sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Dos Riscos e das Imensuráveis Pequenas Saudades



E segue-se fazendo alguns riscos... Essa frase tão poética surrupiei de um papo com meu amigo Antônio, no MSN. Rimos do contexto, de como se encaixava perfeitamente no que é a vida, senão riscos que fazemos enquanto a percorremos. Me pus a pensar no que rabisquei em minha caminhada. Senti saudades, saudades singelas. É dessa saudade que falo. Da saudade dos riscos e rabiscos na tentativa de compor um desenho nesse imensurável e imprevisível papel chamado vida.

É da saudade simplória de espalmar a minha mão no cabelo crespo do Wendel enquanto ele gira a cabeça, se transformando no mais caloroso massageador de mãos que já se teve notícias, enquanto tenta me convencer que tem sempre razão nos pontos de vista sobre música e futebol. É da saudade do vinho tomado na calçada, vendo o dia clarear, todos deitados numa esteira de palha, recostados em almofadas, ao som de Legião Urbana, embora um ou outro enamorado sempre implorasse pra ouvir Fábio Júnior. É da saudade de ajudar meu pai na costura dos chapéus, esperando ansiosa a sua chegada da feira, pra saber se enfim tinha se rendido e trazido o LP do Luís Caldas que pedimos (meu passado me condena?). Dos carnavais na praia, dormir na calçada e acordar cedinho com o leiteiro aos berros, parecendo gritar no meu ouvido. De quando um dia, sem combinação alguma, eu e meus irmãos começamos a batucar nas panelas de minha mãe, praticamente formando uma banda caseira, liderados pelo meu pai... Foram minutos apenas, mas inesquecíveis pela singeleza e espontaneidade. Rabisco a saudade do André, meu siamês que se enroscava nas minhas pernas, quase me fazendo cair, mas que quando uma madrugada escorreguei e fiquei entre dores e aflição no chão, com a perna fraturada, ele foi meu único companheiro, andando em minha volta naquele silêncio gritante, como se estivesse a perguntar porque eu não me levantava logo. Das cartas de amor, das declarações de amizade perfumadas e destinadas a tantos cantos por aí e da ansiedade em receber as respectivas respostas, pretexto pra escrever mais e mais. A imensa saudade do sorrisinho pequeno de minha avó, com sua mãozinha no queixo a ver as novelas que não compreendia e a ralhar comigo por sempre ficar de madrugada vendo filmes no Corujão. De trabalhar por um período à noite, na escola, reagindo às implicâncias do Ed espancando-o e beliscando, pra depois ficar de mal até receber vários bilhetinhos dele dizendo que era muito ruim ficar sem falar comigo. Das viagens malucas que fazíamos aos fins de semana, como por exemplo, ir pra casa da Cléo, em Penedo e perder o último ônibus de volta porque não compreendemos que a placa com o aviso VIA ARAPIRACA significava que o dito cujo passaria aqui (to armada de peixeira 100 polegadas caso um engraçadinho ouse me chamar de loira... e dá até processo). Dos riscos alegres na alma quando ganhei o livro FELIZ ANO VELHO... Foi bom ler que eu não era a única pessoa a me sentir um ET uma boa parte da vida. Das tolas discussões com meu irmão Geovane sobre tudo... O grande barato era discordar, seja lá qual fosse o assunto; até torcendo pelo mesmo time arrumávamos motivo pra questionamentos.

Quero seguir fazendo-os, rabiscando as paredes de minha alma desassossegada, colecionando fragmentos de felicidade, armazenando-os todos num memorial de imensuráveis e simples saudades, pois as coisas despretensiosas são as que fazem tão bonito o nosso riscar.

Beijos...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A SANFONA


Misericórdia! Por que não podemos segurar o tempo só um bocadinho, heim? E já que não é mesmo possível essa proeza, não há magia ou bruxaria que o faça, bem que poderia ser possível segurar as ruguinhas, lindinhas de estimação, só por umas estações repetidas.
Ai que trauma!
Ai como ser mulher é difícil, Pai do Céu!
Postei uma foto toda serelepe num determinado site, quando fui conferir a dita cuja fiquei sem compreender quem era a moça enrugadinha em questão. Vi lá umas coisas no cantinho do olho miúdo que mais parecia uma miniatura de sanfona. A reação foi correr ao meu potinho de creme comprado há séculos e intacto, o qual não consegui ler se era pra uso noturno e diurno, mesmo com o auxílio dos meus companheiros de leitura, os óculos, tal era a miniatura das letrinhas. Fim de carreira total, não tem chororô!
Corri pro MSN pra desabafar com minhas amigas, colei o mesmo recado pra três pessoas: Cida, Déya e Simone... As três responderam ao mesmo tempo e quase pude escutar os kkkkkkks de tão alto que soaram. Solidariedade, heim? Só porque euzinha sou a mais velha das quatro.
Nòs, sexo frágil (oi?), somos mesmo maluquinhas. Eu parei minutos a fio reparando na famigerada sanfona e perguntando por que diabos tinham que ter ido parar ali, logo em mim que nunca fiz mal a ninguém e adoro Luiz Gonzaga. Tem nada a ver com o assunto, eu sei, mas compreendam que estou num breve instante de trauma pós-descobrimento de rugas e a sanfona foi aqui citada.
Pelo menos pude perceber que não estou sozinha nessa peleja. Simone disse que tem dias que acorda se xingando no espelho, dizendo pra Si (estou impagável hoje) mesma que é bem feinha, heim? Em outros dias, porém, acorda e fica se admirando por horas do quanto é lindinha (agora ela vai falar com os moços da milícia pra mandar me matar). Cidinha, priminha dos zóio da cor do mar das Alagoas, me mandou deixar de ser besta, que tenho bem menos que ela, que inclusive anda sem querer sorrir em fotografias pra não aparecerem as notas musicais de Asa Branca na sua sanfona particular. Só tenho amiga assim, pouco exagerada. Já a Déya fica esnobando, só porque é menininha e não tem rugas ainda. Mas falei que vou encomendar umas pra ela. Tem que ser solidária, pelo menos eu penso assim. Amiga que é amiga compartilha até rugas, oxente!
Tenho que ir agora, macambúzia, tocar minha sanfona pessoal ao tempo em que passo mais umas cinco camadas do creme... Quem sabe elas, esses horríveis e indesejados seres, sumam como num passe de mágica.
Vou ali... Pessoas... Vou ali!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

INTRÉPIDA SEGUNDA-FEIRA



Encarar uma segunda-feira com preguicinha é algo impensável para quem trabalha em escola pública, ainda mais improvável em se tratando do primeiro dia de matrícula para os alunos novatos.
Começo a romaria de bons dias e sorrisinhos sonolentos até cruzar toda a calçada que leva à secretaria. Gente, muita gente! Encontro meu birô essa coisa organizada da imagem acima. Quero voltar pra casa, pro aconchego da minha caminha, mas não dá, é necessário encarar.
De pronto duas mulheres começam um papo meio surreal sobre os tarja-pretas potentíssimos com os quais se mantém “sob controle” por um tempo considerável. De repente o diálogo tragicômico:
- Esse remédio dá um sono da gota, a gente fica mole.
- Massa é quando misturo com cachaça, aí ninguém me segura.
- Tu tem sido internada ultimamente?
- De vez em quando vou lá.
- E as enfermeiras do CAPS ainda dão banho nas pacientes?
- Dão sim! E eu adoro quando elas cortam as unhas da gente.
- Ah! Eu gosto mais do ITA, lá a gente come bem que só!
Enquanto o papo seguia, eu quietinha lembrava que há dias havia tido um pequeno entrevero com uma das... Como direi? Por favor me ajudem aí com o politiquês correto... Sigo chamando de maluquinhas belezinhas. O fato é que escapei de levar no mínimo uns cascudos. A propósito, CAPS e ITA são dois hospitais psiquiátricos de minha cidade.
A manhã segue e a muvuca também. As pessoinhas falam alto e todas ao mesmo tempo, meu Deus do céu! Me remeteu à época em que ia às segundas-feiras pra feira livre aqui da cidade pajear meu pai enquanto ele dizia que “moça bonita não paga mas também não leva”. Era uma curtição! Ficava sentadinha nos caixotes grandões aonde ele transportava suas miçangas, como costumava chamar. Era massa observar a interação entre os feirantes, a sintonia com os visitantes, que vinham de todos os cantos desse agreste querido. Meu pai adorava exibir a branquelinha fofa dele para os colegas camelôs e eu me sentia a própria Princesinha da Feira Livre (não ousem desmerecer meu quase-título!). A propósito, parte dois, foi por muito tempo a maior feira livre do Nordeste. Quem duvidar consulte o mister Google.
De volta à realidade, acelero o processo de preenchimento das matrículas, enquanto mães e avós a minha volta, ouvem vez ou outra a negativa diante de sua solicitação de vaga. Os olhos pidões suplicam que revejam seu caso... Dá vontade de me por, de mãos no queixo feito a dona do divã verdadeiro e dizer:
- Me conte aí seu problema!
Ou tal qual a Dora, personagem de Fernanda Montenegro em Central do Brasil e ficar horas ali ouvindo as histórias reais e sofridas de cada um.
-Eu crio sozinha essas duas meninas, o pai delas morreu. Não tenho com quem deixar, elas tem que estudar perto de casa.
- Sou avó dele, mas crio desde pequeno. A mãe nunca quis saber. Eu já to véia, não dá pra levar pra uma escola longe.
- Moça, meu marido bebe. Ele vai de noitinha pegar a bichinha lá na outra escola e vem por essa pista de bicicleta com ela, cheio de cachaça. Se não tiver vaga aqui ela vai ficar sem estudar, porque eu morro de medo.
E tenho que reafirmar pra essas pessoas,inclusive a essa última, grávida, que cai num choro compulsivo ao terminar de falar, que infelizmente não há o que fazer. As salas não comportam a quantidade de vagas solicitadas, apesar das alegações de que incluindo só o seus filhos não fará muita diferença. Os olhos suplicantes se sucedem proporcionalmente ao nosso constrangimento em negar os pedidos e simplesmente seguir. Os órgãos da educação – município e estado – disputam a tapas os alunos no início do ano letivo. Cada matrícula feita é sinônimo de máquina registradora fazendo aquele barulhinho... É grana nos cofres. Então, que amontoem-se crianças nas salas de aula sem oferecer ao professor a mínima condição de desenvolver um bom trabalho. O negócio é faturar e fabricar bons índices de desempenho para enviar ao MEC. E a essas pessoas que só querem facilitar a vida das suas crianças e a delas próprias, com um tanto menos de sacrifício... O que dizer?
Bem-vindos ao (faz-de-conta) Sistema Educacional Brasileiro!

domingo, 23 de janeiro de 2011

DOS MEUS BOTÕES



No meu minúsculo quarto, escuro nesse momento a não ser pela claridade do monitor, reflito e filosofo presunçosamente com os meus botões sobre tantas coisas... Ou sobre nada. O escuro me seduz, vez ou outra gosto de estar a sós com ele.
Lá fora ouço o barulho da chuva. Gosto também da chuva a cair mansamente no telhado, se derramando no asfalto... Faz meus pensamentos irem além de mim, deixo-os seguirem com ela.
Nesse momento são complexos e perturbadores os meus pensamentos. Egoísmo, empatia, orgulho, vontade, melancolia, amor, tédio, são os que surgem sem pedir licença ao meu pensar... Ingredientes reveladores. Dariam uma boa composição poética, talvez triste. Versaria sobre cada um deles se fosse poeta e assim os tornaria menos assustadores. Não que o amor seja assustador. O amor é nem sei o que... É um fugitivo de mim. Um arredio e caçoador de mim! A complexidade dessa relação abre frestas para que um tanto de emoções se façam presentes, inquietem, pressionem.
 Me perguntam, os meus botões, se sou capaz de citar quais ingredientes compõem a minha fórmula, única, imperfeita. Jamais poderia responder a tal questionamento. Não sei! Na verdade nem sei o quanto quero saber. Prefiro lidar com o acaso, a surpresa em descobrir a cada dia um tanto. Haverá o contentamento e na mesma proporção o desencanto comigo mesma. Poderei compreender ou meus fantasmas apenas se agigantarão. Caminharei na tênue linha entre a beleza e a feiúra da alma.
Ainda ouço a chuva que cai e mansa, se recusa a adormecer. Ainda reflito meus desassossegados sentimentos. E a vontade súbita é abrir nesse instante a porta, sair à rua e me deixar banhar por essa chuva, permitir que ela se derrame sobre mim e me lave a alma, me leve os pensamentos rançosos e mesquinhos. Caminhar pra lugar nenhum, apenas ir... No escuro e sob céu chuvoso, caminhar.
Seguirei divagando em meus tolos sentimentos, na companhia dos meus atentos botões, aqui no meu minúsculo quarto sob a luz apagada...
E lá fora a chuva cai.


EM TEMPO: Não demorei muito imaginando se fui merecedora ou não. Se o fizeram é porque causei isso, de uma forma ou de outra. Como? Não sei! O fato e que me sinto oscilando entre boba e lisonjeada com as postagens dos meus queridos Déya e Rodolfo, aos quais me sinto como se num abraço caloroso, apertado, dizendo-lhes assim do meu muito obrigada. Ela escreveu tão sensivelmente sobre mim que me fez chorar... Fiquei mesmo entre risos e lágrimas, feliz e acalentada. Ele é mestre em me fazer sentir querida. Escreveu um texto incrível sobre  música, cantou um poema em Mi Sustenido Maior, fazendo lindas as minhas palavras atoa. É genial esse homem! Aos dois eu repito incansável: OBRIGADA POR TANTO!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

PALAVREANDO



Queres estar melhor desta angústia? Então vai lá, escreve! Deita teus dedos sobre o lápis, segura-o com carinho e ele te mostrará as palavras, tão cúmplices, companheiras dos momentos mais nefastos.
Às palavras se recorre quando tudo parece imensuravelmente ruim, escuro, um labirinto de saída inimaginável. Então elas veem e fazem tudo ficar suportável... Respira-se melhor depois de lançá-las, gritá-las no papel, fazê-las comporem lindos dizeres de bem querência, ou raivosos desabafos e desaforos. 
Vê, há palavras em todas as nuances: as duras, que magoam e fazem chorar. As de amor, que afagam, acolhem e fazem alentar o coração. Diz-se por aí que uma vez lançadas, são feito flechas, não existe retorno, por isso se faz necessário ter cautela antes de proferi-las. Mas elas em si se libertam da cautela, rejeitam bula, gostam mesmo é de estarem livres. Agrada-lhes bem mais serem bumerangue, poder voltar se assim o quiserem, do que a obviedade de uma flecha, que preguiçosa e orgulhosa se recusa a refazer o caminho. 
Experimenta! Uma vez que teus dedos discorrerem sobre o lápis e houver o mágico encontro com elas, nada será mais como antes, não estarás tão a mercê da solidão.  Farás desenhos com elas, como se estivesses a imaginar um fantástico quadro e ele será traçado em palavras. Traçarás um desenho eterno... Palavras são pra sempre! E saiba, nem sempre as compreenderás. Muitas vezes virão pra te confundir, desnortear o que acreditavas ser imune a quaisquer dúvidas. Outras tantas trarão explicações, te apontarão a porta de saída dos teus conflitos mais perturbadores. 
Agora vem poetizar!

   Declama.
       Canta.
           Confessa. 
               Insinua. 
                  Declara.
                       Interroga.
                           Exclama.
                                 Invoca.
                                      Chama.
                                             Diz! 

                                                  Palavreia até o infinito...






terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CANÇÃO DO ALEGRE VIVER


Tão simples lhe parecia a vida, ali sobre a areia da praia, descobrindo conchinhas desnudas pelo toque insinuante das águas. Se deixava molhar. Sorria, absorta naquela brincadeira tal qual uma criança cuja realidade não se aproxima de si.


Seus pensamentos iam-se não se sabia pra onde, deixando por lá a sua memória frágil, que outrora sucumbira à tal doença traiçoeira, ladra de lembranças, usurpadora de vida alheia. 


Restaram-lhe os fragmentos como a compor uma pequena canção que vivia a entoar repetidamente. Cantava a irmã gêmea, os irmãos meninos, queridos e companheiros. Cantava o prazer de haver sido professora por trinta anos e ter cumprido dignamente essa missão. E cantava o marido, o gaúcho barrigudo, descendente de italianos, bigodes fartos contrapondo à careca lustrosa.

Merecia versos especiais o homem, nessa música de alegre viver. Largara tudo, a vida atribulada, as responsabilidades de industrial, nada era mais importante do que a vontade de estar ao lado dela, Lia, a sua criança grande, da barriga esguia que se orgulhava em exibir graciosamente, como se a estimulá-lo a perder ao menos parte da sua generosa pança. 


Por toda a vida foram companheiros de caminhada e agora ela estava assim, indefesa, sem saber muito sobre si própria, a não ser pela curta canção a qual cantarolava como se a querer juntar os fragmentos deixados por aí, em qualquer esquina do tempo. Estaria ao seu lado como ela sempre esteve lhe velando a vida. Não foram sós desde que se conheceram, não seriam sós agora. Cantaria pra ela a canção de alegre viver até o último instante. 


A bordo de um suntuoso trailer, partiram Nordeste afora, se guiaram pelo Sol, descobriram horizontes novos e em cada parada muitas conchinhas desnudas pela investida do mar, cúmplice naquela música de alegrar. 


O homem compôs para ambos novos versos musicados de vida, cuja letra e melodia acolheriam sua mulher que se tornara menina, impedindo-a de se perder, fazendo-a protegida pelo mais sublime amor.

sábado, 15 de janeiro de 2011

O AJUNTAMENTO


Meio dia de sábado, 15 de janeiro, a temperatura varia. Quente demais pra uns, água castigando a cair do céu pra outros. Muito papo maluco regado à cerveja, a vinho e muitíssimo bom humor. E riem muito, Rê, Rô, Si e Mi... Bonitezinha preguiçosa de minimizar os nomes e carinhosamente reduzirem à primeira sílaba. Coisas do povo do sul-sudeste brasileiro.
- Chama o Peludim!  gritou a Rê.
- Oxente! Há de se reduzir o Peludim também, chamá-lo de Pê ou Ta... Retrucou ironicamente a moça do agreste, fulô de cacto, ex-pétala rosada.
Ele saltitaria de galho em galho tamanha felicidade com essa fofurice de apelido... Felicidade em estapear a todos, de cima pra baixo, de baixo pra cima. O Pê_ludim se escondeu floresta adentro e o encontro festeiro se deu sem ele.
Segue bacana o proseamento, descontraído, amigo, alegre!
Tibidias também tá na festa, ajudando a sobrinha dele, a moça carioca a fazer um misturamento de álcool com relaxante muscular que dá um efeito... Misericórdia! Melhor deixar pra lá... E desce mais uma! Já é a oitava...
- Oitava de Bethoven? – Pergunta Rodolfo.
- Oitava da BOA – Responde a moça.
- Rodolfo tá bebendo também? – Pergunta a Mi.
- To sim, se parar eu fico de ressaca!
- Assim não vale! Todo mundo no embriagamento e só eu de sóbria nesse negócio! A Vê e a Ten (dinite) ainda me pagam essa desfeita – Lamuriou a moça do Nordeste.
- Chora não. Só o bafão faz você entrar no clima – Disse em meio a gargalhadas a surtada moça do Divã.
A prosa ruma para as histórias amorosas da Rê e seu anjo de uma asa só.
- Tá vendo que mer_cadoria é amar? Pergunta ela.
Todos interrogam sobre a identidade do anjo, no que ela responde:
- Vão ficar todos rosamarimutrinhus de curiosidade. Só conto que é meu anjo, meu gato selvagem, meu amorrrr!
Si e Mi logo manifestam sua invejinha:
- Quero um gato, mesmo que seja agorado. Nem precisa ser angorá! – Fala a Simone cheia de graça.
- Pra euzinha um hamster tá valendo – Retruca a minina ternura da Rê.
- Deixa passar o Carnaval, tá todo mundo caçando gato pra fazer tamborim – Brinca Rodolfo.
- Boa idéia! Depois do Carnaval a gente vê o que sobrou de bichano por aí.
Rodolfo se aquieta, diz que tá ouvindo com o zóio. Observa o papo das tresloucadas, como se a cuidar das suas meninas. Muita risada, muito palavrão (das moças em processo de embriagamento, é bom salientar... a outra é praticamente uma freira), promessas de futuros encontros e dessa vez, encontro com abraço, trocas generosas de palavrões zóio-no-zóio, compartilhamento de copo, manifestações etílicas de carinho... Tudo sem a fria intermediação do computador.
- Ah, porque todos vocês não moram perto de mim? – Lamentou Si, o bibelozinho de porcelana, tão etílica e tão etérea, sob as palavras de Rodolfo, que precisa urgentemente rever seus conceitos do que seja delicado (ui, que a moça postadora apanha agora).
Bendito seja, ainda que frio, o MSN que fez o milagre de juntar Rê, Rô,Si e Mi... Rio de Janeiro, Minas Gerais, de novo Rio de Janeiro e Alagoas nessa deliciosa interação cheia de poesia... A poesia genuína, sem métrica, casual, composta pela simples existência da bem querência.
Bendito seja o amor!
Bendito sejam os amigos!
Bendito seja a vida e seus fragmentos de imensa felicidade.


E A POESIA SE FEZ, SOB A BATUTA DE SI FERNANDES, 
QUE "AJUNTOU" O PAPO DO ANJO DE UMA ASA SÓ, 
POR ELA, REGINA E RODOLFO.

Num momento etílico, sob a direção da mente livre,
sem medo de ser humano, apenas humanos,
ela chamou pelo seu anjo.
Sob os olhares admirados de dos poetas ocultos ela declarou:
Meu anjo está voando e levou minha asa com ele!
O poeta bruxo acrescentou:
Te falta uma asa, então?
A mulher conhecedora das mentes,
se entrega a uma   sensação adolescente.
Que beleza é poder se entregar assim.
O adulto dentro dela tenta disfarçar e diz:
Simulação do amor!
Mas, do poeta bruxo não se pode fugir e ele sentencia:
Ei, amor de verdade não se simula!
As duas outras poetas, captam toda essa riqueza.
A menina -mulher, conhecedora de mente,
se entrega,
assume,
e descansa nesse amor, nesse tanto de beleza.

(FIM)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

OMAR

IMAGEM POR MILENE LIMA, BARRA DE SÃO MIGUEL - AL, 01 DE JANEIRO DE 2011

Era fundamental estar ali. Tudo era imensidão, naquela cor já conhecida, refletia num azul-esverdeado que só por essas bandas é possível admirar. Estava lá mais uma vez e nem demorou tanto assim desde a última. Era confortador observá-lo, ali, com suas costas largas, era como tentar desvendar seus mistérios. Uma relação de cumplicidade: Ela lhe devotava uma admiração enorme e ele a retribuía doando energias, revigorando-a, apenas em se permitir ser observado. A princípio o olhou com certa tristeza, pois estava judiado da noite anterior. Réveillon, festa, empolgação. E ele, numa ressaca profunda pela falta de educação. Com olhar de lamento pensava- Despejaram tudo na areia: Garrafas de bebida, latas de cerveja, sacos, restos de alimento, preservativos... Tudo ali jogado sem o menor remorso. Encarou-o como a pedir desculpas pelo que fizeram, como se pudesse sentir o som do seu lamento. Ele respondeu com um balançar generoso, sedutor, talvez, querendo dizer que era mais forte que isso, superaria, não era motivo pra preocupação e muito menos sentimento de culpa. Melhor que tudo era desfrutarem daquele instante, mágico, aonde o Sol pincelava nuances de dourado, fazendo o retrato vivo ficar ainda mais fascinante. O mesmo Sol havia lhe fugido, todo o tempo fugido. Recusava-se a se por às vistas dela, para compor, junto a ele, a mais perfeita paisagem... Seria ciúmes por não ser o preferido? Ela sabia que não fugiria por muito tempo, pois não era preterido. E Não fugiu... Ela o alcançou e perpetuou o encontro sob as lentes do seu celular, ainda que ele, o Sol, tenha se recusado a posar pra foto junto com ele, o mar. Se despedia já ansiando o próximo encontro...

Milene Lima

SOB OS PITACOS GENEROSOS DE SI FERNANDES.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

SENTIMENTALIZANDO

IMAGEM GENTILMENTE ROUBADA DA NET POR SI FERNANDES, A PASSARINHA

Segundo o Michaelis, sentimentalismo é o mesmo que pieguice, frescura. Li tal conceito de uma forma bem peculiar: Lasquei-me!

Em processo de aprendizado sobre o ato de escrever e as suas várias possibilidades, tenho exercitado a prática da produção de textos mais impessoais. Retifico a frase: Tenho TENTADO exercitar a prática da produção de textos mais impessoais.

Para alguém assim, cuja sentimentalidade ganha nuances de frescura e pieguice, é conflituoso. Por que chego aqui e quando me dou conta já escancarei todas as emoções e mais algumas. Venho e coloco às claras os meus sentimentos, para quem quiser ver... Ler... Sentir comigo.

Na prática, na real, no dia-a-dia é assim desse jeitinho. Escancaro também. E esse escancaramento nem sempre condiz com atitudes bacaninhas, bonitinhas. Sentimentalizar é também borrifar emoções ruins que voluntariamente ou não, acabam por atingir outrem. O complicado é encontrar a dosagem certa. Por vezes uma simples frase faz desandar a boa intenção por completo, aí danou-se!

Ontem postei no meu (nosso) Relicário duas palavrinhas de introdução ao vídeo da Maria Gadu, Altar Particular, pro Poeta, por quem me foi oferecida a música há um tempo. Eis que mandei o seguinte trecho:

“E quando me pego pensando que tudo é um grande engano, que é tudo fantasia, que as pessoas não se importam de verdade por aqui, ele vem e me prova o contrário”... 


Imediatamente uma amiga passarinha arengou, por eu ter feito parecer que só ele se importava comigo. Tem a tal história da palavra lançada ser como flecha (sei não se é assim, sou péssima em ditados populares), não tem volta, enfim. A palavra escrita bem que tem. Eu poderia ter ido lá e reparado, mas não o fiz. Ela ia me estapear muito se tivesse feito isso. A questão é que compus uma frase bacaninha, mas muito infeliz. A intenção era dizer assim: obrigada por jamais ter desistido de mim, poeta meu bem! Por que eu já empurrei com pés e mãos esse moço pra fora da minha vida e ele não foi, se recusou, suportou! E isso fortaleceu um tanto o elo existente entre nós que atende amorosamente pelo nome de AMIZADE.

Mas bem sei que tem um tanto de gente por aqui que se importa e muito, viu passarinha? Oxente! E esse importar é que nos faz suportar a ciranda maluca da vida que nos toca, da vida que nem ao menos vemos. Eu gosto de tudo isso aqui. E no mesmo instante odeio tudo e quero sair sem nem apagar as luzes e fechar a porta. Quando estou de saída, olho pra trás e corro de volta como uma amada arrependida por estar abandonando o seu amante, mesmo que ele tenha sido com ela um cafajeste. E pra sempre fico... Pra sempre que pode cessar a qualquer minuto... O meu pra sempre é muito sentimental e de repente pode se melindrar, sabe como é, né?

Sigo aqui, sentimentalizando, nem sempre numa fragrância agradável, mas sem jamais parar. É o meu oxigênio. Se não for de bem querência, deixem-no aí num cantinho qualquer... Eu supero, podem deixar!

Rsrs... Encerrando mais um capítulo da mais autêntica novela mexicana, sabendo sim que vocês se importam e muito com essa que vos derrama palavras emotivas na mesma proporção em que pisca os olhos, afirmando que sou alguém enternecido por ser tão acolhida e xingada constantemente (passarinha e macaco que o digam), vou ali descansar a Vê um cadinho. Ah, a Vê... É assunto pra outra hora.

Como posso finalizar esse texto mais que pessoal sem subir com um megafone em alguma sacada e gritar pro Tatto o mais alto que puder: OBRIGADA por ter deixado meu blog tão lindo! Que mãos, que talento, que generosidade, que prazer tem esse moço em acarinhar os amigos. Simples assim!

Beijos derramados em sentimentalidades.

“Eu queria ser uma rosa branca,
mas do que me adianta ser uma rosa branca,
que ao ser branca deixa de ser rosa?
Portanto, permaneço em mim,
transbordante, habitante do planeta AMOR.
Firme na idéia caule,
só pra ver aonde broto FLOR”...


Não encontrei informação substancial 
que me comprovasse ser esse poema (que adoro) 
 da autoria de Jauperi. 
Sigo atribuindo a ele até que me digam o contrário. 
Só sei que amo esse preto cheio de bossa...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

AINDA NEM É CARNAVAL

Eis que começa mais um ano... Para tudo! Como assim começa mais um ano? Por um instante se esquece que esse é um país especial, aonde as leis implícitas tem tanto valor quanto as que se conhece. Por cá o ano efetivamente só começa após o carnaval, portanto temos ainda semanas para se levar tudo não tão a sério assim.

Só em Brasília é que começou tudo muito sério. Aliás, antes que 2010 entregasse a chave já se fazia coisa muito séria por lá.

No dia 15 de dezembro o Senado aprovou um reajuste salarial de 61,8 % pra essa classe tão judiada, que se sacrifica por amor ao povo e a Pátria. E ainda dizem que esse pessoal não trabalha. Quanta injustiça! Trabalha e muito em causa própria. Cooperativismo é tudo nessa vida, nénão? É bacaninha o total despudor deles quando resolvem agir para melhorar suas vidinhas mais ou menos. Ora! O povo lhes deu poder, então que seja usado! Agora que se espere o sofrível aumento da classe trabalhadora.

Fale-se de assunto sério, muitíssimo sério. Seríssimo! Parou-se tudo pra ver aonde Ronaldinho Gaúcho ia acampar. O guri não se importou em ser o inimigo número um dos Pampas e foi anunciado lá no fRamengo (não houve erro de digitação) agorinha. Enfim acabou essa palhaçada cujo roteiro foi escrito pelo irmão do moço, o ex-jogador Assis, cuja alma em nada é mercenária, nadinha. Mas isso bem reflete o que se tornou o futebol nos últimos tempos, foi-se todo o romantismo de outrora. Quem imaginaria, por exemplo, o Zico voltando da Europa e indo jogar noutro clube que não fosse o da urubuzada? Inimaginável! Mas agora o negócio é literalmente negócio e ficou feio, muito feio. Desejar sorte ao Gaúcho é o mesmo que querer sucesso ao fRa e isso é algo impensável, que vai muito além de um jeito fofo de ser.

No mais, a vida segue normalmente. Chuvas e mais chuvas fazendo desabar por aí. As pessoas protestando contra os desabamentos, queimando ônibus e afins, como se não tivessem nadinha com isso, como se não tivessem também sua parcela substancial de culpa. Favor prestar atenção na imagem abaixo, que literalmente retrata a boa (des)educação que enfeia e traz conseqüências atrozes. Protestar é salutar, legítimo, mas vestir a carapuça das más ações e omissões é igualmente bacaninha.
PRAIA DA BARRA DE SÃO MIGUEL - AL- TARDE DE 01 DE JANEIRO DE 2011.

Comentar-se-ia de outro fato extremamente importante, daqueles que fazem a bolsa de valores ficar numa gangorra enlouquecedora, o início da tal turnê da Amy Winehouse em Floripa. A moça estava bêbada, errando as letras... Talvez tenha saído pra uma noitada na companhia da Vanusa, aí lascou! Isso lá é novidade que se apresente?

Mas o assunto top em todos os cantos do Brasil é a posse da presidenta parecidinha com a Mônica do Maurício de Souza. Todos atentos, uns na torcida, outros cruzando os dedos pra companheira se estrepar de verde e amarelo. É estranho torcer contra, ainda que não se concorde com as idéias, as companhias e companheiros. Seria algo como torcer contra si próprio, afinal ela está lá (des)governando pra todos. Pensamento otimista, é sabido. Mas há que se ter bom senso e pelo menos esperar pra ver. E que chatice essa falação toda sobre ser a primeira mulher a governar o Brasil, arre! É uma celebração a cada feito desse, como se fosse algo sobrenatural Ela certamente terá a mesma quantidade de seguranças do Companheiro Molusco, os mesmos profissionais lhe acessorando e bajulando, a exceção seria a presença de um (a) depilador(a). Supõe-se que esse profissional exterminador de pêlos o ex-presidente não possuía, afinal suas barbas grisalhas estavam sempre de molho, porém jamais disponíveis ao arrancamento brutal.

Há de se viver uma era em que não será motivo de espanto um país fora do continente africano ser governado por um negro ou uma mulher se tornar mandatária em qualquer nação. Não deveria isso ser uma situação natural, visto que supostamente todos tem os mesmos direitos? Já dizia um samba-enredo qualquer: Sonhar, não custa nada...

É o que se tem pra hoje.
Feliz Ano Novo pra depois do Carnaval.


domingo, 9 de janeiro de 2011

VIAGEM ETÍLICA


Nada, nenhum tema me apraz tanto, me oferece imensuráveis dizeres de amor quanto a amizade. É magia! É verdade! É bem querência demais! Eu e o Tio Obedias dela viajamos etilicamente, porque vivemos acompanhados de figuras assim, que nos levam a trilhar caminhos incertos, imperfeitos, apolíticos. Particularmente amo caminhos imperfeitos. Então eu e Tio Obedias, obedientes (trocadilhos vem sem que os convoquemos), bebemos, brindamos. O Tio tirou as pedrinhas vesiculares dele... Eu ainda não! Mas hoje me ordenei brindar. E brindei um tanto! E insanamente gargalhei pela casa, aos olhares incrédulos embora coniventes de minha tia e Cicinha, minha amiga. Bebi bastante. Bebi solita porque elas se recusaram. Reparo aqui! Não bebi só! Bebemos eu, ela e Tio Obedias... Brindamos eu e ela à amizade que permanece, ultrapassa, embora trilhe caminhos complexos por vezes. Sabemos eu e ela que a amizade é IMUTÁVEL... Ainda que se transfigure, se faça camaleoa... Temos um sentimento mútuo, cúmplice, cujo batismo se deu através das risadas em comum, dos palavrões homéricos de ambas as partes e das constantes tentativas de aparar as arestas ainda que não seja tarefa simples. Me fascina lidar com o ser humano, sorver sua complexitude, lhes oferecer a minha. Me perco, me confundo, sofro... Mas acima de tudo, amo! Só sei amar! Pateticamente amar! Foi assim, sem prévia, casual, que a amizade decidiu por si se fazer novamente presente, como se dizendo altiva: Ei, vocês! Acham mesmo que vão me jogar fora assim tão fácil? Cheguem aqui e brindem! Apenas brindem a mim, sem maiores justificativas... Brindem e percebam o que verdadeiramente sou pra vocês... Bom, ainda terei que justificar aqui em casa que sucumbi ao apelo etílico por influência cheirando a poesia dessa moça que atende pelo nome de Si... Si Fernandes! E a ela sigo dizendo: Talvez eu ainda te ame... Mas o meu talvez é cheio de certeza. Agora me deem licencinha, minha cama implora por mim... Hei de deitar e ver o mundo girar, aqui no meu pequeno universo cheio de movimento.

Beijos!



NUDEZ EM CHAMAS

Enfim a lida acabara. Gostava do que fazia... Sentia-se privilegiado em ter como cenário de trabalho aquele pequeno mundo de imensurável beleza, a serra e suas cachoeiras fantásticas. Gostava de ser bicho-do-mato, fazer da casinha perdida o seu abrigo. De lá ouvia o canto das corujas, o uivo dos lobos-guarás em constante cio e os morcegos passeadores da noite. A morcegada fazia a festa, levando-o a perceber, só assim, que a solidão não é sua única companheira. Chegara encharcado, a chuva não dava trégua. Tomaria um banho e deitaria na rede, caneca de café na mão, ouvindo um radinho AM, quando não havia interferência, e olharia pro teto... Gostava de pensar olhando pro teto, ouvindo o barulho da chuva que parecia cadenciar feito música.  Antes, porém, fumaria um cigarro na janela, observando a chuva insistente. A fumaça faria os pernilongos lhe darem uma trégua momentânea. Ali, contemplando a chuva a lavar o mato e a alma, lembrou-se das telas inacabadas que havia deixado na cidade. Estavam lá, suas mulheres nuas e abstratas, esperando para serem concluídas. Amava pintar o abstrato. Sua única maneira de vomitar pensamentos psicodélicos sem academicismo. Amava pintar nu, livre, numa comunhão perfeita com a poesia que compunha através das cores. Achava legítimo por-se nu a pintar suas mulheres nuas. Sentia-se pleno. Excitava-o a pintura bem como a natureza. Era magnética sua relação com ambas, a tranquilidade da serra se contrapondo com a vulcanicidade de suas telas. Gostava de vê-las queimando depois de prontas, em chamas, num desenho vivo perfeito... Ali se dava a magia, a loucura! Não as guardaria para admirá-las e encher-se de pedantismo ao exclamar: Que lindas elas são! A beleza era efêmera, decerto ia-se nas chamas. Haveria de voltar para a rede, voltar seu olhar para o teto. Pensaria sobre o nada fitando o teto... E dormiria na plenitude de sua fiel e tranquila insanidade!


Milene Lima



Obrigada a Lu Cavichioli pelas conversas sempre enriquecedoras, 
as quais ajudam a tornar minhas palavras no mínimo mais consistentes. 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

EU QUE NÃO SOU

Entrada no Labirinto - Margarida Cepêda

Disseram que sou cronista. Justo eu que não sei quase nada das letras... Cronista?! Admito! Me assusta um tanto a conjugação do verbo ser. É bem mais relaxante esmiuçar o verbo estar. Pouco compreendo do que sou. Sigo aproveitando os meus constantes e variantes estados. Estou muitas a cada dia. E me surpreendo, me gosto, me causo repulsa! Me questiono, me contradigo, me amo! Nomes carregam uma carga um tanto pesada. Nomes são pra sempre. Nomes me desenham e esperam de mim que eu seja... E não quero ser. Quero estar. Prefiro a irresponsabilidade de não me chamar coisa alguma. Gosto de desfrutar das possibilidades de estar tantas, sem nomes, sem rótulos. Apenas estar... Sorrio à ideia da meiguice e sensibilidade... E ao dobrar a esquina, posso querer berrar todos os palavrões por nada, apenas gastá-los sem motivo, pela simples vontade de fazer acordar os que colocaram pra dormir seus corpos cansados de serem.
Quero gargalhar despudoradamente, alto e forte. E em seguida trazer o silêncio, me perder nele... Me deixar ir na quietude tumultuada dos meus pensamentos. Preciso do branco e do negro. Desejo o doce e o amargo. Eu quero o Sol e a chuva. Me mostrem o bom e o ruim! O encanto se dá nos contraditórios que fundem uma nova e imensurável sensação. Que graça há em ser, estaticamente ser? Que me deixem menina, reparem meus pequeninos olhos que sorriem. Que me ouçam ternura. Que me ouçam sussurros! Que me queiram carne, fêmea, fúria! Deem os nomes que quiserem, muitos, lindos, duros, amores! Mas cá dentro de mim, a ciranda sentimental que me impulsiona me faz irresponsavelmente estar a cada instante uma mulher diferente. Aliás, agora, sinto uma alegria contida em estar cronista... Daqui a pouco? Nem sei...


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O QUE ELES QUEREM?

Compreender a percepção masculina acerca do universo cor-de-rosa é uma tarefa até divertida. Salvo exceções, o pensamento é comum a todos os seres da espécie. Observando meia dúzia deles é fácil concluir o que buscam no sexo oposto. Difícil mesmo é descobrir o que eles tem pra oferecer a fim de tornar a relação viável.
Dotados de uma segurança por vezes irritante, conseguem facilmente clarear que espécie de mulher tem como modelo. E uma característica que causa verdadeira ojeriza aos meninos fofos é a carência excessiva. Eles não concebem o porquê delas serem tão sensíveis e se sentirem carentes mesmo estando acompanhadas. É um mistério indissolúvel para a mente desses seres práticos, que detestam se verem metidos em um labirinto emocional os quais as mulheres são especialistas em se envolverem. Para eles é tudo muito simples, metódico e as inquietações femininas não passam de melindres desnecessários, crise de frescurite aguda, com risco iminente de fazer a relação subir no telhado. Se perguntado a 10 homens o que os faz desinteressar de uma mulher, a resposta será dita em uníssono: mulher que cobra! Releiam para não confundir: Mulher que cobra e não a mulher cobra. Essa segunda, se não for muito chata e ciumenta, será vista com mais carinho, desde que não encha muito a paciência dos moços. Em síntese, a desassossegada mulher no extremo da carência, a que chora atenção, que se joga agarrada na perna do sujeito como se a dizer: Não estás vendo o quanto te amo? Não percebes que o que faço é apenas pra te agradar? Essa, pobrezinha, está fadada à quarentena. Eles gostam das bem resolvidas, senhoras de si, que não queiram tanto deles no que compete à emoção. Mudariam se pudessem a letra dos Mutantes para eu só quero que você me queira, mas nem tanto... Assim sufoca! E homens odeiam se sentirem sufocados.
Eles querem na verdade uma mulher que pense como homem e aja como mulher... Mas como se dá isso? Quem souber a resposta, favor aportar por aqui...
 É comum ouvir deles: Gosto de você do jeito que é não quero que mude. Oi? Como assim? Se faz necessário reescrever essa frase, um pouco mais extensa. O correto seria ele dizer que gosta de você assim, do jeito que é, contanto que seja sempre sexy, charmosa, sensível mas nem tanto, que fale mas não muito, totalmente desprovida de frescura, transpirando segurança, não banque a engraçada o tempo todo pelamordeDeus, não o envergonhe na frente dos amigos dele falando bobagem... E não seja daquelas que arrumam subterfúgios para fugir do sexo vez ou outra! Fugir do sexo é crime gravíssimo, perigando o exílio absoluto da bem querência dele. A libido é fundamental para compor o perfil da mulher perfeita. Ah, e só um detalhezinho pra arrematar: Se puder, seja linda!
Não que beleza seja fundamental... Beleza não é fundamental para eles? Provavelmente Vinícius de Moraes tenha sido o único cara que jogou às favas o correto politiquês sem ao menos saber o que raios era isso, a ponto de afirmar, reafirmar que beleza é sim fundamental! Pelo menos aos olhos exigentes do público masculino. Ora, há de se convir que o sujeito lá esparramado nas areias de Ipanema não ia perder seu tempo espiando bumbuns meia-boca. O homem cravou logo os olhos na então futura Garota de Ipanema, num doce balanço a caminho do mar e pronto, acostumou-se! Não quis outra vida...
Agora, a pergunta que não quer calar: Vinícius, o poetinha, o genial, lá era um homem pra se achar bonito? Misericórdia! Absolutamente não! Então é fácil perceber que as mulheres são imensuravelmente menos exigentes no quesito beleza física do que o moços que compõem o Clube do Bolinha. As mulheres desfilam felizes com seus pares barrigudinhos ou barrigudões, carequinhas da silva, entre outros tantos (des)atrativos, sem o menor constrangimento.  Elas conseguem enxergar bem além da protuberância provocada pelo chopp. Já os homens foram moldados pela sociedade para serem os machistas, garanhões, pegadores... A questão é cultural e tornou-se cômoda. Pra que mudar o que é tão satisfatório? Mulheres que deem seus pulos, literalmente,  a fim de agradar os marmanjos levando em consideração todos os pormenores que os causam asco, assim tudo será perfeito. Homens gostam de mulheres que gostam de si mesmas.
O resumo da ópera é o seguinte: Quando se sentir no auge de sua carência. Quando o sujeito alvo de sua querência fingir que não lhe percebe, engula o choro, mulher! Homens não gostam das choronas, reclamonas, chatas, frescas, melindrosas, ciumentas, vazia, entre tantos outras características vis e tolas. A outra alternativa é chorar, gastar todas as lágrimas, depois se fazer linda e dar de ombros... Alguém nessa vida há de não se importar com o tamanho e o estrago que sua sensibilidade pode causar... 
Ou não!