sábado, 14 de julho de 2012

DA ALMA E DAS GAVETAS



A alma da gente tem gavetas e nelas guarda de um tudo, a contento ou não. Sisudez não é toda vida opcional, vem de mãos dadas com as chatices cotidianas ou os problemas relutantes em se deixarem prender pra sempre na gaveta das coisinhas ruins. Não adianta mentir o pensamento, colocar a tranca mais segura e esperar que a coisa ruim perca o fôlego e adormeça pra sempre. Tem dias de se escancarar as tristezas e angústias e travar duelo com elas. Tenho pra mim que as ruindades da alma gostam quando a presa fica acuada num canto tremendo de medo, sem conseguir prestar atenção no próprio grito de silêncio e socorro. Aí elas se ouriçam, fazem dança e gargalhada ao redor e não resta outro caminho a não ser o lamento profundo.

E lamento profundo são chatos, inúteis e me causam uma preguiça gigante. Não vou escolher mentir pensamento outra vez e pintar um falso quadro de absurdo destemor. Oxente, há nas minhas gavetas medo, angústia, ansiedade (aquela chatinha) numa quantidade a ser distribuído igualmente à população de uma metrópole insone. A questão é não dar muita moral pra eles... Existem? Azar o deles. Sigo vivendo direitinho a minha normal insanidade, entre conflitos, acertos e desacertos cá com as gavetas da minha alma.


E a coisa fica ainda mais desassossegada quando a gaveta desarrumada é alheia. Vem o querer arrumar tudo, esvaziar as ruindades abrigadas nela, borrifar um purificador no cantos vezes quatro e encher tudo de tanta alegria a não se poder contar. O coração faz nó de choro e uma lágrima dolorida desenha a dor do outro. Nessa hora era de boa serventia ser pessoa de superpoderes poder blindar a quem ama contra os perigos gritantes e invisíveis, perigos habitantes lá de dentro.

Na iminente sensação de impotência, corro até a gaveta do meu amor, transbordante de tão cheia, e lá me visto de amorosos superpoderes, capazes de guardar num imenso e protetor abraço a quem neste instante arrasta pela mão angústias e tristezas paridas não se sabe de onde.

Vou ali fabricar alegrias até abarrotarem a minha gaveta. Licença.


28 comentários:

  1. você é a alegria em pessoa, e só não é mais porque vives com amor e solidariedade as dores do mundo...
    querida, vais passar a vida de varinha mágica inventando alegrias para todos nós...
    beijo

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  2. Fabrique mesmo, Milene. Precisamos todos de alegrias em quantidades industriais.
    Nunca imaginei antes uma alma com gavetas. E até que foi fácil, apesar da novidade. Gostei da ideia. Isto é organização pra ninguém botar defeito. E é alegre, em si.
    O vale de lágrimas continuará existindo e sendo o que é. Mas tudo tem seu tempo e as alegrias também coexistem continuarão coexistindo e sendo o que são.
    Muito bem.

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  3. Oi Milene...

    Ninguem esta imune em ter suas gavetas cheias vez ou outra..
    Para arruma-las precisamos desarruma-las.

    Um beijo com carinho de quem te admira de montão!!


    bjs

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  4. Licença toda sua, Milene. Mas não precisa, a vontade e a alegria de viver fazem parte do ar que respira. A única coisa a fazer é torná-lo contagioso e, quem sabe, talvez me contagie.

    Beijo :)

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  5. Esse seu belo texto, Milene, merece coisa melhor do que versinhos satíricos... mas estou vindo do buteco do Xipan, e eles me saíram no embalo:

    Guardo minha meia suja
    Em gaveta separada
    Onde jogo, de lambuja,
    A samba-canção usada;

    Também nesta dita cuja
    Vai a camisa suada
    Com estampa de coruja
    E a camiseta manchada.

    E enquanto não chega o dia
    De ter a alma lavada
    E secada no varal

    Perfumo com poesia
    Minha gaveta fechada
    Pra ela não cheirar mal...

    Mas, pra adoçar essa caninha, aí vão dois dedos de mel:

    Reserva em tua gaveta
    (Aquela do coração)
    Um cantinho perfumado
    Pra guardar minha paixão.

    Beijo.

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  6. Hey, baby ! Tem horas que desejamos ter mãos como as do poema de e.e.cummings
    (não sei dizer o que há em ti que fecha
    e abre;só uma parte de mim compreende que a
    voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
    ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas...

    Que lindeza! E imaginou eu, que esse ternura toda tem direção certa.
    Beijos!

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  7. Quando nossas guardas estão baixas, as tristezas aproveitam para entrar...
    De vez em quando, é bom arrumar a gaveta e jogar todas as tristezas, mágoas e angústias fora!
    E fabricar alegrias, coisa que sabes fazer muito bem!
    Bjs, Milene!

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  8. Eu olho lá pro topo e amorosamente
    concordo com o Tonny


    Tenho me encontrado com livros de Guimarães Rosa,
    ele tem me preenchido do que me falta...


    "Cada um rema sozinho
    uma canoa que navega um rio diferente,
    mesmo parecendo que esta pertinho"

    Beijo Flor Lele.

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  9. Milene, é isso aí. Todos nós temos gavetas (adorei essa qualificação) e as minhas andam cheias de ansiedade também, além de outra leva de sentimentos. E nada pior quando terceiros fazem questão de bagunçá-las ainda mais. Beijos e bom domingo.

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  10. Ei Mi,

    Que dlicia isto, de ter que entrar corpo adentro e tentar arrumar uma bagunça que não se explica não é mesmo? mas é isto, o bom de tudo que temos gavetas e sentimentos aos quais não estão inertes, por isto causam bagunça....Agora cá pra nós, você não descreveu o endereço da fábrica, eu também pretendo ir lá fabricar alegrias e encher minhas gavetas...rsrs

    Beijos linda flor e bom dia

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  11. "Vou ali fabricar alegrias até abarrotarem a minha gaveta". Eu poderia apenas repetir isso, cara Milene, que já me seria bastante. Pois você me estimula a encher as gavetas. Ler suas coisas é uma alegria acrescentada às minhas.

    Sim, minha Paulo Afonso, ainda que seja baiana, recebeu influência de vários estados, de Alagoas também. E acabo de chegar de Maceió, com minha mãe adoentada, mas não se preocupe, ela inspira cuidados, mas está um pouco melhor.

    Um abraço fraterno.

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  12. Essa faxina não é fácil... e não dá pra contratar nenhuma espécie de empreguete que a faça por nós. Então, sei lá como e muito menos quando, estamos limpando tudo. E dá gosto ver, no só depois, de quanto entulho nos livramos. Fica brilhando, reluzindo mesmo, a alegria escancarada e o cheiro de amor pelas gavetas da alma.
    Beijuuss cheirosos n.a.

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  13. Minhas gavetas estão ocupadas com estas mesmas coisinhas e algumas mais. Já comecei a faxinar, mas vai ser um trabalho demorado ;)
    Bom domingo e uma ótima semana!

    Bejus

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  14. Todos temos cômodos (gavetas) nos diversos setores da existência...e em cada um deles habitam partes de nós mesmos - as que gostamos, aquelas que desprezamos, as que negamos, as que sequer conhecemos...esse conjunto nos faz únicos e completos. Somos sombra e luz...o bom e o ruim...a dualidade mais perfeita que existe.

    Vc sabe como blindar teus bem-quereres...ama-os de todo o coração!
    Bjos, Mi_nha querida!

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  15. A MINHA GAVETA HOJE TEM UM POUCO DE PREOCUPAÇÃO
    E TRISTEZA...MAS AMANHA SERà OUTRO DIA !!


    BACI

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  16. Oi, Milene, Acho que tem toda a razão, o medo esquecido numa gaveta para não ser enfrentado fica todo cheio de si!
    Na realidade, acho que devem haver gavetas na mesma proporção, boas e ruins, depende de quais são aquelas que devemos abrir, encher, trancar ou limpar.
    O antídoto você já deu: transbordar amor e alegrias para ofuscar as gavetas do mal. Um abraço!

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  17. Que delicia isso e estou aqui na praia, carregando minhas gavetas de alegria e energia...beijos praianos,chica

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  18. Milene que texto lindo!
    Vou tirar a poeira das minhas gavetas e preenchê-las de amor!
    Adorei o texto!

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  19. É fato Milene, se dermos chance ao azar, ele se instala com tudo e em qualquer gaveta de nossas vidas. Somos livres na vida mas, precisamos segurar a liberdade em rédeas curtas, afim de não entulharmos nossas gavetas com o desnecessário.

    Abraços.

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  20. Olá Milene,maravilha de texto.
    Estou precisando fazer uma faxina na minhas gavetinhas e encher com mais alegria.

    Obrigada pela leitura!
    Grande abraço!
    Ótima semana!

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  21. Você me fez lembrar de uma amiga. Quando a conhecia ela usava muito essa frase de limpas suas gavetas. Vc me deu uma boa idéia para post. Obrigada. Kkkkk Bjs

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  22. Olá querida Mi,

    Foste... e eu, sem pedir licença cusquei, desculpa... Pois isto de fabricar alegrias não é para qualquer um e eu queria aprender.
    Claro que com o que vi, nada aprendi... é por demais complicado, mas como prometes fabricar até transbordar, vou ver se me calha alguma coisita para eu aproveitar.

    Prazer de leitura, amiga.

    Beijo e kandandos

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  23. Milene, to pasma! Vc falou sobre algo que muitas vezes eu penso. Dentro da gente existem compartimentos, lugares muito seguros, gavetas secretas, para cada situação há um espaço reservado. Porem, o mais importante, é fazer uma faxina ocasional, limpar o que não deve mais ficar guardado. Reavaliar conceitos e ficar com o que fizer a diferença.

    Beijos

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  24. Milene, passando prá desejar uma ótima quinta! bjs

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  25. De vez em quando é bom arrumar o arquivo... ou as gavetas:)!
    Bjo

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  26. Oi Milene

    Quem tem uma gaveta abarrotada de amor é capaz de fabricar qualquer coisa, e o bom é que quanto mais tiramos amor da gaveta mais ela se enche dele.

    Feliz dia do amigo, minha amiga quiriiiiiiida!

    Beijos

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  27. No mata saudades de hoje dos meus amigos de blog...tenho aprendido coisas, vivido sonhos, e agora deparo-me com algo, que já queria fazer a tempo. Arrumar as minhas gavetas da alma. Sabe quando a gente corre, tira tudo do lugar e não volta de novo, por que acha que a vida está mais rápida que a gente? Uma maratona sem fim...e esquecemos de nos organizar. Mas para que tudo isso? As outras coisas que esperem, eu vou é com você de mãos dadas "Vou ali fabricar alegrias até abarrotarem a minha gaveta. Licença.". Me leva?
    Amei passar por aqui minha querida.
    Saudades muitas.
    Abraços fraternos.

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  28. E lamento profundo são chatos, inúteis e me causam uma preguiça gigante. Não vou escolher mentir pensamento outra vez e pintar um falso quadro de absurdo destemor

    me d aum pouco da sua inspiração nesse texto

    melhor texto que li aqui
    taçvez por parecer mais comigo, sobre a gaveta alheia..eu tentei , eu ja fui de querer ajudar mais, menos ásperop, menos chato, estou mais egoísta, mas a frase da alice ruiz só preparou para um texto delicioso

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