quarta-feira, 30 de março de 2011

Voa Até o Infinito, Passarinho


O passarinho tava triste, seu moço. Aprisionado na gaiola úmida, mal podia mover seus pés. As suas asas? Quase esqueceu das pobrezinhas, encolhidas, sem movimento, suas penas murchavam e empalideciam a cada aurora sem o sol a tocá-las. Todo dia pensava que podia estar lá fora, enfeitando o céu com seu voo alegre, sem medo de nada, apenas voando, porque é essa a missão de um passarinho, ver o mundo lá de cima e espalhar por aí o seu canto mais profundo, como a dizer da sua beleza. Quase sucumbiu o bichinho. Encheu-se de amargura e dúvida, não entendia porque estava ali, tanto tempo ali, se em seu coração só havia sonhos de passarinho esquecido de crescer. Não podia chorar naquela gaiola feia e enferrujada. Os dias passavam e a esperança se manteve fiel ao seu lado, dividindo o pouco espaço assombroso, lhe dando coragem pra se manter acordado. A esperança afugentava o medo, desviava os seus pensamentos mais doloridos e aquecia seu coraçãozinho cheio de pranto, silencioso pranto. Agora, abriu-se a gaiola, passarinho é livre, seu moço! Passarinho é liberto como nunca deveria ter deixado de ser. Pode outra vez bater asas, enfeitar o infinito, vir de mansinho pousando na cerca, paquerando, tímido, as flores exuberantes. A alegria voltou, seu moço, veio toda prosa no bico do passarinho.




O Homem, ao chegar na Lua
- Disse: "A Águia pousou".
- Diz hoje alegre a voz tua:
- "O passarinho voou"!

- Hosana! Felicidade!
- Glória aos anjos de Deus!
- Celebrando a liberdade,
- Que brilhem os olhos teus!

- Que rufem forte os tambores!
- Que soe alto o clarim
- Que as ninfas joguem flores!

- Voe o passarinho, sim,
- De volta aos seus amores.
- Fez-se justiça enfim!

        (Rodolfo Barcellos)

Obrigada a Rodolfo pelo poema 
e aos meus amigos pela incansável torcida...


segunda-feira, 28 de março de 2011

Palavreando




Palavras, apenas, palavras pequenas”... Cantarolou Cássia Éller. Elas tem o dom, possuem a magia, provocam milagres e na mesma proporção causam estragos.

Tudo depende do modo como alguém se propõe a ler o escrito. Tem-se a opção de armar-se para tal ato, numa desproporcionalidade absurda, ou ler sem amarras, simplesmente ler, o que invalidaria qualquer interpretação infiel ao texto.

Nesse mundo onde não é possível sentir a emoção a não ser através da das letras reunidas, tudo se torna delicado, as relações são ao mesmo tempo intensas e sensíveis, caminhando na linha tênue entre a bem querência e a total indiferença. Frágeis fronteiras. As certezas se esvaem, restando apenas indagações tolas.

Quando se percebe o mistério se desfez, o encanto se quebrou, dando espaço a um vazio, estranho vazio. É ruim essa sensação principalmente quando se aposta todas as fichas num sentimento que se apresentou tão merecedor. Não se diz EU TE AMO         em vão. São palavras de raro sentido, só deveriam ser lançadas levando consigo uma porção generosa de verdade, implicando na determinação em se amar de fato.


E amar, o que é?   

Tantas são as alternativas de respostas, todas pertinentes, nenhuma suficiente. Amar abre um campo imenso de possibilidades, mas deveria fechar todas as mínimas frestas para a incompreensão. Quão pequeno é um amor que responde com palavras corrosivas ao que supostamente compreendeu ser uma tentativa de golpe. Olhos pouco curiosos tem esse amor, do contrário saberia ler nas entrelinhas que frases desconexas tantas vezes querem dizer “vem cá, me dá um abraço”.

Obriga, assim, ao outro vestir-se de uma armadura de ferro, imune aos iminentes perigos vindos sabe-se lá de onde, sob forma de estilhaços de letras, que ferem mortalmente se pegam o sujeito desprevenido. Sugere ao outro desistir, simplesmente desistir da hipotética luta ilógica por um sentimento tantas vezes causador de alegria, mas que agora descuidado, fere. Impaciente, leitor incompreensivo das palavras tolas e por vezes inconclusas se transformou, vestiu a roupa feia da intolerância e ironicamente desdenhou.

Resta ao amor recolher suas inócuas palavras espalhadas ao chão e ir embora sem titubear ou olhar pra trás, fazendo-se de forte no seu propósito mais sublime, o de fazer vingar a amizade propagada, replantá-la em outro terreno quando um se torna infértil.

Beijos.

sábado, 26 de março de 2011

Em Qualquer Lugar Por Onde Eu Andar...



Era o meu recanto, meu aconchego. Há 12 anos trabalhando naquela escola me sentia verdadeiramente em casa, até chegar o inevitável dia da tomada de decisão sobre aportar num local mais perto, onde a logística me favorecesse e minha rotina funcionasse sem tanto porém. É assim a vida dos portadores de necessidades especiais (?), há de pensar sempre no caminho com menos obstáculo, na estrada mais curta. A acessibilidade é a busca incansável, mesmo não sabendo em que raios de lugar a dita cuja se meta na maioria absoluta das vezes. 


Era preciso aquietar o coração e deixar a razão no comando, minimizar a importância do afeto acumulado, uma montanha de bem querência, cumplicidade e um zelo comovente por parte de todos. Eu era a menina deles, a Memem a quem tudo era compreendido, com quem todos eram benevolentes e pacientes num grau sobrecomum. Seria capaz de escrever por horas, agradecendo a cada um por tanto, mas a Michele acha que arrumo assunto demais, então vou poupá-la do trabalho.

Nos aguentamos durante todo esse tempo e a antipatia sentida nos primeiros dias de convivência, de minha parte para com ela, diga-se passagem, evaporou rapidinho fazendo nascer sem pedir licença, com uma firmeza impressionante, uma amizade pra toda a vida. Diz a própria: “você me conheço tanto, até já perdeu a graça”. Copio e colo as suas palavras. Escondo dela coisinhas sobre meus problemas de cabeça, ombro, joelho e pé só porque sei das porradas vindouras. Vai me olhar com aquela cara de irmã mais velha – apesar de ser mais nova- e dizer: “bem empregado! Eu te avisei, né?”. A mim cabe calar e consentir. É a irmã que a vida me embrulhou pra presente. Agora nem sei quem vai me substituir na missão de implicar com ela só porque é a real representação da vaidade, tornando impossível ações banais como ir ao mercadinho em frente à escola sem antes pentear as madeixas e colocar um batom.   A moça é estilosa, linda... e só um tantinho fresca.

A Lurdinha, o que seria de mim sem suas comidinhas quando tantas vezes cheguei esfomeada, vindo da outra escola com o estômago escandalizando? Ela sempre dava um jeitinho, qualquer coisinha a fim de evitar a minha morte por inanição.  Tudo com uma meiguice transbordante, a nossa frágil e pequena senhorinha dos cabelos brancos, a quem amolávamos até ela resolver pintá-los.


Além de colegas de trabalho, fiz por lá amigos de verdade, com os quais compartilhei um tanto de minha vida e trouxe as deles pra mim. Era puro deleite sair no fim do expediente, sem muito planejar, a passear pela cidade, eu, Michele, Zeneide e Gorete, sentar num canto qualquer, regado a cerveja ou água de coco e compartilhar muita risada, entre uma cutucada e outra no universo masculino. Éramos o Quarteto Fantástico. Viajávamos sem compromisso, simplesmente pra ver o mar, almoçar na sua companhia e voltar pra casa no fim da tarde... Massa, muito massa!

Citando o universo masculino, lá os homens eram minoria, mas agora detém o poder. Ismael, mesmo quando nem imaginava já era o nosso diretor escolhido e a profecia está prestes a se realizar. Outro a me despertar uma certa antipatia à primeira vista, com aquela cara de brabeza extrema, mas essa imagem vai por terra no primeiro papo descontraído, é um cara muito bacana, dono de um bom humor gigante, tantas vezes motivo pra estar à beira do espancamento vindo de  mim e Michele, por não nos deixar trabalhar em paz, na sua parceria de palhaçada com Émerson. Quantas risadas, quantas risadas! Nosso encontro não foi tão longo, mas igualmente intenso. Sentirei falta dos seus dramas, tipo fingir choro só porque falei uma vez que vazo ruim não quebra assim tão fácil... Foram dias de tentativas em me fazer sentir uma malvada insensível, tudo de mentirinha, é claro. 

Émerson é daqueles sujeitos de essência especial. Um menino em idade, um homem em atitude. Professor de Geografia do tipo que me faz acreditar na melhoria da educação brasileira. Multipliquemos os professores como ele e se fará um país onde de fato se valoriza o sistema de ensino. Clonemos o Émerson, urgente, e espalhemos uma meia dúzia dele em cada escola pública desse país brincalhão. O sujeito é bom. O garoto é chato, devo falar contrariedades pra ele não ficar tão convencido. Temos um amor imenso um pelo outro, embora eu adore lhe proferir porradinhas amistosas. E agora o seu abraço, de todos os dias quando me abria o portão, aonde encontro? O abraço, aliás, era uma espécie de senha, pontapé inicial para passarmos o resto da tarde nos implicando, para desespero da Michele, impaciente com as duas crianças. Ele é daqueles cultuadores das cores vermelho e preto, carrega nesse sentido toda a arrogância típica do feioso mundo dos urubus. Verdadeiramente ninguém é perfeito.

Benditos foram os dias de minha convivência com essas pessoas. A elas certamente carregarei pra vida inteira, aconchegadas no meu coração piegas, recostados por um tanto de amor e sobretudo muita gratidão. Busco agora em outro aconchego encontrar o mesmo calor humano, que torna bem menos enfadonho o cumprimento das funções diárias.  


Eu só queria, com tudo isso, gritar um estridente OBRIGADA, meus amigos! 
Sentirei saudades de nós.



sexta-feira, 25 de março de 2011

Cirandeando

SANDRA GUINLE - CENAS INFANTIS (Sandra Guinle - Childhood Scenes)


Tanta estranheza os rodeia. Estão imersos numa solidão gritante, mesmo em meio à multidão. Entreolham-se e não se veem.Seus olhos miram para lugar algum, em busca do nada. Desistem de tentar compreender de onde surgem essas tais inquietações mordazes, cuja acidez corrói, impiedosamente, vontades e alegrias, deixando no lugar um imenso vazio, uma indolência incansável, insistente em sugar o menor esforço de reação. É preciso descobrir o momento exato a tentarem sair desse abismo tenebroso, antes que a viagem se complete e o regresso se faça impossível. Onde foi parar a vivacidade presente em dias tão felizes? Como a deixaram partir? Aos poucos recuperam o senso, como se atingidos por cargas energéticas vindas dos céus, do Sol que lança seu dourado imponente, exigindo o abandono da inércia. Acordaram. Precisam ajudar-se, darem as mãos e desse jeito tornar mais fácil a travessia de volta. Juntos o abismo não os engolirá. Caminham em busca do fulgor de quando giravam felizes em cirandas, gargalhando irresponsáveis, dançando a música da vida como se a levitar. Lembraram-se da delícia em rodopiar, de olhos fechados, sentindo o vento, cantando alto. A estranheza não encontrava espaço, encolhia-se constrangida. Precipícios não os atraiam. As inquietações mordazes murchavam diante de tamanho júbilo a invadir tanta alma. Lembravam da ciranda enquanto seguiam, juntos, o caminho contrário do abismo pungente. Sentiam-se aliviados por estarem abandonando devagar, passo a passo, o labirinto de suas próprias solidões consentidas e logo se formaria a roda para uma nova e alucinante ciranda.




terça-feira, 22 de março de 2011

O Pote de Mágoas



Sobre a mágoa nem sei dizer. Sobre ela preferia nem saber da existência. O fato é que vem, sorrateira, sem ser convidada e se instala como uma hóspede ilustre.

Por que vem? Quem a traz? Até é possível responder a essa pergunta, embora seja difícil compreender porque a deixamos pousar nos nossos melhores chalés interiores e de lá só saem quando nos damos conta de que a estadia da indesejada visita não será em nada prazerosa.

É certo virem trazidas pelas palavras, usurpadoras do pensamento alheio, afoitas, tantas vezes causadoras de estragos irreparáveis em virtude de comportamentos intempestivos. Mal a ideia se faz e vapt! Estão lá as palavras lançadas e na maioria das vezes as mais apressadas são justamente as que deveriam surgir por último... Ou nem aparecer. São as ácidas, dúbias, venenosas e as mal compreendidas... Chegam feito um furacão, fazem doer, deixam às claras os sentimentos mais vulneráveis, aniquilam as certezas que tínhamos na boa fé alheia. Até o silêncio pode causar esse desconforto no espírito. Ele diz coisas e muitas vezes o faz equivocadamente.

Mas, causar mágoa é tão dolorido quando sentir-se magoado. Pior ainda é quando não percebemos em que momento provocamos tal dor na alma de outrem. E de repente um abismo se fez, uma distância assustadora separa o que antes parecia um elo extremamente forte, alianças do coração se tornam frágeis feito cristal.

A mágoa jamais será bem-vinda, então porque não lhe mostrarmos gentilmente a porta da saída? Não se cria sozinho uma situação tão delicada, ainda que a culpa não seja repartida igualmente para as duas partes. E do que adianta reparar na culpa? O que é a culpa, afinal? O mais bacana é a vontade de se livrar da dita cuja, articuladora de dor em potencial. Humano é tentar reatar os nós, reconstruir a ponte outrora destruída por palavras que nem se sabe direito como foram ditas.  

Sublime é reparar no olhar do outro e lê, em letras de imensurável verdade, os seguintes dizeres: EU SINTO TANTO...


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Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga


ai daqueles que se amaram

sem saber que amar é pão feito em casa

e que a pedra só não voa 
porque não quer
não porque não tem asa





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sábado, 19 de março de 2011

Poema de Sábado



Pobre poema de sábado, havia sido fragmentado em palavras desconexas, lançadas num porão escuro e frio. Lá estavam guardados seus verbos exaustos, antigos andarilhos em busca da poesia perfeita. Aberto, exalava o cheiro de mofo, exibia a poeira acumulada nas palavras quebradas, exauridas de tantas caminhadas em vão. Agora estavam ali, inertes, impotentes diante do convite em se fazerem de novo poema. Temiam fracassar. Não queriam lançar-se polidas e sem alma, desbotadas pelo tempo, velho e exigente parceiro. Embora cercadas de temor, gostavam de ser, queriam conjugar-se em lirismo novamente, gritar ao mundo sua cara assustadora e cruel, sussurrar o amor, bálsamo milagroso para as piores chagas. Aos poucos, uma a uma, desocuparam o porão sombrio, enquanto frestas de luz pareciam irradiá-las. Estavam prontas para se refazerem em frases, dizerem sonhos de quando se dorme ou se faz acordados. Ofereceriam-se à métrica, vestiriam versos vivos, sairiam outra vez caminhantes a fim de fazerem respirar o poema de sábado, outrora cansado de tanta solidão.





sexta-feira, 18 de março de 2011

O Selo e o Poeta



Gosto dos selos que me instigam a escrever. Gosto sobretudo da descontração proposta. Tenho sido recorrente nesse tipo de postagem porque os anteriores me permitiram descer pro playground um pouco.

Eis que recebo um selo da pessoa mais improvável, meu querido Poeta, o Moisés, aquele que usa chapéu e o faz com um charme incrível. É sobre literatura... Aí me fez tremer um tanto. Como vou euzinha responder sobre literatura com alguém que no meu conceito se confunde com a própria??? Ele fala sobre livros de uma forma tão natural que me espanta, me encanta, me comove e causa uma imensa admiração.

Vou ser evasiva, eu sei. Não dá pra citar aqui as inúmeras Sabrinas que li na minha adolescência enquanto procurava o maldito sapo que viraria príncipe. Não, não ficaria bem. Envergonharia o Poeta. Direi clichês, eu sei. Não sei que livro leria muitas vezes. Talvez ainda lerei esse, o mais marcante, o especial. Posso citar que me marcou intensamente Feliz Ano Velho, porque de certa forma me vi naquela história. Pensei como aquele cara, pude ao menos imaginar a pedreira por que passou. Gostava da linguagem do livro e não havia aquele papo chato de lição de moral, exemplo de vida ou algo semelhante. O sujeito se estropiou num mergulho errado e tentou sobreviver. E conseguiu. Que bacana!

Qual livro escolheria para ler o resto de minha vida? Algum de poesia, porque a cada leitura  é possível descobrir algo de novo. A poesia permite isso, eu acho, sugere as mais incríveis interpretações e viagens nas palavras, variando a percepção dependendo do olhar que se tenha no momento da leitura.

A missão agora é indicar um livro para a leitura alheia. Roubo aqui as palavras do Poeta e indico para lermos juntos, eu e vocês: 

¨Cem Anos de Solidão¨  -G.G.Márquez. O maior livro de Gabriel Garcia Márquez. 

 A profundidade e a arquitetura contida nesse livro é de tirar fôlego.   
Aconselho a ler sem grandes  pausas, para não perder o fio condutor.






Não haverá indicação para o selo. Eu não suportaria o trauma das negativas, minha gente! Sessão de análise é caro pra caramba, então melhor não precisá-las. O poeta compreenderá a minha cara-de-pau nas evasivas. 


Gosto de livros. Gosto de escrever. Gosto sobretudo de amigos. Aqui tenho esses três itens, que maravilha! Por esse motivo sugiro, peço... Vos suplico. Quem aqui vier  comentar, fale sobre o livro mais bacana de toda a sua vida. Me diga porque foi tão especial assim, das marcas que te deixou, enfim. Vou adorar saber. Dessa forma essa postagem fica com um sentido maior e o Moisés não ralha comigo. Me ajudem. Ele é bravo... Mentirinha, é bravo nada. É um generoso, culto e educado homem. E é meu amigo. Que massa!


Beijos...

quarta-feira, 16 de março de 2011

A Pequena Grande Ene




Ene e Efe, o amor na tradução mais viva já contada por essas bandas, se perceberam cedo um na vida do outro.

Efe, o sujeito, era do tipo tranquilão, caseiro, camarada. Fumava escondido do pai, baixinho brabo, mesmo já adulto e independente. Não era do tipo namorador, embora apresentasse uma boa figura e conversa agradável.

Ene, a enfermeira, miúda do sorriso gigante, alma doce, encantou o coração do sujeito esticado.

Efe suspirava pelos cantos dizendo ter achado a mulher da sua vida... “ainda vai ser minha aquela princesa”, dizia o sujeito. E não sem razão, pois não tardou e suas histórias eram uma coisa só.

Logo o pequeno fruto desse encontro veio para fortalecer de vez o elo... Eram três. Estavam felizes.

Ene era frágil, de aparência e saúde. Seus rins passaram a lhe judiar, constantes internações, sessões da cruel hemodiálise, até que o parecer médico foi enfático: a paciente terá que ser submetida a um transplante. Criou-se o inevitável pânico, jamais imaginaram uma cena assim ruim em seu conto de fadas. Mas não havia tempo para lamúrias, era preciso agir e tirá-la daquele sufoco.

A irmã de Ene ofereceu-se como doadora. Um ato de puro desprendimento e amor, certamente sanaria o problema. Realizada a cirurgia, um novo horizonte se abria para ela, que mesmo nos momentos de maior angústia jamais deixou cair o sorriso e a fé. Foram três anos de sossego. O rim doado fazia muito bem o seu trabalho e tudo corria na mais perfeita ordem até que os problemas ressurgiram. Não podia ser verdade, o organismo frágil de Ene havia se desgostado do agregado e queria expulsá-lo. Não houve jeito de segurar ali o rim presenteado. De volta a angústia, de novo o sofrimento de outrora, com as hemodiálises tão terríveis quanto necessárias.

Ela, no auge de sua debilidade física, mostrava uma coragem que envergonhava a todos os insistentes em se lamentar por quase nada. No rosto sempre o sorriso meigo, exibindo no peito um cateter como se fosse o mais lindo dos pingentes. Não se abatia aquela mulher.

Estava pronta para um novo transplante. A solução era esperar na fila gigantesca ou contar com a sorte de um outro doador. Mas quem? Estava decidido, Efe faria todos os testes e tentaria doar um pedaço de si a sua Ene. Não era justo tanto sofrimento por tantos anos, isso agora acabaria, ele a salvaria.

Tudo certo, os exames todos aprovados e agora não tardariam a cessar as angústias. A cirurgia para a retirada do rim de Efe transcorreu perfeita e agora era só guardar lá dentro dela esse pedaço que a faria ter de novo uma vida normal. Mas os imprevistos jamais podem ser ignorados e dessa vez se mostraram presentes. Num raríssimo acontecimento, uma trombose nos arredores da cavidade onde se alojaria o novo rim impossibilitaram a conclusão do ato . Os médicos não acreditavam, aquilo era de uma probabilidade quase zero, mas estava lá, era fato e irremediável. Todo o esforço de Efe havia sido em vão, o rim iria pra algum laboratório como instumento de pesquisa e a sua Ene continuaria sua saga.

Via-se depois disso um marido inconsolável, mutilado por nada. Questionava o porquê de tanto sofrimento, renegava as explicações divinas, de que tudo acontece por um motivo o qual não alcançamos. Ela, se refazendo do baque, esperaria mais 6 meses pra uma nova tentativa. Mas eram seus cúmplices o sorriso cativante, as palavras de força e a vontade de jamais desistir.

Essa é uma história cujo final não aconteceu. Ene continua seu martírio, agora mais frágil, calejada pelas hemodiálises que agora são feitas em casa, num quarto adaptado para evitar sua ida ao hospital, pois não suportaria uma infecção simples. Não imaginem, porém, uma mulher amargurada, revoltada com algo que decerto não fez por merecer. Imaginem a fortaleza em forma de mulher miúda, insistente na arte de existir.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Fofurice


Todos fofos: Déia Borba, Clayton, eu (essa parece ser a mais pesadinha) e Lois...

Ah, os Memes. Eles agora me dizem que meu blog é fofinho. A Déia Borba.., a Lois_Lane que adora tomar banho de tina e o Clayton, meu DJ preferido, me deram selinho fofinho e estou postando aqui em homenagem a eles. Eu que já me achava a fofura em pessoa, agora pronto, deu-se a certeza. O mundo vai ficar pequeno para tanta fofurice... Mas existem, é claro, as regrinhas a serem cumpridas... Ou não! Vejamos:


Primeira missão cumprida, os blogs estão devidamente linkados em nome de seus proprietários.

A segunda questão pergunta-me sobre os meus maiores sonhos. Ora, é cabulosa essa indagação. Parece fácil listar os sonhos, mas pra mim não é. Só prefiro que as coisas aconteçam... Realmente aconteçam.

A terceira pergunta diz: para você a aparência importa? Vixe Maria! Essa é uma daquelas questões que devemos responder usando o politiquês correto ao extremo, dizer que não, falar da essência, enfim. Mas a real é outra, é sabido. As pessoas preferem o exteriormente bonito, é fato! Eu prefiro gostar, seja lá como for o alvo da minha bem querência. Muitas vezes o esteticamente feio causa um fascínio bem maior do que os bonitinhos de catálogo, previsíveis e de alma pálida.

O que é ser feliz? Eis a quarta pergunta. Bom, eu não sei o que é ser infeliz, mas a resposta acerca da felicidade também não tenho. Posso ficar aqui a narrar meus pedacinhos de felicidade e seriam muitos. Mas aquela plena, permanente... Quando alguém encontrar por favor me diz onde achou.

Devo responder agora se sou uma pessoa amiga. Acho que sim. Sou um tanto de coisas, boas e nem tanto, e dentre elas, ser amiga é algo que eu gosto de praticar. É claro que isso não implica num eterno mar de rosas. As tempestades vem, às vezes causam estragos, mas sempre haverá de valer apena.

Direi quatro defeitos meus. Mas só quatro??? Poderia listá-los de A a Z, tendo direito a repetição. Peneirando os mais recorrentes, terei: MELINDROSA, ACOMODADA, TEIMOSA e INSEGURA...

Agora as qualidades, quatro... Poxa vida. Eu diria que sou fofa, linda, linda e fofa. Rsrs... Ai, quem dera se tivessem ouvido a gargalhada que dei agora. É bom demais ri da gente mesma. Mas tentando levar a sério o negócio. Diria de mim:     CARINHOSA e ATENCIOSA (assim disse o Clayton), HUMORADA, TOLERANTE (convém não abusar dessa tolerância)...

Sobre ter algum preconceito, se houver algum aqui, malocado dentro de mim, que dê as caras pra eu poder estapeá-lo com vontade, porque eu penso ter expulsado todos, mas nunca sabemos ao certo até sermos colocados à prova...  Não acredito que ninguém convide o preconceito pra se instalar dentro de si, mas é preciso expulsar todo e qualquer sentimento de discriminação e os conseqüentes atos, acima de tudo, porque são cruéis e injustos.

Pra finalizar, teria que indicar os blogs fofinhos, mas agora vem a prática da desobediência dos ritos. Gosto de caminhar no sentido contrário ao esperado, vez ou outra, praticando assim o meu estado de marginalidade escolhida. Fujo à missão da indicação e meus amigos, coroadores de minha imensurável fofura haverão de compreender. 

Cheiro!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Meu Amor Em Dez Atos


Carla, querida lá do Le Petit Coin (nome chique, heim?) me indicou pra brincadeirinha da citação. Nesse caso, devo citar 10 coisas que amo... Fazer? Comer? Dizer? Um pouco de cada... Andava mesmo precisada de uma prática assim, descompromissada, além do mais falando de amor. Muito bom falar de amor em dias de intensa estranheza, dias em que tudo está cinzento e eu queria tanto as cores vivas... Enfim, vamos ao meu top 10 do amor (não necessariamente em ordem de preferência), provavelmente repetitivo, porque vivo a cantar a minha alma por aí... Bora lá?

ACERVO DE FAMÍLIA - ISABELLA, A APIMENTADA

I – Um começo sem novidade alguma, o maior de todos os clichês e pra mim mais atual que nunca: FAMÍLIA. Quem dera eu pudesse ter asas gigantes. Quem dera eu pudesse protegê-los de todo o mal. Quem dera fôssemos só sorrisos ou lágrimas festeiras. Quem dera...

II - Amo intensamente, despudoradamente não ter que acordar cedo. Serei a velhinha de 105 anos mais preguiçosa sob a face da terra... Vos garanto!

III – Ouvir histórias de Isabella, meu bebê alheio (leia-se sobrinha de 03 anos)... Um dia ainda escrevo um livro do tipo “Isabella diz cada uma”, como por exemplo se por com as mãozinhas no queixo e lançar: “não entendo porque minha vida é tão compicada”...

IV – As palavras. Amo as palavras faladas, escritas, gritadas, cantadas... Escrevê-las é o meu alucinógeno. Me perco através delas, depois elas me encontram e assim seguimos nessa parceria bacana.

V – Abraços. Que bom é abraçar, aconchegar. Abraçar demoradamente e sentir que ali no seu aconchego alguém se sentiu um tanto melhor e tu te sentiu muito bem com o calor recebido.

VI – Amo não ter que ir. Pra onde? Pra qualquer lugar... Isso implica em detestar compromisso, hora marcada e alguém me esperando. Eu vou, qualquer hora chego aí, mas por favor não me espere!

VII – Tomar ice (pouquinho) em meio a um delicioso bobagear. É aconselhável, porém, não me fazer rir com líquido na boca, perigando assim haver um banho generalizado. O povo todo já sabe disso, mas insiste na palhaçada.

VIII – A sensação de se apaixonar por um livro é única. É um amor especial, que doa sem nada exigir (conheço essa frase não sei de onde), o qual ando desdenhando um bocado. Mas, tenho me divertido muito lendo as peripécias do cão Marley (Marley e Eu)... Quem sabe assim o bichinho leitor retorna e jamais tire férias de mim? É o que espero.

IX – Usar chinelos... Ah, estou falando das boas e confortáveis Havaianas, que não deformam e nem soltam as tiras (bizarro!). Pelo menos demoram um tanto pra se deixarem envelhecer. O meu sonho é ser convidada para uma festa chique, tipo casamento, no convite contendo a seguinte exigência: SEM CALÇAR HAVAIANAS, NÃO É PERMITIDA A ENTRADA. Seria a glória!

X – Sorvete de coco. Não há, no meu conceito, sabor mais simples e tão delicioso. Me poupem dos seus sabores requintados, nada supera o bom e velho sorvete que me remete aos tempos de verão intenso, nas tardes na calçada, pura vadiagem, em que parávamos o carrinho do Seu Zé (qualquer Zé que passasse), devorando cada picolé existente. “Tem de coco, Seu Zé?”


É finito o meu amor em dez atos. Uns tantos outros, igualmente importantes 
ou frívolos na mesma medida, ficaram de fora... 
Descumprirei o quesito “indicar 10 blogs blogs para seguirem a brincadeira”. 
Quem quiser é só praticar. Brinque aí, pessoal!
 Adorei!

Vou-me agora, pra onde nem sei...

quarta-feira, 9 de março de 2011

O Velho Lápis Cansado



Nessas horas de estranheza o velho lápis se intimida, receia o inevitável encontro com o papel em branco. Anda cansado, confuso, embora siga latente a vontade de gritar em palavras poéticas a sutil perturbação ao seu redor. Imergiu-se nesse emaranhado e agora não consegue mais se desvencilhar. Ou talvez prefira esse forçado repouso até sentir pulsar outra vez a necessidade de rabiscar no papel os versos tolos. Logo ele que supunha ser tão seguro com as palavras, pensava ter sobre elas o mais absoluto domínio, vê-se sem a alegria de outrora, sem o tesão intrínseco dessa relação apaixonada.  Vê escapando-lhe todo o léxico e isto o assusta. O que há de ser da vida de um velho lápis cansado sem compartilhar de si com o seu papel, que de tão abandonado na gaveta ganha nuances encardidas? Nada! Um imenso vazio se fará. Onde despejará o seu pensar insano? A folha amarelada é o refúgio mais seguro, suplica angustiado pela sua paciência, cúmplice maior desse caminhar atordoado. No fundo, ele quer tão somente ter de volta a alegria em prosear as coisas do mundo, as belezas e feiúras; tristezas e porções de felicidades; encontros e desencontros; acertos e tropeços. Há em si, viva, embora um tanto adormecida, a glória em ser a ponte por onde trafegam as palavras, que desembocam no papel  sob forma de versos de amor ou lamentos cortantes. No fundo, o velho e cansado lápis sentimental só é feliz rabiscando a vida, mesmo quando ela se veste em momentos de profunda estranheza...


domingo, 6 de março de 2011

A gente é Massa!



A gente é um todo
Completo amontoado de bem querência
Grita se preciso for
Dá esporro, encosta na parede
A gente quer sempre apontar o melhor caminho
Se esquecendo de que muitas vezes
O caminho é encontrado sozinho
A gente é tudo insano
Adora gargalhar em conjunto
Pratica superproteção 
E às vezes finge nem se importar
A gente sabe que se ama sem ser preciso dizer
É só sentir no olhar
A gente chora o choro do outro
Cuida, jamais abandona
Não sabe ser sem o outro
Fica indignado, quer partir pra briga
Mas sabe que é preciso esperar
Por que o sol não vai se esconder pra sempre
A gente descobriu uma força sobrenatural
E junto tudo é menos doloroso
A gente é mais que nunca família
É cumplicidade, afeto, empatia
É lamento, riso e abraço
A gente é  sobretudo amor




Minha pequena homenagem 
a minha família, 
cujos dias não tem sido fáceis, 
mas tem descoberto a partir das dificuldades 
o quanto de fortaleza há por aqui. 
E que se faça a aurora!




sábado, 5 de março de 2011

Mas, heim?





Mais de um ano após cortar a fita de inauguração desse inquieto canto, ainda me vejo meio perdida em relação a determinadas situações na blogosfera. Gosto de observar as coisas nos míiiiinimos detalhes, feito fazia aquele personagem cujo programa eu nem lembro.

Questiono se aqui não se aplicam as mesmas regras implícitas de conduta usual no mundo lá fora. Regras de conduta é um termo um tanto forte, principalmente pra mim, uma completa repudiadora dos ditames. Se trataria talvez de regras de boa convivência, como Regina esmiuçou em postagens atrás lá no Divã. Tem coisas que não compreendo, outras não me esforço em nada pra compreender e algumas me incomodam um pouco. Os caçadores de seguidores, por exemplo, são engraçados. Recados do tipo “oi, estou te seguindo, me siga também” ignoro por completo. Não estaria implícito que, ao constatar a presença de um novo seguidor, a pessoa vá conferir o canto do fulano e caso se agrade, puxe uma cadeira e sente para um cafezinho? Onde está a necessidade de se exigir ser também seguido, oras? Isso me remete aos apresentadores de TV que insistem em dizer a todo momento: “ainda hoje, você não pode perder”. Me consome a vontade de estar à frente do sujeito e dizer-lhe: “cara, deixou escapar uma excelente oportunidade de ficar quieto, eu tanto posso perder, como vou te desligar em três segundos”... Mas tudo bem, inconvenientes assim só reparo de soslaio, sorrio e aceno. O sujeito quer 49.832 seguidores a qualquer custo, pouco importando se gosta ou não dos lugares os quais visita. Eu tenho 130 e me dá uma aflição daquele monte de gente me olhando, feito peças de decoração, enquanto seguidores mesmo são uns poucos e bons e desses não abro mão de jeito nenhum! Pra ser sincera, até o título “seguidores” me soa estranho. Parece coisa de seita radical, sei lá... Tem outro nome mais bacaninha não?

O ponto principal de minha inquietação é em relação aos comentários. Adoro ser comentada, vou mentir dizendo que isso não me importa? De jeito nenhum! Gosto quando me lêem e opinam sobre os textos, embora não seja essa a finalidade dos meus escritos. E quais seriam tais finalidades? Não me façam perguntas difíceis. Escrevo e pronto. Sou da turma dos Sem Compromisso, como perfeitamente diagnosticou o Leonel. É bom perceber que alguém atentou ali, minutos a fio,   minuciosamente lendo o que nos esmeramos a postar, seja lá qual for o tema. Mas, na mesma proporção, é chato pra dedéu constatar certos comentários como uma espécie de obrigação, deixando evidente sequer ter se inteirado ao conteúdo da postagem. Acho isso de uma falta de delicadeza absurda. Mas se trata apenas de uma opinião, jamais a verdade absoluta. Ainda no campo dos achismos, observar que espécie de sentimentos exprimem as palavras alheias antes de expor qualquer comentário seria no mínimo respeitoso. Do contrário, para recadinhos fofos existe o Orkut e sites afins.

É bem verdade que isso na maioria das vezes acontece porque o fulano de tal tem uma legião de seguidores (olha a famigerada palavra aí de novo) e se vê na obrigação de ser atencioso com todos. Para isso sai em peregrinação virtual, de blog em blog, distribuindo acenos e fofurices. Não seria isso um crime hediondo, jamais. Não há a necessidade de se sair nesse momento em desabalada carreira para o aeroporto, a fim de pedir asilo bloguístico na Líbia. É apenas um pouco de bom senso a sugestão. Não leu a postagem, meu bem? Leu e não curtiu a leitura? Diga isso lá ou então saia de fininho, não há mal algum nisso. Um amigo, cá da minha terra, ao ser colocado a par de certa determinação informal, de pronto questionava: “me mostre a placa em que está escrito isso”... É mais ou menos essa a analogia, não há placas, não há regras ou obrigações. O que há, ou deveria haver, era o tal do simancol com uma pitadinha de cumplicidade. Usar de empatia para com a pessoa e tratá-la como gostaria de ser tratado. Isso se aplicado em várias situações da vida funcionaria que era uma beleza, evitando um tanto de contratempos.

Acabou-se o assunto, o qual refletiu apenas de um ponto de vista de minha pessoa. Não mudará em absoluto o sobe-e-desce das bolsas de valores ou coisas do gênero e o Kadafi certamente não renunciará tocado pelas minhas palavras. Que pena!

Até.



sexta-feira, 4 de março de 2011

Pra Não Dizer Que Não Falei do Carnaval

Imagem por Milene Lima - Janeiro/2011.

Acorde, venha cá, Sol. Entre sem cerimônia, veja quanta falta faz a tua luz por aqui. Ilumine esse recanto sombrio, carente do teu esplendor. Imponha sua presença soberana, astro-rei, intimide a escuridão carrancuda. Se vier, é certo, tudo se transformará em festa numa comovente comunhão de alegria, um escancarar de emoções outrora aprisionadas, agora livres sob a magia do teu dourado. Chegue logo, Sol. Compartilhe teu fulgor com o verde da esperança e vê  que matiz inebriante dará. Misture esse amarelo contagiante de tuas cores ao branco sereno da paz tão precisada e se fará especial essa alquimia. Não sabes o poder que tem a tua luz? Ela dissipa sem esforço a mais tenebrosa nuvem, afugenta a dor intrínseca, atrai os opacos fragmentos de fé, reavivando a nuance desbotada desse amanhecer que parece jamais querer acontecer. Tua ausência entristece, faz aflorar a angústia e a inevitável sensação de impotência diante do tempo implacável no seu caminhar, apático e insensível às dores alheias. Há feridas abertas, inflamadas, latejantes. Chagas imensas, impiedosas, causando dores que transcendem à sensibilidade da carne. Elas ferem fundo à alma, provocam um lamento possível de ser ouvido lá de longe, do espaço aonde gostas de brincar de colorir a terra, ou se esconde para que tua falta seja sentida. Agora não é hora de brincar de pique-esconde, Sol. Não seja tão infantil! Não percebe a agonia implícita nesse pranto? Venha e faça tudo parecer perfeito, tal qual as tardes de verão na praça, com sorvete de coco, crianças correndo pra um lado e pro outro,  passarinhos e pipas se confundindo no céu enfeitado, vozes eufóricas e gargalhadas incontidas. Sumirá a agonia e o desespero, surgirá a felicidade em sua plenitude. E quando o ocaso chegar te chamando pra dormir, tu te deitará contente por ter amorosamente pintado o mais sublime dos dias.