sexta-feira, 29 de abril de 2011

LEIA ATÉ O FIM, É GENIAL!



O título soberbo é o mesmo lido nas inúmeras mensagens de e-mail recebidas todos os dias. Minha relação com eles não é lá das mais amigáveis, aliás,  lido com um tanto de indiferença, a não ser que sejam pessoais, daqueles a me trazerem um afago sob forma de música, poema, ou um mero “só vim saber se você ta legal”.

No mais, detesto todos eles. Devo estar condenada ao fogo do purgatório, no mínimo, por não encaminhar as inúmeras mensagens com prazo de validade pra serem cumpridas, tipo uma bomba contando regressivamente para explodirem. “Encaminhe esse e-mail para duzentas e noventa e sete pessoas em 2 segundos ou estás lascado, camarada”; “Leia, por favor, você não vai se arrepender”; “Kkkkkk... Esse é fantástico”.  Normalmente os recebemos com mensagens assim, portando pragas terríveis, ou implorando leitura, os quais todo mundo já encaminhou, portanto você o receberá umas mil vezes.

Há poucos minutos abri por curiosidade um desses interessantíssimos, cujo título é: DEZ COISAS A SEREM APRENDIDAS COM O JAPÃO. A ilustre mensagem eletrônica traz frases com o intuito de ensinar aos brasileiros a agirem em situações de calamidade. É preciso aprender a não se descabelar quando sua casa desaba na sua frente e você tiver escapado por um triz. E se perdeu algum ente querido, oras, há de se ter calma e bom senso todo o tempo, do que adianta o desespero? Sejamos bem educados em quaisquer situações.

Das dez frases contidas no e-mail, essas abaixo me chamaram especialmente atenção:

A CALMA – Nenhuma imagem de gente se lamentando que havia “perdido tudo”. A tristeza por si só bastava.
A DIGNIDADE – Filas disciplinadas para água e comida. Nenhuma palavra dura e nenhum gesto de desagravo.
A ORDEM – Nenhum saque a lojas. Sem buzinaço e tráfego pesado nas estradas. Apenas compreensão.

Mas como assim? O mundo se acaba ali, aos pés do sujeito e ele tem que manter a elegância acima de tudo? Faça-me o favor! Eu não dou conta de tanta frescura. Sei lá quem foi o autor dessa beleza de e-mail, mas o sujeito devia ao menos levar em consideração as diferenças gritantes na cultura de cada país. O povo japonês, graças aos céus, tem o dom de se superar nas situações mais horrendas, mantendo a postura disciplinada, peculiar às gentes do oriente. Não estou inteirada acerca da relação do governo com seu povo, mas imagino que deva haver uma atuação destes em situações de calamidade, ao contrário do Brasil, terra de indisciplinados, insistentes em lamentar só por perderem o que nem bem possuíam, teimosos em bradar contra o descaso, chorando alto por se sentirem desamparados.

Será necessária a distribuição de cartilhas com atitudes civilizadas a serem tomadas quando das tragédias provocadas pela chuva, quando da seca a judiar o sertanejo? Sugiro algo do gênero: “ MANUAL DE BOAS MANEIRAS PARA MOMENTOS CALAMITOSOS”.

Durma-se com tamanha tolice e completa ociosidade.

Com vossa licença, irei nesse instante implodir silenciosamente uma infinidade de mensagens eletrônicas, trazendo conteúdos edificantes, lindos textos de autoajuda e a propagação de inacreditáveis milagres. Vocês, caros amigos, tem a opção de ler disciplinadamente esse texto de rara qualidade, ou prepare-se para as pragas poderosíssimas, no melhor estilo Bento Carneiro, o vampiro brasileiro: MINHA VINGANÇA SERÁ MALIGNA!


Meu mais civilizado boa tarde a todos, num aceno discreto, como é de bom tom.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

ASSISTENCIALISMO CINCO ESTRELAS



Meu irmão comentava de uma matéria lida na Revista Veja acerca da imensa generosidade do Ministério da Cultura em lidar com os recursos da Lei Rouanet. Os artistas, todos consagrados, estendem sua mão em busca de apoio financeiro para seus projetos fantásticos e não saem de lá com quantia menor que um milhão de reais. É um assunto um tanto batido, eu pra variar cheguei atrasadinha, mas não resisti a conjecturar a respeito.

Demorei um tanto pra assimilar a informação e perguntei: “Como assim, o dinheiro sai do Governo Federal, ou seja, do meu bolso?”...

Sim, a grana sai do meu, do seu, do nosso bolso, prezado leitor e contribuinte. Tentarei esmiuçar para a minha própria compreensão: os artistas enviam seus projetos para o Ministério da Cultura, especificando a quantia substanciosa de que necessitam para viabilizar os tais. O MinC, por sua vez, permite a captação de verbas muitas vezes excedentes a 1 milhão de reais com a legítima conivência da Lei Rouanet. A fantástica Maria Betânia, por exemplo, levou a bagatela de 1,32 milhões para realizar o projeto do seu Blog “O Mundo Precisa de Poesia”, com uma remuneração de 600 mil reais para o diretor artístico do referido espaço, no caso, ela mesma. A bichinha foi contemplada, além da grana, com um sonoro coro de vaias numa apresentação por aí, quando o público já havia tomado conhecimento dessa informação. Na lista dos beneficiados estão: Gal Costa, Maria Rita, Erasmo Carlos, Zizi Possi, o ex-ministro Gil e até o meu muso ruivo, Nando Reis, para financiar o Bailão do Ruivão, aonde tenho que ouvi-lo dividir os microfones com aquela moça chatérrima, a tal Joelma cheia de babados. Qualquer coisa consultem o link para informações mais precisas, pois sou meio atrapalhada com dados informativos, estatísticas e afins.

A tal Lei Rouanet incentiva as empresas a apoiarem os artistas, tendo em contrapartida, direito a benefícios fiscais. As mesmas, por sua vez, só apostarão seu rico dinheirinho em quem tiver o nome muito bem consolidado na mídia. Conclui-se, portanto, que os projetos culturais de fato necessitados de apoio financeiro, continuarão às escuras, pois o meu, o seu, o nosso suado Real destinou-se a financiar o show da ilustre Gal Costa, visto que a baiana captou a singela quantia de 1,8 milhões do MinC para fazer valer sua curta turnê cantando Tom Jobim. Suponhamos que o Zé e a Maria, se fãs de Gal, queiram ir ao seu conceituado espetáculo, darão com os burrinhos n’água, pois o preço “popular” para vê-la caiu de 100 para 60 reais.

No frigir dos ovos públicos, se usa o dinheiro de muitos para afinar a aventura pessoal de poucos, como bem disse o Zé Rodrix. E evidentemente essa verba não está indo para onde deveria: projetos culturais anônimos, escondidos Brasil afora por falta de investimento e muito menos se destina aos cânceres sociais como saúde, educação, segurança...

Sempre me vesti de certo remorso em comprar piratas ou baixar na internet CDs dos caras que musicalmente me fazem a cabeça. Volta e meia um original vinha pra minha coleção. Digamos que agora, depois de saber o quanto sou generosa com a classe artística, escrevo esse texto ouvindo o Bailão do Ruivão, (novo CD do Nando Reis que eu e você o ajudamos a tornar real) devidamente colhido nos sites especializados em dowloads e vos digo não saber aonde foi parar o meu sentimento de culpa.

Tudo bem que não tenho a voz da Betânia nem quando ela está muda, tudo bem que o mundo está deveras carente de poesia, mas o bloguinho da moça é bem dispendioso. Será que todo blog se encaixa no perfil dos merecedores de afagos financeiros, mesmo em proporção bem mais modesta? Proponho uma marcha a Brasília, com hospedagem grátis na casa do Clayton, o DJ, a fim de reivindicar nosso quinhão nessa dinheirama toda. Blogueiros, uni-vos!

Sem querer cair no papo demagógico, me recompensa muito mais saber que contribuo involuntariamente pro Zé e a Maria comprarem meia dúzia de ovos com o dinheiro do Bolsa Família, do que ser financiadora desse assistencialismo de luxo a marmanjos cujas vidinhas estão confortavelmente ganhas, só porque se acham o suprassumo da arte brasileira.

Aos filhos dessa Pátria mãe gentil às minhas custas, beijos!

domingo, 24 de abril de 2011

O POETA E A FLOR


RENDIÇÃO



Antes da queda duelei com o tempo.
(maldita efemeridade que não dorme)
E minha causa até parecia ter sentido.


Porém descobri que o tempo
Não é somente uma lei;
é também uma pedra esculpida em meus ossos.

Antes da queda , eu era um homem que se movia
emigrado da falsa claridade da noite.
mas mesmo na penumbra, eu possuia as minhas
armas de defesa e ainda trazia comigo o fresco
vigor dos embates.

Hoje me cumpro em varias mortes.
E me despenco entre meus ossos;

Um poeta sem livros e sem filhos...

E agora ?

Quem herdará de mim a fraca memória de datas
e a vermelha flor de fogo que trago entre os dentes?

Quem ?



(Moisés Poeta)





Cansado das lutas inglórias ele relembra antigos duelos. Sob seu olhar firme todos os passos do tempo eram registrados, marcados à ferro e fogo. Ousava tamanho desafio, resistindo a cada golpe da espada afiada atingindo de raspão o seu corpo valente. Aos poucos percebia minarem suas forças, já não era mais o guerreiro de outrora, petulante, incansável, altivo em suas convicções... Seus desejos se afastavam de si e as pernas relutavam em correr atrás do seu algoz, este absoluto em sua transitoriedade, sorrindo sarcástico pela impossibilidade de ser alcançado.  Não há como rever brevidades, remendar passos incertos, o tempo ruma impiedoso levando consigo o viço outrora transbordante, moendo sonhos acordados. Ao longe ecoava o seu lamento, o pranto de desesperança e perguntas não respondidas, temendo e contraditoriamente ansiando o iminente embate final. Era muitos em sua solidão, mas agora receava estar realmente só, sem uma maldita sombra a quem pudesse confiar o bastão de seus poemas e tal sensação causava imenso amargor. Quão distraído era o poeta, não se lembrava do poder das palavras em encantar o tempo. Se esqueceu de que a flor de fogo presa entre seus lábios enquanto caía ferido, rasgada pela espada afiada, permanecerá acesa feito uma fogueira imortal.


 (Milene Lima)



quarta-feira, 20 de abril de 2011

A SEXTA-FEIRA DOS PECADOS INFANTIS



Cedinho a Vó escancarava a porta do quarto e dizia pra eu parar de remanchar e sair da cama, afinal dormir até tarde na Sexta-feira Santa não podia.

- E tem que jejuar, você já está crescida. – Dizia ela num tom suave, porque gritar naquele dia, misericórdia, pecado mortal.
- Oxente, Vó! Eu deitada já estou jejuando, né? Ninguém come enquanto dorme... – Retrucava eu, católica tão legítima feito os importados do Paraguai, esticando o sono o máximo possível.

O coelho da Páscoa não gostava muito de nos visitar. Acho que ele, feito Papai Noel, não faz o tipo paparicador de criancinha pobre. A Páscoa pra nós existia na escola, ou na Sexta-Feira da Paixão, o dia do “nada pode”. No mais, a data passava meio despercebida. Mas na sexta-feira era especial. Ficávamos cheios de tensão pra não cometer deslize algum, afinal, os quintos dos infernos estariam com as portas abertinhas esperando o primeiro que ousasse andar de bicicleta, jogar bola, brincar de boneca... Ninguém queria essa passagem, mas enviar um companheiro pra lá não era ideia tão ruim assim. Funcionávamos como espécies de fiscais do pecado alheio, delatando imediatamente a pai e mãe quando algum irmão, primo ou amigo desavisado se metia a fazer o “não pode”. Os adultos ralhavam com quaisquer atitudes que tínhamos, dizendo que daquele jeito estávamos cometendo o pecado, sendo também culpados pela crucificação de Jesus Cristo.

- Mas nós, mãe? A gente nem tinha nascido ainda...
- Sim, e não pode responder com desaforo, menino! – Falava a mãe, doida de vontade de dar uns cascudos pecaminosos, se contentando com um encarcamento isento de proibição.

O grande barato do dia era a peregrinação às casas de tios e padrinhos em busca de uma cândida bênção, todos disfarçados de anjinhos, ocultando a verdadeira face de projetos de meliantes, interessados muito mais nos doces e trocadinhos que os pobres adultos reservavam pra ocasião. Era um “bença tio” com a palma da mão estendida e um sorriso maroto no rosto. Findada a peregrinação, o tesouro era compartilhado entre todos, mas os trocados arrecadados só poderiam ser gastos no dia seguinte, pois comprar ou vender na sexta-feira santa era pecado horripilante...

No almoço, todo o sacrifício do jejum era devidamente recompensado. O peixe é o protagonista absoluto, aliado a uma porção de pratos feitos à base de coco, no geral uma delícia, mas se degustados em dias seguidos, não há cristão que aguente. Por aqui mantem-se a tradição do feijão no coco, bacaninha se comido apenas uma vez ao ano.  O sujeito católico cujo paladar não se adequar muito às iguarias típicas da data, estará em maus lençóis, pois comer carne dá direito à passagem só de ida pro camarote mais fuleiro do inferno.

Meus botões infantis incontrolavelmente questionavam se Deus estaria realmente preocupado com o que seus filhos amantíssimos estariam comendo. Como Pai zeloso, imaginava eu dentro da minha inocência questionadora, Ele se aperrearia com quem não tivesse o que comer e não com o tipo de alimento a encher o bucho das Suas criaturas. Mas isso são apenas conjecturas. Comer carne apenas com o propósito de desafiar, é tolice das mais intolerantes. Seja por fé ou mera prática tradicional, não é coisa do outro mundo ficar um diazinho apenas sem comer carne...

Voltando às minhas memórias pascoais, depois de findado o dia, todos exaustos do “nada pode”, restava esperar pelo Sábado de Aleluia, pra malhar o coitado do Judas. Outro ponto dessa história a qual meus botõezinhos não compreendiam: Num dia se prega o amor de Cristo, que morreu na cruz pela humanidade, falava-se do perdão e a missão de cada Sábado de Aleluia era matar novamente o sujeito morto? Oxente! E o perdão se perdeu onde?

Calei os meus botões desprovidos de compreensão religiosa.

FELIZ PÁSCOA, caros amigos.
Pratiquemos o perdão.


EM TEMPO: “encarcamento”, do verbo encarcar, implica no ato de segurar o sujeito pelos ombros e forçá-lo pra baixo, ou apertar na pobre cabeça do infeliz, fazendo o mesmo movimento. Esse gentil ato substituía os tabefes proibidíssimos de serem realizados na sexta-feira do “nada pode”.

terça-feira, 19 de abril de 2011

TRÊS VEZES AMOR


Tripla homenagem aos queridos aniversariantes, cativos no meu coração:

Dezenove de abril, dia do índio nasceu ela, a branquela do Cadoz, terra do tapete rosado, amor da minha vida desde sempre. Só nos faltou nascer do mesmo ventre, mas nos sentimos irmãs, somos primas e amigas, em tudo o que implica essas palavrinhas. Nos primórdios as cartinhas e bilhetes trocados, tendo nosso avô como mensageiro, era nosso veículo de comunicação. Aliás, o Vô é pessoa importantíssima na nossa relação, ousou passar só pros olhos miúdos dela o tom azul do mar das Alagoas. Desaforo, viu? Não há um só dia em que não nos falemos, via MSN ou celular, misturando nossas vidas, partilhando problemas e acima de tudo muito riso... Não falarei aqui das tantas vezes em que riu de mim, de cócoras feito uma índia parindo, por não conseguir ficar de pé tal era a crise de riso, em virtude dos meus micos impagáveis. Não falarei! Ah, as nossas férias juntas, preciosos momentos... Dessa mulher pequena, cuja força não tem dimensão, digo de minha admiração. Cedo teve que engolir o choro e seguir, deixou de lado inquietações adolescentes e urgente se fez adulta, trilhou seu caminho entremeado por um tanto de incerteza e desamparo, mas acima de tudo muita garra. Marrenta a baixinha, isso é fato. Briga por si e mais ainda por quem ama. São quatro décadas e mais um aninho seguindo juntas e é apenas o começo. O infinito nos espera, Miss TPM a quem tanto amo... 

Amanhã, vinte de abril, a primavera é do Jean, aquele mesmo cujo dedão do pé foi pisoteado pela muletinha em protesto, meu irmão, amigo, pai, anjo protetor. Meu norte, porto seguro e todas as classificações que tentem representar o quanto uma pessoa é significativa na vida de outra. Ele é assim, do tipo que cuida, faz o máximo pra tornar mais fácil os caminhos dos que lhe cercam, generoso sem propagar. Faz porque é de sua essência. Sujeito sério, de respostas contundentes. Se não é a verdade nua e crua a intenção, então não o questione. Dourar a pílula é definitivamente arte que não domina. A frase “O Jean disse que...” é imediatamente foco de atenção por todos, pois sua opinião/bronca/elogio é todo o tempo respeitadíssima. Das vezes em que me melindro sem querer acompanhar as pessoinhas nas viagens, ele me pergunta sem titubear: Seus problemas de saúde vão diminuir se ficar em casa? Não, né? Então arrume suas coisas e pronto! E eu vou. E é sempre maravilhoso... Me rendo de encantos ao seu jeito firme de conduzir as coisas, sem perder a matiz alegre, de garoto brincalhão, festeiro. Partilhamos o mesmo gosto musical, comungamos das idéias acerca da vida e suas nuances nebulosas. Na realidade, tudo isso é pra dizer da estranheza que seria minha vida sem a sua existência. Sou verdadeiramente mais feliz e uma pessoa melhor porque o tenho do meu lado, incansável. Também por isso dedico o meu amor imensurável.

Depois de amanhã, dia de Tiradentes, é a vez da titia fazer aniversário. Tia Minim de todos, bravinha quando erram a pronúncia desse seu apelido (no registro é Emília), tomou pra si a minha vida e assim vive desde que nos tornamos essa pequena porção da família. Quando nos demos conta, éramos as duas, uma pela outra e sua doação de tempo e zelo me causa um tanto de constrangimento, embora eu saiba que tenha sido genuíno e ela não saberia fazer de outra forma. Um tanto arredia à primeira vista, uma mulher miúda e cheia de afeto quando se tem um maior contato. Suportamos até o azedume de ambos os lados e aqui confesso ser o meu um tanto maior. Tadinha, como é quem mais convive comigo, automaticamente é forçada a tomar sem açúcar o suco desse limão galego. É uma forma egoísta de pensar, eu sei, mas tenho convicção de que “cuidar” de mim, esse bebê fofo e lindo, lhe dá uma espécie de sentido, preenche um vazio causado pela vida, por ela mesma, sei lá... Só sei da grande bênção que é tê-la na minha vida, dos cuidados, da cumplicidade. Até as rusguinhas presentes apenas na vida dos que se amam muito são importantes.

Aos três, obrigada por me permitirem amar...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A ESTRANHA NO ESPELHO

BEFORE THE MIRROR - Manet

As coisas se estranham dentro da gente, se fazem um emaranhado de sei lá o que, medonho, esquisito, feito os lobisomens da nossa imaginação infantil. Mas são lobisomens interiores, posseiros das mentes irrequietas, descontentes. Montam acampamento e de lá não saem a não ser mediante muita negociação. Talvez eu nem queira essa negociação. Direi, sem muito ânimo: “Querem ficar? Que fiquem! Mas não me incomodem tanto, não me acordem e não me aborreçam!”. Eles decerto não obedecerão. Dançarão feito loucos ao meu redor, proliferadores da das sensações avessas, adversos seres intocáveis, me lançarão verdades indesejadas. Farei com eles uma barganha, serão pra mim uma companhia até que minha mente não se sinta tão vazia e eu os deixo ficar; até poderei fingir ter horror a eles, para que os pobres diabos estufem o peito orgulhosos por se suporem seres sinistros. Tolos! Não passam de meros fantoches, só estão invasores porque não esbocei reação alguma ao vê-los chegar. Ao contrário, escancarei portas e janelas convidando-os a se instalarem. Quero ver do que são capazes. Me mostrem se posso ser pior ou melhor do que a estranha no espelho do meu quarto, a me olhar matreira, debochada. Num segundo eles me fazem assistir ao filme da minha nada mole e doce vida, um trailer em cinema mudo com cenas de humor, amor e dor, só pra arrematar numa rima sem nenhum lirismo. No começo vi o viço, a brasa a me queimar a pele, a comichão provocando os instintos. Era outra mulher naquele filme, a estranha do espelho, a que já fui um dia, experimentando as deliciosas sensações e sentimentos dispostos em cardápios convidativos, aptos a proporcionarem uma vida intensa a qualquer criatura com um mínimo de vivacidade. Ao final da curta fita em preto e branco, procurei respostas dentro de mim mesma para os pungentes passos perdidos, dados a esmo, mas me fugiram todas as respostas. Sou, talvez, a brasa temendo se transformar num carvão apagado. Sou a estranha do espelho, cujo viço latente ainda anseia ser reavivado, a mulher que não tendo pressa em expulsar os lobisomens interiores, se lança a dançar com eles, num entusiasmado bailado na tentativa de reencontro consigo mesma... Talvez eu esteja brasa apagada querendo ser labareda...






segunda-feira, 11 de abril de 2011

Diferença... O Que É?

OPERÁRIOS - Tarsila do Amaral

Dia desses minha sobrinha Maria Clara iniciou um papo sobre preconceito racial, do alto dos seus incompletos 10 anos, me questionou sobre o fato da maioria dos bandidos em filmes e novelas serem negros. Fiquei na dúvida entre formular uma resposta bacaninha ou lançar um “titia não tem todas as respostas, Clara”. Conversamos sobre o assunto e tentei clarear a sua cabecinha confusa sobre essa chaga maldita chamada preconceito. Mas é uma luta difícil, porque as crianças convivem com essa sujeirada de discriminação todo o tempo em coisas aparentemente sutis, como ouvir alguém lamentar por um sujeito boa pinta, preso por um crime qualquer, porque o pobrezinho não tem cara de bandido.

São coisas supostamente sem importância, mas na cabeça delas permanece o registro da informação de que o sujeito de “boa aparência” tem menos possibilidade de ser um marginal. É literalmente o (pré) conceito. Julga-se pela figura, aceita-se os esteticamente selecionados enquanto marginaliza-se os “estranhos”.

Meu amigo Clayton, lá do Apenas 1 DJ, me contou sobre o dia em que foi abordado por uma viatura da polícia, tirado do carro sob os gritos de “desce seu preto! Achou mesmo que ia fugir? Você é muito burro pra isso”. Coisas assim acontecem todo o tempo, mesmo quando as campanhas politicamente corretinhas tentam dizer o contrário.


Estamos num país teoricamente bacaninha no sentido de oferecer acessibilidade. Os concursos públicos oferecem vagas com maior facilidade aos portadores de necessidades especiais (especiais?), que maravilha isso! Mas não se enganem, é puro assistencialismo pra ocultar a discriminação. Fosse a situação realmente como querem nos fazer acreditar não seria necessária essa “força”, pois o deficiente teria a mesma possibilidade de disputar o mercado de trabalho, sem precisar embrenhar-se pelo serviço público. Ah, mas as empresas agora estão contratando as pessoinhas especiais, uhuuu!!! Não se enganem mais uma vez, meus caros! Essa não é nenhuma atitude ultra-mega-moderna de gestão ou coisa que o valha, é tão somente o cumprimento da lei. O setor privado se vê obrigado a oferecer vagas aos deficientes, mas cabe aqui a informação de que quanto menos deficiente o sujeito for, melhor pra empresa contratante. Uma unha encravada, a pessoa mancando um tiquinho, pronto, está contratado! Os muito deficientes não são visto com bons olhares.

Vi num programa esportivo esses dias uma matéria sobre um jogo de vôlei, aonde toda uma torcida, em uníssono, ecoou um grito de “bicha, bicha” direcionado a um jogador do time de Araçatuba, salvo engano. Crianças, mulheres, senhores, todos se divertiam com o coro bem ensaiado. O atleta não aceitou a brincadeira estúpida e entrou com uma ação contra o time adversário, a respectiva torcida, o raio que o partisse... Massa!

Isso me faz refletir sobre a resposta ainda não formulada na minha cabeça para dar à Maria Clara nas suas questões sobre preconceito. O correto era falar a verdade, nua e crua. Dizer da feiúra do mundo, do quanto as pessoas podem ser cruéis em se tratando de criarem castas implícitas, ou de como a intolerância não perde fôlego. Deveria lhe dizer de como a tia dela sofria ao entrar todos os dias no ônibus pra ir pra escola, no primeiro ano estudando mais longe de casa, tendo de conviver com a gozação recorrente de um idiota que fazia todo o percurso dizendo pro Fernando que a “namorada” dele tinha chegado. Fernando era um garoto também deficiente e isso era motivo suficiente pro babaca inventar um namoro, chacotear à vontade, lançar comentários jocosos enquanto sorria sarcástico, sob a conivência dos demais passageiros. Tanto eu quanto o garoto suportamos tudo calados, por um ano inteiro. Agora, séculos depois, descobri que aquele tormento ganhou o nome bonitinho de bullying... Vos digo, pra uma criança é feito ter pesadelos diários com os monstros mais tenebrosos, se dar conta de que eles de fato existem e estão embaixo da sua cama.

Talvez eu diga pra ela que a humanidade pode ganhar uma nuancezinha mais bonitinha, desde que ela e sua geração se transformem em adultos praticantes, de fato, do amor e respeito ao próximo, cientes de que as diferenças existem a fim de tornarem mais bacana a mistura e não devem em absoluto significar muros intransponíveis.

Sigamos!
Beijos!

domingo, 10 de abril de 2011

Relicário


Sucumbi! Me rendo, jogo a toalha, humildemente desisto. Peço desculpas aos meus amigos, credores de confiança em mim, permitindo a publicação de seus textos e poesias lá no Relicário, mas não é mais possível continuar. Tenho estado estranha aqui nesse mundo das letras, tenho pensado e repensado, decidido e voltado atrás tantas vezes sobre querer ficar ou não, mas sei que quero... Sei? Tenho tentado manter a alegria, meu moinho de vento, motivo principal em ter vindo pra cá, apenas e tão somente pra me divertir. De repente percebo que as palavras ganham um peso muitas vezes desnecessário e isso me assusta.

Bom, mas o assunto aqui é o Relicário, cantinho mais querido, baú aonde eram guardados as coisas bacanas escritas pelos meus amigos ou dos caras da música e arte em geral que vez ou outra eu os conduzia ás cegas pra se fazerem presentes por lá, sem que eles nem imaginassem, é claro. Não estou mais conseguindo levar os dois blogs (três, contando com minhas eventuais participações no Quiosque), me falta o entusiasmo de outrora e sem ele não há enredo fácil.

Quero continuar publicando meus amigos aqui, criando uma sessão especial pra isso, ideia ainda fragmentada nos meus miolos confusos, porque me honra homenageá-los, porque são merecedores de todos os aplausos. Se ainda vão me permitir tal ação, aí são outros quinhentos.

Ah, nem é o fim do mundo... Pra que tanto drama? Simples seria se não fosse euzinha a ter tomado essa decisão mais indecisa sob a face da terra.

AC, Kimbanda, Léo Santos, Lu Cavichioli, Moisés Poeta, Rodolfo Barcellos, Si Fernandes, gentis amigos e colaboradores e os queridos seguidores... Relevem a sutil insanidade que me aflora. 

Obrigada, sempre!



sábado, 9 de abril de 2011

Ciclo



      Já tentei não querer
Já tentei não ser
Já tentei viver de meias palavras
  Já tentei ficar no meio
Já tentei até não tentar
Mas a verdade é que quando quero
É pra valer
Não dá pra ser mais ou menos
Onde a intensidade toma a frente de tudo
  Tenho preguiça de vontades incubadas 
Denoto-me
Tudo ou nada
Cheio ou vazio
Limpo ou sujo
Sim ou não

(Déya – sexta feira, 09 de abril de 2011, 
04:45 da tarde, lá de Goiás)


O tema do papo vespertino se dava sobre os encontros e como rápida e inexplicavelmente se fazem os desencontros. São ciclos que se findam e exigem sabedoria para serem assimilados sem a necessidade de um drama maior. É preciso permitir ao outro a escolha entre permanecer ou seguir, mesmo causando uma imensa cratera cheia de vazio no peito tolo de quem se deixou enredar. Mas são válidos os encontros, todos eles. São feitos em tranças de cumplicidade, se vestem em risos nas melhores horas, se fortalecem em lágrimas nos momentos mais difíceis e jamais são em vão. Enredo mesmo é perceber o elo desfeito sem compreender a razão. Elos são assim, se fragmentam por motivo algum e a sua restauração não é obra que se espere. É preciso espiar da janela, no bailar da chuva escorrendo pela vidraça, o encontro se desfazendo, tudo, absolutamente tudo que um dia foi magia, fez-se água e a estranha ausência agora se acomoda confortavelmente na poltrona, dizendo ter vindo pra ficar, entristecendo a cumplicidade, alheia num canto qualquer, esperando outro tropeçar de almas aonde possa se encaixar. Ciclos acabam para outros iniciarem. Assim é a vida, um constante ir e vir de emoções e sentimentos. Bacana é se deixar levar nessa constância desafiadora, mesmo não implicando num caminhar seguro. Mas, quando se trata de sentimentos, segurança o que é?

 (Milene, sábado, em 09 de abril de 2011, 
1:28 da manhã, cá nas Alagoas)

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Adorei essa frase dela “tenho preguiça de vontades incubadas”.
Tenho preguiça de um monte de coisa, devo ter das tais vontades incubadas também...
Deu-se o encontro. 
Fizeram-se as palavras. 
Que não se finde o ciclo.

Beijos!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A Ausência do Nexo




Dessa vez não se tratou de um caso corriqueiro de violência na cidade maravilhosa. A polícia não terá que se explicar pelas balas perdidas a atingirem inocentes nas suas incessantes batalhas contra os traficantes. Um dos seus representantes inclusive evitou que a cena se tornasse ainda mais dantesca, detendo o assassino e impedindo a morte de um número ainda maior de pequenos. Os governantes posam chorosos em frente às câmeras, lamentando o ocorrido, enquanto emitem um silencioso “ufa!” por não serem dessa vez culpados, afinal os EUA produzem crimes assim há tempos e todos consideram uma fatalidade. Os noticiários não se cansam de explorar o assunto, passam e repassam a mesma matéria com os mesmíssimos depoimentos, sugando o máximo de audiência. A imprensa sabe bem agir nessas situações, pois tem a exata noção de quão inesgotável é o senso de absorção do público brasileiro por notícias trágicas. Um cidadão teve o cuidado de municiar os noticiários com as oportunas imagens feitas através de seu celular, caminhando calmamente no meio da loucura, pessoas gritando, correria, sangue, desespero, voluntários tentando colaborar e ele lá, preocupado exclusivamente em filmar o caos... Adentrou o prédio da escola, filmou o corpo do sujeito e deve ter se lamentado bastante por não ter conseguido ir além e filmado um amontoado de meninas mortas, afinal o acesso do seu video no You Tube seria infinitamente maior. Bizarro!

Mas tudo isso é tão ínfimo comparado com o absurdo da situação. Um sujeito simplesmente planejou, friamente planejou esfacelar crânios infantis. Mirou certeiro em várias crianças e impediu por motivos inexplicáveis que suas vidas, ainda botõezinhos, florescessem. Isso atinge feito um soco no estômago a todos a quem resta um mínimo de sensibilidade.

As famílias devem estar tentando interrogar Deus sobre os motivos de tamanha barbárie com seus miúdos e esse direito não lhes pode ser negado. Um misto de incredulidade, indignação e compaixão é o que resta nesse momento de absoluta impotência em se tratando de aliviar a dor alheia, seguido de um certo constrangimento pela involuntária falta de proteção àqueles a quem deveriam ser dadas todas as garantias de vida tranquila.

Um tio de uma das vítimas falou numa das incontáveis matérias na TV: “Se não  podemos mandar nossos filhos pra escola, vamos mandar pra onde então?”...
Alguém sabe a resposta?

Oxalá fosse possível acolher no colo todas as crianças do mundo, impedindo que se aproximassem delas qualquer sensação de medo ou desamparo... Talvez até mentir devagarinho a elas dizendo que o mundo não é assim tão feio e cruel.

Hora de dormir, apesar da desolação em saber não ser tudo isso parte de um filme policial, cujo bandido foi morto por um corajoso homem da lei e todas as vidas foram salvas.

Por que vez ou outra a vida não imita a arte?

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Feito Uma Manhã de Domingo



“Acho que sábado é a rosa da semana”.

Essa frase belíssima não me pertence. Não apenas pela beleza intrínseca, mas porque ouso não compactuar com o pensamento de Clarice Lispector. O sábado me intriga, os fantasmas gritam tão alto a ponto de me ensurdecerem, por isso gosto imensamente quando sua noite me deixa. Ela me desdenha, desafia a vivê-la e reparo de soslaio, sem lhe dar muito merecimento.

Gosto das manhãs preguiçosas de domingo, ligar o rádio baixinho e continuar dormindo. O melhor mesmo é que tivesse quarenta e oito horas o domingo, sem a noite pra confrontar a dizer da ciranda maluca chamada semana, recomeçando impiedosa. No lugar da noite, haveria a cumplicidade do dia a nos permitir diminuir a intensidade dos passos, deixando a vida vir serena, tocar na vitrola uma música alegre e tirando-a, moça faceira, pra dançar.

Mas não há como deter a sisuda segunda-feira. Ela invariavelmente nos cobra obrigações e caminhadas a passos largos, em absoluto se permite comover pelo romantismo displicente do domingo. As regras são suas e não se abstém de abrir a semana como uma inspetora severa, querendo idéias, exigindo projetos a serem realizados nos dias seguintes. Autoritária, grita: “Acordem seus preguiçosos, não me venham com essas caras de ressaca e não ousem me confundir com o domingo, aquele fracote sentimental. Tomem um café forte e aviem!”

Desafiadora, carrego comigo a malemolência do fim de semana pra não me deixar exaurir de imediato, logo no dia dessa fulana exigente. Me apresento a ela sem disposição alguma, mas vestida de muito bom humor, minha arma para ludibriar suas maçantes vinte e quatro horas.

Essa semana, acordarei todos os dias com a sensação de contentamento. Lançarei um sorriso antes mesmo de abrir os olhos, enquanto penso: “Bacaninha, tudo está bem melhor agora”...

Beijos displicentemente românticos feito uma manhã de domingo, meus queridos.


sábado, 2 de abril de 2011

Isto Sim é Uma Vergonha!!!



Pode ser a famigerada TPM que eu nem acredito ter. Minha chatice é permanente e incansável, nada tem a ver com aqueles diazinhos chatos... Mas estou mesmo aflorando indignação a cada instante. Estaria meu poder de tolerância, outrora transbordante, esvaziando?

Minha postagem anterior pintou-se também em repúdio aos caminhos promíscuos trilhados pelos governantes cá do meu estado e suas atitudes impiedosas a atingirem diretamente a vida escolar das crianças em escolas públicas, tirando-lhes o direito de ter uma merenda decente. Pois bem, lendo os comentários, me chamaram a atenção as palavras do Guará, que nem é de escrever muito e fez lá o seu desabafo porque citei Boris Casoy e sua célebre frase “isto é uma vergonha”.  Cabreira, fucei no You Tube acerca do que se queixou Guará e constatei sua razão em se indignar. Confesso sem pudor algum minha ignorância sobre o vídeo bizarro aonde o sujeito jornalista desdenha dos votos mútuos de feliz ano novo entre dois garis: “ Que merda, dois lixeiros desejando felicidades, do alto de suas vassouras... Dois lixeiros... O mais baixo da escala de trabalho”... Foram essas as palavras bizarras do nobre jornalista, que no dia seguinte proferiu um pedido de desculpas aos telespectadores e aos garis como se de uma hora pra outra ele tivesse passado a considerá-los nobres profissionais. Isto sim é uma vergonha, senhor Casoy!

Questionada pela minha prima sobre uma peleja entre a Preta Gil e um tal deputado carente de saudade da ditadura militar, mais uma vez fucei pra esmiuçar essa notícia. O nobre deputado Jair Bolsonaro, eleito pelo PP, cuja sigla nem vou perder tempo em abrir porque tais siglas não querem dizer absolutamente nada em se tratando de índole ou direcionamento político, respondeu a uma pergunta da filha do Gilberto Gil (não sei em qual categoria profissional ela se encaixa, pra mim sua melhor referência é o pai genial) num quadro do CQC. Ela queria saber sobre o que o moço faria se seu filho namorasse uma negra e a resposta foi a seguinte: "Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”.

Cogita-se a possibilidade dele não ter compreendido bem a pergunta e se atrapalhado na resposta. Ora, não parece ser essa a perfeita leitura do fato, se considerado o passado palavratório do deputado. O homem cospe fogo em todas as direções, garante estarem seus filhos livres da “doença” de serem gays porque é um pai presente e esse risco eles não correm; exalta todos os honrados presidentes do regime militar; defende a tortura aos usuários de droga; afirmou entre outras bizarrices que não entraria num avião pilotado por um cotista e nem aceitaria ser operado por um médico na mesma situação. Não é nenhum absurdo considerar essa resposta ser exatamente a exposição do seu pensamento. Seu nome deveria ser Jair Preconceito.

Me pego encarando meus pobres botões, já exaustos de tanto questionamento, sobre a quase execração pública sofrida pelo Tiririca em época de sua polêmica eleição. Por que é legítima a eleição de um homem como esse, indo contra todas as bandeiras levantadas no que diz respeito à tolerância, em dias de tentativas em se fazer um mundo com mais compreensão? Bom, confesso ser uma péssima porta-bandeira, nem é essa a discussão. Sou a favor tão somente da convivência entre as pessoas compreendendo e aceitando suas diferenças. Não é pecado ser diferente. Só fico imaginando eu e minhas muletinhas fuziladas num paredão porque esse homem não gosta muito dos que não são tão bons quanto ele. Ah, sim, ele não faria isso, não nos dias de hoje. Mas certamente é sua vontade ao ver pessoas fora dos seus padrões absurdos.

Mas o Tiririca, nordestino semi analfabeto, palhaço oportunista que adentrou num mundo aonde não é muito bem-vindo, é o vilão maior em se tratando de manchar o ilustre elenco dos parlamentares brasileiros. O engravatado, bom de lábia, Jair Bolsonaro certamente não chegou lá sozinho, mas tem outra estampa, é bem apessoado (expressãozinha antiga essa) e homens como ele são a cara do Congresso Nacional hipócrita. Ao menos foi o esse o pensamento de milhares de eleitores que o acharam bom o suficiente pra representá-los em Brasília. Continuo querendo parar tudo pra eu descer.

As palavras estão descontroladas. Devo aquietá-las.

Obrigada Guará pelo alerta sobre o jornalista infame.


Agora sou ré confessa. Roubei a ideia genial de uma postagem da Regina e coloquei lá no Relicário. Cliquem aqui, me sigam e confiram... O cara é demais. Resolvi deixar o link, primeiro porque o sujeito merece, segundo, pra essa postagem não ficar tão encardida, abordando somente esse obscuro mundo da política. 


Beijos!



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Como Diria Boris Casoy...



Não há em absoluto alguma novidade nessa postagem. Tudo normal em se tratando de Brasil. Mas até quando permitiremos que notícias assim caiam na rotina e se torne apenas mais uma entre tantas no lamaçal político tupiniquim?

Um esquema de desvio de verba destinado à merenda escolar foi descoberto pela Polícia Federal envolvendo caras-de-pau de algumas cidades de Alagoas.  A operação Mascoth apurou que vários escroques de cargos comissionados falsificavam a lista de pedidos da merenda escolar para enganar a Controladoria Geral da União, assim, os alimentos presentes na lista oficial eram substituídos por outros mais baratos e a matilha usufruía do restante do crédito em benefício próprio, comprando uísque 12 anos, caixas de vinho e ração para cachorro, entre outras coisas.

Esmiuçando: A merenda escolar das escolas públicas na teoria funciona de forma perfeita. Há orientação nutricional, um cardápio para cada dia da semana, tudo balanceado. Nessas cidades onde esses cretinos resolveram tripudiar com a seriedade alheia, o cardápio real foi totalmente alterado. Ao invés dos alimentos com mais sustança, como carne, arroz, suco, passou a ser o prato principal o biscoito, muitas vezes acompanhado apenas de água, porque o suco não atendia a demanda. Enquanto isso os vagabundos consentidos se esbaldavam nos supermercados coniventes, fazendo suas feiras mensais e se esbaldando na compra de supérfluos.

Não são raros os casos de crianças assistindo aulas em estado precário de nutrição. Saem de casa sem fazerem suas refeições, às vezes porque não dá tempo ou por não terem mesmo comida em casa. A mãe encaminha pra escola e acredita que lá a criança vai ter mais acesso a uma comida melhorzinha. E de fato a instituição funcionaria como uma espécie de apoio às famílias carentes se no meio do caminho não aparecessem bandidos assim, casos recorrentes nesse país maluco, onde o sujeito se acha superpoderoso porque lhe deram um determinado cargo aonde ele pode fazer e desfazer sem temor algum. Devem pensar que dinheiro público é de ninguém, então quem chegar primeiro, pega.  E esse “chegar primeiro” certamente não começa nos municípios... A verba vem lá de Brasília, chegaria intacta percorrendo esse caminho tão longo? Nem nos meus pensamentos mais puros acreditaria nisso...

Isso não pode ser encarado como apenas mais uma maracutaia dos podres poderes, Deus do céu! Eles são cruéis, brincam com coisa muito séria... Criança é coisa muito séria. Uma das pessoas presas, ex primeira dama de um lugar qualquer, hóspede preferencial  da sede da PF, chegou rindo à delegacia, com ar de deboche por saber que logo vai estar livre outra vez. E o pior, eleita caso queira concorrer a alguma coisa. Por que inacreditavelmente as pessoas elegem um ser desse gênero, que vai  literalmente roubar o pão da boca dos seus filhos.

Os conceitos estão errados. As prioridades todas deturpadas. É triste perceber a banalização desse tipo de crime, quase institucionalizado nesse nosso país brincalhão.

Pare tudo aí que quero descer e gritar junto com Boris Casoy: ISTO É UMA VERGONHA!!!