quinta-feira, 3 de maio de 2012

O CONFRONTO



Encontrei fora de mim o meu coração, bem à vista naquela máquina de enxergar por dentro. Parecia dançar uma coreografia qualquer, um xaxado ou rock’n roll, uma valsa ou tango, exultante e irrequieto, personagem principal na caixa preta cujas luzes o faziam colorido.

Era estranha a sensação de observá-lo além do meu corpo, evidenciando sua inquietude e exibindo movimentos como se quisesse me provar que ele é e vai ser pra sempre o condutor das minhas emoções. Quis confrontá-lo. Desejei dizer “chega”! Precisava fazê-lo compreender o meu cansaço, a fadiga chegada sem nenhum chamado, a imensa vontade de “coisa alguma” e era preciso respeitar as minhas vontades... ou a ausência delas. Eu era a sua guardiã e a mim ele devia obediência.

Ensaiei exaustivamente um discurso, certa de convencê-lo com meus infalíveis argumentos de defesa... Corações também podem ser quietos, serenos, obsequiosos. E se fosse preciso sussurrar palavra dura para lhe coibir arroubos, eu o faria.

Eu pensava enquanto ele seguia seus movimentos exibicionistas, instigado pelas luzes na caixa de fazer colorido. Aquilo não haveria de ser boa coisa, sairia dali ainda mais petulante e propenso aos riscos inerentes à condição de estar pulsante. Armaduras de coração era uma boa invencionice e se alguém não tivesse sido acometido por essa ideia genial, quem sabe eu não o fizesse? Ganharia rios de dinheiro garantido a sobriedade alheia diante das habituais incursões deste órgão, nas terras perigosas dos quereres desmedidos.

Discurso pronto, já me preparava para confrontá-lo, quando as luzes multicoloridas se apagaram e tudo ficou outra vez escuro naquela caixa que instantes antes parecia fabricar vida. Junto, apagou-se a minha coragem, ele já havia voltado a se aconchegar no meu peito, pedindo afago, prometendo sossego... Eu sabia que não duraria meio segundo essa súbita vontade de beber serenidade. Já não via sua dança, embora soubesse que seus passos seguiriam pulsantes até o último respirar.

Fim do exame. Em passos lentos, batidas ensurdecedoras, hora de levar meu coração pra casa. 



16 comentários:

  1. Ecocardiograma com doppler color.
    Nem sempre o que sentimos vem do coração.Coitado, ele é apenas um músculo que bombeia sangue para todas as partes do nosso corpo.Despejamos nele a culpa que cabe a outros órgãos
    Beijos,Mi.

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  2. Milene, que coisa! E ainda me cai a dureza de ser seu comentarista inaugural neste post, o que achei assim mais hermético de tudo o que li de seu na Blogosfera. Mas gosto enormemente do passeio que minha mente de leitor faz por leituras a tal ponto instigadoras. Deixa eu primeiro tomar fôlego pra dizer que, na minha opinião, texto como esse não se interpreta nem explica, antes CURTE-SE.

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  3. Quando abri a caixinha de comentar eram zero os existentes, mas minha velocidade de digitação não foi levada em conta pelos fatos, que contrariaram minha 'certa' impressão de ser seu comentarista inaugural de hoje. Corrija ou mantenha, meu comentário é o segundo, por ordem de publicação. Primeiro por ordem de início de produção, possivelmente.

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  4. E que bom ver o coração por dentro...E, melhor: poder levá-lo pra casa,rsrs...beijos,chica

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  5. O coração nos movimenta sentindo, as vezes em sentidos desconhecidos, mas cheio de luzes! abraços

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  6. São nos instantes em que conseguimos dominá lo é que percebemos o quanto ele é frágil e dependente da nossa paciência mesmo , mesmo que ele reaja de forma inesperada, tentando perder o rumo, sempre o colocaremos em seu devido lugar novamente...conhecemos os mistérios pra isto embora nem sempre o compreendemos...

    Beijinhos pra ti doce amiga Milena

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  7. Mas ainda que a vida esteja em compasso de espera, instiga uma tentação quase irresistível de ir ao encontro dela, como se fossemos impelidos ao abismo.

    ...voa coração
    Vara a escuridão
    Vai onde a noite esconde a luz
    Clareia seu caminho
    e acende seu olhar
    Vai onde a aurora mora
    E acorda um lindo dia
    Colhe a mais bela flor..♫

    beijo

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  8. Milene,
    é, as vezes pensamos e sentimos que tudo vai ou está para acontecer...e depois nada acontece e voltamos a realidade crua e nua
    é a condição humana, só e apenas minha amiga

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  9. A máquina de olhar por dentro
    Não enxergou tua alma.
    Mas na dança colorida
    Desse inquieto coração
    Vi-me dançando contigo
    Um excitante baião...

    Ô, Mi... você abusa desse seu imenso talento! Você não existe!

    Beijos!

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  10. Que este coração continue batendo firme, irrigando e oxigenando esta cabecinha que nos dá crônicas como esta!
    Fazer do cotidiano um tema para divagações é uma arte que carregas contigo e que eu gostaria de poder imitar!
    Bjs, Milene!

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  11. Oi Milene,

    isso pareceu uma ultra sonografia do meu coração, tão bobo e irrequieto e tão apaixonado.

    Texto maravilhosamente sensível e lindo.

    Beijos

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  12. Da próxima vez deixa ele solto na murtidão... rss Não leva ele pra casa não!

    Beijo talentosa MilenA....
    Tatto

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  13. Estou tentando definir o que esse texto revolveu em mim. Não, pra quê definir. Deixa-o assim que dá mais gosto. Um abraço.

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  14. Milene..

    Estava lendo os comentários acima
    e vi o que ja sabia: Você é muitop querida.

    Amo o jeito com que escreve.
    Queria eu tyer a capacidade de tecer um comentário digno da tua escrita.
    Por hora digo: Vc escreve lindamente.

    Sou tua fã, menina que escreve bpnito!@!

    bja

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  15. Olá Milene
    Vim retribuir a sua visita lá no blog do Álvaro:)
    Um bom exercício o teu...no confronto contigo sempre descobres uma pessoa melhor. Todos devíamos procurar fazê-lo.
    bj

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