domingo, 13 de maio de 2012

INDULGÊNCIA



Seca o teu pranto, negro. Não leste a carta? És liberto! Ordena os teus pés descalços a trilharem o teu próprio caminho. Cura as tuas costas açoitadas, limpa a vermelhidão sangrada, enxuga o suor da lida judiada e vai!

És liberto, negro! Não leste a carta em dizeres livres? Havia palavras boas e cristãs. Os santos senhores do açoite, simulando indulgência, afrouxaram-te os ferros e deixaram ruir as paredes da senzala.

A carta, negro, atesta em comovente brancura o direito de ser. Já não há tronco para a tua indolência, nem o uivo ritmado do chicote dançando sobre o teu corpo cansado.

Livraste-te do cativeiro, não desejes súplicas de perdão. Agradeças a fingida benevolência de quem o subjugou, sorveu-te a dignidade e por fim abriu-te as portas de tanto mundo.

Agora vai, negro! Alcança a mão do teu filho, outrora vendido por uns poucos contos de réis. Entoa um canto de tardio adeus aos teus pais, sugados pela indelével brancura até o último fôlego. Por que ainda não fostes? És livre! Não leste a carta?

Desconheces as letras, negro liberto?







13 comentários:

  1. Caramba, moça, que a postagem
    faz jus ao nome Relicário
    você, Caetano, Castro Alves
    no início de um treze de maio

    Proposta fica a reflexão
    desta relíquia aqui no blog
    abaixo toda escravidão
    e que áurea lei não se revogue

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  2. Por vezes existem outras "amararas"!
    Excelente.
    Bjo

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  3. Lembra que em anos anteriores eu te pedia pra compartilhar sua mamis? Então repita a generosidade hoje e dê a ela(s)- pra vó também - uns tantos beijuuss especiais hoje e sempre.
    Procê, Mi_nina amaaada, beijuuss libertos...negros, brancos, amarelos...

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  4. Pois é ...as suas asas de gigante não o deixam caminhar.

    "Quando eu lembro do estalar do chicote, meu sangue
    corre gelado, lembro do navio de escravos, quando
    brutalizavam a minha alma"
    Bob Marley

    Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente.
    A arte apenas faz versos, só o coração é poeta...

    Beijos Lele amada.

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  5. Mi, desculpe o apagão de ontem. Ainda não sei o que há com meu PC. Mas foi para mim uma honra ser convocado por você a dar meus pitacos neste teu texto maravilhoso. Obrigado.
    Beijos. Um especial para a melhor D. Lourdes do mundo.

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  6. Sem dúvida !!
    Parece que o síndroma de escravo ainda permanece em muitas cabeças negras;enquanto alguns ultrapassaram por completo, outros há que justificam que seus males são foram causados pela escravatura, colonialismo,exploração, segregação etc.
    "Wake up, stand up !
    Stand up for your rights"
    bela postagem em cima da celebração do Marley
    beijinho

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  7. Fundiu-se a tua prosa contundente
    e o poema obra prima de Castro Alves.
    juntamente com Caetano,Bethânia e a marcha dos tambores.

    (Navio negreiro é um poema que sempre martelou na minha cabeça, desde criança)

    Este teu post ,é um assombro de bonito !!

    Um beijo !

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  8. Belo e irônico o teu texto, um grito de despertar!
    Já passou da hora de deixar de viver buscando compensação para estas coisas irreversíveis e passadas!
    Temos que ver o mundo daqui para frente, em função da realidade, num país onde a situação dos pobres (de qualquer cor) contrasta bastante com a dos privilegiados!
    E a forma mais justa de eliminar as desigualdades sociais é proporcionando educação pública de qualidade!
    Só a educação liberta o homem da pobreza e faz um país desenvolvido!
    Revanchismo social ou racial nunca levará à nada!
    Mandou bem, Milene!
    Bjs!

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  9. Mi, eu nem sei te contar pq, mas....desta vez vc me pegou no contrapé...possivelmente por teu texto FABULOSO ser compatível com um momento meu de fortes emoções...reflexões profundas, que deram conta, aí e aqui, de causar profunda impressão...o cisco já saiu dos olhos, pude voltar...rs

    Simplesmente fantástico, Mi!
    Sem mais uma palavra, fica meu carinho a admiração e um bjo!

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  10. MI-faz-FELIZ-ler-TE

    Carinho zênorme por ti... beijo-te e deixo um grandão pra Dona Lourdes.

    Tatto

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  11. contundencia
    contundencia


    contundencia contundencia


    bravo

    Agora vai, negro! Alcança a mão do teu filho, outrora vendido por uns poucos contos de réis

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  12. Parabens pelo texto que carrega um tom tanto de ironia quanto chama atençao para a realidade! Por mais que anos se passaram desde a Lei, ainda, de varias formas, existe a opressão!

    Beijos

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  13. Olá, Milene!
    Existem outras tantas correntes em nosso pés!
    Bjs!
    Rike.

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