terça-feira, 14 de agosto de 2012

PARA ALÉM DAS RETICÊNCIAS...





À beira da estrada o homem arruma a bagagem na velha brasília branca como quem tem pressa. A mulher o observa em silêncio, num leve sorriso nos lábios. “Por que ele escolheu essa joça parecida com um carro para ser companhia de tanto tempo? Se ao menos fosse amarela feito aquela da música”. Quando o indagava sobre a velharia sobre rodas, ele respondia, metafórico: “ menina, às vezes as coisas escolhem a gente e não há o que fazer senão aceitar”. Em instantes partiria para onde nem supunha, ao Sol confiava a missão de levá-lo, apenas levá-lo... Era um homem de alma espaçosa demais para se fixar numa só parada. Mochilas ajeitadas no bagageiro, ele se aproxima para os cumprimentos de breve adeus. Um abraço ligeiro, beijos mútuos nas faces e tudo pronto, embora gostassem mesmo era do tempo parado num abraço, da quentura da pele colada, cúmplices olhares a dizerem tanto. Mas, se faz urgente a despedida e a efemeridade toma a vez dos quereres intensos. Tem vezes de escutar o bom senso e este o aconselhava a aproveitar a complacência do Sol em manter-se acordado. Tem de ir o homem, a conduzir por aí o seu espírito viajador, pintando num beijo as faces do mundo... Ela? Diz em súplica silenciosa que o Sol não se demore tanto para apontar outra vez os caminhos do lado de cá, onde moram, ciganas, as reticências...

14 comentários:

  1. Ola Queria Milene!!
    Amei o que li...
    Umaginei a cena.. e confesso deu uma dorzinha no coraçao... despedidas doem..as vezes um pouquinho
    as vezes um montao..
    Tomara que o sol traga de volta o moço...

    Bjinho... ( adoro te ler )

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  2. Tem acento agudo, circunflexo...dão o "tom" que a conversa exige....vc acentua mais que as palavras, teu pensar, assinala a direção e, não contente, emociona, remexe e inquieta o meu pensar...passeio pelas linhas que vc traça e me encanto com cada expressão que me toca.

    Não é efêmero o adeus que foi dado, com ele, permanece grande parte daquilo que não se vê mais...
    O sentir é para muito além das reticências...
    Bjos, moça querida!

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  3. Fui coadjuvante nessa cena. Vi tudo de pertinho e pude sentir a tristeza dela.
    Muito lindo!

    Bejus

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  4. E esse viajante faz da solidão sua maior companheira, Milene. O sol e a lua parceiros fiéis! Adorei o texto e imaginei o sofrimento dela. Beijão!

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  5. Despedidas sem ponto final, já prenhes do retornar nas reticências do adeus. Há coisas que escolhem a gente, e esse texto - esse filme - escolheu você.

    Beijo.

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  6. Aiai... despedidas são tão doloridas, mas despedidas das quais sabemos que vai ter volta é um conforto. Saber que o outro vai voltar já é um conforto, uma espera!

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  7. Pareceu-me estar lá!!Lindo!!Tocante!beijos,chica

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  8. Nao dá para aprisionar uma alma livre né?!
    Que lindo texto.
    Beijos!

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  9. Olá Miamada amiga

    Não foi despedida, foi um inté já.
    Há quem passe e deixe um pouco de si, levando um pouco de outrem, inclusive reticências.
    Um dia volta, e devolve o que levou, carregado de novas experiências e recebe do mesmo modo, as mais valias do que deixou.

    Beijos e kandandos a atravessar tanto mar.

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  10. Porque amar é isto...a gente simplesmente ama...o tempo não apaga, a distância não deixa esquecer e a proximidade só faz o amor aumentar!


    Beijo

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  11. Passando prá desejar uma ótima quinta! bjs

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  12. A despedida é muito tempo!- Dizer que é um texto excelente, já sabes:)!
    Bjo

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  13. Oi Mi

    O amor tolera as esperas.

    Como diz a Yasmine "enquanto ele voa, ela apronta o ninho"

    Beijos

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  14. Isso me fez lembrar as peripécias de minha irma quando tinha uma Brasilia...

    Beijos

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