sábado, 10 de novembro de 2012

DO ANALFABETISMO AMOROSO


Salvador Dali - Moça à Janela  - Por que eu sou culta que só!


Adoro a frase do Guimarães Rosa que diz: “eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa”. Pois estou mais uma vez cultivando a prática de falar sobre o que eu quase nada sei e talvez até desconfie de alguma coisa, o amor, o verbo amar e toda a sua simplicidade complexa.

Pura ousadia! Falou-se tanto desse moço e sua pluralidade. Sim, porque se há nessa galáxia um sujeito plural o nome dele é AMOR e sua forma verbal é a mais esmiuçada da existência humana. Ama-se a flor que se acha uma estrela; ama-se o mar, o sol, a lua; ama-se o pai, a mãe e o irmão; ama-se o homem ou a mulher que se deseja ter ao lado. Todo o tempo ama-se.

Da pluralização do amor eu até mantenho certa intimidade. Não sei se há vida possível sem essa prática, porque viver em constante estado de amor é deixar a alma enlevada, plena. É fazer com que a minúscula conta do tempo a qual temos direito, por exclusiva indulgência divina, de fato tenha sentido.

Mas, quando se trata de lidar com a singularidade do sujeito, aí lascou! Nesse caso sofro de analfabetismo gritante e me parece incurável. Cabra cabuloso da gota serena! Pede morada no coração alheio e cadê se comportar? Cansada de tentar em vão compreendê-lo, propus uma relação de camaradagem: eu finjo ter com ele a maior das intimidades; ele, ardiloso que só, mente presença vez ou outra. Eu o propago, faço bom retrato falado dele e o sujeito finge me pertencer... É um jogo estranho e eu não sei quem desistirá primeiro.

Por que amar, desse modo singular, não pode ser toda vida motivo de encantamento? Eu por mim decretaria que verbalizar o amor era pra ser como nas músicas do Chico, o Buarque, moço dos olhos poéticos que nem o mar. Senão descomplicado, mas com uma intensidade reconfortante... Reconfortante não é bem uma palavra pra se aplicar a um estado assim, de absoluta entrega. Não me ocorre outra mais legítima. Fiz-me entender, mesmo assim? Acho que não muito, porque esse cabra e suas amorzices me confundem, me cansam, me vivem...

Alguém me disse que se eu não quisesse amar não me permitiria ser tão sensível. Ora, e onde é que vende a pílula de dessensibilização? Quero fazer estoque na minha mesinha de cabeceira (quando comprar uma). Pra ser sincera, é uma imensurável chatice esse papo de ser sensível todo o tempo, ainda que o teste do endeusamento diga que a deusa existente em mim (como uma deusaaaaaaa ♫) seja Athena, moça racional, que ri, chora e brinca pouco, não se importa com sentimentos alheios e bla, bla, bla... Oi? Refiz o teste umas cem vezes, mas não consegui deixar de ser Athena, a insensível. Muito cuidado comigo, sou braba e perigosa, munida de peixeira afiada na cintura, pra esbagaçar o bucho do amor.

Melhor parar, né? Cante, Chico, chame a Betânia e cante...






17 comentários:

  1. Oi Mi

    O amor não sei explicar, mas ele insiste em me habitar e nem tenho peixeira, vê se pode?

    Sem fantasia é tão linda! "Vem que eu te quero todo meu", Ah, como quero!

    Quanto mais você divaga mais nos deleitamos. Como é bom te ler, menina culta que só e linda!

    Bejos

    ResponderExcluir
  2. Deus me livre deocê muier, qq homi em sua mão tá lenhado. Amor é como uma fruta madura, deve ser comida antes q o tempo {da convivência) a apodreça...rssssss. Bjos.

    ResponderExcluir
  3. Nem quero saber de Chico ou de quem quer que seja, só de você, não por causa do amor lascado que ostentas, mas pela tua capacidade de escrever tão bem. Meu beijo.

    ResponderExcluir
  4. pois é...

    (e vivo com o amor escrito
    no coração)
    eu me contradigo?
    pois muito bem
    eu me contradigo.
    sou ampla.tenho multidões.


    né??????


    beijo

    ResponderExcluir
  5. Oi, Milene, você não está só...também sou essa moça analfabeta que finge ter um acordo com o amor, mas ele é danado, nunca cumpre sua parte à risca, sempre nos invade e nos escapa com a mesma destreza. Bichinho indomável...e não estará aí a beleza de sê-lo?
    Infelizmente não tenho uma peixeira afiada tal qual a sua...acho que ele me matará primeiro.
    Adorei seu texto, um abraço, ótima semana!

    ResponderExcluir
  6. Analfabeto é ele, o amor... mas, coitado, é criancinha, quase bebê. Fica braba com ele não, minha linda. E quando ele bater à sua porta, não o expulse; fiz dele o portador de meus beijos para você.

    ResponderExcluir
  7. Não te vejo, de forma ALGUMA insensível. Pelo contrário!!! Lindo sempre! beijos,chica

    ResponderExcluir
  8. Texto lindíssimo !!
    Esse amor que você faz referencia, ele acontece quando tem de acontecer e não vale a pena reclamar se ele não quiser se apresentar..
    ...mais vale deixar ele e não lhe dar importância , ai ele se sente melindrado e na maior parte das vezes é quando resolve aparecer, só para contrariar.

    ResponderExcluir
  9. Adorei o "Cabra cabuloso da gota serena". E digo amém às suas sábias colocações. É a singularidade que mata. Se caminhamos para a direita, é de esquerda. Se penetramos com profundidade, só lemos a superfície. Tão cantado, tão lembrado... e tão danado!
    (Lendo seu texto excelente, entendi seu comentário no blog heheheheh). Bjs.

    ResponderExcluir
  10. Lindo texto, Milene. E não achava melhor parar, não. Queria ler mais e mais! O amor deixa muita gente analfabeta, aliás, muita não, deixa todas. Como escapar, como fugir? Beijos e boa semana.

    ResponderExcluir
  11. Inteligente texto...acho que jogos acontecem e o outro se afasta pelo pedido de amizade, ainda mais os desejos são aguçados e sucumbir é perder o jogo! mas isso só ocorre quando não há o amor em sua plenitude, pois esse está acima das estrelas abraços

    ResponderExcluir
  12. Chico chama a Bethânia e canta, 'sem fantasia', que venha corajoso, que amadureça aos poucos, não é da noite pro dia, nem dos pés pelas mãos, que vai se entender essa história de amor singular, desses que vão no coração.
    O problema do amor é que ele não tem problema nenhum. E sem problema a gente não entende. Ensinam-nos que devemos ser capazes de resolver problemas; a todo instante nos impõem desafios. E então vem o tal do amor e diz simplesmente assim: ame. É muito pouco depois de se ter aprendido tanto a lidar com tanta intempérie da vida. Deve ser por isso que o "instante de te ver me custou tanto penar", né, Seu Chico?! Por que pegar o atalho se a estrada pedregosa e espinhosa proporciona mais aventura?
    Mas, aguenta coração! ai ai ... afff

    E a tal pílula da dessensibilização não existe de fato, simplesmente porque esse tal amor não vem de fora; ele está cá dentro. E toda defesa trabalha apenas com o lado exterior da vida. Mas o amor, sequer está na vida; ele está acima dela. Assim fica difícil! Impossível! Nem Athena...
    Tenha uma bela semana, amiga Milene!
    E receba um abraço meu.

    ResponderExcluir
  13. já amei muito e fui muito amada, não necessariamente em uníssono, calmamente,rsrs. coisa mais complicada! fica pra próxima encarnação,rsrs
    beijos

    ResponderExcluir
  14. O amor, assim como outros sentimentos, é mesmo analfabeto de pai e mãe...
    Mas os poetas e escritores é que insistem em defini-lo e descreve-lo de várias formas...
    Essa tendência tão humana de colocar tudo em palavras é que dá margem a textos belos como este, com o teu toque de humor sempre presente...
    Obrigado, Milene, por nos presentear, dividindo conosco teus lindos pensamentos...
    Bjs!

    ResponderExcluir
  15. Também gosto muito da frase do velho e inigualável Rosa, citada no ínicio do seu texto. Estava com saudade de ler sua coisas amorosas. E, só pra constar, também não sei me insensibilizar. Não se trata de escolha. Beijos.

    ResponderExcluir
  16. Kkkkkkk to que nem vc, desconfio o que é esse tal amor, mas certeza nao tenho nao! Kkkkkkkkk
    E como eu aprendi a temer. O que nao conheço....
    kkkkkk

    ResponderExcluir
  17. A verdade é que não sabemos, ou pouco sabemos direito sobre esse "cabra amor". A gente se preocupa muito em falar e escrever. O amor nada mais quer que ser sentido.
    Abração.

    ResponderExcluir