terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SEGUNDA DE FILME E FEIRA



Fiz prática da ditadura escrita. Exigi que me voltassem as palavras e elas, coagidas, cederam ao meu poder inquestionável. Não perguntei por onde andaram, por alguns momentos desejei que por lá ficassem, mas, arrependida, supliquei o retorno.

Denise disse assim: “Você vai se reconciliar com as suas palavras, elas me fazem mais feliz”... Abri um sorriso constrangedoramente feliz e fui buscá-las de volta para o ninho.  

Hoje foi um daqueles dias em que eu pagaria pra não sair de casa, mas a urgência não me permitiu a folga. Todas as segundas acontece a feira livre da cidade, diferente das existentes nos bairros, cada uma com seu dia particular.  Arapiraca já foi famosa pela sua feira, considerada a maior do Nordeste e eu vivi isso e perto quando acompanhava meu pai nessa dura, porém divertida função. Adorava aquela torre de babel, que ao contrário da bíblica, todos os seus participantes se compreendiam em meio à imensa falação. Me divertia ouvir meu pai tentando se fazer ouvir no clássico “moça bonita não paga, mas também não leva”. Adorava também todas as coisas engordativas compradas por ele, enquanto eu permanecia sobre as suas caixas de madeira, como um enfeite mimoso.

Revivi tudo isso nesta segunda-feira, mas apenas dentro da minha memória cheia de saudade. A feira já não é famosa, já não carrega o charme rústico de outrora, nem a camaradagem e espirituosidade dos seus componentes. Caminhei por ela porque o meu destino pedia isso... Deveria chegar a dois laboratórios e oferecer meus bracinhos fofos ao sacrifício. Me senti a própria vítima do Drácula imaginando meu sangue preencher quatro tubinhos daqueles, apenas no primeiro laboratório. Somente imaginei porque eu não tenho coragem de olhar esse vampirismo. Mas as pessoas por lá eram tão simpáticas e educadas que eu teria deixado me tirarem um litro de sangue sem reclamação alguma. O moço, vampiro de mim, de tão gentil quase me fez apaixonar à primeira dentada. No segundo laboratório deixei o Drácula para trás e me senti em “A Espera de Um Milagre”.  O assento preto bem parecia uma cadeira elétrica e eu prontamente ofereci meu braço direito, antes que algum desavisado ativasse qualquer coisa que levasse euzinha para o além.

Coincidentemente os dois laboratórios são localizados na mesma região, ambos embaralhados com a feira, mas não tão perto que eu pudesse seguir a pé. Feito a Angélica, porém com a pinta oculta, fui de táxi de um canto a outro.  O condutor (acho uma lindeza esse nome) era um sujeito daqueles que devia existir aos montes. A todos os pedestres na aflitiva espera para atravessar, generosamente parava e acenava para que o fizessem. As senhorinhas agradeciam com um sorriso e logo mais ali na frente, o gesto se repetia. Mais tarde era a vez do meu sensível coração ser analisado. Estendi-me na maca toda trabalhada nos negocinhos eletrônicos em pulso, tornozelo e peito nu. Estaria chegando o momento “Silêncio dos Inocentes”?

Findada a sessão cinema da vida real, voltei pra casa no mesmo bat-táxi , vestida num calor infernal pensando que se os meus próximos exames forem marcados num dia qualquer entre terça e sexta e bem longe da região da feira desprovida de charme, vou ficar bem feliz...

Uns beijos!


17 comentários:

  1. Danada...te peguei...rsrs

    Vim sentir-me mais feliz, e, novamente comprovo teu talento natural com elas - que voltaram reconciliadas a ti! - esse jeito de narrativa que só vc reproduz..."Feito a Angélica, porém com a pinta oculta, fui de táxi de um canto a outro. "...isso é talento, moça...uma delícia te ler! Obrigada pelo resgate e volta ao ninho!

    Bjos, Mi_zinha...

    ResponderExcluir
  2. Olá Srta, que belo texto, fiquei construindo aqui na imaginação a feira, e fiquei triste por ter mudado tanto! abraços

    ResponderExcluir
  3. Ô meu Dêngo!! rss

    Após a sessão "Nosferatu", o mió de tudo foi ler "Mis Lene sendo ( Conduzida) pelo gentil Taxista entre os (Tomates verdes fritos) da decadente feirinha....

    DeusssssssssskiBençõe esse teu DOM muié... rsss
    Beijo
    Tatto/Xipan

    ResponderExcluir
  4. "A cronista e as palavras - uma história de amor, separação, busca e reconciliação."

    Já te disse que te amo?
    Fica dito. Beijo.

    ResponderExcluir
  5. Milene... motorista de táxi educado e paciente com pedestres... será ficção? Ou será Arapiraca? rsrs
    Beijo moça... ainda bem que as palavras lhe são obedientes e retornaram organizadas, lúdicas, bem humoradas e bem postas.

    ResponderExcluir
  6. Olá, Milene!
    Saudades dos seus ótimos textos!
    Bjs!
    Rike.

    ResponderExcluir
  7. Adoro suas histórias tão bem contadas! Me fez chorar sabia? Explico: a parte da feira voei nas lembranças amorosas de D.Lucy e de ir com ela, na hora da xepa, todos os sábados. Os feirantes já conheciam a caçulinha e me enchiam de mimos. Também gostei de saber que os exames preparatórios estão adiantados e logo logo teremos uma Milene novinha em flor!
    Beijuuss, amaaaada minha, n.a.

    ResponderExcluir
  8. Milene, sou tão solidário com você que também entreguei meu "bracinho" para a agulha nesta segunda-feira.
    Coincidência...
    Eu preferia ter ido à feira, com ou sem charme!
    Abraços!

    ResponderExcluir
  9. Milena, você escreve que é uma delicia...
    com esse espírito enorme você transforma em melodia essa sua visita aos médicos...
    beijinh

    ResponderExcluir
  10. delicia de cronicaleve e bem humoradacomo o sorriso da foto

    ResponderExcluir
  11. Vi sua "grande" palavra no Barcellos e vim conferir a colocação, como ele mesmo sugeriu. Encontro uma crônica bem humorada sobre um dia de exames médicos, que é um grande sacrifício (rss). Muito bom ler você!

    Bjs.

    ResponderExcluir
  12. Gosto de feiras e seus barulhos característicos.Pena que tudo muda.E que teus exames pelo menos tenham dado bem...(não aguento mais resultados ruins, estamos passando por isso aqui...)beijos,chica

    ResponderExcluir
  13. Oi Milene..tudo bem?

    Não tem como voce não se reconcilaiar com as palavras, porque eslas são extensão de você.
    Sou fão da maneira eloquente como você escreve. è uma deliciaa te ler.
    O teu sarcasmo ( não sei se esta sera a palavra ) é um sarcasmo doce.
    Espero de coração que estes exames todos seem resultado bom e que te deixe com a tua saude como vc mesma diz "bacaninha"
    O meu beijo e minha admiração sempre...bj

    ResponderExcluir
  14. Quando eu estava no ginásio (nem sei se chama assim ainda), tinha muita amizade com a inspetora e ela me deixava sair na hora do "recreio" para comprar pastel na feira toda quinta-feira, era ali do lado. Tinha tanta coisa legal lá, o cheiro é o que mais sinto falta... hj nem pastel vende mais, e realmente não tem mais graça, lindo texto Mi!
    Beijos e mais beijos!

    ResponderExcluir
  15. Milene,
    Os seus humores são variáveis, e ainda bem, pois é isso que dá condimento à sua escrita, toda ela baseada nos respirares da vida...

    Beijo :)

    ResponderExcluir
  16. rss, gostei da postagem, bem peculiar a sua narrativa,uai...falar em filme, assisti um outro dia muito bom (as horas) um beijo, doce amiga

    ResponderExcluir