domingo, 1 de julho de 2012

MEIO POR INTEIRO



Por mim os festejos juninos durariam o ano inteiro, salvo exceção pela imensurável chatice dos fogos de artifício. Foi numa véspera de Santo Antônio que eu dei defeito. O bebê fofo e febril assustou-se com o barulho ensurdecedor dos mesmos e em minutos não conseguia firmar a perninha enquanto se agarrava nas grades do berço, como fazia sempre. Zé Gotinha não tinha sido parido nessa época. Talvez eu compreenda agora o porquê dessa relação desencontrada com o santo casadoiro. Perseguição, é Tonho?

Quando cheguei à casa do meu irmão na noite de sexta-feira, para vigiarmos a fogueira de São Pedro, essa aí no retrato acima, fixei o fogo alto minutos a fio. Me fascina a sua dança altiva, como se estivesse prestes a consumir tudo ao seu redor, depois de comer, cheio de gula, as madeiras que lhe dão vida. Giovanna, um dos meus bebês que é dos outros, disse: “Memem, você tem que decidir se ama o mar ou o fogo”... De imediato me encontrei com o seu olhar e respondi, como se novidade fosse: “Mas eu odeio decidir”...

Talvez me acusem de librianices. Talvez nem creiam que elas existam. Pra quê saber ao certo? Por que eu preciso escolher entre o doce de leite e o pudim pra serem minha sobremesa favorita? E eu também amo sorvete de coco. Talvez eu sofra de total falta de personalidade. Talvez não. Tenho dias de azul, de céu ensolarado, mar imenso e meu, e outros dominados pelo rubro de unhas, lábios e sangue... Acumulo boa quantidade de amor pelo azul alegria e o vermelho paixão e por vezes me deixo enamorar pelo preto do olhar de alguém. Cultivo amores eternos, que se acabam logo ali...

Quem sabe isso explique porque as reticências se firmam nas minhas páginas além da minha vontade. Não gosto da exatidão, daquilo que se determina como o certo e ponto final. Compraram para si o ponto final, eu não o quero, prefiro viver a vida a perguntar, a exclamar os meus sentires em ruídos silenciosos e, se não me dizem respostas, deixo de guarda as reticências, pro caso de alguma palavra mudar de ideia e se refazer...

Inverno ou verão, sol ou lua, quente ou frio, amadeirado ou floral, Chico ou Caetano, rock ou samba-canção, pra lá ou pra cá... Preciso mesmo escolher? Eu quero tudo, e se for possível, me deem um pouco mais desse tudo. Num instante quero mastigar, voraz, cada migalha do pão da vida. No outro, me acomete um súbito fastio e preguiça d’alma e meu desejo é de que o tempo não me aborreça e passe, sem fazer barulho algum.

Eu amo o mar, o fogo. O azul e o vermelho. Eu amo meio por inteiro, totalmente pela metade. Eu amo...


13 comentários:

  1. Eu bem poderia ter escrito algumas partes desta inquieta crônica, se soubesse faze-lo como tu...me faço perguntas semelhantes, me atiro em passos errantes, tenho desejos ardentes, mornos e apaixonantes...e quero da vida devorar as migalhas que, muitas vezes se acumulam pela preguiça d'alma...

    Que vc decida por nunca, jamais em tempo algum, deixar de te inquietar - amo por inteiro essa tua paixão de se questionar!

    Um beijo, Mi...encantada como sempre!

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  2. Lindo!
    Adorei "ler-me" no teu texto. Identificação é pouco!!!

    Bejus

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  3. Linda demais e pra que tantas escolhas que nos obram? Não precisa!!Podemos gostar de tudo e viver bem!! beijos,tudo de bom,chica

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  4. eita lelê....há tempos que não vinha por aqui, por pura falta de tempo...mas novamente me arrependo de tal...coisa linda de se ver....


    amo-te

    beijocas

    Loisane

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  5. Oi, Milene, temos muito em comum: adoro reticências, dão a ideia de continuidade à vida...e também quero tudo, sem preconceitos. Quem disse que temos que escolher? Adorei seu texto, um abraço!

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  6. teus textos são os acordes
    mais fortes, mais ritmados, mais
    perfeitos que meus olhos gostam
    de ler....


    Beijo

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  7. textos fortes
    muito embora eu nao goste de sao joao e derivados

    Quem sabe isso explique porque as reticências se firmam nas minhas páginas além da minha vontade. Não gosto da exatidão,


    coisa de escorpiano isso sim

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  8. Coisas que são como são,
    Imutáveis, rijas, mortas.
    Coisas que são como estão,
    Ora retas, depois tortas,
    São vivas e palpitantes,
    São mutáveis, inquietantes,
    São você... ora, se são!


    Beijos, Milene. Sem reticências. E sem ponto final...

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  9. Nem sempre gosto da exatidão, porque é como se colocasse um fim a um começo.
    Um pouco de tudo, pode ser metade, mas para quem experimenta com prazer é um inteiro.

    Milene, BEIJOS e bom domingo! e.... até breve!

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  10. A melhor escolha (para quem não gosta de ter de...) é aquela que ao deixar fluir, passou a ser a eleita. E se regadinha de amor e bem-querer será sempre a mais correta. Adoro o fogo em sua dança que se movimenta num cenário sempre diferente, me encanta com magia e me faz divagar acaloradamente, é aí que água por vezes tem de entrar para cumprir o seu papel. Não consigo escolher, mesmo! Ame(n)mo-nos tanto quanto possamos alcançar.

    Beijo e kandandos de sempre com carinho e os votos de um domingo muito feliz.

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  11. Oi Mi...

    Pura verdade....

    Por que temos que ter uma lado sempre?
    Por que não nos damos o direito pra ficar no meio termo..
    Pra que tanta exatidão??

    Vc escreve bem demais....

    E por concidencia hj deixei uma pergunta na la minha postagem..
    Se eu tivesse lido a tua cronica antesm talvez não a teria feito..

    Mas td bem....

    Uma linda semana a vc....um beijo...se cuida!!

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  12. Adorei o texto, Milene. Embora, confesso, seja chegado a uma exatidão. Mas também tenho meus momentos de pluralidade. Beijão!

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  13. Milene,
    Não somos detentores de informação fiável em relação a esse assunto dos corações alvoraçados e como tal fazemos poemas, escrevemos a alma em prantos, rejubilamos com a felicidade miragem,etc...
    como tu dizes tanto dá estar numa de sol e praia como ficar no escuro deixando a vida rolar sem emoção...é tudo vida vivida!!
    beijo

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