quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O QUE ERA, NÃO É MAIS



Nos fins de tarde era prazeroso romper o imenso campo amarelo de girassóis enquanto permitia às tolas divagações que lhe acompanhassem, canteiro a canteiro. Caminhando em meio aos seus próprios sussurros internos, lembrou-se das palavras do amigo de quando conversaram mais cedo: “Ah, nada permanece, nada! Vamos sonhando e vivendo os momentos prazerosos e é só isso que sobra preso nas recordações”. Lamentara que assim fosse. Desejara ouvir dele mentiras sinceras sobre a perpetuação dos laços e pactos para toda a infinitude, mas o amigo ao invés de mentir-lhe elos indissolúveis, fez reafirmações sobre o tudo que se tem e num átimo já se faz nada. Por vezes ela apresentava no olhar rastros de incompreensão sobre o porquê das pessoas quererem ir-se embora do seu mundo, aquele mesmo mundo onde as mãos se alegram por poderem seguir entrelaçadas e cúmplices.  Ela não compreendia a ausência desejada, a saudade que se faz má porque o outro a deixou seguir sozinha pelo imenso campo de girassóis. Desbotaram-se as juras de suportar pelo outro quando a lucidez insinuar partidas mais demoradas. O amigo tinha razão, cada um tem direito a sua escolha, inclusive quando impõe ausência, mas entre saber e compreender havia uma distância gigantesca. Além do mais, o Sol já anunciava bocejos, era hora de fazer o caminho de volta e não havia mão alguma para, entrelaçada, lhe socorrer dos medos.


14 comentários:

  1. A solidão é sempre fundamento
    da liberdade. Mas também do espaço
    por onde se desenvolve o alargar do tempo
    à volta da atenção estrita do acto.
    Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
    quando da imóvel solenidade clama
    o mudo susto do grito, ainda suspenso
    do nome que vai ser sua prisão pensada.
    A menos que esse nome seja estremecimento
    — fruto de solidão compenetrada
    que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
    de cada corpo entrando por sua luz sagrada.

    Fernando Echevarría, in "Sobre os Mortos"


    Beijo

    ResponderExcluir
  2. Saudade, tristeza, linda com essa mistura! beijos,chica

    ResponderExcluir
  3. sabes Milene, que se pensarmos como esse teu amigo até que vamos usufruir mais profundamente do que é o presente, viver cada momento como se fosse e é, único...
    ... estranha forma de desapego, essa a de manter para si e para sempre o perfume do belamente vivido em detrimento do apego ao que é inquestionavelmente efémero...

    ResponderExcluir
  4. Milene, deixei no blog um comentário em resposta ao teu como faço sempre em situações específicas.
    teu texto é belo e melancólico. gostei da frase entre o saber e o compreender havia uma distância gigantesca...
    Beijos

    ResponderExcluir
  5. Oie, a tua saudade se faz minha também!
    Passei pra te ver e deixar meu afeto (aquele de ontem...) lembras?

    beijos

    ResponderExcluir
  6. Gostei dos teus textos, belos, profundos. Parabéns.

    ResponderExcluir
  7. Que triste caminhar entre os girassóis! abraços

    ResponderExcluir
  8. Bom dia Milene!
    Muito sábio esse amigo de conversa, acho que era filosofo. "Ah, nada permanece, nada!" E do nada podemos esperar nada.
    Gostei do título: " O que era, não é mais". E o que há de vir é uma incógnita, só nos resta sonhar e viver nossos sonhos, no momento presente.
    Mesmo só, é possível contemplar as maravilhas dos girassóis.

    Abração e bom feriado!

    ResponderExcluir
  9. Ando, nesses tempos, de mãos não dadas ao efêmero. Mesmo sabendo e sentindo que a vida devora o tempo. Vivamos o PRESENTE da vida!
    Beijuuss, Mi_nina amaaada

    ResponderExcluir
  10. Os girassóis
    Querem alcançar o Sol
    Mas estão presos ao solo por suas raízes.
    Sol e solo são seu alimento.
    Ouve tu as suas preces
    E leva-as ao Sol,
    Se não tens raízes
    Ou amores que te prendam.

    Beijos, Mi.

    ResponderExcluir
  11. Saber, compreender, caminhar , voltar e despertar para o que realmente vale a pena ..O sol ja esta brilhando la fora...aquecendo a alma fria...

    Beijos Mi

    ResponderExcluir
  12. Eu acredito que a vida gira em torno de um ciclo, e tudo começa e termina novamente. A solidão não para eternidade mas sim para aprendizagem, necessária para construção de fundamentos sólidos.

    Curti muito seu texto, bastante reflexivo.

    Abraços

    ResponderExcluir
  13. Entre o saber e o compreender há um distância gigantesca mesmo, Milene! Mas que belo texto! A solidão é muito complexa e misteriosa, às vezes lembra um campo de girassóis... Beijão! =)

    ResponderExcluir
  14. Acho que aprender que nada é constante e eventualmente vão mudar inxependendo de nossa vontade é uma forma de evolução!
    Quem entende isso sofre menos.
    Não achei melancólico, achei refletivo!
    Bjs

    ResponderExcluir