quinta-feira, 21 de junho de 2012

CHÃO DE ESTRELAS


Vestido de chita, laço de fita no cabelo e estava pronta a menina pra soltar chuvinha na noite de São João. Pro menino a mãe arrumava uns remendos na calça, a camisa estampada e um chapéu de palha, desfiado nas beirada.

O terreiro da frente todo enfeitado de bandeirinhas e balões que a meninada fez, recortando revistas velhas, nas páginas mais coloridas. A mãe dizia que não ia gastar dinheiro comprando papel de bandeira, pra no outro dia ficar tudo perdido. Ela sabia que de revista também ficava bonito.

Quando chegava a noite o pai acendia a fogueira, resultado do esforço de uma tarde inteira procurando tocos de madeira, cortando troncos secos... Bom mesmo era ter fogueira bem grande no terreiro da frente. Fazia uma claridade grande que só! Devia ser bonito ver de lá do céu um monte de estrela na terra, estrelas feitas de fogo.

Logo a meninada toda se misturava num terreiro e outro, soltando chuvinhas e se deliciando com o barulho dos traques estourados no chão. Com as bombas não dava pra vacilar, o pai falava pra ter cuidado, um descuido e podia fazer uma arte nas mãos. “A pessoa pode ficar sem um dedo... até sem a mão inteira se uma bomba dessa estrondar perto demais”... Os mijões o pai deixava. Ele gostava de rir quando via um correndo atrás de um menino, que nem uma cobra veloz.

Os adultos se animavam com Luiz Gonzaga puxando a sanfona na radiola, enquanto as espigas de milho eram deitadas no pé da fogueira. Havendo uma brasa acesa, milho verde, quentão e gente com disposição, a madrugada se estendia pra alegria de São João, que festejava aniversário numa singeleza e empolgação jamais percebidos.

A gente feliz que nem se importava com a fumaceira lhe perseguindo a respiração, parecia esmorecer à medida em que o fogo se aquietava. A menina gostava de pensar que de lá de cima São João ia apagando vela por vela – as fogueiras – dizendo a todo mundo a hora de dormir.

Mas São Pedro também gostava de ver do céu as estrelas de fogo, por isso era melhor não descuidar do vestido vermelho e bolinhas brancas, porque daqui a alguns dias céu e terra fariam imensa e feliz claridade outra vez.






12 comentários:

  1. "Bora dançar mais eu?" Eita, tempinho bom esse,n'era?!(esse sotaque me derrete que só)
    Viajei...por essas e outras que eu tenho a certeza que nos conhecemos desde desse tempo aí...
    Que vontade de ficar lendo e relendo esse texto.

    "Nem se despediu de mim
    Nem se despediu de mim
    Já chegou contando as horas
    Bebeu água e foi-se embora
    Nem se despediu de mim
    Te assossega coração
    Esse amor renascerá
    Vai-se um dia mais vem outro
    Aí então, quando ele voltar
    Quebre o pote e a quartinha
    Bote fogo na tamarinha
    Que ele vai se declarar" ( Gonzagão Roots )

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  2. Que coisa linda,Milene!!Deu vontade até de dançar...beijos,chica

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  3. O primeiro amor de minha vida vestia chita vermelha com bolinhas brancas. Foi uma visão efêmera num parquinho infantil, sem nome, sem lenço e sem documento, que durou uns dez segundos do meu oitavo ano de vida.
    Ah, as festas juninas nos terreiros! Imensas batatas-doces assadas nas brasas da fogueira, os balões - ainda inocentes - que levavam ao céu nossos olhares encantados! O pau-de-sebo, as quadrilhas, o quentão... os buscapés!
    Saudades...

    Beijos. Estou preso em sua cadeia. Qual prenda me livrará?

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  4. Que delicia que é ler vc Mi! Minha poetiza preferida!
    Adorei o relato, a quanto tempo não vou em uma festa junina, muuuito tempo!

    Ps: Aqui na minha cidade CHÃO DE ESTRELA é o nome de um motel kkkkkkkkkkkkkkkkk, não tem nada a ver, mas lembrei quando li teu título kkkkk

    Beijoos!

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  5. Olá, Milene!
    Também sou fã das Festas de São João, e de Luiz Gonzaga é claro, que pra mim, é a melhor e mais perfeita trilha sonora dessa festa!
    Bjs!
    Rike.

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  6. Festa junina tem cheiro - milho, pipoca, quentão!
    No arraiá tem bandeirinhas, quadrilha e fogueira...
    Dentro do meu coração,
    saudade, faísca ligeira!

    Adorei sua festa de São João!
    Bjos, Mi, moça querida!

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  7. isso é o Brasil pintado por seu pincel mágico Milena
    ...que bom ter raízes vivas e que são já a vossa cultura popular enraizada.
    nós ainda estamos a resgatar tudo que é nosso, é ainda uma miscelânea de sabores
    beijinho

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  8. Oi Milena,
    Doces lembranças das festas juninas, fogueira, casamento caipira, pipoca...
    Aqui no sul, esta festa popular, lamentavelmente vem perdendo seu espaço.

    Abraços.

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  9. Muita nostalgia e lembranças nesta crônica junina...
    Cada um tem suas recordações destas ocasiões únicas de magia e sonho, onde tudo parece possível...
    Obrigado, Milene!

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  10. Acho que o nordeste e minhas Gerais tem essa tradição desde sempre. Lembrei-me da casa de minha mãe, de todos os vizinhos da rua fazendo cada um o que sabia melhor. E a gente aguardando ansiosa a chegada do grande dia. Adorava dançar quadrilha e de quando em vez ser a noiva rsrs. Os tempos mudaram e por aqui as festas se tornaram GRANDES eventos em clubes fechados ou em fazendas e sítios. De rua já era!
    Beijuuss festivos n.a.

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  11. Crônica linda!!!!!
    Voltei no tempo.
    Adorei!
    Um beijo grande.

    (Voltando aos poucos...obrigado pelo carinho lá no Cores e Nomes)

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  12. Oi Mi...
    Voce me fez viajar no tempo com a sua linda cronica.
    Minha avó e minha mãe são pernambucanas.
    E sempre cantavam as musicas Luiz Gonzaga .. contava sobre estas
    festas juninas nordestinas..
    Acho que minha mãe me ninava com as musicas de Luiz gonzaga...o saudoso..
    Carolina hum..hum..hum...

    Um beijo...

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