolas, um parente mais afetuoso os abandonam e eles caem á revelia...
    Confesso que me emocionei e sai tristonha daqui, mas há que se saber sempre dos JK.
    Um texto bem escrito, amiga!
    Beijo

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  11. Nossa Milene.. vc me fez chorar..

    Da maneira como voce escreveu sua cronica....colocando a triste realidade
    de muitos de nossos meninos... impossivel nao ficar tocada.

    Fiquei com vontade tamanha de dar carinho a esse menino gente..

    Ainda bem que ele te a Cida, e a Avo..

    E que Deus de forca a ele para suportar essa provacao..

    Que ele cresca, que continue nos estudos, que consiga uma profissao,
    que tenha um amor na vida e que nao siga os exemplos dos seus pais..

    Vou orar por ele..... e por vc.. pra Deus continuar a iluminar o seu DOM.

    Vc e um encanto!

    Bj.

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  12. Era disso que eu estava falando.
    Não importa o tema, é tua escrita
    que emociona...

    beijo memem amada...

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