sábado, 27 de outubro de 2012

DO TEMPO, DA VIDA, DAS COISAS, DE TUDO...


Quando se é criança os medos chegam feito monstrinhos lúdicos a roubarem um pouco do sono alheio. Na minha meninice era a cama da Vó o meu abrigo. Nas noites de grande trovoada ela dizia pra gente ficar sentada na cama, até eles desistirem da cantoria, senão podia parecer provocação. A Vó dizia que “fazia mal” ficar deitada enquanto o céu se rachava em relâmpagos e trovões.

Eu tinha medo dos trovões, mas fazia parecer maior pra Vó não ficar sozinha com o medo dela. Miudinha, se encolhia mais ainda com cada ameaça deles entrarem pelas brechas do telhado. Eu olhava pra ela e perguntava: “Tá bom, Vó? Posso deitar agora?”... Ela só esboçava um movimento de negação com a cabeça, dizendo que ainda tinha por lá alguma cantoria.

O tempo arrasta a gente pra ficar mais estranho. O tempo devia arrastar a gente, mas trazendo junto um pouco da inocência de quando se é criança e os medos vem e encontram a gente abrigado na cama da Vó. Por que quando o tempo passou e eu achava que já era grande coisa, acordava no meio da noite e a encontrava sentadinha, amuada no meio da cama, enquanto um heavy metal de trovões estrondava. Eu voltava a dormir sossegadamente, desacreditando no mal que fazia esse desafio aos céus. E a Vó cuidava sozinha do medo dela até os trovões pararem de assustar.

Eu sinto falta de quando os medos eram só isso e não se camuflavam por trás de outras espécies de emoções como é costumeiro no agora. Por que o agora exige demais da gente. Por que num simples piscar dos meus olhos ele já deixou de ser e um outro se apresenta me exigindo fortaleza e atitude. A bem de toda quase verdade, eu considero o agora um cabra chato que só! Se ele me desse o direito de não ir quando eu não quisesse ir pra canto nenhum dessa realidade toda, eu bem simpatizava. Mas não, se não corro, perco o trem do tempo, da vida, das coisas, de tudo...

É que às vezes se configura uma imensa vontade de esvaziar o compartimento destinado a acomodar o turbilhão de sentimentalidade e seguir leve... Vazia.

Por que sentir pesa.
Bora almoçar?
Beijo!!!




“vou vento
por dentro
sem pressa
vagar
divagar
noturna
lunar
em volta
de onde
houver
um sopro
de sonho
qualquer”

(minhas aspas)



20 comentários:

  1. Milene,
    é a nossa passagem por aqui é sem respostas ,se quisermos algum sentido temos que vasculhar nesse baú da alma e inventar sentidos
    sentir dói...

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  2. Sempre que posso, dou um jeito de fugir do "agora"...
    E viajo para outros tempos...
    Bjs, Milene!

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  3. Milene, para mim, o pior medo é de nós mesmo, pois ele nos incapacita de enfrenta o q vem à frente. Almoçamos, então, esse medo. Bjos.

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  4. OI TUDO BEM !!
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    Tenho um blog Peregrino e servo, se desejar visitar ia deixar-me muito honrado.
    Ps. Se desejar seguir meu blog será uma honra ter voce entre meus amigos virtuais, decerto irei retribuir com muito prazer. Siga de forma que possa dar com seu blog.
    Deixo a minha benção e a paz de Jesus.

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  6. Agora calou fundo, mulher. Era lendo seu texto e lembrando dos dedos da minha Vó Sinhá passeando na minha cabeça, dizendo que o morcego no teto (na casa dela tinha muitos)na ia descer pra tomar meu sangue. Obrigado por avivar em mim uma lembrança que acalento com toda a minha alegria.

    Abraços calorosos.
    GQ

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  7. Milene, fiquei encantada com o poema que finalizou seu escrito. Eu também sinto saudades da minha avó, do tempo em que resolver os medos era tão mais simples, porque eles encontravam abrigo fora da gente, e não dentro...Que os sentimentos que valem chumbo sejam trocados por outros de algodão-doce. Um abraço!

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  8. Milene,
    Pesem todas as cogitações, o trem da vida é para nunca perder. Aliás, a ironia bem humorada é passageira desejada desse trem. Assim sendo, você será sempre uma passageira privilegiada.

    Beijo :)

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  9. Sentir pesa, mas um pouquinhos só.
    Lindo poema.

    Bejus

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  10. Suas aspas são aconchegantes, Mi... nelas fazem ninho palavras preciosas.
    Beijos.

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  11. As avós sabem das coisas... Agora elas não nos protegem mais dos nossos novos medos... Nós covardemente dizemos que elas estão velhas demais pra entender deles... Como somos bobos né?

    Beleza de poema no final da crônica!

    Parabens minha amiga!

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  12. Ainda não sei se gostei mais do seu texto ou do poema. Também sinto saudades da minha avó (materna, a paterna ainda está comigo) e também dos medos simples, inocentes. Agora, na fase adulta, tudo é tão diferente... Bj

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  13. Na vida, os ventos do tempo abrem rombos na nossa estrada e aquela inocência, que nos servia como filtro contra todas as destemperanças do quotidiano, esmaece, perde a cor. Mas a gente continua abraçado ao travesseiro da vovó, porque ela ainda nos segura a mão; seja porque o medo é nosso, seja porque o medo é dela. Tanto faz. Quando dois medos se juntam, eles se transformam em coragem para suportar o cinza das atribulações. Abraços, Milene. Tenha uma semana bela! Daniel.

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  14. Olá Milene,
    A vida evolui para todo mundo. Junto com ela, acompanha seus medos.
    Sentir medo é reconhecer que devemos ter prudência perante a determinadas situações. Há que se ter o cuidado para que o medo não seja paralisante.

    Abraços.

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  15. texto de deixar agua nos olhos...

    mas o poema.........encantadoramente belo!

    beijo

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  16. Foi aqui que li um comentário que dizia sobre "prosema"? Enfim, adoro sua prosa poética, ainda mais quando historiada em genuíno amor. É mesmo uma benção termos quem nos aconchega de nossos medos...e faz prosseguir, mesmo debaixo das trovoadas...o peso partilhado não pesa tanto, né? Já adorava sua Vó, agora mais!
    Beijuuss minha Mi_nina

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  17. SEMPRE QUE POR AQUI PASSO, DE ALGUMA FORMA ME REFAÇO.

    Gosto de ler vc!

    bjsMeus
    CAtita

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  18. To conhecendo teu blog agora e adorei a narrativas *-*
    enfrentar os medos na infância (embora sejam pequenos) gostamos de engrandecê-los talvez pra inflar o ego como guerreiros que matam o dragão =p
    to seguindo


    Hey, segue de volta?
    Também adoraria que tu lesse meu último post pra deixar um comment *.*
    diademegalomania.blogspot.com

    Agradecido, Clive B.

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  19. Eu tenho saudades em que os medos passavam da noite para o dia , sempre fugiam ao raiar do sol, hoje passam horas, dias, meses e até anos a nos perseguir, sem possibilidades de fuga...:)

    Beijos Mi

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  20. Lendo seu texto me lembrei de quando pequeno passava as férias na casa de minha avó, ela também era cheia dessas crendices e superstições e eu, morria de medo (risos), principalmente dos Bambus que tinha no quintal que pareciam bater palmas e uivar quando ventava muito. Mas hoje os medos são bem reais e cruéis, como vc mesma disse, antigamente os medos passam com um simples sessar de tempestade ou ventania, hoje eles nos apavoram por quase uma vida inteira.

    Abraços

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