quinta-feira, 20 de setembro de 2012

OU DEITA, OU SENTA



Vamos lá. Hoje proponho um papo sobre as mágoas, pequenos redemoinhos que a vida nos obriga a encarar e nem adianta tentar fugir. Se correr a mágoa pega, se ficar a mágoa come, estraçalha. Correr ou ficar?

Eu me lembro neste instante de um grande filósofo o qual conheci e acompanhei seus passos de loucura até se perder no mundo, sem que ninguém mais ouvisse falar coisa alguma sobre ele. Petrúcio, sujeito da rua, sem dono, chorava pela mãe morta, cantava, se dizia brabo feito Bruce Lee e por um tempo teve um cachorro. Gostava de exibir o seu poder sobre o cão, ordenando “senta” para o Tyson (não lembro o nome do cachorro, mas Tyson é um bom nome, então batizou-se), que nem mexia pestana. Então ele mudava a ordem para o “deita”, enquanto o animal se punha a caminhar. Temendo perder sua autoridade, mudou o grito para um “ou senta, ou deita”, porque aí não havia jeito do cachorro desobedecê-lo. Manteve a imaginária autoridade enquanto o cão, refastelado à sombra de alguma árvore, pouco se importava com as vozes do seu dono.

Mas o que tem a ver a história do Petrúcio com o início da prosa? Quase nada a não ser a questão das alternativas que sempre se faz presente e é a nossa escolha o fator determinante do que venha a acontecer. Papo mais augustocuryano esse, eu bem sei. Quisera eu ter todas as respostas como ele, o escritor da autoajudice, cujos livros eu devo ter lido uma meia página. Sejamos objetivos: Se a pessoa te magoou é porque você esperou dela alguma coisa que não harmonizou com o que ela queria, certo? Criolo, o cara, diz assim numa canção: “O que você quer, nem sempre condiz com o que o outro sente” e infelizmente, pessoa autoajudada, é assim que funciona. Não importa que tipo de relação seja, se real, virtual, visceral (falta-me rima), num simples click o outro pode te guardar num arquivo até segunda ordem de necessidade. Convenhamos, gostar não é um acordo, um contrato onde ambas as partes prometem depositar o máximo de bem querência a jamais desentrelaçar o encontro de almas. Encontros de alma? Gostar é pura casualidade, empatia, disposição alegre de estar junto e compartilhar de um tudo, desde uma música até o maior assombro no labirinto mais labiríntico. E é verdade aceitável que essa vontade sem garantia de infinitude um dia fica fraquinha da silva, de qualquer um dos lados.

É aí que entra a máxima petruciana: ou senta, ou deita. Deitar e lamuriar, maldizer o outro que te feriu de morte, maldizer a vida por tanta infelicidade, postar mensagens tristonhas para que todos se apiedem. Sentar e pensar que nem dói tanto e talvez o outro nem tenha feito de propósito, ele apenas quis ir embora de mim e esse é o seu direito; nas minhas gavetas interiores o espaço pra guardar mágoa é miudinho e eu o quero vazio. Um dia esse tanto de sentimento confuso será um monte de nada. A alquimia que transforma a mágoa em nada é a melhor que há.

Por enquanto eu permaneço deitada, porque me corrói uma preguiça monstruosa. Pra que a pressa se o Sol ainda nem almoçou? Esperai, esperançai... Sem mágoa, nem nada.


19 comentários:

  1. Oiê!!
    É feriado por aqui e eu aproveito para colocar as visitas em dia \o/
    Que texto, hein? Adorei. Me colocando no contexto depende de quem magoa. Eu sento ou deito ;)

    Bejus

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  2. Seu amigo Petrucio me lembra aquele reizinho do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, que mandava o sol nascer e se por, e sempre era obedecido, pois tinha o bom senso de dar as ordens nas horas certas!
    Já viu algum marinheiro desobedecer à ordem de...ABANDONAR NAVIO???
    Beijos, Milene!

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  3. Petrônio e Confúcio, dois antigos sábios de mundos diferentes.
    Eu deito, sento, levanto ou finjo de morto? Sei lá.
    "...num simples click o outro pode te guardar num arquivo até segunda ordem de necessidade". Moça, você já faz parte de meu sistema operacional!

    Beijo, ou lambida. Au!

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  4. Milene, você está uma expert nessa coisa dos sentires mas com o mal dos outros a gente pode muito bem; eu penso o mesmo só que quando essa chatice bate na porta parece que fico burro, lol

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  5. Pois é minha querida amiga botafoguense Milene, essa "Preguiça monstruosa" me assalta a alma vez enquanto e me dá uma vontade de feriar para sempre e só olhar o mundo pela janela...mas não dá e vida que segue. Adorei o texto, como sempre, parabéns.

    saudações alvinegras,

    forte abraço

    c@urosa

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  6. Quero deitar agora.... quero muito to que nem vc hj...
    Agora ficar ou correr, eu fico e enfrento aí passa rápido... correr cansa kkkkkkk
    Beijooooos!

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  7. "Convenhamos, gostar não é um contrato"... Não é mesmo! Então, ordens à parte fica somente o genuíno sentimento que pode crescer, de_crescer ou até mesmo des_aparecer. E temos que aprender a lidar com as perdas...pq não tem cláusula nessa vida que OBRIGUE ao outro a eternidade da bemquerência!
    Beijuuss, bemqueridos, minha Mi_nina amaaada n.a.

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  8. Milene, fiquei profundamente reflexiva sobre o trecho "é verdade aceitável que essa vontade sem garantia de infinitude um dia fica fraquinha da silva, de qualquer um dos lados"...senti isso na pele há um tempo atrás. Por isso digo que um relacionamento é baseado em trocas, não em amor incondicional...mas muitos não concordam comigo (ou fingem não concordar). Que esse pequeno espaço para a mágoa em sua gaveta a deixe tão sufocada que ela vá embora rapidinho. Um abraço!

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  9. Eu acredito que o grande problema esta nas expectativas que depositamos nas pessoas, esperamos de mais, amamos de mais, queremos de mais, depositamos nas pessoas uma confiança que muita das vezes não temos em nós. Agente inverte tudo, e é por isso que sofremos. O dia que aprendermos a nos cobrar, a confiar em nós mesmo, a nos amar, a esperar de nós mesmo, com a mesma intensidade com que esperamos dos outros, com certeza sofreremos bem menos.
    O grande erro esta na dependência, o ser humana depende de mais de tudo, quando que deveria depender de si mesmo.

    Acho que devemos nos fazer feliz, nos animar, nos levantar, nos ajudar, em fim, agente tem que parar de esperar dos outros.
    As pessoas arrumam alguém e acham que esse alguém tem que vir com a obrigação de faze-las feliz, não é assim, agente já tem que ser feliz com nós mesmos em primeiro lugar, e ai sim arrumar alguém que some essa felicidade.
    No meu ponto de vista, eu acho que essa é a grande razão das magoas, dos ressentimentos, das frustrações e decepções, as pessoas sempre esperam dos outros o que deveriam esperar de si mesmas.

    Pra mim um relacionamento é baseado na soma, não na troca e nem no amor incondicional, uma pessoa que já é feliz com sigo mesma que se ama, encontra outra pessoa que também já é feliz com sigo mesma e que também se ama, essas duas pessoas que já são felizes se juntam e somam essa felicidade, ai gera um equilíbrio, a balança não pesa mais para nenhum dos dois lados.

    não sei se consegui me fazer entender, e acho que já escrevi de mais rs

    Eu fico pensando quando o ser humano vai entender que é ele que gera o mal pra si mesmo

    Abraços

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  10. Estou cá degustando suas palavras, ingerindo as letras, sem mágoas e sem anseios...estou cá no meu canto refletindo estas atitudes super humanas da gente , do coração da gente e das atitudes da gente também....estou quase a dizer algo,...mas prefiro apenas mastigar e volto daqui a pouco, antes que o sol se ponha pra ver se deito ou sento ou sinto tamanhas verdades , por enquanto estou aqui tentando ...

    Beijinhos menina que brinca com letras de escrever prosa..rsrs

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  11. Milene, cheguei aqui trazido pela Bia. Sobre o teu texto o que me fica é que somente a prática do desapego é que nos permite caminhar sem mágoas, porém, infelizmente ou felizmente, o sentimento de posse tomou posse do humano e dele não desgruda. Bjos e bom domingo.

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  12. O ato de gostar de alguém não tem amarras nem assinaturas. Não é desenhando, nem espatulado nas telas da vida.

    O ato de de gostar é gratuito e acontece...

    Eu sabia que havia raiz (ainda) e que do campo de margaridas brotaria plena e sem pressa, a pétala de rosto rosadinho.

    Beijo, beijo, beijo!
    :) :) :)

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  13. Milene, um texto reflexivo demais. Deixar as mágoas de lado é sempre muito difícil e confesso que sou rancoroso e não me esqueço quando alguém me fere. Ao contrário dos cachorros, que mesmo após levar uma bronca, com direito a gritos, ele, em menos de dois minutos, já está atrás de você abanando o rabo. Beijos e bom domingo.

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  14. Seu filósofo acertou, ao mandar o cão fazer das duas uma, que com ou sem a ordem faria, mesmo.
    Já o bicho mágoa parece que não dá opções tão filosóficas. Se correr, ela fica na do sucesso recente de Michel Teló; se ficar, na do sucesso antigo de Caetano Veloso(Você não entende nada).
    E você, que com certeza não parece estar nem um tiquinho assim a fim nem de ser pegada nem comida por esse tal bicho/bicha mágoa, resolveu a questão com inteligência e economia, miniaturizando e esvaziando a sua própria gaveta interior.
    "... o espaço pra guardar mágoa é miudinho e eu o quero vazio. Um dia esse tanto de sentimento confuso será um monte de nada".
    Muito bonito, mesmo.

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  15. E por aqui permaneço espiando minha gaveta repleta de um conteúdo indesejado (pq não me livro, então?), a escarnecer da escolha pobre de guardar esse recheio azedo, uma vez que já foi um doce delicioso que me cansei de comer, que provei e comprovei seu intenso sabor?
    Eu já tinha passado por aqui e me deparado com mais esta profunda lição que deixaste impressa nas palavras fortes que devem ter sido paridas de ti sem assombro...mas somente hoje ganharam o sentido que eu precisava...tua inspiração me acalmou o descompasso, e como o sol ainda nem almoçou, vou pensar que a alquimia ainda nem se deu...

    Tão lindo que fico tentada a levar comigo...
    Beijos, moça querida!!

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