domingo, 11 de março de 2012

POIS É!

Telejornais me causam uma certa depressão. Gosto mais das fantasias das novelas, onde os homens maus são punidos no final e o bem (quase) sempre prevalece. Telejornais mostram a face dura e feia do cotidiano, como funciona de fato a sociedade e, confesso, oscilo sempre entre a ojeriza e o medo... Medo de saber pra qual buraco sem fundo caminha a humanidade.

Uma matéria, na noite de ontem, mostrava um rapaz, cadeirante, tentando pegar um busão lá na cidade maravilhosa, São Sebastião do Rio de Janeiro. O resultado foi constrangedor, é claro como a mais pura água cristalina. As tentativas obtiveram resultados incríveis. Numa delas o motorista não tinha a chave pra fazer funcionar o bendito elevador. Em outras os motoristas não conseguiam estacionar direito, de modo que o elevador ficasse sincronizadinho com a calçada. O povo lá de dentro pressionava o moço pra tentar subir mesmo assim, eles estavam com pressa, queriam chegar aos seus destinos. O moço respondia que daquele jeito cairia. Um dos motoristas discutiu com o rapaz, ele estava atrapalhando a vida de todo mundo. O negócio enguiçou, não dava mais pra baixar por completo, nem içava. O povo, desigualmente dividido entre os que apoiavam o rapaz e os que o rechaçavam, foram conduzidos a outro ônibus... Aquele demoraria a ser posto novamente em movimento.

As pessoas desciam inconformadas. Elas estavam com mais pressa, queriam chegar aos seus trabalhos. Aquele moço doente – feito se referiu uma senhora – estava ali embaçando a vida corrida deles. Ele respondia que só queria poder pegar uma condução, afinal era um trabalhador, pagador de impostos como todo mundo ali.

Talvez o esperado fosse que ele não tivesse insistido tanto. E tivesse se constrangido por causar aquele transtorno absurdo, ao invés de estar em casa, confortável no sofá, recebendo pensão do INSS, como tantas vezes já me sugeriram. Do que adianta falar-se tanto em educação inclusiva se a sociedade é, foi e sempre será excludente? As palavras são lindas, as leis muitíssimo bem intencionadas, mas parece virem com dizeres implícitos, insinuando que se o cabra puder ser só um pouco deficiente, vai ser melhor pra todo mundo.

Escrevo esse texto depois de ler notícias sobre moradores de rua queimados e mortos no Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal. Será esse um novo esporte o qual desconheço? Li também de um jovem morto à pedradas no Iraque por ser considerado emo... Escrevo esse texto ouvindo Rolando Boldrin, pessoa igual não há no quesito leituras de textos a nos socarem a boca do estômago.

O Boldrin que ouço foi garimpado por um homem chamado João Pedro Almeida, cuja idade é apenas dezesseis anos, autor de um texto hospedado lá no Relicário, o qual eu adoraria que todos fossem ler. A mãe dele, a nossa amiga Si, duvida agora dessa pouca idade. Eu acho que ele já viveu umas quatro décadas, passeando em vários territórios mundo a fora e moldou por aí essa  personalidade crítica, consciente, de um cidadão de verdade.

Lendo esse menino, eu até tenho menos vergonha de mim.





10 comentários:

  1. Lendo vocês dois, eu sinto é um baita orgulho de tê-los.
    Beijos minha generosa pombinha !

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  2. Gosto dessa sensibilidade, Milene.
    Não há forma de metermos as contradições da vida debaixo do tapete, e a nossa capacidade de indignação é sempre garante de alguma esperança.

    Beijo :)

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  3. No Relicário: "A estética divorciou-se da ética e ficou estática, escravizando-se à estatística."
    Aqui: "Filho de peixe, peixinho é".

    Beijos, mãe orgulhosa! Beijos, muletante guerreira! Abraços emocionados, João Pedro! Tenho orgulho de ser amigo e admirador de gente como vocês.
    NÃO SOMOS ESTATÍSTICAS!

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  4. Olá, Milene!
    Como sempre e mais um pouco, tens toda razão!!!!!
    Bjs!
    Rike.



    P.s.: estou com um novo blog chamado Sozynho, caso queira conhecer ou dar uma força, o endereço é sozynho.blogspot.com. Assim que acertar as coisas por lá, colocarei seu link.

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  5. como est post se adapta à minha amada terra !!
    depois de ler o teu texto sinto profundamente que existem desígnios para os quais nós não fomos fadados a entender, porque não faz sentido tanta crueldade, tanta insensibilidade prevalecerem e continuarem a nos indignar e nada acontecer...
    espero que a justiça seja feita, sei lá onde e quando, mas acredito que ela se fará !!
    beijinho

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  6. Milene, eu infelizmente assisti pelo menos três vezes, nos jornais locais e no nacional, aquelas cenas revoltantes, uma pequena amostra da forma como os deficientes ou mesmo as pessoas comuns são tratadas no nosso país, neste caso, pela máfia dos transportes que faz o que quer com o povo da nossa cidade...
    E o pior é que algumas pessoas ainda dirigiram sua zanga para o alvo errado, como se a causa do problema fosse o rapaz da cadeira de rodas, e não a empresa, que não treinou de forma adequada o funcionário a operar a rampa!
    Precisamos ainda evoluir muito, para não passarmos vergonha durante esses eventos que ocorrerão no Brasil!
    Muito triste a fala do Boldrin, sobre o texto de Ruy Barbosa.
    Surpeendente o texto do João Pedro, pela maturidade que demonstra!
    Abraços, Milene!
    Abraços!

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  7. Por razões que só o tal Blogger conhece, não posso inserir comentários no Relicário...
    E em alguns outros blogs...

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  8. Pois é, amadinha, sinto o mesmo em relação às notícias que mostram a devastação do nosso mundo - e a degradação de pessoas engolidas pela urgência (oi?) de viver, numa ojeriza que nem saberiam explicar, ou quero crer...vou voltar ao Relicário para reler o talentoso e sensível João Pedro.

    Bjos, Mi_nina querida!

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  9. Ehhh amiga, sabe que ando sem estomago para assistir telejornais?!
    É tudo muito mórbido, triste!
    Vou lá dar uma espiada no texto do Relicário!

    Beijos!

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  10. Pois é minha querida estrela solitária.....rsrsrs Estou parando com o blog, vou da um tempo com isso porque estou decepcionado com uma pessoa ai, também já era tempo de eu parar com isso né? Na verdade, o meu blog foi criado por causa de uma paixão que tive com essa pessoa que me decepcionou, coisas do coração né...rsrsr


    Milene, toda sorte de benção pra vc. querida.~

    Vlw!

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