terça-feira, 29 de novembro de 2011

VERBALIZANDO


Abrace, assuma, agradeça
  Beije, brinque, bendiga
         Cante, chore, confidencie
          Doe, devore, desnude

Entorpeça, espere, exorcize
 Flameje, festeje, floreie
   Gorjeie, graceje, grite
                Harmonize, honre, humanize

    Inquiete, inebrie, incendeie
Jubile, junte, jogue
    Liberte, lute, levite
                          Metamorfoseie, medite, minimize

Navegue, norteie, namore
   Ouça, ofereça, observe
          Pactue, preencha, perdoe
               Quintaneie, queira, quebre

Rebusque, ria, romantize
      Sonhe, simplifique, seduza
     Tateie, transite, torça
       Una, usufrua, unge

Volite, verseje, verbalize
       Xerete, xingue, xumbregue
      Zarpe, ziguezagueie, zoe


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

QUALQUER TÍTULO TÁ BACANINHA...

Pirei no rock’roll anos 80. São dez horas e vinte e três minutinhos nessa noite quente do agreste alagoano e vos aviso pessoas, cujo relógio caminhou mais que o meu: Esse horário de vocês foi fabricado depois da fronteira... O real mesmo é o daqui de cima. O tempo por aqui caminhou direito.

Mas não é sobre relógios que as palavras resolveram se acomodar na minha encardida e companheira folha branca. Ou é? Na verdade não há um tema, uma bandeira a ser defendida, uma queixa a ser gritada... Não há nada. Só o tempo. As músicas que estou ouvindo me esfregaram o tempo na cara e não pude me furtar a pensar nele... Primeiro Renato Russo entrou de sola cantando “todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou”... Putz, Renato! Precisava ser assim tão enfático para alguém craque na arte do “vou deixar pra amanhã”? Tudo bem, eu amo esse cara mesmo e adoro brincar de pensar que ele sabia da minha existência e do quanto suas músicas me carregaram pela mão. Depois veio Cazuza, o poeta, a me dizer: “eu vejo o futuro repetir o passado, vejo um museu de grandes novidades, o tempo não para”.

Enquanto eu parava para refletir, filosófica, sobre o tempo, ele já havia partido sem me esperar... De nada adiantou minha meditação, invocação de todos os santos, encantos e axés - aí já é Moraes Moreira – para caírem sobre mim um tanto de erudição e rebuscamento e assim dissertar lindamente sobre o tempo. Me restou apenas a certeza de que ele está pouco se importando com o movimento burro... Inércia... Inoperância...  Boicote contra a minha própria fofureza de pessoa. Ele simplesmente passa na minha porta todos os dias, todos os ínfimos segundos. São miudinhas as contas no infinito colar do tempo, me disse o Luck. Mas sobre o Luck, sobre o seu afago generoso num instante em que tudo era um breu assustador, sobre as suas reflexões acerca da vida que segue além... além de tudo, eu conto depois.

Não há mais nada a dizer sobre o tempo. Não nesse instante. Por que enquanto meus dedos rabiscam, ele se foi e eu mais uma vez não o alcancei. Cabra arengueiro esse tal!

Acreditam que nos embalos do rocktrospectiva até me esqueci da bolsa vermelha... Vocês não sabem da história da bolsa vermelha? Como são desinformados esses meus amigos. Não sabem que euzinha tinha uma bolsa vermelha bacaninha, daí no meu aniversário ganhei um gêmea e resolvi vender a primeira, num precinho camarada pra uma amiga da escola? Então também não sabem que mais de um mês depois dessa transação importantíssima eu precisei dos meus documentos e depois de desgavetar até os meus miolos, não os encontrei e a alternativa para não me jogar da ponte – aqui nem tem ponte – era eles estarem na bolsa vermelha vendida na camaradagem? Pois é. Pois foi. Depois de tentar por horas enlouquecedoras ligar pra amiga compradora, consegui a resposta afirmativa. Os coisas estavam malocadinhos, silenciosos num bolso da bolsa. Ela não havia usado a comunista ainda... Eu recapturei os meliantes e agora vão pra um cofre forte do Banco Central. 

Tolices absurdas à parte, continuo minha viagem no rock’roll dos anos 80, retrô que só! Eu volto na minha máquina imaginária do tempo e ele não pode fazer nada pra evitar... Mas sigo sem bolsa, sem lenço, sem documento...

Ainda é tempo, vá ao Relicário, 





quarta-feira, 23 de novembro de 2011

COISINHAS DE ISABELLA


A PRÓPRIA

CENA 1 - SOBRE A EVASÃO ESCOLAR:

VÓ: - Não vai mais pra escola não, menina?
ISABELLA: - Num gosto mais não.
VÓ (fazendo Freud se contorcer inteiro aonde quer que esteja): Tem que ir senão quando crescer vai trabalhar no carro do lixo. Quem não estuda só trabalha carregando saco de lixo.
ISABELLA: - Eu nem me importo, eu quero carregar aqueles sacos.

Dias depois, lá estavam as duas na calçada quando o carro da coleta surge na rua. A menina não se contém:
- Ei, vocês ‘tão’ me esquecendo... A minha Vó disse que eu vou ajudar a carregar os sacos de lixo. Me levem!

CENA 2 – DA EMANCIPAÇÃO

ISABELLA, deixando estupefato o tio, diante de tamanha petulância para um projeto de gente de apenas quatro anos:
- Sé, sabia que quando eu tiver do tamanho da... da (seus olhinhos desassossegados procuravam dentre as primas presentes a de menor estatura)... Quando eu tiver do tamanho da Marina vou poder fazer o que eu quiser, até chapinha?

Marina, a referência, é uma galeguinha de sete anos bem vividos.

CENA 3 – O ‘GUILO’

Isabella: Tia, ali tem um 'guilo', eu tô com medo, mate ele.
Tia (eu): Mato nada... Ele não vem pra cá não, tá com medo de você também.
Isabella: E eu por acaso sou um fantasma???

Dito isto, tratou de dançar xaxado em cima do pobre grilo pra ele nunca mais ousar achá-la assustadora.

CENA 4 – APIMENTADA

TIA (Eu) – Saia daí, Isabella! (a tentativa do berro era afastá-la de um balde megalotado de gelo e cerveja, o qual ela insistia em mexer.
ISABELLA, mãos na cintura e balançando a cabecinha desaforada: Você nem é minha mãe pra ficar brigando comigo!
TIA (Eu) – Sou sua tia e brigo a hora que eu quiser. Saia já daí, malcriada!
ISABELLA – Você nem é minha mãe e eu nem gosto da sua família...

Fiquei no vácuo... Não consegui bancar a tia educadora e ri muito.

CENA 5 – ADOCICA

Na “Iguêza” Adventista, aonde vai com a família todos os domingos, o pastor pede para que todos fechem os olhos e silenciem para uma oração. Tudo indo muito bem até ouvir-se uma vozinha infantil entoando algo incomum para uma igreja evangélica. Era o projeto de gente se exibindo no altar, cantando “adocica, meu amor, adocica...”

A mãe (minha irmã) desejou esconder ser a mãe da criaturinha cantante, mas foi inevitável, todos vieram comentar a arte da pequena.

Quando ainda se comenta o assunto ela diz:
- Eu cantei Adocica, mas sou “kistã” da “Iguêza” Adventista do Sétimo Dia, minha gente!

Por hoje chega, né?
Beijos...


domingo, 20 de novembro de 2011

A LAGARTIXA PRETA

“Nêgo, espante aquele bicho feio lá no quintal, ele tá me assustando”. O bicho em questão era uma inofensiva lagartixa preta, estampada no muro, provavelmente pensando em que direção seguir naquela manhã de sol escaldante.

Toda mulher precisa de um homem que espante monstros e assustadoras lagartixas pretas no quintal? Presenciei essa cena e achei uma fofurice. Fingiu um medo que não tinha apenas pra sugerir ao marido o quanto sentia sua falta durante toda a semana em que ele passava trabalhando fora. Era o abraço protetor o desejo, mesmo quando a insegurança não é presença, ainda assim o amor carece de sutis cuidados e dengos.

Minha prima me contou há pouco que sua mãe (tia adorada) passeou numa cidade vizinha, num evento religioso,  e quando chegou em casa, lá pelas sete e meia da noite, o marido, menino grande, abriu um sorriso enorme e num impulso falou: “eu não vivo sem você”... É assim há tempos. Uma cumplicidade rara. Um homem feito que não saberia ser sem a sua companheira e depois de tanto tempo ainda é capaz de declarar seu amor espontaneamente. A tia não sabia se era melhor rir ou chorar... Comovida e feliz, fez os dois.

Histórias de amor dão sentido a essa nossa existência maluca, penso eu. Efêmeras ou eternas enquanto durem, a vida ganha cores fortes, o pulsar do tempo nunca é em vão quando se deixa acontecer o amor.

Quero estar por aí a testemunhar amores alheios, fotografá-los na memória e cheia de inquietude concluir como são tão iguais os amores e quão adoráveis são as suas diferenças, enquanto espero alguém corajoso o suficiente pra espantar aquela lagartixa monstruosa lá no muro do meu quintal. Esperarei romântica... Ou sentada?

Preciso ir agora. Devo trocar essa pele sentimentalóide por outra de uso menos complexo.
Ainda assim, brindemos ao AMOR...

 Beijos, pessoas.
Fora do contexto:
Leiam-me  FELINA...


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

DAS LARANJAS, NUVENS E OUTROS PENSAMENTOS


IMAGEM DA MARILUSTRA

Infértil. Alguns textos iniciados, pouca coisa relevantes pra serem ditas, os danados empacaram. Em dias assim me somem as palavras. Tudo é tédio. Tudo é chato. Pensei em escrever sobre datas cívicas. Está chegando aí mais uma entre duzentas mil cultivadas no Brasil, o dia da bandeira. Será inconstitucional escrever isso em iniciais minúsculas? Lasquei-me literalmente em verde e amarelo. Temas patrióticos são enfadonhos... Me privarei deles por um tempo indefinido.

Hoje eu e Denise trocando figurinhas eme-esse-ênicas, ela me falava sobre a insensatez em sentir saudades do que nunca se viveu. Pedi-lhe pra me reservar uma vaga no mesmo sanatório, pois padeço igualmente desse mal. Isso me fez refletir sobre a saudade, as minhas... Eu não as quero matar. Desejo guardá-las e vez ou outra comer um mordê-las um pouquinho, beber um tanto da alegria contida nas minhas lembranças. As saudades não são vilãs, são relicários, pedacinhos de vida deixados pra trás por imposição do nosso próprio caminhar. Sobre sentir saudades do que não vivi, como posso explicar? Eu apenas sinto... E sigo.

Numa nova etapa dessa prosa, Denise me diz que está “laranja chupada”, sem caldo. Bendita alma feminina que não cabe em si de tanta falta de ausência de praticidade. Compomos uma fórmula química encantadoramente imperfeita, somos feitas de sonhos, e fogo, e desejos... E doses generosas de amor. Vivemos numa eterna inconstância de sermos. Num dia fatais, no outro molecas e logo em seguida não sabemos onde foi parar toda a delícia de ser mulher. Só a dor e a saudade ganham corpo.

Falando em laranja chupada, contei pra ela sobre quando um sujeito me abordou num site de jogos (já contei isso aqui) e quando me perguntou a idade (ele tinha 17 anos, o infeliz) respondi quarenta e um. O projeto de cafajeste prontamente mandou a pergunta: “mas tá enchuta ainda ou tá só o bagaço da laranja?”...

Depois de respirar fundo e aceitar que naquele momento um monitor nos separava e eu não podia socar gentilmente a fuça juvenil, respondi feito uma lady (ga ga, segundo a ótica do meliante) que “ali eu podia ser quem quisesse, inclusive uma fatal que nem Jolie, você não saberia.  E pra terminar, melhor você se dedicar mais nas aulas de Português, porque a palavra é enxuta e não enchuta, como mobralmente escreveu”... E bati gentilmente a porta virtual na sua cara de projeto de cafajeste. Quando encaro a minha criação de rugas e pés de galinha, me questiono se já estou em franco processo de bagaceamento laranjal.

A moça do Tecendo Ideias foi dormir e prometi pra ela postar qualquer palavra tola, apenas na intenção de musicar com essa canção incrível, cantada por esse trio extraterreno. É o que temos visto quando erguemos a cabeça em direção ao céu, nuvens negras instaladas feito os mais radicais do MST. Amanhã exigimos um céu azul, amanhã queremos só a saudade sem dor, o amor que não derruba... Amanhã não haverá espaço para a ansiedade invasora, desnorteadora de seres aflitos. Amanhã... Bem, amanhã queremos mais que a vida aconteça ensolarada e nos leve de carona num vagão bem bacaninha.

Uns beijos, pessoas.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

RE(CANTOS) DELA...


Lúcia Helena, uma mulher vestida de quereres prateados. A que se debruça sobre o mar e beija devotamente  num azul sem fim. No seu jardim há gnomos e fadas. Feito crianças eles brincam e regam hortênsias, adubando canteiros de soneto e prosa. Antes de deitar o sol, ela os convida a uma mesa farta, compartilhando doces e travessias. E quando a noite vem, testemunha a lua derramar lágrimas em pérolas, encharcando a terra, germinando sonhos. Lúcia Helena, tempero forte, mulher em flor, palavra ácida, afeto imenso... Seus versos seguem entre vitrais, abismos, solstícios e alquimias. Seus versos seguem, pura fantasia.    


Singelas são as palavras. Imensa é a bem querência. 
E hoje, no dia do seu aniversário, 
dedico-lhe os pensamentos mais positivos que eu puder ter. 
Colherei bençãos e abraços. 
Mandarei pendurados na ponta da lua até se derramarem sobre ela. 

Beijos, Lu...

[Por Lu Cavichioli,  no livro Re(cantos) de Mim, página 58]




domingo, 13 de novembro de 2011

A DANÇA

Em silêncio, me chamou pra dançar. Os olhos ternos me sorrindo, a mão aberta esperando a minha... Por instantes apenas o encarei. Sabíamos, os dois, dos riscos imediatos camuflados nesse ato supostamente tolo. Era uma dança apenas. Um homem e uma mulher submersos em ritmo e som... Perdidos um no outro, pela breve eternidade daquela música.

Em silêncio conduzi minha mão à sua. Seu polegar deslizou sobre minhas unhas vermelhas em harmonia com o vestido do mesmo tom, ambos contrastando com a brancura da minha pele. Beijou-me os dedos, me sorriu um riso doce em sinal de aprovação e eu não pude mais esperar... Levantei para ele, para a dança.

Nossos pés nus passearam pela grama banhada no orvalho da noite exuberante. Valsamos pelo jardim sob a cumplicidade das estrelas. Valsamos mudos, dançamos cheiros e toques, rodopiamos quereres...

Ele estava especialmente lindo naquela camisa branca, num desalinho charmoso de fim de festa e sabia como conduzir minha alma pelo jardim. As estrelas lá no céu cintilavam inquietas. Pareciam querer me roubar o par, invejosas de tamanha sintonia. Esconderam-se todas e nós, absortos, sequer percebemos que ao invés delas, neste instante caía sobre os dois corpos cálidos uma chuva fina que em breve se metamorfosearia tempestade.


Vai ter uma festa
Que eu vou dançar
Até o sapato pedir pra parar.

Aí eu paro
Tiro o sapato
E danço o resto da vida

(Chacal)


FORA DE CONTEXTO: AQUI EU ESCREVI PRO BOB...


sábado, 12 de novembro de 2011

SOBRE O AMOR QUE NUNCA MORRE


A amizade é o amor que nunca morre, quintaneou o Mário para absoluto deleite dos crédulos e sensíveis, pertinazes na arte de imergir nesse sentimento ímpar.

Sou Amigos Esporte Clube, sim senhor! Amo as suas minúcias e no transcorrer do meu caminho desejo sorver, apenas pelo tempo de uma vida, os seus inúmeros sabores até a última gotícula. Desconheceria a mim mesma tentando usar outro tipo de máscara.

Mas esse amor que nunca morre apresenta variedade no seu estampado. É preciso estar preparado para a colisão de idéias, conceitos e humores. Assim como não se pode viver sozinho um amor, a amizade não existe unilateralmente. Há de haver dois para serem amigos. Há de se ter cumplicidade e reciprocidade, ainda que tal reciprocidade não implique em imposição, do tipo “eu te dei carinho e agora quero em igual profundidade”... Esses temperos fundamentais para a fórmula (im)perfeita na arte de ser amigo soam espontâneos feito os banhos de chuva da nossa infância. Quando não é natural, outro nome pode ter, amizade não o é.

Deixando vagar os meus pensamentos, compus o retrato escrito da minha amizade... E gostei do que vi. É forte, frágil, humana.  Me apaixona o seu riso solto, contido, alto... Seu sotaque misturado. A pele que se metamorfoseia, num instante me vem brancura, outro é pura morenice, em seguida negritude. Brasileiridade linda tem a minha amizade.

Filosofa comigo desimportâncias, me instiga reflexão das coisas da vida, verseja lindamente, liga só pra dizer “senti saudades” e gostamos de nos falar todos os dias, mas quando isso não é possível, a bem querência se acomoda guardadinha na saudade, esperando o exato instante do encontro. Adoro dizer amores, mas também sou muito boa em proferir poesias sob forma de xingamentos. Discorda de mim o tempo todo, concorda comigo quando nem espero, fingimos indiferença, sabemos ser mutuamente egoístas e chatos... Sabemos amar o imperfeito.

Acho graça da sua TPM crônica, as crises existenciais constantes, a sisudez eventual... Me dói a sua ferida, lhe machuca sentir meu choro. Consola minha alma ouvir um “só podia ser você pra me fazer rir numa hora dessas”...

É bacana escutar a mesma música, numa descombinação surreal de gostos ou viajando no mesmo som... Bom mesmo é a companhia, o ombro cuja disponibilidade é imensurável, feito uma tatuagem escrito “quer deitar aqui agora?”.

Temos a idade dos sonhos. Somos maduros, jovens, adolescentes, infantis... Me chama de Mi, Mil,   Memem, Miminha, Milinda, MilenA... Aos seus olhos e coração sou lagarta listrada, flor rosa e vermelha, doce e igualmente ácida... Sou ironia e sarcasmo, melindre e sentimentalidade.  Amo seu jeito brejeiro, ranzinza, descolado, palavreando sobre tudo, me pedindo respostas impossíveis à minha vã filosofia... Procuro seu colo sempre que preciso, ouço seu sussurro me pedindo presença.

Descobrimos juntos o valor de nos aceitarmos como somos, embora seja ainda mais importante recuar quando preciso e compreender que a razão oscila e pode estar tanto lá, quanto cá. A razão não gosta de morada fixa.

De perto do mar, de onde vem o frio, da roça cibernética, do canto mais longínquo, ou aqui do meu lado... Minha amizade vem ao meu encontro e nossos braços abertos se entrelaçam... E isso parece mesmo ser o melhor amor que há.


Fora de contexto: 

Beijos!



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

JACIARA - Nascer da Lua...



Um dia ela entrou aos prantos na cozinha da Vó Lourdes e perguntou: “Estão dizendo lá fora que você não é minha avó de verdade... É mentira, né?”. Foi a primeira vez que presenciei uma “neta adotiva” mergulhar numa efêmera crise existencial e achei a coisa mais linda do mundo. Minha mãe se pôs a explicar que quando casou com o Vô Luís, ele já era viúvo e carregava quatro pivetes a tiracolo, inclusive o pai da moleca chorona.

Ela, meu pequeno anjo, bem neta do Seu Luís, do tipo que não engole sapo, não carrega um desaforinho só pra casa. Talvez eu nem deva contar de como nocauteou um garoto da escola, a caminho de casa, numa pedrada certeira... Melhor mesmo não contar. Ainda hoje o vê por aí, carregando a autenticidade do fato sob forma de cicatriz.

A minha menina, valente, geniosa e ao mesmo tempo a personificação da meiguice e carinho. Abre aquele coração grandão e acolhe amores numa generosidade imensa, deixando por vezes a alma um tanto vulnerável, carecendo de eventuais curativos. E quem não os precisa? Feito as estrelas-do-mar, a parte machucadinha logo se regenera e ela segue, incansável na arte de amar.

Sou tia admiradora dessa mulher valorosa cujo crescimento acompanhei, sonho a sonho. Sei que a sua capacidade de sonhar é incessante e quero poder compartilhar das suas realizações vida a fora. Sou tia caduca, pois pra mim o dia dez de novembro, o seu aniversário, seria na sexta feira e hoje nem sequer liguei pra pra dizer do meu amor já sabido. Mas eu sempre digo. Sempre dizemos. Somos tia e sobrinha, amigas e cúmplices. Cuidamos uma da outra. É assim quando se ama.


FORA DE CONTEXTO: É normal usarmos o termo ‘pivete’ 
aqui no Nordeste, para nos referirmos a moleque, menino, criança...
 Não necessariamente os pivetes tem que ser projetos de meliantes.

FORA DO CONTEXTO II: 'Sobre o Amor Que Nunca Morre' está apenas em repouso. 
Voltará em breve, pois é uma postagem muito especial pra mim 
e quero continuar por mais tempo gritando como amo amar esse amor.



domingo, 6 de novembro de 2011

EM NOVEMBRO, O INVERNO...

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Nunca fui uma criminosa ambiental. Não jogo lixo nas ruas, sou limpinha e consciente, embora não seja xiita. Odeio aquelas bolsas de plástico, assassinas de planeta alheio, e mesmo assim tenho que arcar com o ônus de fazer parte da raça humana, desequilibrada e criminosa, tomando banho no melhor estilo ‘gelo’ em pleno mês de novembro.

Revoltou-se a natureza. E minhas narinas portadoras do complexo de inferioridade são inimigas mortais do banho quente. Se as desafio, elas trazem rinite, sinusite e mais uma porção de ites indesejados... Cá estou eu, traumatizada com o banho importado do Pólo Norte. Minha avó se me ouvisse agora diria pra eu parar de reclamar, pois chuva é coisa de Deus e ele sabe bem onde borrifa (borrifa é por minha conta, pra ficar engraçadinho). Será que Deus presta tanta atenção assim nos meus ínfimos pensamentos sem noção? Por que se prestar, lasquei-me. Ele decerto vai ralhar comigo ao me ouvir pensar no quanto acho que as pessoas “gastam” o nome Dele. Fosse eu secretária de Deus, faria uma fila de triagem e mandava um monte de nêgo bajulador pro fim da fila: “Volta depois, camarada. Deus agora está tirando um cochilo onisciente e só vai atender mais tarde. Aliás, Ele já não te mostrou o caminho, porque você não se coça só um pouquinho?”

Num email hoje (adoro) havia várias frases bacaninhas sobre Deus e no final o indispensável recado: “Passe esse email adiante, mas somente se você não se envergonhar”... Não passei. Não me envergonhei. Achei engraçadinho. Deus, com uma imensidão de feiúra humana pra tentar consertar, vai perder o sagrado tempo prestando atenção nas tolices repetidas sobre Ele? Tenho cá minhas dúvidas, aquelas que caminham à margem.

Para finalizar essa postagem absolutamente desconexa, como é de praxe por aqui, peço que sigam esse link e vejam a lindeza feita pelo Rodolfo para essa que vos escreve. Ele já havia me dito que garimparia minhas crônicas, organizaria para um futuro livro. Surreal. “Minhas” crônicas. Sem nenhum resquício de frescura e falsa modéstia, nunca tive qualquer intenção a não ser lançar no papel o recheio dessa mente desassossegada. Meu amigo Luck esses dias me disse uma frase bacaninha sobre isso, segundo ele o papel é nosso aliado mais forte, quando não estamos suportando o peso das nossas angústias, jogamos tudo lá e ele suporta, valente e resignado. Esse moço entende mesmo das coisas. Entende mesmo de mim.

Rodolfo é assim, ele simplesmente doa seu tempo, cuidado, afago... Ele quer mais de mim em relação ao que escrevo, do que eu mesma jamais quis. Me ponho agora a espiar isso tudo tão organizado e uma mistura de emoções me acometem: medo, vaidade, ansiedade, timidez, gratidão... Uma pitada de orgulho porque sou também filha de Deus, que já deve ter acordado da sua siesta vespertina. Ainda não sei o que fazer com tudo isso, mas sigo na procura.

Por enquanto, capricharei no meu abraço mais afetuoso, na tentativa de dizer a esse bruxo o quanto ele é especial. Ele não ficaria de jeito nenhum na fila de triagem, fosse eu secretária de Deus.

Blasfemices e tolices à parte.
Uns beijos, pessoas.


A propósito, QUINTANEEI AQUI.

E já que chove...


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A POESIA MUDA



A luz do abajur fraqueja e de repente tudo é um imenso breu. Quieta, ela anseia pelo instante em que os versos lhe chegarão fingindo surpresa, cedo ou tarde. No parco cômodo, a mulher, o abajur morto e a poesia muda compõem um retrato lúgubre... A mulher deseja versos sem rimas que tragam fragmentos de luz à escuridão silenciosa desse dia sombrio. Parece noite no seu coração em pulsar de inquietude. Embora acostumada aos labirintos noturnos, ainda assim sente nas costas o peso de um medo maior que ela.  Sua própria voz lhe provoca assombro, prefere fazê-la dormir, a fala. Ela pensa que só a poesia trará de volta o viço, o gosto, o perfume. Se não tivesse adormecido sua fala, suplicaria pela janela a um ébrio qualquer por goles fartos de conhaque e valentia. Talvez eles causassem efeito balsâmico sobre essa efêmera fadiga de alma, aquietaria seu desassossego e logo que os primeiros raios de sol surgissem pela janela, a poesia lhe devolveria a fome, o fogo, a luz. Amanhã, a mulher apenas anseia acordar poesia.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ATIVISTAS VIRTUAIS - PARTE FINAL


Vamos lá. Não costumo replicar comentários das minhas postagens porque... Por que? Nem sei ... Não me habituei a isso e desse jeito foi ficando.

A exceção se faz necessária hoje, em virtude do pequeno quiprocó sobre meu penúltimo texto. Me chamaram de petista. Disseram que eu fui gentil demais com o ex-presidente molusco, e li algumas opiniões, um tanto destoantes do que escrevi, sob o meu humilde conceito.

Não gosto da intransitoriedade do verbo “ser”, portanto, tenho certeza de ser poucas coisas nessa vida e petista é condição da qual me desfiz há muito tempo. Aliás, não acredito mais em política, em pessoa incorruptível quando se embrenha nesses caminhos tortos. O sistema é uma merda, é fato! A minha descrença, porém, não me impede de saber da minha responsabilidade em escolher direito quem me representa no poder público. Pra todos os efeitos, o cara me representa. Pro efeito que vale, ele representa a si próprio e uma minoria que o favorece. O que pode uma população tão gigantesca e tão inerte fazer pra mudar esse quadro de total descrença? Isso é papo pra outra hora...

Por agora pretendo ressaltar que em momento algum afirmei ser favorável ao tratamento vip do Lula nos melhores hospitais enquanto a população se ferra nos corredores superlotados dos hospitais públicos. Sou usuária do SUSto desde sempre. Sou porque preciso, porque os planos de saúde, corja de filhosdeumaégua, decidiram que eu não sou uma boa usuária pra eles, tenho patologias demais, então fiquei à mercê da sorte, do SUS e do meu bolso pra pagar consultas e exames vez ou outra. Eu sei como funciona essa merda toda. Os caras vestidos de branco ganham uma miséria por consulta, cirurgia, exames ou qualquer outro procedimento e descontam tudinho no péssimo atendimento à população. Vejo isso bem de pertinho, só não espio a fundo nos olhos deles porque eles nos atendem de cabeça baixa, porque pra eles representamos apenas alguns reais. Tenho plena consciência de que se a minha vesícula resolver perder de vez a paciência comigo, a saída vai ser correr ligeirinho num banco e contar com um empréstimo de três mil e quinhentos reais, pra retirar essa minha indesejável companheira. Isto porque os médicos se recusam a fazer tal cirurgia pelo SUSto, e alguns resistentes só estão agendando pra daqui seis meses... No mínimo. Não, eu não fui com Alice ao país das maravilhas.

Isto dito, reafirmo que em momento algum defendi o sistema patético de saúde pública, muito menos me opus ao direito de indignação de ninguém. Se não tivermos mais nem isso, aí lascou-se tudo de vez. Eu só não curto nem compartilho linchamento. E nem me refiro à campanha morna do Facebook ou Twitter, e sim ao acesso de cólera e sentimento de vingança dos raivosos injuriados que nunca se conformaram ter um sujeito como ele no comando do país. Se ao invés de malas, meias e cuecas megalotadas de dinheiro, o roteiro houvesse sido positivo, ainda assim ele teria sido indigesto aos acostumados com os políticos estilo padrão, os rouba-mas-faz.

Não cometeria o burricídio de defender o político Lula ou qualquer outro desse espécime formado por genes estranhos. É o exagero, a bestialidade, o preconceito que me incomodam, jamais a campanha inocente do Facebook e outras redes sociais. Mas foi apenas um desabafo completamente dispensável de minha parte, porque muitas coisas nesse mundo virtual me soam feias. Os bravos guerreiros ocultos em apelidos descolados se enchem de força pra agredir, humilhar, lançar discriminações das mais variadas formas... Uns desaprovam, outros curtem e vida que segue.

Ponto final.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ATIVISTAS VIRTUAIS



Uma inquietação vive a me martelar a um tempo: Eu deveria odiar o Lula por toda a decepção que ele me causou? Odiar é um termo forte, muitos dirão. Mas não sabem o quanto de admiração eu tinha por esse sujeito, por tudo o que ele representava e simplesmente ignorou e fez tudo isso cair por terra, escondido em cuecas, dentro de malas fartas, meias e sei lá mais aonde.

O fato é: não consegui odiá-lo. E hoje, quando o vejo nas manchetes por causa da sua doença, observo feito aqueles amigos que ficaram de mal, mas ainda se importam um com o outro. Reparo de soslaio e apenas penso: Tomara que fique tudo bem...

Mas não é sobre o Lula essa postagem. É mais especificamente sobre a imbecilidade humana escondida por trás de teclados de computadores. Então agora todos resolveram ter uma postura social e exigir que o Luís Inácio da Silva se trate pelo SUS. Ora, quantos destes protestadores já o fizeram? Se o ex-presidente falou tamanha tolice, perdeu mais uma entre tantas oportunidades de calar sua boquinha companheira. Segundo li, ao inaugurar uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), disse assim: “Vou ser breve porque estou com a garganta não  muito boa e não quero ser o primeiro paciente desta UPA ,(...) Ela está tão bem organizada que até dá vontade de ficar doente para ser tratado aqui”... Então agora há um grande movimento nas redes sociais sugerindo ao moço fazer seu tratamento pelo inoperante Sistema Único de Saúde.

Fico imaginando se os inventores dessa corrente são os mesmos internautas corajosamente anônimos que ofenderam Chico Buarque quando do seu lançamento no mundo virtual,  chamando-o de velho e bêbado. Chico riu da bestialidade. Disse que os artistas pensam ser amados porque são parados na rua, mas na verdade não significam coisa alguma. E podem ter sido os mesmos cretinos a propagarem comentários patéticos nas redes sociais quando da eleição da atual presidente, culpando o Nordeste pelo resultado das eleições. Até hoje não adentrei a fundo no que foi dito na época, porque às vezes meu estômago me trai. Lamentável mesmo tudo isso, ainda mais porque antes do Nordeste eleger a Dilma, o Brasil era um país em ordem social, política, estava tudo muito bacaninha. Maluf roubou, mas fez. Garotinho e Garotinha são o melhor da política nacional. ACM morreu e virou santo... Portanto, peço desculpas em nome de todos os nordestinos por termos apresentado a esse povo de tanta consciência social, as nuances da má política. 

Soaria interessante essa campanha se houvesse de fato um protesto contra a situação convalescente do sistema de saúde no país, mas esses ativistas virtuais, em sua maioria, não usa o SUSto, graças à Deus! O “movimento” significa mero ajuste de contas e vai muito além de sugerir o tratamento na rede pública ao ex-presidente, compartilhado por twitteiros e facebokeanos. Para muitos é a oportunidade perfeita pra despejar ódio e preconceito, corajosamente anônimos, acumulados desde que o sapo barbudo ousou invadir o cenário político nacional.

Raivosos tripudiam em cima de alguém que está passando por momentos no mínimo ruins, não importa se o seu tratamento seja melhor do que a maioria absoluta do povo brasileiro tem acesso. Isso não é uma partida de futebol, onde as torcidas se dividem, torcendo contra ou a favor. Não se trata de opção política. É sobre o respeito à vida do Lula, do José, da Maria... 

Quem dera houvesse tanto empenho e espírito de cidadania para coisas de fato relevantes...