sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

(DES)EQUILÍBRIO


“Último post do ano tem que bombar”, cutucou a minha vaidade feito um diabinho. “Último post do ano tem que ser de espontâneo e cheio de chamego feito sempre foi”, respondeu o meu bom senso.

Ontem foi um dia ruim. Hoje foi um dia bem feliz. Quando tudo se mistura, o equilíbrio é reconfortante, não há euforia, não há lamentação exagerada, apenas a vida como ela é (aquele programa baseado nas obras do Nelson Rodrigues, né?)... Ontem eu gemi e quem dera tivesse sido que nem os homens da música do Zé Ramalho, cujas mulheres os fazem gemer sem sentir dor. Urrei feito uma fera ferida (agora é Roberto Carlos, né?), parei no Pronto Socorro para tomar o velho e bom soro curante de todo mal. O tal do soro deve ter se irritado de tanto que eu espiava pra cima, e desceu ligeiro pra enfim eu poder ir pra casa. Troço tosco isso de ir pro hospital às pressas, passo a minha vez, quero mais não.Mas, estou (semi)novinha em folha, pessoas, não vos preocupem. Eu e a Vê ainda haveremos de nos divorciar, caso contrário, Rodolfo disse que jamais se casará comigo.

Então ontem, quando eu urrava feito a fera ferida do Roberto Carlos, minha amiga de todas as horas, Cicinha (sim, o nome da bichinha foi em homenagem ao Padim Ciço – padim dela, não meu) vendo o estado lastimável dessa que vos fala, tratou de arranjar minha ida para os cuidados médicos. É assim para onde eu olho, nem preciso esticar muito o braço, não falta quem o segure. E brigamos tanto eu e ela, sou praticamente a mãe do Seu Sairava, personagem do Francisco Milani (hoje estou uma fofura artística), bruta que só! E ela nunca me falta. Sim, devo confessar meus pecados de dois mil e onze, eu fui má, pessoas. Mas às vezes eu fui boa... O equilíbrio, lembram?

Então hoje foi um dia incrível, fui à confraternização da minha antiga escola, revi amigos queridos, nos abraçamos e beijamos muito, ouvi inúmeros “você faz muita falta aqui” e a recíproca é absolutamente verdadeira. Então, já em casa, recebi dois cartões postais de um antigo amigo do Rio de Janeiro. Amigo assim, feito a maioria de vocês, cujo abraço ainda nos falta. Gostei tanto! A letra manuscrita parece personificar um tanto a pessoa, sei lá, sei lá! E nossa de amizade é bem mais louca, porque surgiu em épocas de chats por celular, e passamos tempos sem nos falarmos, e ele me escreve “estou com saudades de você”... Bem quis scanear o verso do cartão, mas o maluco (ele é muito maluco) escreveu o novo número do celular dele.
CARTÃO POSTAL DO MEU AMIGO LUÍS CLÁUDIO... ELE NUNCA ESQUECE

Há umas postagens recebi um comentário bem bacaninha de uma moça chamada Liza. Ela dizia que sempre se mantinha quieta, lia tudo aqui sem comentar mas naquele dia havia resolvido descer da minha parede e enfim falar. Fui à procura da moça pra agradecer a gentileza, mas não encontrei uma mísera brecha para descobrir o blog através do seu perfil. Alguém conhece a Liza? Avisa, por favor, do meu agradecimento? Há dias eu queria comentar isso, o dia quase derradeiro é uma boa hora.

Eu pensei em fazer listinhas de ano novo, ou retrospectiva do que está indo, mas andei trocando filosofices com meu amigo Cristiano Mello e ele me convenceu de que mentir não é uma ideia bacaninha...desisti. Não vou começar ludibriando o pobre ano, né? Eu sabotaria todos os itens da lista, certamente, então melhor deixar rolar, pagodear feito Zeca Pagodinho quando diz “deixa a vida me levar, vida leva eu”... Peço a ela, apenas, que não me carregue pra muito longe não, direi feito Belchior “vida pisa devagar... meu coração, cuidado é frágil”.

Música para o vice-derradeiro dia. Ontem, vinte e nove, marcou-se dez anos da ausência sentida e prematura de Cássia Eller. Dela não há muito que falar. Dela gosto mesmo é de ouvir, pra sempre ouvir.

Caminharemos juntos em dois mil e doze, pessoas, caminharemos.
Até lá... Até já.





quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

MEU AMOR, MINHA FLOR, MINHA MENINA...



- Mãe, massageia a minha perna?

Ela me lança aquele olhar de tanto amor e se põe ali a massagear a minha perna rebelde, enquanto desfiamos bobagens, rimos de algo da TV e ela esbraveja contra algum personagem de novela num “será que existe gente ruim assim?”... Giovanna Antonelli que o diga, perdeu uma fã desde que encarnou um papel de vilã numa certa novela. Quando valeu apena ver de novo o tal folhetim televiso, coincidiu de estar passando uma trama inédita com a moça, representando dessa vez uma sofrida mocinha. Minha mãe não quis acordo, falou que não esquecia as maldades que ela estava fazendo na novela da tarde.

Ela vez ou outra pega os chinelos e vai pra roça, lá pra casa da Tia Nem, irmã dela, mãe da Cida e Ana Cleide. Lá é o seu refúgio. Cá ficamos meio sem prumo. A casa dela é nosso porto seguro. E os vizinhos ficam todo o tempo perguntando “Dona Lourdes volta quando? Essa rua sem ela não tem a menor graça”... Fico toda boba por ter uma mãe tão querida.

Ela é bem humorada, solidária, estragadora de netos em potencial. É engraçada, um tanto sarcástica (isso é hereditário?)...  Acho bonitinho a sua religiosidade, todos os sábados  vai pros encontros da Legião de Maria e nem ralha quando banco a engraçadinha e pergunto: “já vai pra Legião Urbana, mãe?”...

Ela é adepta do flamenguismo, apaixonada, devotada. E quando joga o seu time das cores feias e o Glorioso do símbolo mais lindo do mundo, time pelo qual a maioria dos filhotes são torcedores, fica numa agonia só, não querendo perder, nem ao menos ver tristeza nos seus rebentos. No fim, tudo acaba bem.

O abraço dela é o melhor do mundo. O olhar dela me diz tanto, me traz tudo. Ser sem ela seria bem estranho. Ouvi-la rindo, maloqueira, é impagável. Lembrar com ela das coisas do pai é a melhor saudade que há.

Mãe, meu amor, minha flor, minha menina... Eu tanto te amo.
Feliz vinte e oito de dezembro.
Feliz, mãe, sê feliz!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

PROSA E PRECE



Querido Jesus.

Embora tenha sido ontem o teu aniversário, me permito deixar o meu afetuoso e respeitoso abraço. Não ralhe comigo porque mantenho essa distância de ti, da tua história, das tuas palavras. Há tanta coisa a me causar estranheza, mas não quero falar nisso hoje. É época de celebração e não de questionamentos tolos. Já fizeste dois mil e onze anos e toda a gente é feliz e grata pela tua doação. Isto é verdadeiramente maravilhoso e contagiante. Quem dera se mantivesse todo o tempo esse espírito, quem dera se lembrasse mais do amor que tu pregaste e assim fosse feito na terra de forma a causar uma inundação de paz, amor e bem querência. Quem dera...

Mas, Jesus, não foi apenas para te dar o meu abraço que lanço escrivinhamentos. Quero te falar de uma pessoa muito especial, cujo aniversário é hoje, um dia após o teu. Não há muito a falar sobre ela que tu não saibas. Não há muito a falar que eu já não tenha dito. Mas dessa redundância eu gosto. Dizer aos que amo o quanto os amo é deveras prazeroso, porque eu nunca acho que falei o suficiente.

Tenho estado feliz por ela, sabe Jesus? E devo a ti essa felicidade compartilhada, porque ela anda por aí a pregar o amor da forma que eu realmente considero admirável. Não temendo tocar a enfermidade alheia, ela se posiciona ao lado do enfermo e lhe sorrindo, doa esperanças de que tudo há de ser melhor, porque acredita na força do teu amor. Tu tens realmente uma fortíssima aliada para por em prática os teus ensinamentos, porque ela é dessas, petulante que só! Não teme a feiura mundana e não foge diante dos obstáculos assustadores.

É claro que a mulher é falível. Mas não vou discorrer sobre os seus tantos defeitos, seria inoportuno, afinal é seu aniversário e nem nos despimos do espírito natalino, ainda bem. Não vou, portanto, dizer o quanto ela consegue ser chata quando quer, o quanto arenga comigo, me inventa nomes horrendos (Mirlena é um deles... Pode ralhar com ela só um pouquinho?) e pra completar vive querendo roubar o Nando Reis de mim. São defeitos gravíssimos estes, dê-lhe um corretivo. Eu bem poderia falar da sua admirável aptidão para as coisas das artes, mas não vou deixá-la ainda mais convencida. Cinco minutos de prosa e a impressão é de que a pessoa viveu isso toda a vida, pois passeia por assuntos literários e das artes em geral com uma intimidade absurda. É a garota carioca mais brasileira de todas, zela pela diversidade cultural porque pertence às várias culturas e o faz como se já houvesse nascido assim. A arte e ela parecem ser uma coisa só... Ah, e outra coisa chata é que agora ela não fala mais palavrão, e eu fico falando tudo sozinha. Já tentei desencaminhá-la só um pouquinho (perdão por isso, Jesus), mas não tem jeito...

Então hoje, nesse meu arremedo de prece, dedico os meus pensamentos mais bacaninhas para ela, por ser pessoa de alma tão grande, por caminhar por aí semeando o teu amor, esticando a mão para ajudar a levantar quem se encontra perdido... Isso a realiza e torna o mundo um tantinho menos feio.

 E pra finalizar, um pedido bem egoísta: Permita que mesmo quando pensarmos ter gasto o que havia de bem querência entre nós, uma ou outra ofereça a mão e um sorriso e mais uma vez nos daremos conta do quanto de amor temos. Permita, portanto, que nossa amizade persista apenas pelo tempo da eternidade, amém!

Cantemos, pois, parabéns à passarinha, errante, insistente na missão de semear o amor e a esperança, Simone Fernandes...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

(PSEUDO)POEMA DESINVENTADO




Naquela noite de lua adormecida
Minha vida sorriu ao dançar com a tua
Os instintos urgiram, caçando o teu cheiro
Saciando, de amar, minha alma impura
Alma nua

Naquela noite de lua adormecida
Lancei dos meus lábios sílabas macias
E soaram verbos ávidos, sedentos
Numa essência de rara sintonia
Sinergia

Naquela noite de lua adormecida
Eu te beijei na boca um segredo
E meu olhar te falou mil dizeres
Misturei em ti os meus tantos quereres
Matei o medo

Naquela noite de lua adormecida
Nasceu meu poema desinventado e louco
Em versos acesos, suplicante, cantei
Que o teu amor não me fizesse pouco
Devaneei

(Milene Lima)




Sob à leitura generosa do meu amigo DJ Clayton

E tem haikai no Relicário... 
Cristiano Mello é massa!



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

PEQUENAS MUVUCAS COTIDIANAS




Decidi ir ao comércio. Minha irmã, cabreira por saber de toda a minha disposição para eventos do gênero, pergunta: “tu tem certeza que quer mesmo ir?”... “Claro, oxente, bora lá!”

A missão nem era ir ao comércio, meu itinerário se resumia a uma única loja. Eu queria comprar bombons e demais guloseimas pra montar uma cestinha natalina pra minha amiga Rafaela. Lembro de quando fazíamos juntos o PROFUNCIONÁRIO (nem queiram saber da chatice desse curso), lembro do zoião da nêga pra cestinha mega-elaborada que o meu amigo oculto recebeu no dezembro da época, há dois ou três anos. Cruzou os dedinhos, mas não havia sido ela a contemplada. Afora isso e infinitamente mais importante, não casualmente eu me lembro dos seus gestos de amizade gratuitos. Rafaela é dessas pessoas que nasceram pra fazer o bem, fazer melhor a vida de quem está ao alcance de suas atitudes generosas. “Olha, vou estar trabalhando amanhã por essa hora, mas qualquer coisa me liga, largo tudo e vou aí segurar tua mão”... Foi assim a sua fala quando eu choramingava, cheia de frescura e medo de fazer minha primeira endoscopia digestiva. E como posso esquecer de como ela me segurou pela mão e me conduziu ao término desse curso, ignorando minhas ligações pra dizer que não ia mais... “Nem pense em desistir! A gente se ajuda, Mil”. Ela me ajudou, muito, sempre.

Cinco minutos após estar no local eu já começava a descompreender aquela muvuca. Gente demais, apressada demais, calor digno de uma filial do inferno, minha cabeça berrava de dor, minha irmã me olhava como quem pensava “eu sabia que ela não suportaria meio minuto” e Maria Clara empurrando o carrinho pelos corredores congestionados, toda pomposa cuidando da tia. Larguei tudo com ela e fui à caça de uma cadeira. Precisava me sentar, respirar... Loucura! Nesse momento desejei imensamente me teletransportar para uma praia deserta, viver in natura por uns dias... Bem, na verdade, mais ou menos in natura estaria valendo? Por que, sem uma cama bacaninha e um banheiro razoável, esse papo de acampamento, eu e a natureza, a natureza e eu, fica só na minha imaginação viajante.

Depois de cumprida a missão-guloseimas, seguimos pelo calçadão em busca de um suco – que num passe de mágica se transformou numa coca-cola estupidamente gelada – e ao chegarmos no quiosque, lá estava o incansável cutucador de chagas sociais, o repórter Roberto Cabrini, suando em bicas, à procura da matéria (im)perfeita. Logo percebemos que se tratava de algo relacionado ao caso dos padres pedófilos, pois os rapazes-coroinhas envolvidos na muvuca estavam todos serelepes dando entrevista. Imprensa, cá na terrinha, coisa bonita não havia de ser. Era furdunço, presepepada das mais bagaceiras, pra continuar divulgando o santo nome de Arapiraca pelo Brasil afora. Não sei aonde passará a matéria, pois Cabrini parece ser um repórter sem microfone oficial... Pelo menos não usava nenhum com logotipo de emissora qualquer. Mas eu quase fui falar com ele na tentativa de lançar um xaveco dos bons, do tipo: “eu te pago um suco e você me deixa mandar um ‘salve’ pros meus amigos das bandas de lá... tu tá bem com sede, que eu sei”...

Mas minha cara-de-pau arregou e saí do quiosque deixando o moço se acabando num sanduba que eu nem paguei... No próximo escândalo por aqui, prometo ficar de papagaio de pirata nas gravações, com cartazes fofos dizendo beijos e abraços pra vocês, pessoas que amo.

Cuidem-se direitinho!
Uns beijos!

sábado, 17 de dezembro de 2011

BAIÃO DE DUAS


Num repente, cantado em funk, sambado
em letras, banhado em sonhos
Nossa amizade é popular brasileira e sem fronteiras
- Arengueira!
- Marrenta!
Desmentimos e não compreendemos
delimitações e bairrismos
Detestamos bandeiras.
Rimos e brincamos no mesmo quintal
Aviãozinho, ou Amarelinha – chegamos 
ao céu
e deixamos no inferno quem divide em
cores e capitais,
tamanhos e classes o que é tão natural
Lá no Nordeste cantarolando o rodo cotidiano do Rio!
Somos todos a mesma gente!
Cantarolando meu povo – ela nem se despediu de mim
Dança um baião arrastado, beija o Nordeste, num cabra da peste
- Caraca!
- Oxente!
E é nessa embolada, que ficamos boladas
Sorrisos e lágrimas e verdades na cara
Esporros, afagos dentro do mesmo prato
- Massa!
- Maneiro!
Rio de Janeiro, Arapiraca... Já é logo ali!
Tudo junto e misturado, a vida, o sotaque
Um colorido estampado, um som cadenciado
- Frenético!
- Arretado!
Ela sorri e acena! Eu escancaro os dentes.
Simone Bonita, Milene Gentileza
Uma letra, uma frase e o mundo se estreita
Na imperfeita condição de amizade
na melhor brasileiríssima beleza.


Por Si Fernandes e Milene Lima                         




sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

TRINTA DIAS PARA UM ABRAÇO



É chegada a hora do acerto de contas... O balanço anual que se faz impreterivelmente, jurando mais esforço e atitude para o pobre coitado que chega a fim de tomar conta dessa absoluta maluquice chamada vida.

A velha história de jogar nos ombros do ano novo a responsabilidade das realizações, exige-se prosperidade, saúde, paz, amor e tantos outros ingredientes para se preencher lindamente um ano feliz. A questão é que esses itens estão disponíveis todos os dias. Há um cardápio diversificado de sentimentos e emoções a serem compartilhados a fim de tornar mais aprazível a figura da vida, mas a correria alucinada do dia-a-dia só permite a urgência e quando se  percebe, foi-se o tempo carregando as metas inalcançadas.

Pobre ser humano! Tão tolas são as suas prioridades. Tão egoístas são os seus quereres... Preocupa-se consigo, seu conforto, seu progresso. A cada dia fica mais extensa a lacuna que o separa do seu vizinho. Alimenta a solidão de ser um só, assim é mais prático e menos arriscado. Desaprendeu a estender a mão, a pedir em um colo, abrigo. “É a vida moderna!  É preciso ser objetivo, trilhar metas e percorrê-las a ultrapassando os obstáculos a qual custo. É preciso buscar sempre o primeiro lugar e dessa forma atingir a real felicidade”... Pensa o tolo racional.

A cada passo dessa corrida maluca em busca de quase nada, fragmentos de sentimentalidade vão se perdendo pelo caminho. E o que é o homem se não carrega em si uma porção generosa de sentimentalidade? Quem o salvará da sua própria racionalidade burra?

Os últimos trinta dias do ano são insuficientes para se amealhar quereres. Solidariedade com prazo de validade é ilusória. Há todo o tempo as gentes precisando de um pão... Ou uma mão. Toda a vida, um coração. A ampulheta acelera o tempo enquanto ainda se corre para um último abraço, daqueles guardados num baú qualquer, quando o dia-a-dia se fez urgente demais para dar espaço a esses detalhes sentimentalóides. Os perdões deverão ser lançados, a época é ideal para isso. E porque é Natal, porque caminha dezembro, os homens fingirão boa vontade, até que amanheça o dia primeiro do ano que chega...


Feliz Natal verdadeiro, aquele cujo espírito se mantém vivo a cada dia.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

AGORA, NÓS...




Há dois anos entrei nesse canto pisando macio, sem fazer alarde para não acordar as palavras alheias, lindamente dispostas em cantinhos vizinhos. Cheguei sem saber direito ao que vim... E fui ficando.

Percebi que era o lugar certo para eu derramar meu riso, lágrima, aflição, urgência, saudade. Meus medos, sonhos, alegrias, frustrações, todos cabiam direitinho nesse espaço e acomodá-los aqui tornou-se cada vez mais prazeroso.

Foram tantas histórias contadas, inventadas, sofridas, engraçadas... Bom mesmo era compartilhar a palavra. Melhor ainda perceber quem chegava e de certa forma carregava um pouco do que lia. Nessa mistura sempre coube gostar, discordar, apoiar, protestar. A interação foi sempre o meu propósito aleatório. Por que sou péssima em organização e planejamento... Eu apenas sigo conforme esteja o tempo.

Quando vi já haviam quase 200 visitas que resolveram ficar. Não fiz festa para eles, apenas sorri e os convidei a entrar. Alguns foram embora, outros se acomodaram na minha sala de estar e eu adoro tal presença. Sem eles, insistir seria tolice. É noite de verão em céu estrelado quando chegam e são generosos, educados, exagerados, amigos, espirituosos, cuidadosos...

Gosto de estar aqui. Escrever me dá a sensação – ilusória, talvez – de liberdade. Posso ir aonde eu quiser através das minhas palavras. Com elas me é possível sussurrar, gritar, protestar, amar e desapaixonar no instante em que os meus quereres exigirem. E me contenta justamente esse caso de amor sem regras, sem amarras, preceitos ou caminhos pré-definidos.  Eu não as quero perfeitas, as minhas palavras... Eu apenas as quero minhas.

É de gratidão o meu sentimento para com esse canto irrequieto. Confiei-lhe os meus devaneios mais loucos e tolos e ele ainda me trouxe amigos. Como posso não amá-lo? Entre ínfimos dissabores, intensos momentos de alegria, o saldo é extremamente positivo. Estarei por aqui até o tempo que eu nem suponho... Estarei por aqui.

Obrigada por cada beijo, abraço, afago, puxão de orelha disfarçado em palavra... Obrigada! E por favor, não me siga, não me espie de longe, não seja um retrato imóvel na minha parede, me dê sua mão, caminhe comigo...

Uns tantos beijos...

domingo, 11 de dezembro de 2011

MUITO PRAZER, MEU NOME É NINGUÉM...


Olá. Sou eu, Ninguém. Sei que você deve ter curiosidade em saber um pouco de mim, não é? Mas, sinceramente, não tenho coisa interessante a contar. Vivo por aí, visito a casa dos outros me esgueirando, normalmente à sombra de alguém, deixando recadinhos “non sense”.

Por quais razões me comporto desse jeito? Não sei te dizer. Na verdade tenho opinião relevante sobre pouquíssimas coisas, então me desencorajo a mostrar a cara. Gosto mais de provocar e sair correndo, sem te dar direito de defesa, visto que me escondo feito um roedor num buraco qualquer, tornando o ato de me encontrar uma tarefa nula até para o OO7.

Não me leve à mal, sou uma tola criatura sem nada melhor pra fazer, sem coisa importante a dizer, me divirto assim, tentando te causar irritação. Me daria uma alegria imensa comprovar que atingi o meu objetivo, então por favor, caso isso aconteça, dê algum sinal, mas que seja um sinal bem desenhado, porque de outra forma eu não alcançarei. Ficar no vácuo é ação incessantemente praticada por mim.

E não repare se costumo agredir sem dó a gramática. Sei que por ela eu pararia de desfiar asneiras ao vento e me limitaria a apreciar a boa escrita alheia.  Mas a teimosia em sua versão pouco inteligente é outra de minhas características.

Você já deve ter cruzado com outros da minha espécie, não foi? Mas eles são mais educadinhos, andam com um crachá dizendo seus nomes e assim fica fácil saber quem são. Com eles você não se irrita, eu bem sei. Aliás, é um tanto cansativo esse teu jeito de estar bem com todo mundo, essa bem querência explícita dos anônimos portadores de crachá, ou os que se apresentam com lindos cartões de visita. Talvez isso me incomode um pouco, mas jamais admitiria...

Vou embora agora, mas voltarei qualquer dia para quem sabe escrever palavras desimportantes acerca do que eu não compreendo.

Muito prazer, meu nome é Ninguém...


FORA DE CONTEXTO: Dedico esse vídeo aos meus gaúchos queridos, 
Loisane, Leonel, Luna, Léo Santos (esqueci algum?), 
querendo assim salientar que mencionar a origem da citação imbecilóide
 sobre os nordestinos foi meramente casual, 
não tendo nada absolutamente a ver com o fato do projeto
 de besta ser do lindo Rio Grande do Sul de vocês. 
Como disse, anonimamente educada, 
alguém em comentário na postagem anterior,
 “lixo” existe em toda parte, inclusive no Nordeste.

Amo essa música, ouçam comigo...







sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

EVERYBODY IS FILHOS DE GOD


A moça no twitter (eu não tenho twitter) disse que lá está virando um vaso sanitário, depois falou assim: “oimacacos – nordestinos, piauienses, cearenses”... A moça é uma gaúcha linda, mas não se constrange em mostrar uma alma tão pobre.

Meu amigo Cláudio ficou indignado e compartilhou essa esquisitice no Facebook, onde já constavam vários comentários dizendo poesia ao contrário pra guria e um deles defendendo a liberdade de se gostar de quem quiser. A moça tem o direito de não gostar dos nordestinos, segundo o comentário.

Lembrei de algo que li tempos atrás, sobre o furor causado pelo simples fato do Pierce Brosnan, o ex-007 charmosérrimo, ser casado com uma gorda. O mundo entrou em cólicas, como seria possível um astro de Hollywood compartilhar as páginas das revistas com alguém tão desproporcional? Sou bacaninha, usei um adjetivo razoável para não reproduzir o que disseram da moça.

Na teoria funciona assim: Todos somos filhos do Divino, somos iguaizinhos, não importa de onde tenhamos vindo, ou ainda que nossas peles gostem de variar as cores, ou nossos recheios sejam de tamanhos diferentes. Pregamos o respeito, a tolerância. Cantamos o amor e a paz... Na teoria tudo é lindo.

Na prática o negócio se faz confuso. Não é novidade pra ninguém o quanto a bestialidade disfarçada de preconceito passeia por aí, sem a mínima intenção de partir. Pra ser bem sincera eu dou de ombros para as campanhas contra o preconceito. É estranho querer obrigar uma pessoa a me aceitar porque sou nordestina, tenho recheio pra caramba e carrego duas muletas aonde quer que eu vá. Tenho certa preguiça de explicar o óbvio. Respeitar e aceitar o seu semelhante deveria ser inerente ao ser humano... Ah, mas sob a ótica do preconceito, há de ser bastante investigada essa tal  semelhança.

Não fiquei indignada com a moça gentil lá de cima. Hoje em dia perco muito pouco do meu tempo me irritando com bestas. Não me escandalizei com os comentários absurdos acerca do casamento da mulher gorda com o OO7, porque é daquele jeito que funciona. Quer ser gorda, sua porca desleixada? Que seja! Mas não se atreva a constranger o mundo esteticamente perfeito com seu físico horrendo.

Só me permiti reproduzir letras amargas porque no final há um indício de que a humanidade não descarrilou por completo. Por que o moço lá no consultório médico aonde levei minha Vê, quando chegou à sua vez de ser atendido, ele disse: “coloque aquela moça no meu lugar. Pessoal, aquela moça vai ser atendida na nossa frente... Alguém tem alguma coisa contra?”. Aquela moça era euzinha, sentada desconfortavelmente a espera do milagre de ser chamada pelo médico simpático lá pelo meio dia. Vestido em toda a sua simploriedade, o homem apenas fez a prática da empatia e generosidade. “Aquela moça” docemente constrangida, lançou-lhe um sorriso grato e guardou feito uma pequena pedra preciosa tal amostra de gentileza gratuita.

Então, é quase Natal.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

REDIZENDO A SAUDADE...



Quando escrevi sobre a saudade, quando citei a frase da Denise sobre “sentir saudades do que não vivi”, recebi um email lindo do Leonel me dizendo do quanto tais palavras mexeram com ele e o fizeram voltar ao passado, às lembranças felizes do que ele jamais viveu. Não vou contar muito do email porque ainda quero vê-lo feito crônica lá no Asteróide. Eu só queria dizer pra ele que também tenho saudades dos sonhos que alimentei ali atrás. Acho que todos guardamos essa sensação.

Nesse mesmo período, minha sobrinha Giovanna disse assim: “Memem, escreva sobre a saudade, fale da nostalgia, queria ler algo assim”... Ela não havia lido minha postagem do tema. Falei que ela ainda era muito jovem pra sentir nostalgia. Era momento de caminhar e acumular saudades, não de voltar para buscá-las no seu passado tão fresquinho. Só tem quatorze anos a minha aborrescente e já guarda tanta sentimentalidade...

Num dia não tão distante, conversávamos Luck e eu e mergulhados nas fantasias para as quais nos empurram a bem querência virtual. Jantaríamos num lugar sob as estrelas, à beira de um lago, águas tranqüilas, muita conversa, muito riso, imensa cumplicidade e a constatação de que o elo amigo que nos une é absurdamente real. Sabíamos disso todo o tempo, o abraço seria apenas um adendo. Na volta do devaneio, ele falou lindamente: “estou com saudades desse momento que nem vivemos”...

Esses três suspiros ocorreram no mesmo período e de forma aleatória. O gaúcho lá de Niterói, a menina das Alagoas, o sujeito mineiro... Eles não se conhecem. Eu adoro conhecê-los e compartilhar das suas saudades, sonhos e sentimentalidades.

SEM PALAVRAS



Imenso vazio. Odeio quando se calam as minhas palavras e eu tenho que sair à procura das fujonas feito uma louca, feito tivesse mendigando atenção recíproca do imenso amor que as tenho. O silêncio da noite me inspira... Não a escrever, mas a perceber esse breu à minha volta e de súbito me invade uma necessidade de gritar. Voltem aqui, suas covardes! Nem sabem como eu as derramaria. Talvez em canção de amor, ou num conto tristonho, numa crônica sobre o nada. Se me pertencessem, estariam aqui, construiriam pra mim lindas histórias mentirosas e eu me deixaria enganar por elas. Fingiríamos um caso de amor arrebatador. Seríamos romance, as palavras e eu. Desfiaríamos tolices. Elas dormiriam em mim essa noite. Mas não assim, quando me escapam sorrateiramente. Cansada, fecho a janela, recolho meu grito, engaveto meus verbos. Hoje não dá!


Lá no Relicário,

domingo, 4 de dezembro de 2011

O DOUTOR DA BOLA



Um cara com o nome de Sócrates não podia ser um mero jogador de futebol. Numa simples nomenclatura profissional não cabia todo o seu imenso talento. Numa época em que ser jogador de futebol se limitava a estar dentro de campo representando o seu clube e a Seleção Brasileira, sorrindo e acenando para o sistema, Sócrates foi a voz, a contradição, o protesto.

Em 1982 eu me postava bestificada diante da TV, acompanhando aqueles caras jogando feito mágica. Uma elegância sobrenatural, altivez de quem sabia exatamente o que deve ser feito e o realizava com maestria. A minha torcida pela Seleção do Brasil durou até o tempo em que se desfez o sonho do futebol “arte”. Quando Sócrates, Falcão e Zico deixaram em pés menos brilhantes as suas chuteiras e tudo se escancarou num jogo de interesses medonho, foi-se por terra a minha torcida. Façam bom proveito os que hoje morrem de amor pelo time do Ricardo Teixeira. Euzinha não.

Assim que conectei a internet saltou-me de imediato a manchete de que havia partido o doutor. E há muito tempo eu não sentia tanto por alguém que eu não conheço, jamais troquei uma palavra... Eu apenas o acompanhava. Quando meu controle remoto passeava pela programação pouco atrativa, onde estivesse o Doutor a prosear, eu parava para ouvi-lo. Gostava das suas reflexões. Admirava seu jeito sarcástico e o semblante de quem estava sempre debochando de algo.

Foi embora o Doutor, distribuir passes de calcanhar em outros campos, comemorar de punho erguido os seus gols de classe, espalhar pelos céus o futebol como deve ser: PURA ARTE.

Adeus Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. 
Valeu, Doutor!


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A CRONISTA E A RAPADURA



“Não, não escreva, Milene!”... Lancei-lhe palavras ao vento na esperança de poupar os olhos dos leitores de mais escritos metidos a engraçadinhos. Ela bem ia contar uma história bizarra do amor entre a sua Vê e o seu útero aumentado. Pois a tal cronista diz que seus cálculos biliares conseguiram uma espécie de passe provisório e saíram a passear pelos sistemas todos, aportando no sistema reprodutor e caindo de amores pelo útero aumentado. Por lá andam a fazer baile, causam dor, produzem cólicas. Suplício!

Por sorte as palavras ao vento bateram na consciência escrivinhadora e ela desistiu desse enredo bizarro. Mas não se pode deixá-la sozinha... Qualquer escrita sua hoje não sairia a contento. Mal desistiu do amor abdominal, já pensava em desenhar em letras tristes a ilusão. “Besteira, mulher! Criaste as tuas ilusões, não lamente tê-las perdido. Elas são visitas passageiras, cedo ou tarde haverão de se despedirem para pedir abrigo em outra morada. Apenas alimente sua alma enquanto estiverem por perto”...

Pensei em aconselhá-la a devorar um bom livro de auto-ajuda, daqueles em que as saídas dos labirintos mais encalacrados parecem fáceis feito caminhar na grama. Rejeitou o conselho e franziu o cenho. Perde de vista a paciência com alguém tentando lhe sugerir até os próprios pensamentos. Sorriu sarcástica lembrando do escritor autoajudativo e rico (muitos compram sua auto-ajuda, cujo queijo ele não sabe quem mexeu) e resolveu propor um similar adaptado aos costumes nordestinos, com o singelo título abaixo exibido:


Dessa vez não consegui conter a suposta cronista com talento para o picadeiro. Escrivinhar é seu ópio para momentos em que as ilusões se esvaem e a realidade assume a face estranha da dor física, diga-se de passagem, provocada por ela mesma. Mas esses dias, quando um amigo recém liberado de um tratamento para aniquilar um linfoma, perguntou como ela estava, lembrou das palavras do irmão desse moço na sua sala dizendo: “todo esse tempo de luta e eu nunca vi esse cara sem um sorriso no rosto”... Então ela  desistiu de responder a sua pergunta gentil lamuriando dores insignificantes do corpo ou da alma. Não tinha esse direito. E eles conversaram animadamente como era de costume... Ela apenas esperou que no dia seguinte outra ilusão batesse à sua porta e o romance avassalador entre um útero carente e pedras vesiculares indóceis, já estivesse bastante desbotado.

Enquanto isso, eu não a deixarei escrever asneiras...