domingo, 26 de fevereiro de 2012

NAQUELE TEMPO



Gostava mesmo era daquele tempo onde a aridez da vida se escondia da gente e tudo era simplicidade. Gostava do casal de goiabeiras lá de casa, os canteiros de coentro e a sombra da mangueira do vizinho, que também queria ser do nosso quintal.

Tinha muita riqueza nas fazendas cheias de boizinhos feitos com filhotes de manga verde e palito de fósforo queimados. A gente dizia pra Vó não jogar um palitinho fora, era de serventia na brincadeira de ser feliz. Cajueiro não tinha no quintal, só os pés de goiaba, o coqueiro e a mangueira do vizinho que tinha parentesco com a gente. Eram lindas as plantas da Vó, das folhas dançarinas, do verde tão vivo que dava até gosto. Mas se não tinha pés de caju, a gente passava dias juntando as castanhas dos cajus aparecidos, ansiando o dia que a Vó ia acender um fogo lá no fim do terreiro e as bichinhas ficariam pretinhas de tão tostadas. Aí todo mundo se juntava no chão, munidos de alguma pedra pra tirar as castanhas da casca. A Vó dizia pra não comer naquela hora, só depois: “tá quente, vai dar dor de barriga”, dizia com meiguice a minha miudinha.

Tinha vez que o pai vinha pegar isca pra pescaria do dia seguinte. Ficava com dó das minhocas se remexendo na lata que era uma espécie de minhocário do pai. O terreiro guardava sempre um espaço encharcado por causa do lavador de roupa, porque o chão do terreiro tinha cimento não, então as bichinhas se procriavam pra valer. Eu ajudava na caça, mas ficava com pena. O pai dizia que os peixes não iam aparecer se não lhes dessem comida e as minhocas serviam pra isso.

Naquele tempo o supermercado só tinha na rua. A rua era longe. Então e eu gostava de ir na venda comprar um pouco de óleo, ou gás pra acender o fogo de carvão da Vó. Se fosse muito o trocado dava pra trazer um copo cheio. Mas se faltava um tostão, o Seu Eustáquio anotava no fiado.

De tardezinha, de banho tomado, a gente sentava com o Vô na calçada, enquanto ele tinha conversa com todo caminhante. Eu pensava que quando fosse grande ia querer conhecer um tantão de gente assim. O homem do quebra-queixo passava e não tinha jeito do Vô escapar. “Vocês me aperreiam demais”, dizia ele já trazendo as moedas pra fora do bolso. E logo viria o carro do pão, porque padaria não tinha por perto. Mas o homem do pão já sabia e se o Vô não tava na calçada, lá de dentro se ouvia um grito: “Seu Antônio, vai um pãozinho hoje?”.

Depois de jantar, a gente ainda brincava um pouco antes de ser intimado a entrar em casa. Brincava de boto, se esconder ou então sentava na calçada pra contar estória de trancoso. Era cada bicho feio que tinha nas estórias dos meninos! Na minha cama, espiando o telhado  antes do sono chegar, eu sempre esperava que um monstro daqueles viesse se vingar porque a gente tava maculando a figura dele... Mas logo o sono me pegava no colo e afugentava qualquer bicho feio.

Gostava mesmo era daquele tempo...


LÁ NO RELICÁRIO:  OS VERBOS DELA...

11 comentários:

  1. Naquele tempo levávamos a felicidade bem à sério. Hoje, temos um descaso fingido por ela.
    Lindo demais esse texto!

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  2. Bom dia!
    Adorei seu texto.
    Tenho saudades desse tempo,infelizmente não volta mais.Hoje apenas nos é possível recordar.
    Grande abraço
    se cuida

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  3. Quanta coisa boa tinha naquele tempo,heim???Lindo te ler!beijos,chica

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  4. Que lindo!
    Um tempo em que eramos felizes e sabiamos.

    Um lindo domingo pra voce.

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  5. Hoje, acertei meu relógio pelo seu. E te lendo, descubro que minha vida sempre foi acertada com a sua - exceto que meus bois eram de chuchu. E cajueiro também não tinha...
    Beijos.

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  6. Viajei!
    Por alguns momentos, perdi contato com o mundo em volta, enquanto rodava contigo pelo quintal, escavava as minhocas e sentia até o cheiro da terra...
    Recordações de momentos mágicos, que eu compartilhei, confundindo-os com os meus próprios...
    Obrigado, Milene!

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  7. Sabe aquele suspiro nostálgico
    que o peito se enche e os olhos
    se molham amolecendo o que esta guardado?
    Pois é. Foi isso que senti.

    Vc é unicamente unica Memem!

    Beijo moça que amo.

    ps: as coisas andam meio corridas
    mas vou conseguir um jeito pra fofocarmos um cadiquim tá rsrsr..
    Saudades de prosear contigo, muita!

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  8. Lind´maizê da conta sô!!!

    Eu mi alembro de tudo isso e ainda do "galão com bomba" de óleo quêu adorava ir buscar só pra girar a manivela e encher o litro... rss

    Beijos nostálgicos
    Tatto/Xipan

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  9. Um tempo que tatua lembranças. Mesmo que sejam elas diferentes para cada um, essas memórias são lindas para todos os que conheceram a simplicidade e a riqueza dessa convivência, de um tempo gostoso e saudoso.

    Bjs.

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  10. Olá, Milene!
    Pena ainda não terem inventado a máquina do tempo. Uma pena!
    Bjs!
    Rike.

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  11. Eitaaa que quando vi a foto do post me deu um "quentume" no peito.
    Lembrei dos coquinhos da 7 copas que tinha na frented casa quando eu tinha uns 5 anos...
    Era bom fazer bonequinhos mesmo! Que delícia, que saudades!

    bjooos

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