sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A CRONISTA E A RAPADURA



“Não, não escreva, Milene!”... Lancei-lhe palavras ao vento na esperança de poupar os olhos dos leitores de mais escritos metidos a engraçadinhos. Ela bem ia contar uma história bizarra do amor entre a sua Vê e o seu útero aumentado. Pois a tal cronista diz que seus cálculos biliares conseguiram uma espécie de passe provisório e saíram a passear pelos sistemas todos, aportando no sistema reprodutor e caindo de amores pelo útero aumentado. Por lá andam a fazer baile, causam dor, produzem cólicas. Suplício!

Por sorte as palavras ao vento bateram na consciência escrivinhadora e ela desistiu desse enredo bizarro. Mas não se pode deixá-la sozinha... Qualquer escrita sua hoje não sairia a contento. Mal desistiu do amor abdominal, já pensava em desenhar em letras tristes a ilusão. “Besteira, mulher! Criaste as tuas ilusões, não lamente tê-las perdido. Elas são visitas passageiras, cedo ou tarde haverão de se despedirem para pedir abrigo em outra morada. Apenas alimente sua alma enquanto estiverem por perto”...

Pensei em aconselhá-la a devorar um bom livro de auto-ajuda, daqueles em que as saídas dos labirintos mais encalacrados parecem fáceis feito caminhar na grama. Rejeitou o conselho e franziu o cenho. Perde de vista a paciência com alguém tentando lhe sugerir até os próprios pensamentos. Sorriu sarcástica lembrando do escritor autoajudativo e rico (muitos compram sua auto-ajuda, cujo queijo ele não sabe quem mexeu) e resolveu propor um similar adaptado aos costumes nordestinos, com o singelo título abaixo exibido:


Dessa vez não consegui conter a suposta cronista com talento para o picadeiro. Escrivinhar é seu ópio para momentos em que as ilusões se esvaem e a realidade assume a face estranha da dor física, diga-se de passagem, provocada por ela mesma. Mas esses dias, quando um amigo recém liberado de um tratamento para aniquilar um linfoma, perguntou como ela estava, lembrou das palavras do irmão desse moço na sua sala dizendo: “todo esse tempo de luta e eu nunca vi esse cara sem um sorriso no rosto”... Então ela  desistiu de responder a sua pergunta gentil lamuriando dores insignificantes do corpo ou da alma. Não tinha esse direito. E eles conversaram animadamente como era de costume... Ela apenas esperou que no dia seguinte outra ilusão batesse à sua porta e o romance avassalador entre um útero carente e pedras vesiculares indóceis, já estivesse bastante desbotado.

Enquanto isso, eu não a deixarei escrever asneiras...


12 comentários:

  1. Memem


    primeiro eu choro sua dor...depois eu rio muito....

    amo-te

    beijocas

    Loisane

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  2. Moça cronista rabiscadora de meus penares... QUE BICHO MORDEU O CACHORRO DO SEU RABO? Tu e essa outra são uma só, e assim serão eternamente, até que o bisturi as separe!
    Impetre um habeas corpus para tuas ilusões, na vara e comarca competentes... mas providencie a condenação em última instância desta Vê, ré confessa do sequestro de suas inspirações!
    Te cuida, menina... te gosto como a um tijolinho de rapadura das boas... Beijo!

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  3. kkkkkkkk Tô contrário de Lois: 1º rio docê(doce de rapadura) e 2º fico P.da Vida com essa Vê. Mas faço o quê? Até ela te inspira...Outra coisa: véia é a sua Vê, visse?rsrs Só euzinha posso nomear-me assim! Pura constatação...pura e melodramaticamente trágica.
    Cuide-se minha Mi_nina e mande essa Vê lá pro espaço...quem sabe ela não encontra em ET o grande amor de suas dores?! E que fiquem por lá...podem até procriar...mas bem looooooonge de nós, né?
    Beijuuss, doces e apaziguadores, n.a.

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  4. Que narrativa heim? Parabéns!
    Se alguém mexer na minha rapadura, o bicho pega!rs
    Abraço

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  5. Mas escrever asneiras as vezes é legal também, faz bem pra alma, desopila o fígado e limpa o pâncreas tudo de bom, hehehehehe, beijão Mi e nem preciso falar que o podcast tá no ar :-)

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  6. Rsss....Tu és maravilhosa e adoro tuas crônicas com rapadura ou não,rsrs beijos,chica

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  7. Um belo exercício a partir de quase coisa nenhuma.
    A sua capacidade de escrita é admirável, Milene!

    Beijo :)

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  8. Olá,Milene.Essa é minha primeira visita ao blog.Vi seu link em outro blog e resolvi vir conhecê-lo.Adorei seu blog e já estou lhe seguindo.Seu blog é muito bem organizado e suas postagens muito bem elaboradas.Nossa,você escreve muito bem!Eu amo crônicas e por aqui vou ficar,as suas são fantásticas!
    Te convido a conhecer meu blog e segui-lo também.Aguardo sua visitinha!
    Bjs!
    Zilda Mara
    http://www.cacholaliteraria.blogspot.com

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  9. Escrevinha, escrevinha, escrevinha, guria!!!

    Acho uma delícia a tua dança bonita, ritmada com as palavras!

    =)

    Beijocas!

    * Adoro rapadura. Rá!

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  10. Amiga, asneiras sempre são bem-vindas pois desopilam nossa bilis... rsrsr
    Abraços!!!!

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  11. "Qualquer escrita sua hoje não sairia a contento." Mas quanta asneira... kkkkkkkkkkk

    Esses dias não existem para vc, que já é uma das minhas escritoras preferidas!
    Acho que fiquei querendo essa cronica, ve se solta essa menina escrevinhadora ai e deixa-a escrever o que lhe vier na mente... seremos gratos...

    Beijos!

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