sábado, 8 de setembro de 2012

O CÉU DE MARIPOSAS



Foi bom ter rasgado os escritos de ontem. Estava feio, chorado, raivoso... Vociferei contra a noite que caminhava lenta, sem goles de vinho ou cheiro de flores. Bradei contra o seu silêncio agoniante, de gritos ensurdecedores que doíam. Eram gritos me dizendo verdades as quais eu não queria ouvir e melancolicamente tentava gritar para fora tão alto a ponto de sufocar os estrondos de dentro.

Então ela pousou no peito sem que eu percebesse. Aquietou-se ali como quem só queria um abrigo para descansar os seus últimos instantes. Uma mariposinha de nada, feia, miúda... Tão frágil que me deu vontade de empurrar baú adentro o meu alvoroço a fim de dedicar a ela alguns minutos do meu desimportante tempo. Eu tentava, em vão, estimulá-la a se mexer, mas a bichinha balançava as asinhas sem tanta vontade. Entendi que preferia que eu a deixasse em paz, quase inerte na sua própria solidão.

Os minutos se arrastavam preguiçosos e chatos e nós duas contemplando os ruídos cansativos da TV. Outra vez eu tentava despertá-la oferecendo meu dedo como acomodação e em resposta obtive um bater de asas desanimado. Por instantes vesti-me da arrogância típica dos humanos e senti pena dela. Quão tola eu fui arrotando superioridade só porque aquele serzinho descansando no meu dedo tinha aparência tão frágil. Imediatamente mudei meu tolo pensamento e consegui até sentir inveja da vida que a mariposa havia tido. Decerto bateu asas em jardins imensos. Decerto viveu entre a vida das flores. Foi andarilha dos céus em busca das luzes a iluminarem a escuridão indesejada. Desenhei na minha imaginação a vida dessa mariposa, que embora apresentasse no corpo nuance pálida, mais parecido com tela inacabada, abandonada pelo artista, preferi me valer da sua curta existência poética e assim acreditar que ela havia cumprido o seu ciclo e agora queria apenas adormecer no céu das mariposas.

Pela manhã eu já não mais a encontrei onde havia deixado, sobre o teclado do meu computador. Mais bonito é pensar que ela escolheu outro lugar para sossegar a sua fragilidade e enfim deixar-se ir.

Eu bebo um tinto barato em agradecimento e homenagem


Cá pra nós:
 Eu nem sei se isso é uma mariposa, 
borboleta ou coisa que
apenas voe porque lhe deram asas. 
Aqui, pra mim, é mariposa e pronto. 
Elas tem vida mais simples
e não menos poética do que as borboletas, 
tão cultuadas, e tal... Então, tá!


16 comentários:

  1. Uáu,poetisa de eleição...
    simplesmente posso dizer que enquanto lia estive com a mariposa no meu dedinho mindinho e ela não quis ficar...
    beijinho Milene

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  2. A Simone tem razão. As lagartas listradas devem aprender as realidades da vida com as mariposas - verdes e de outras cores.
    E bruxos e poetas devem aprender com as lagartas.
    Beijo, lagartinha.

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  3. MilenA....

    "Quando todos tentam amenizar teus devaneios com a sombra de seus ínfimos guarda-sois, você simplesmente as acomoda gentilmente na sombra fresca do imenso telhado de sua poesia meiga, inocente e confortante"

    Avassalador... rss
    Beijo
    Deusssssssssssssskiajude
    Tatto

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  4. prefiro as borboletas
    e prefiro pessoas que transformam cotidiano e fatos simples em bela prosa ou reflexão, em inquietudes que no caso já são cronicas

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  5. Cada parágrafo deixava a narrativa mais visível e real...um primor de escrita, revelando com sutileza os vários pedaços lindos da alma que te habita, Mi_nha querida...talvez esteja eu emotiva demais, pq tocas-te em emoções profundas - entretanto, mais parece que o mergulho que deste, foi o que aqui partilhaste...

    Um beijo com a admiração de sempre, moça querida!

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  6. Mariposa. É uma mariposa e pronto!
    Você tem o livro de todas as emoções. Me impressiono sempre contigo.
    Preciso, urgente, ir a qualquer lugar com você, tomar um vinho safra ruim e conversar sobre as novelas das nossas vidas.
    Beijos!

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  7. Milene, achei seu texto de uma beleza inigualável. Perceber os gritos de minha alma foi demais para mim, por isso fechei o Putz temporariamente, troquei-o por um blog de fotografias tiradas diariamente que estão embelezando minha alma tal qual a pequena borboleta fez com seu dia. Mas acho, Milene, que enquanto você tiver a capacidade de parar e observar uma pequena borboleta (ou mariposa, o encanto é o mesmo), é sinal de que os gritos da alma não se sobrepões à beleza dela.
    Um abraço, ótima semana!

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  8. sussurro sem som
    onde a gente se lembra
    do que nunca soube
    Guimarães Rosa

    (gosto de aprender novas palavras com voce)

    beijo

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  9. Abro mão do mérito das considerações entomológicas!
    Mas, que lindo texto, divagando sobre a vida e sua duração e curso, com tanta diferença entre os conceitos do objeto e do observador...
    Mais uma pequena jóia, nascida de minutos de desligamento numa noite silenciosa...
    Beijo, Milene!

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  10. Olá Milene,
    Que mais mariposas apareçam em sua vida, assim teremos textos bons de ler.

    Abraços.

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  11. Mariposa, lagarta ou borboleta... o que importa? Senti-me como ela...buscando aconchego e outras paragens. Essa bem pode ser uma crônica sobre o viver e o morrer...ou não? De qq maneira gostaria imenso de dividir o tal vinho com vc e a Si...um dia...dia desses qualquer.
    Beijuuss minha Mi_nina

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  12. Milene, não importa o que era. Adorei o texto e imagino você contemplando a mariposa e depois tendo a ideia de postar essa experiência no blog. Ê inspiração boa! Beijos e ótima semana!

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  13. Você escreve com sensibilidade.
    Seu texto flui, flui sensações!
    bjss

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  14. É mariposa porque pousa com as asas abertas. (Dica de bióloga).
    Mas olha ela passou por poucas e boas na vida pra atingir essa leveza e tb nao nasceu voando! Dá pra refletir né?!!!

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  15. Que lindo texto!
    Nos mostra um outro lado. Vale muito para os seres humanos: não julgar pelas aparências. Não se sabe o que este ser já passou nessa vida, quanta bagagem ele carrega.
    Obrigada pela reflexão ;)

    Bejus

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