segunda-feira, 30 de maio de 2011

NUVENS, FOLHAS E OUTRAS ENAMORADAS



Fecho os olhos e o sinto suave, me oferecendo aromas. Ouço lá de longe o seu canto, anunciando a chegada, me dizendo pra abrir a janela e deixá-lo entrar, trazendo saudades... Eu as recebo com um sorriso no olhar, seduzida.

Como eu, as folhas se desmancham em amores por ele. Feito o mais harmônico dos balés, mostram uma coreografia minuciosamente ensaiada, no alto das árvores ou secas ao chão, levadas de um lado para o outro, num cirandear sincronizado. Se fazem bonitas para merecerem outra vez o seu afago.

Gosto dele quando me traz o cheiro do mar. Fecho novamente meus olhos e o percebo ali, o mar, eu quase consigo alcançá-lo nos meus sonhos... Ele, o mar e eu, personagens de um mesmo devaneio romântico.

Quando tudo adormece posso ouvir mais uma vez o seu canto, baixinho, me embalando como num acalanto, dissipando meus medos, espantando os pequenos monstros escondidos aonde nem percebo.

Amanhã ele estará de volta, balanceando fogo e flores, movendo moinhos de sonhos, conduzindo as nuvens feito ovelhas gigantes no céu... Amanhã talvez queira se fazer mais forte e até as sacuda para se abrirem em chuva serena.

E depois, como todos os dias, o vento vai levando tudo embora...




quinta-feira, 26 de maio de 2011

MISSIVA EM DESAGRAVO



Senhores Parlamentares.

Inicio essa missiva  com o sincero intuito de que estejam tendo dias absolutamente tranqüilos, inabaláveis à tempestade provocada pela moça da palavra afiada, a tal Amanda Gurgel. Empenho nesse momento minha total solidariedade a vocês, meus amigos... Posso chamá-los assim, não é? Afinal temos uma relação de imensa confiança e companheirismo, por isso me sinto à vontade para tratá-los com tamanha intimidade.

Proponho tentarmos juntos buscar a compreensão acerca do ato intempestivo dessa professora. Como ela foi capaz de afrontá-los daquela forma? Moça mais extremista, concordam? Apenas porque sua rotina deve ser um tanto dura, tendo que sair cedinho de casa, enfrentar transportes cheios, encarar turmas superlotadas, desmotivadas... Só porque repetem o mesmo processo até três vezes ao dia, fazendo uma tripla jornada de trabalho... Só por terem que perder finais de semana corrigindo trabalhos, aprontando diários de classe... Só por viverem nessa ciranda maluca, sem tempo pras suas famílias...  Por não terem o mínimo estímulo e tempo pra se dedicarem à leitura, fator determinante pra um bom desempenho em sala de aula... Só por isso? Quanto exagero!

A professora da palavra afiada se queixou do salário recebido pela categoria, meus amigos. Disse que no seu holerite consta um número de apenas três dígitos, inclusive dos profissionais com especialização. Pelo que pude entender, depois de ter cursado a faculdade, apesar das adversidades, buscam se aperfeiçoar na profissão para desempenhar sua função com mais propriedade... São anos de estudo intenso paralelo ao trabalho, objetivando uma maior tranquilidade salarial, então eles ficam zangados quando seus propósitos caem por terra.

Mas isso seria motivo suficiente para tanto destempero, para essa perseguição desmedida a pessoas tão bem intencionadas? Quanta audácia a proposta para que tentassem sobreviver por um mês com o tal salário de três dígitos. Com a imensa humildade de vocês, sei que tirariam de letra. Isso não implica dizer, porém, que seja injusta a remuneração dos nobres ocupantes das cadeiras das assembléias Brasil afora. A moça destemida deveria levar em consideração o quanto lhes foi sacrificante chegar aonde chegaram. Foi preciso convencer a todos nós de que votar nas suas legendas era a nossa opção mais inteligente, embora alguns de nós não tenhamos oferecido tanta resistência nesse convencimento. E depois de eleitos, há de se fazer justiça ao esforço tremendo nessa penosa jornada de trabalho de terça a quinta-feira. Eu aqui me canso só de imaginar tamanho esforço. Além disso, há o cansaço moral, não é? São obrigados pelas circunstâncias das leis criadas por vocês mesmos a fazerem uso do tal auxílio moradia-combustível-passagem-aérea... Imagino o quanto é constrangedor. Sei que se pudessem não o fariam.

Essa moça deve compreender e enaltecer o apego que os deputados tem ao seu cargo. E analisando pelo ponto de vista salarial, da carga horária exaustiva, além dessas vantagens um tanto amorais, fica difícil entender como tantos querem estar nas tais cadeiras.

Em outro aspecto ela também foi injusta com a classe parlamentar: pegou os meus amigos de surpresa e isso não se faz. Vocês estão acostumados com os embates mais densos, as agressões verbais, mas ela chegou tranquila, tomou pra si a palavra e o fez como quem sai numa valsa pelo salão. Não alterou jamais a voz e os fez silenciar. Ela os deixou sem argumento e não é certo agir dessa forma contundente com pessoas tão articuladas e lisas.

Será que essa comoção em torno do discurso da professora resultará em algo significativo? Não se preocupem, meus caros. Pessoas com a determinação e lisura de vocês nada tem a temer. Durmam o sono dos justos e puros, com a sensação de estar fazendo pela população tudo aquilo proposto pelo seu cargo. Sabemos que sempre tomam as melhores decisões... em causa própria. Mas se não fizerem por si, quem o fará, não é mesmo?

Para o caso de alguém ainda não ter visto o pronunciamento da professora, deixo aqui o link para que se veja o quanto ela foi insolente ao proferir verdades indizíveis a seres de alma genuína e rara conduta profissional.

Meu abraço solidário.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

MEME DA LU



A LU CAVICHIOLI PROPÔS ESSE DESAFIO E EU COMO ADORO PALAVREAR, CÁ ESTOU. A MISSÃO É ESCREVER 100 COISAS SOBRE MIM MESMA (VALEI-ME!)... ENTÃO VAMOS LÁ. DIVIDIREI EM BLOCOS DE 10.

Mulher rosada . Quase 42 anos. Libriana. Alagoana. Baixinha. Fofuramente excessiva. PNE.  Amante da arte de fazer amigos. Musical.

Praticamente saída de uma novela mexicana.  Botafoguense. Dispersa. Maria Dasdô. Filha da Vó. Meu nome também podia ser Garfield. Não leio o suficiente. Amo papel e lápis. Coca-cola é a fórmula perfeita. Falto aos retornos das consultas médicas.

Não fiz um filho, não plantei uma árvore nem publiquei um livro. Tenho sobrinhos que me estressam e me fazem mais viva. Não fui aos shows que gostaria. Saudosista. Meus cremes pra pele sempre vão pro lixo, vencidos. Amo batom. Esmalte vermelho é feito tatuagem nas minhas unhas. Pudim é bom demais. Deveria gostar mais de salada. Boa ouvinte.

Acumulo ao meu lado garrafinhas vazias de Ice. Faço uma lasanha de frango imperdível. Perco minutos olhando pro vazio. Nesse momento é pra dentro de mim que estou olhando. Adoro quando minha mãe vem massagear minha perna. Tenho uns palavrões cativos. Atendo o celular falando “quem incomoda?”. Gosto de discutir o indiscutível: futebol, religião, etc. Uso incontrolavelmente reticências. Me dizem melindrosa.

Tive crise de riso em missa e velório. Nunca acho graça em piadas contadas. Preciso dar a Vê pra adoção. Amo café com bolo. Escrever me diverte. Os políticos riem de mim e de ti. Alguns amigos se perderam por aí e sinto falta. Adorava quando meu pai me trazia cocadas da feira. E usava só pra agradá-lo os vestidos meio cafoninhas que me trazia lá de Caruaru. Às vezes é ruim dormir sozinha.

Um dia serei menos possessiva. Grudaria Havaianas nos meus pés. Não sabia o que era calopsita. Vi muitas vezes o Sol nascer na praia. Eu renascia junto com ele. Me curvo à sensibilidade e dom especial dos poetas. Sou sarcástica. Gosto quando riem comigo. Fico rosadíssima ao ouvir alguém lendo qualquer coisa escrita por mim. Amar é a opção mais bacana.

Já decepcionei. Me decepcionei. Prefiro continuar arriscando. Dinheiro é necessário. Odeio lidar com dinheiro. Sinto a vergonha alheia pelo Latino. O Roni é meu amigo virtual mais antigo. Costumo ser grata. Costumo ser chata. Sou especial, por mais que a Si queira dizer que não.

É perigoso me fazer rir com líquido na boca. É fácil me fazer rir (só não conte piada). Tenho pavor em falar em público. Odeio degraus. Menstruar é um saco (deveria ser compartilhado com os meninos). Quiabo é um nojo. Me casaria com o Loco Abreu. Minha sensibilidade me atrapalha. Adoraria jogar ao mar uma carta numa garrafa (mas os ambientalistas me reprovariam). Já quis ter um cachorro.

Tentei tocar violão. Gritei muito nas dunas de Natal. Nunca andei de moto. Choro vendo filmes. Acho que o Djavan sempre canta pra mim. Tem coisas muito bacanas na blogosfera. Tem outras tantas chatinhas. Eu e o amor somos meio incompatíveis. Não sei ser sem amar. Queria começar de novo e fazer diferente.

Gosto do escuro. Tenho medo da velhice. Minhas rugas me afrontam. Doce de leite é delicioso. Meu cabelo é natural.Não sei porque isso se chama MEME. Danço absurdamente com minha alma. Viver é bom, mesmo dando preguiça. Acho que falo demais. Agora chega!

UFA! ACHO QUE DEI CONTA... AOS QUE TIVERAM PACIÊNCIA EM LER TUDINHO, OBRIGADA... SÃO MEUS HERÓIS.
BEIJOS...

sábado, 21 de maio de 2011

ALÉM DA MINHA VÃ COMPREENSÃO



Situação comum é escutar sobre o estado especial e inigualável de ser mãe. Nesses momentos eu me calo, pois sei apenas ser filha, sempre foi dessa forma e pra sempre será. Meus sentimentos em relação a tal assunto são contraditórios... Me vem a inevitável frustração enquanto mulher – sempre tive vontade de usar o termo “enquanto mulher, enquanto ser humano”, enfim consegui uma brecha... Uhuu! – podia ter me revelado uma boa parideira e a sensação é de certa imcompletabilidade, como se eu jamais pudesse me considerar por inteiro uma mulher.  Ao mesmo tempo isso me provoca um alívio egoísta, confesso. Talvez a natureza me apontasse os caminhos de como agir pra ser uma mãe razoável, mas isso me causaria pânico... Um filhotinho ali, totalmente dependente de mim??? Misericórdia, que péssima leoa eu daria.

Enfim, os deuses, a natureza, a minha falta de vontade devem saber bem o que fazem... Nesse caso especial, o que não fazem. Os filhotinhos estão a salvo da minha completa falta de comprometimento.

A motivação principal desse texto foi ter assistido agora há pouco, na Band, o programa A Liga. Não vejo muito, mas gosto do que eles fazem. São matérias jornalísticas sem apelação, sem lagrimômetro... Apenas a exposição dos fatos intrigantes, situações do cotidiano sob um ponto de vista totalmente responsável.

O tema de hoje falava sobre desaparecidos, mais especificamente sobre a luta incansável das mães em busca dos seus filhos sumidos inexplicavelmente. Me postei estática diante da TV pensando que jamais saberia dos verdadeiros sentimentos daquelas mulheres pelo simples motivo de não ser mãe e de imediato a sensação de alívio novamente me tomou. Dentre as matérias mostrou-se as mães de Luziânia e a angústia sofrida por elas até terem notícias dos seus meninos, mortos covardemente por aquele psicopata cujo convite a se inserir novamente ao convívio social foi gentilmente feito pela justiça brasileira... O moço não se fez de rogado e dois dias depois de ter saído da prisão começou a matança por lá. Uma das mães rezou em voz alta, quase em êxtase, após saber que seu filho havia sido encontrado... morto. Ela só queria uma notícia, uma resposta. Pelo menos agora saberia onde ele estava, ainda que não pudesse tê-lo nos seus braços.

Lá em São Paulo, uma das mãe da Sé procura sua filha desaparecida há quinze anos. Está sozinha porque a família não resistiu à dor e se desintegrou, mas segue firme na sua luta, viajando aonde quer que lhe indiquem pista. A mãe de Stephanie, de 11 anos, desaparecida na esquina de casa à luz do dia, há mais de um ano, todas as manhãs sai a procura da menina antes de ir trabalhar, sozinha, sem apoio nenhum. Já foi quatro vezes ao IML e é difícil dizer se sua sensação ao sair de lá com uma resposta negativa seja de alívio ou frustração pela continuação do martírio. Uma outra senhora contou que seu filho foi internado há dois anos em virtude de um surto psicótico. No dia seguinte, indo visitá-lo, o moço de 22 anos já não se encontrava. Havia saído provavelmente pelo portão da frente sem que ninguém o impedisse. Essa mãe, como todas elas, vive numa aflição impossível de ser descrita. Certo dia levou um soco de um mendigo quando levantou o cobertor com o qual o mesmo se cobria numa calçada qualquer, na esperança de ser o seu menino... Levantou-se, machucada mais na alma do que no rosto e seguiu.

Nesses momentos é delicado tentar saber que tipo de dor causaria mais estragos numa família, se a confirmação de uma morte ou a incerteza dolorida acerca dos fatos. Suponho, mas só suponho, o tamanho da agonia diária, o sono desassossegado, a espera sem fim por uma simples notícia que na maioria dos casos não virá.

Hipnotizada por cada depoimento, minhas lágrimas caem diante das palavras de amor e fé dessas mulheres, cuja possibilidade de dizerem “agora chega dessa procura inglória” é nenhuma. Ser mãe é de fato uma condição humana sublime, muito além da minha vã compreensão, mas ao alcance da minha admiração imensurável.

Beijos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O PRINCIPEZINHO DIFERENTE



Num reino distante nasceu um principezinho branquinho feito a neve. Já no seu nascimento o menino se mostrou um guerreiro, dizendo pra todos viveria, apesar de ter vindo com algumas diferenças de fabricação.A cada dia sua coragem era mais admirada. Teve que ficar quase um ano guardado, protegido para não se tornarem ainda mais acentuadas essas diferenças e um dia enfim pode ir pra casa, onde todos os esperavam cheios de amor.

O tempo passou e o menino saiu pra conhecer outros lugares, aonde tudo era bonito, tudo muito colorido e organizado. Nem imaginava que cantinhos assim não haviam sido feitos pra ele, pois as  pessoas de lá gostavam de manter tudo sob controle, evitando qualquer tipo de imprevisto em sua rotina beirando à perfeição.

Por este motivo a chegada do principezinho fez franzir a testa de algumas dessas pessoas. E não por serem más, elas eram boas, praticantes da caridade e adoravam ensinar que todos os seres humanos são iguais. Então, por serem tão generosas e se importarem, passaram a chamar aos meninos e meninas com defeitinhos de fabricação de “especiais”. Mas achavam que os especiais bagunçavam um pouco o cantinho organizado e mantido com tanto cuidado, então preferiam que gente igual ao principezinho não caminhasse por lá,a fim de manter em ordem o dia-a-dia tão bem articulado do lugar.

As pessoas bacaninhas queriam continuar gostando do menino, dizendo o quanto ele era especial e ensinando as outras crianças a acharem o mesmo, mas se fosse possível, gostariam de exercitarem sua bondade mantendo certa distância do principezinho, sugerindo, para seu próprio bem, a sua permanência  em casa, onde estaria a salvo de qualquer perigo. 

O principezinho foi descobrindo sobre as complicações em ser diferente e percebeu que bem melhor do que a condição de especial era ser um menino como outro qualquer, mesmo carregando seus defeitinhos pra um lado e pro outro e se sentando no meio do pátio quando lhe desse vontade.

Só queria ir e vir...
Só queria ser um menino.
As pessoas do lugar  perfeito saberiam que ele jamais desistiria...

Ou esse mundo desandou de vez, 
ou é muito injusto fazer um pequeno ser, 
desde cedo, ser submetido à tanta provação. 
Eu não os conheço, o menino e a sua mãe, 
apenas me indignei e me solidarizei. 
Caso não tenham entendido nadinha do meu palavrório 
e quiserem saber mais, sigam-me os bons!

Leia no Sete Ramos

quarta-feira, 18 de maio de 2011

BRINCANDO DE PALAVREAR - BLOG APAIXONANTE


Ouvi um chamado lá de longe. Era Regina, lá do Divã, me chamando pra brincar. 
Eu que adoro um palavrório, não me fiz de rogada e cá estou com as respostinhas todas.



01. Pegue o livro mais perto de você, abra na página 18 e encontre a 4ª linha:

“Cabecinha boa de menino mudo”...  Do livro Poesia Completa – Cecília Meireles, o qual pertence à biblioteca da escola e não devolvi ainda. Mas por favor, não me denunciem por crime de peculato, farei isso amanhã cedinho...

02. Estique seu braço esquerdo o mais longe que puder. O que você encontra?

Não pude esticar tanto assim... Problema de junta, sabe? Minha tendinite anda ouriçadíssima, ainda mais ouvindo a palavra “esticar”... Mas no que me foi possível, alcancei uma bonequinha pretinha que minha amiga Rafaela me deu pra eu abraçar quando sentisse bem a falta dela, estojo de lápis (adoro lápis e caneta), uma bibelôzão (galinha feita de cabaça que meu irmão trouxe de Porto de Galinhas) e o livro da Cecília Meireles.

03. Qual foi a última coisa que assistiu?

Tapas e Beijos, o seriado da gRobo.

04. Sem olhar o relógio, que horas você acha que são?

23:28

05. Agora, olhe no relógio. Que horas são?

23:38

06. Sem contar o barulho do computador, o que mais está ouvindo?

O Moska cantando “Quantas vidas você tem?”...

07. Quando foi a última vez que saiu? Onde foi?

Semana passada fui num barzinho e lá me apresentaram uma tal Gabriela (caninha com cravo e canela). Acho que me empolguei demais com a dita cuja, que aliada à cerveja e aos petiscos, não agradou muito à minha Vê. Tô penando até hoje... Mas foi divertido.

08. Antes de começar esse questionário, o que estava fazendo?

Passeando nos cantinhos dos amigos.

09. O que tá vestindo?

Espartilho vermelho, cinta liga, salto altíssimo... Rss... Nem no meu pior devaneio. Estou “a largada”, um short e uma camiseta branca, regata, com desenho de uma moleca.

10. Você sonhou a noite passada?

Sonhei mais acordada do que dormindo... Me permito isso ainda.

11. Quando foi a última vez que você deu risada?

Hoje de tarde, quando minha sobrinha Maria Clara me ligou pedindo pra eu ajudá-la a fazer um trabalho da escola e disse: “Aí, Tia Memem, como recompensa você me dá 5 reais”... Santa cara-de-pau, viu?

12. O que acha da pessoa que te indicou este desafio?

Regina, minha surtada mais querida, é tantas mulheres em uma só. É a que se entrega por completo à sensibilidade; vive junto com o amigo o seu problema; se perde em meio aos seus próprios pra se encontrar lá na frente bem mais forte (esse momento está apontando)... Eu a amo, complicada e perfeitinha.

13. Viu alguma coisa esquisita há pouco tempo?

As esquisitices se tornaram tão corriqueiras que agora passam desapercebidas...

14. Qual foi o último filme que você assistiu?
Hobin Hood, com o Russel Crowe, que conta a origem do personagem justiceiro.
15. Se você se tornasse milionário da noite para o dia, o que compraria?
Uma casa pra chamar de minha...
16. Uma coisa sobre você que eu não saiba. 
Fiquei internada aos quatro anos de idade, num navio-hospital americano lá em Maceió, numa chiqueza da gota serena, e até hoje lembro de um  enfermeiro simpaticíssimo que me cuidava, além de outros aspectos do navio. Mas não posso falar isso na frente da minha irmã, ela diz ser impossível essa lembrança pra uma criança de tal idade.
17. Seu estado de espírito agora.
Sonolento.
18. Se você pudesse ser qualquer mulher famosa, qual seria?
 A Maria Bethânia. A mulher é cantora e ganha um milhão pra nem cantar? É inteligência demais pra uma pessoa só...

19. Imagine que seu primeiro filho seja uma menina, como a chamaria?
Alice.
20. Imagine que seu primeiro filho seja um menino, como o chamaria?
Luís.
21. Você pensa em morar fora?
Nunquinha vou embora da minha terra sem graça.
22. O que você mais quer agora?
Agora, agora? Dormir. Amanhã eu penso em alguma coisa mais a longo prazo...
23. Qual a pessoa mais importante na sua vida?
Caramba! Faz isso com uma libriana não... Tenho algumas vitais pra mim.
24. Qual seu sonho para curto prazo?
Seguir os conselhos do meu amigo Luck e entrar de cabeça nos estudos pra um concurso interessante que está surgindo aí... E talvez, mas só talvez, fazer um vestibular pra uma Facul à distância.
Ufa! 
Tantão de perguntas, mas dei conta. 
Quanto às indicações, subverto essa regrinha...
Beijocas.

domingo, 15 de maio de 2011

Sábado, Tédio e Outras Desimportâncias


Mais uma noite de sábado aonde a história se repete. O mesmo e velho filme cujo protagonista era o tédio, estranho convidado que de indesejado passara a ser a única presença percebida. Não que tenha adquirido apego pelo senhor das chatices repetidas, mas sabia da sua chegada e não mais lutava contra isso. Era indiferente a ele, deixava que se acomodasse e observasse seus passos lentos rumo ao nada. Lá fora a noite ainda mantém o seu fascínio, embora o céu tivesse se transformado numa enorme cortina negra, ocultando as estrelas por trás do inverno, ainda assim havia latente uma vontade em se deixar absorver pela noite. Mas não as de sábado, definitivamente não! Estavam todos espalhados ruas afora, com suas alegrias dissimuladas, gargalhadas artificiais, paixões efêmeras. Que ficassem lá os falsificadores de emoções, parvos seres com seus copos cheios de ilusão. A superficialidade há muito deixara de ser atraente. Gosta do intenso, do prazer indizível em se deixar rasgar pelas pelos estilhaços sentimentais, exibidos em leques desafiadores, provocando a sensação de se estar vivo. Entre a ideia de acomodar-se ao lado do inseparável tédio ou enveredar pela noite despida de magia, lembrou-se de encher mais uma taça de vinho, enquanto Vanessa da Mata chamou o Gil pra cantar: “quando amanhecer será para iluminar você”...


E

sexta-feira, 13 de maio de 2011

SESSÃO RELICÁRIO - O Bruxo e a Camaleoa


Ela, menina do Rio, mulher dos verbos insanos, camaleoa, poeta... A arte e ela são uma coisa só, se misturam e se confundem, tal é a sua intimidade nesse mundo das prosas e versos. Um dia vai se erguer o Café Poético, cantinho singular em que música e poesia se fundirão num clima de rara harmonia, onde se beberá poema sob os acordes do velho violão...    Um dia será tudo uma coisa só.

Ele, homem de Niteroi, poeta, avoador e bruxo. As palavras o amam, ele as venera.  Poucas vezes foram tratadas com tanto esmero e em troca se fizeram lindos poemas. Amante dos sonhos, alquimista das letras, protetor das flores noturnas, acalentador de estrelas...  Um sujeito cuja esfera intelectual alcança o inimaginável... Mestre na arte de amar as pessoas, o céu sem fim... A vida.


Um dia, se juntaram no meu Relicário... E fez-se poesia.


LABAREDAS


O FOGO QUE LAMBE NOSSAS ENTRANHAS
TORNA TUDO DENTRO DE NÓS EM BRASAS
TRANSFORMANDO AS NOITES EM MOMENTOS FEBRIS
PROVÉM DE NOSSAS ALMAS QUE ARDEM EM CHAMAS

EU SOU O CARVÃO DE QUE TU TE ALIMENTAS
E EU SOU QUEM TE AQUECE COM MEU HÁLITO QUENTE
SOU VULCÃO ESCORRENDO LAVA
COMBUSTÃO AO TOQUE DE NOSSAS PELES INFLAMA

TU VIRAS FUMAÇA, E EU VIRO CINZAS...
EU QUEIMO E TU ARDES
TU SOBES AO CÉU, EU MORRO NA TERRA
E REVIRAMOS A NOITE EM DESEJOS
                                                                                                                      FILTRANDO NOSSOS GRAUS
DERRETEMOS EM SENTIMENTOS
CONSOME-NOS OS QUERERES
TÓRRIDOS MOMENTOS

E FINDO O CARVÃO AQUIETAM AS CHAMAS
E NÓS IMERGIMOS NA ESCURIDÃO...
OS SENTIDOS SE CONFUNDEM
EXAURIDOS DE TANTA EMOÇÃO

SÃO MEUS IRMÃOS O AR, A ÁGUA, A TERRA
E EU BUSCO A TI ENTRE OS MORTAIS
POIS DENTRE TODOS FOSTE A ESCOLHIDA
PARA ALIMENTAR-ME PELA ETERNIDADE

E SABERÁS QUANDO ME APAGARES
SABEREI QUANDO TE SOPRAR
SENTIREMOS OS SINAIS MORNOS
QUANDO ESSE IDÍLIO PASSAR
  
DESCANSAREMOS POUSADOS EM FRAGMENTOS
ETERNIZAREMOS EM FUMAÇA
VIVEREMOS PRA SEMPRE BRASAS
COBRINDO DE CINZAS NOSSO LEITO


(Si Fernandes e Rodolfo Barcellos)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

OS MALANDROS E OS MANÉS


Depois de muita negociação, o governador do meu estado concedeu um vultoso aumento de 5,91%. Ele pediu para não nos preocuparmos, pois pagaria metade agora e em novembro outros 2,5 % . Isso é muito comovente, generosidade assim não se encontra a cada passo. Pensei em acender uma vela em ação de graças pro moço numa encruzilhada, com uma farofinha básica, frango e cachacinha... Tudo com a melhor das intenções, claro.


Então, não cabendo de contentamento em virtude de tamanho reconhecimento pelo trabalho meu de cada dia, proseio com a prima Cida, do zóio da cor do mar das Alagoas, quando ela me diz estar injuriada ao ponto de nem saber se vai conseguir dormir. Me passou o link da discórdia, o qual fui imediatamente conferir. A manchete diz o seguinte: DEPUTADOS DERRUBAM VETO A REAJUSTE DE SALÁRIO EM MAIS DE 100%... A votação, claro, foi secreta e apenas um dos vinte um deputados deu voto contrário . Um dos nobres parlamentares alegou ser falso moralismo o protelar dessa discussão, além de inútil, visto que outros estados já haviam feito o mesmo e Alagoas não poderia ficar pra trás. Outro exemplar desse espécime de rara sabedoria e esperteza filosofou que “nenhuma sociedade será forte onde o parlamento for fraco”... Perguntei aos meus botões e eles não me ajudaram na compreensão dessa frase. Devo esperar que com o vistoso salário de mais de 20 mil reais eles vão ter tranqüilidade para trabalhar melhor em prol do povo? Ah, bom! Sendo assim a coisa muda de figura. Prometo até desfiar um rosário inteiro em agradecimento aos meus tantos por cento recebidos. Me sinto amparada, sabe? Eles realmente se preocupam comigo.

Enquanto nossos bravos guerreiros comemoram seus legítimos dividendos, abro numa matéria sob o título: HOMEM ENFERMO MENDIGA ASSISTÊNCIA NA REDE PÚBLICA... Por favor cliquem e leiam. Minhas palavras calaram, furiosas. Sei que este caso é uma simples amostragem de como caminha a saúde pública no Brasil. Mas por que se desdenha tanto assim da vida? Por que somos tão coniventes e vamos continuar sustentando filhosdaputa como esses meus conterrâneos, mantendo-os feito reis intocáveis enquanto o povo só se lasca?



Mudei absolutamente de ideia, quero morar em Londres. Lá serei súdita da rainha do chapéu torto, correrei pateticamente atrás da família real pelas ruas afora, carregando uma bandeira e um sorriso idiota no rosto, mas se numa dessas corridas eu tropeçar e cair, certamente não me abandonarão sem roupa, sobre uma maca num corredor de hospital, suplicando ser atendida por alguém que supõe estar me fazendo um favor.

Quando parte o próximo ônibus pra capital inglesa? Os meus míseros 5,91% não me permitem comprar uma passagem de avião... Mas por favor, não falem alto. Deus me livre dos meus parlamentares e o ilustre governador, queridos e esforçados, sequer imaginarem ser isso uma queixa da minha parte. Não quero aborrecê-los. Que durmam o sono dos justos (consigo próprio, obviamente)... Fico por aqui pensando num investimento bacaninha pra aplicar o meu generoso salário.

Durma-se com uma pouca vergonha dessas!

domingo, 8 de maio de 2011

TODO DIA É DE AMOR



Finalzinho de domingo, dia especial em que todas as senhoras a quem amamos imensuravelmente são homenageadas. Estive lá, falei “bença mãe” como faço quase todos os dias e nos demos um abraço cheio de amor.

Ouvi uma frase da Ana Carolina, a qual me fez pensar sobre a minha relação com minha mãe, ela não precisa dizer todos os dias que me ama, isso é claro como a mais a água mais cristalina, é desenhado no seu olhar de quem gostaria de me tomar todas as dores, de quem fica feliz quando as coisas bacanas me acontecem e a todos os seus nove filhos, legítimos e postiços.

Se me fosse possível voltar 42 anos e escolher um modelo de mãe, seria igualzinho a ela: espirituosa, um quê de sarcasmo divertidíssimo, amiga, de um altruísmo incrível... Até os defeitinhos eu manteria, do tipo ser permissiva ao extremo com os netos, fazendo-os umas pestinhas estragadas. Quanto a ser torcedora do fRamengo, é a prova mais verdadeira de que ninguém é mesmo perfeito... Mas até isso a torna especial, pois mesmo sendo apaixonada por futebol, fica cheia de dedos em jogos do seu time feio contra o glorioso mais lindo do mundo, para o qual a maioria dos filhos torce.

Enquanto estive lá, olhando pra ela, me lembrei dos meus amigos que sentem tanto a ausência das suas. Minha amiga Michele, cuja dor acompanhei de perto há dez anos, quando sua mãe a deixou e até hoje essa saudade sangra. A sensação de ver assim, perdida, uma pessoa de quem gostamos é ruim, não há muito como ajudar, a não ser estando perto, de mão estendida. Pensei no Moisés, o poeta, nas tantas conversas sobre nossas mães, suas lembranças, os momentos em que a saudade dele sussurrava um “eu adoraria viver momentos assim” quando eu contava das reuniões ruidosas em torno de minha mãe. Me remeti também à Regina, cuja saudade é tanta e as palavras sobre esse sentimento são ternas ao ponto de nos fazer sentir essa saudade.

Essa postagem, além de homenagem a minha Dona Lourdes, foi uma tentativa de dizer aos meus amigos que eu, se pudesse, daria um pouquinho de mãe pra eles... Ela, decerto, acolheria os três com todo o amor do mundo, porque o tem transbordante.

MÃE, meu amor, minha flor, minha menina... Eu não saberia ser sem ti. 

sábado, 7 de maio de 2011

A FOLHA DA TERRA




Eram dias especiais aqueles vividos entre meados de setembro e os primeiros de outubro. Mulheres, meninos, homens em minoria, enchiam os galpões com sua alegria ruidosa o dia inteiro, ecoando ao longe as gargalhadas misturadas.

Os primeiros a chegar ocupavam os cantos privilegiados, preferencialmente perto da porta, onde o vento podia oferecer um frescor momentâneo ao ambiente, pois a matéria-prima a ser trabalhada jamais seria classificada como perfumada.

Munidos da pequena ferramenta de trabalho, a faquinha produzida especialmente para tal função, todos tomavam seus lugares, sentando em banquinhos ou um reles pano no chão, a fim de minimizar o desconforto. No meio do salão um amontoado de folhas de fumo prontinhas para serem destaladas e mais tarde arrumadas em molhos (leia-se mólhos). O processo de juntar o fumo consiste em dispor as folhas bem abertas, umas sobre as outras, até aonde tivesse sustentação. Os maiores mediam uns bons cinquenta centímetros e entre as destaladeiras algumas sempre se destacavam nos quesitos agilidade e estética. Essas eram as produtoras dos mólhos mais arrumados, com as pontas em harmonia, folhas bem esticadas e tamanho considerável. A plástica de nada acrescia nos dividendos, mas dava ao seu “artista” uma certa pompa.

A cada trouxa de fumo destalado, os talos iam sendo amontoados do lado de fora do galpão, formando uma pequena montanha exaustivamente explorada pelas crianças menores, proibidas (inutilmente) de estarem muito próximas ao fumo.

A atividade ocorria normalmente, até que alguém fosse acometido de uma tontura brava, se ausentando do local a fim de respirar um ar mais leve. Esses momentos destoantes se resumiam, aliás, nos raros aonde os danos causados pelo tabaco vinham à tona. Importante mesmo era chegar ao fim do dia e pesar a produção individual. Havia entre as crianças uma competição divertida para saber quem acumulou mais quilos, devidamente anotados no caderninho do capataz e remunerados no fim da semana.

Ninguém ali lamentava o fato de estar colaborando na produção de um dos maiores vilões da saúde. Não havia espaço para conscientização. A cidade vivia em função do fulano de cheiro forte, não sendo atoa a denominação de “Capital Brasileira do Fumo” e lidar nessa cultura, para muitos, era questão de sobrevivência.

À época da destalação a renda familiar melhorava um tantinho. As crianças juntavam uns trocados para investirem num calçado, uma peça de roupa mais precisada, mas nada de brinquedos. O dinheirinho suado deveria ser investido em algo importante e não em besteira, segundo rezavam pai e mãe. Para as mulheres, donas de casa, a época implicava na oportunidade única de trocar as coisinhas do lar: louça, roupas de cama e quem sabe um agradozinho pra ela própria, já que com o salário do marido (normalmente trabalhador agrícola), esses pequenos agrados seriam inviáveis.

No salão a farra corria solta. Um amontoado de gente a compartilhar lorotas e adivinhações, histórias de trancoso (faz-de-conta) cheias de malassombro (bicho-papão), a fazerem arregalar os olhos cansados dos pequenos trabalhadores mirins, ansiosos por dar fim ao monte de fumo ainda pra ser ajuntado, quando a lua há muito iluminava...

Eu estava lá.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

NO COMPASSO DA SOLIDAO


A solidão caminha inevitavelmente a minha sombra. Esses tantos outonos nem tão intensamente vividos, me sussurraram, porém, que ela só me assombrará de acordo com a minha anuência. Sou a arquiteta da minha própria condição de viver a ermo.

Estar com ela implica em me espiar pra dentro e justamente desse encontro me pus a correr toda a vida, fechei os ouvidos aos pensamentos tolos e inquisidores. Nunca quis ter a dimensão da realidade e a solidão obriga justamente a isso, a um ajuste de contas por vezes amargo, embora necessário.

Os sentimentos são conflitantes, duelam para ver quem se sobressai e aponta o caminho de volta. Mergulho inteira no meu mar de solidão e nem é tão ruim essa imersão. Vejo surgir um canal aonde a realidade se manifesta sem maquiagem, mostrando o meu mundo miúdo, de cujo embate vivo fugindo.

A um passo da completa sanidade meus gritos já não encontram eco. Desejo uma mão a segurar a minha e eis o meu maior erro... Lúcido erro! É tolice a busca pelas muletas da alma, elas de nada me apoiarão. A solidão se molda no tamanho que eu a permito e compreender isso me fortalece o bastante pra seguir sozinha. Caminho sobre a linha tênue entre torná-la habitante permanente desse meu pequeno universo ou fazê-la efêmera, lhe concedendo eventuais passes de entrada.

Decido pela transitoriedade. Quero oscilar entre a sensatez a qual me obrigo por mero conformismo e a inócua loucura a me conduzir para uma surreal e eufórica dança com a solidão...


Texto inspirado nos papos com  Luck, 
meu amigo e parceiro na fuga alucinada 
contra a lucidez absoluta, 
que tantas vezes me faz compreender
 as minhas próprias palavras... 

domingo, 1 de maio de 2011

SUPERSINCERIDADE



A mim pouco causa admiração os brados de suposto excesso de franqueza alheia. Na verdade minha curiosidade se ouriça ao extremo matutando sobre como se mede o grau de sinceridade de alguém.

Invariavelmente o sujeito supersincero promove esse adjetivo ao posto de superqualidade. Estranha mania essa de se vangloriar das atitudes absolutamente comuns. Sob o meu conceito desimportante, a condição de sincero é inerente ao ser humano, é obrigação e não uma virtude a ser premiada. Desconfio quando ouço alguém anunciando suas qualidades de extrema franqueza... Ora, se o é, não há necessidade de proclamar aos quatro cantos. Supõe-se que tal índole seja normalmente perceptível, sem carecer propaganda ou um atestado de autenticidade.

Faço ouvidos moucos aos que palavreiam como se tivessem nascido presos a um megafone. Aceno e sorrio para as repetições de “sou phóda, faço e aconteço”. Observo, quieta, as múltiplas opiniões acerca de um mesmo assunto, aonde o sujeito opinante se adéqua às conveniências, tendo como objetivo maior angariar simpatia e admiração acerca da sua valentia declamada.

Não compreendo os que se fazem valer da pseudo sinceridade para atirar nos outros palavras feito lanças afiadas. Ferem por prazer, esmiúçam supostas fragilidades alheias para usarem como armas, com uma ausência de coragem muito pouco peculiar aos proclamadores da sinceridade. A isso conheço como covardia disfarçada de arrogância. Desses me protejo com a mais segura das armaduras, a indiferença.

Para começar a semana, para açucarar a alma, poesia:



Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe                                (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço


(Fernando Pessoa)