domingo, 9 de dezembro de 2012

SOBRE SER DIFERENTE – O RETORNO



Nos primórdios, quando da criação desse garboso espaço de esmiuçadas e confusas letras, escrevi um texto com esse título, contando mais de mim, ou quase nada, dependendo do ponto de vista de cada um. Querendo ler, está aqui, grande, meio confuso, mas não costumo refazer os meus textos, me sinto traindo a mim mesma e as minhas imperfeições.

É que estava (estou) vendo o Esquenta, programa da Regina Casé, que eu amo de verdade por ser um pedaço de tempo onde a alegria, riso e as diferenças todas se juntam sem a necessidade  de olhares piedosos e hipócritas. Volta e meia aparece por lá pessoas portadoras das infames necessidades especiais e vão sem prévio convite, vão por se sentirem à vontade, por gostarem de música e simplesmente se divertirem.

Perdoem-me pelo “infames necessidades especiais”. Não gosto mesmo do termo porque não acho graça nessa tal especialidade. As pessoas são estranhas e meio loucas. Se não inventam mimos desnecessários pra que você não se mate por ser diferente, abusam da insensibilidade muitas vezes. Não era brinquedo não, por exemplo, parar no seu ponto de ônibus, e ouvir o cobrador gritar pro motorista: “abre aqui atrás que a ‘aleijadinha’ vai descer”... E é claro que o ônibus não tinha efeito especial feito os filmes do OO7, e nenhum alçapão se abria pra me sugar em milésimos de segundo, antes que todos os olhares se voltassem para a minha vermelhíssima figura.

Sim, isso aconteceu faz é tempo. Sim, hoje as pessoas estão mais educadas (?) e te chamam de nomes mais “adequados”. Eu nem mais ando de busão e nem é por trauma, nem fiquei rica para, por exemplo, ter um carrão com um motorista gostosão estilo o Gianechini numa dessas novelas. As questões são outras, mais práticas e solucionáveis um dia. Não aporrinharei seus olhares leitores em plena tarde de domingo, com assuntos de tamanha chatice.

Não dá pra escrever uma espécie de manifesto sobre como se sentem as pessoas “especiais”, no sentido físico, visual e sei lá mais o quê. Eu não sei nem de mim, vou falar por um povo todo? É cada um que importa, é como age e reage cada pessoa que carrega um problema desses o que deve ser considerado. Sim, porque é um problema, para com a palhaçada de dizer que fulano ficou cego e descobriu como é brilhante e outros tantos etecéteras fingidores de ser. Umas tantas vezes já se admiraram porque eu trabalho... E me dá vontade de dizer: “Você pode morrer, por favor?”. Admirável era meu pai, que saía nas madrugadas de sexta, sábado e domingo, muitas vezes sob chuva, em carroceria de caminhões sem nenhuma segurança, vender as suas miudezas na feira e sustentar a família. Admiráveis são os brasileiros que mantém uma rotina massacrante de acordar tão cedo, praticamente morar em conduções megalotadas e voltarem pra casa sem nem tempo de verem seus filhos direito.

Mas, eu, uma eterna adepta do preguicismo, digna de admiração, porquê? Bora parar com essa besteira de achar que uma pessoa portadora de deficiência tem que carregar genialidade. Bom, mas não posso falar por ninguém, né? Nem sou portadora da voz alheia, digo só por mim, porque os meus defeitos, os entraves na minha vida tem a ver com o que sou bem na carne da minha alma, e não na carne que é vista.

O Esquenta tá massa. Tem a “pequenininha”, que é como a moça anã gosta de ser chamada, é rainha de bateria, super bem resolvida, do tipo que as pessoas sem preconceito postam fotos nas redes sociais, ridicularizando, saca? A moça cega que ama samba e dança desnuda de qualquer constrangimento. O menino também cego tocando cavaquinho e cantando como um perfeito malandro carioca. A moça que respira por uma mangueirinha no pescoço, cantando à vida adoidado. Pois é. Deletem das suas mentes como os caracterizei. Eles são apenas pessoas. E felizes. E em outros momentos tristes. Por que são feitos do mesmo tecido que todo mundo.

E se um dia o mundo girar direitinho pra todos, se um dia a acessibilidade for uma coisa além do que manda a lei, e for natural perceber que nessa bagaceira redonda chamada terra existem pessoas que precisam sim de ferramentas diferentes pra viverem com maior dignidade o seu dia a dia, aí eu levo fé. Tipo: parar a pohha do ônibus pro sujeito que vai gastar mais da urgência cotidiana, não é favor algum. E não tem que ser apenas por obrigação. Um dia isso será natural... Eu sonho. Sonho meio sem fé, mas sonho.

O sinistro de assistir o programa é acompanhar, nos intervalos, a mensagem  de fim de ano da Globo e ser impossível fugir da vergonha alheia. Todos alegres, doando sorriso simpático aos servis operários que devem ser felizes só por conviverem com tantas estrelas. Essas sim, especiais. O que é Vera Fischer trepada e dançando na mesa? Constrangimento define.

Ah, a presidente Dilma também está no programa... Não prestei muita atenção, mas ela deve ter falado algo importante. Só que não.

Agora, recolho minha especial desimportância e sigo por aí, nessa intrépida tarde de domingo.

Inté, seus normais!



19 comentários:

  1. Puxa Milene, seu texto não deixa nem respirar !!
    Você é especial mesmo !!
    Admiro muito essa sua alma
    Beijo

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  2. Melhor eu fechar a boca.
    E olhar pro outro lado.
    Arrisca essa moça louca
    Ter-me mal interpretado.
    E no meu dedão do pé
    Mostrar-me como é que é
    Um muletante irado...


    Verdade... tô de boca aberta e de olho arregalado.
    Te gosto muito, aleijadinha, e te admiro demais. Veja se encontra em algum sebo um conto de FC chamado "A Balada de Beta-2". Acho que você vai gostar...
    O Preâmbulo da nossa Constituição reza: "Todos são iguais perante a Lei". E isso é tão absurdo que todo o resto da Lei se dedica a definir as diferenças entre os iguais.
    E quem não for diferente, que levante a mão perfeita!

    Beijos.

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  3. Milene, também gosto do Esquenta por ser um espaço onde todo mundo convive numa boa. Ainda no programa ouvi alguém dizer que basta ser um pouquinho diferente para ser discriminado, então lá vai a pergunta: e o que é ser igual? E não viemos ao mundo para quem morem nas diferenças a beleza da vida? Eu poderia discorrer horas sobre o seu maravilhoso texto, mas serei sucinta: o importante é tentar ser mais feliz do que triste, e seja quem for, se está conseguindo isso, já está fazendo a diferença, e pro lado bom.
    Um abraço!

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  4. Milene, fui lá. Não conhecia aquela postagem. É incrível a necessidade de haver leis para garantir que todas as pessoas façam uso de transportes e tudo o mais, de forma natural, independente de suas dificuldades. Todos somos diferentes e as mais graves imperfeições só são comprovadas quando os loucos adquirem o poder. Grande beijo!

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  5. Normal, quem cara pálida?...rsssss
    Sou um desses especiais que sai com a lua da madrugada e chega com a lua da noite e só ver o miudo nos fins de semana. Bem se eu continuar esses comentário pq senão vai ser tanta pohha aqui q serei proibido de comentar pelo google. Giannechini (é assim q se escreve?) como motorista, num é q rola, ela adora trocar marcha e não tira a mão do câmbio do cara, ops, erro de digitação, do carro...rsssss. Bom finde, muier especial.

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  6. Oi Mi

    Quase não sei o que dizer, escrevi uma coisa apaguei, não era isto, escrevi outra coisa, também não era isto, então percebi que sobre isto não tenho o que dizer, te acho tão igual, tão normal, tão anormal, quanto eu ou qualquer um.

    Sobre pessoas especiais só sei sentir uma coisa: Acho todo mundo que me desperta algo bom, especial, inclusive você.

    Beijão

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  7. Aqui escorreu em palavras um sentir profundo, sem restrição, análise prévia ou rebuscamentos...a clareza de teu discernimento está nas considerações pontuais, como estas..."É cada um que importa, é como age e reage cada pessoa que carrega um problema desses o que deve ser considerado"..."Admirável era meu pai [...] Admiráveis são os brasileiros "...Deletem das suas mentes como os caracterizei. Eles são apenas pessoas. E felizes. E em outros momentos tristes. Por que são feitos do mesmo tecido que todo mundo"...é tocante, Mi, sem genialidade alguma, a sensibilidade de quem tem "os entraves na minha vida tem a ver com o que sou bem na carne da minha alma, e não na carne que é vista"...e toca fundo na alma da gente!!

    Diferente de um desabafo, de um ponderamento, vc tece tuas sensações com o conhecimento de quem é desprovida de afetação, e isto torna tuas palavras verossímeis, profunda e deliciosamente verossímeis...tua grandeza não é escondida, não é forjada, ela é cristalina!!!

    Vontade de te dar um abraço, moça querida...

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  8. Para mulher! Não concordo e não é dó porcaria nenhuma que sinto, na verdade é o mesmo que sinto pelo seu pai que trabalhava como vc falou, oi pelo meu avô que veio de navio lá de Portugal sozinho e sem grana! É admiração, porque me coloco no lugar e penso não ser tão forte assim!

    Mas concordo quando vc diz que não é legal as pessoas ficarem sempre ficando isso! Tem dias que queremos ser invisíveis mesmo! Interessante que eu fiz um post sobre ser normal hj! Acho que combinamos no nosso inconsciente kkkkkkkkk
    Beijao Mi! Vc é fera (porque especial vc fica brava kkkkk)!

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  9. O que te aconteceu foi uma tremenda falta de preparo e educação e infelizmente ainda vemos brutalidades como essas. Imagino a gana sentida!!! Te conhecendo por aqui, dá pra iamginar. Não sei se naquila época a indignação era pensada por PQP, ou coisas assim... Mas sei que te ler é sempre bom e teu humor ao falar nas coisas mais sérias é legal.

    beijos,tudo de bom,chica

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  10. Janeiro de 2010 ainda não nos conhecíamos???!!! Pois não estou lá te conhecendo. Muito prazer! Fui, (re)conheci e lendo esse, posso afirmar: vc cresceu demais nesses dois anos Mi_nina! Só mesmo recheada de especialidades (e nem é caixa Nestlé de bombons)pode escrever assim... E eu mandaria pra produção do Esquenta (posso? acena no face preu) essa crônica linda, realidade purinha..."Bora parar com essa besteira de achar que uma pessoa portadora de deficiência tem que carregar genialidade. Bom, mas não posso falar por ninguém, né? Nem sou portadora da voz alheia, digo só por mim, porque os meus defeitos, os entraves na minha vida tem a ver com o que sou bem na carne da minha alma, e não na carne que é vista."
    Simone já leu? Me lembrei dela...e de uma conversa entre vcs que presenciei nos bons tempos de msn.
    Beijuuss normais(?)e outros tantos especiais na carne de sua alma!

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  11. OI MILENE,

    como assim?

    Normal, anormal, mas onde , como, tem certeza,será mesmo?

    É verdade que existem pessoas normais?

    Olha, Milene, não gosto de ser enganado.

    Um abração carioca.

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  12. Oi Milene, claro que viria e já estou aqui, como sempre. Li o texto agora, pois não te conhecia na época. Você é igual a mim e eu sou igual a tantos. Somos todos normais e, afinal, quem estipulou o que é 'normal'? Também não gosto disso que sempre querer mostrar que um 'deficiente físico' (odeio esse termo, mas odeio todos, pra falar a verdade) precisar ser genial em um determinado aspecto para suprir a tal deficiência. E o Esquenta abordou bem o tema no programa de estreia da terceira temporada. Não vi 'ao vivo', então gravei. Adiantei a entrevista da presidente porque não me interessei... Bjsss

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  13. Só mais uma coisa, Milene, nada pior do que receber um olhar piedoso. Ainda tem gente que gosta de sentir pena de si mesmo. bj

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  14. A especialidade está no olhar de quem olha e não no que enxergamos. Você pode olhar para uma pessoa e enxergar ou criar 1000 defeitos. Ou você pode olhar melhor e enxergar um ser humano, que pode ter algumas limitações físicas, porém não deixa de ser uma pessoa em potencial especial, assim como tantos outros que se dizem "normais".
    Abraços.

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  15. E meu sonho é, se tenho algum, que ao lermos novos textos como estes, não fiquemos tão jubilosos assim. Eu concordo com tudo que você disse e a sua necessidade especial é a de todas pessoas do planeta - Respeito!
    Sobre o ponto em que você diz que trabalha, fiquei na dúvida.Você trabalha?
    Como eu e você somos estranhamente parecidas a ponto de nos perdermos e andarmos léguas, não tenho muito o que falar. Ahh, tenho sim. Você viu o bofe da anãzinha? Um luxo, né? ...rs
    Você sabe que eu não sei enxergar bem essas diferenças, deve ser por causa da minha miopia... Não entendo certas bandeiras... Acho mesmo que lindo é todo e qualquer ser humano - só que não.
    Lindo mesmo é olharmos ou tentarmos ter um olhar que vai além deste corpo de lama. Lindo mesmo é sermos gentis e dispensar gentileza a qualquer pessoa.
    Lindo mesmo é você fazer uma poema pra alguém e esse alguém perde-lo e mesmo assim, continuar amando essa pessoa.
    Beijos!

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    1. E o meu sonho sempre foi ser a mulher invisível... Se não existe uma, bem poderia ser eu. Não gosto de muitos olhares pra mim, ao mesmo tempo, mas nunca pude fugir disso... Bom, nem é tão ruim. Ou é, sei lá. Assim... Postei no Face isso ontem:

      Pé direito
      pé errado
      pé menino
      pé normal
      pé de vento
      pé descalço
      pé miúdo
      pé querido
      pé na lua
      pé no chão

      Na verdade é só um pé estranho, numa perna que não quis ser igual às outras. Metida! O resto, toda a matéria acompanhando a perna, e a carne da alma, tudo igual a tantas outras. E tão diferente. É bom ser diferente, só que não. E tu também é estranha... a pessoa que não sabe a diferença entre canjica e mungunzá, não pode ser normal.

      E o poema, é meu, está aí, devolva-me e me ame como sempre!
      Beijo!

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  16. Milene, não sou um "normmal", já passei dos 80, mas gostei muito de tuas vassoradas! Gostei também de chamares presidete Dilma, e não aquele horrível presidenta. Se quiseres ver já tenho um post novo. Meu beijo.

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  17. Oi Milene, confesso que o Esquenta é um dos meus programas preferidos, justamente por essa diversidade toda, esse é o verdadeiro Brasil. O povo ta cansado de ver na TV, essas replicas de programas americanos que nada tem haver com a nossa realidade, e a Tv brasileira parece que esta entendendo isso, esta ficando cada vez mais comum vermos produções televisivas voltadas para nossa cultura e divercidade. Mas ainda sim, não podemos considerar isso como um avanço ou progresso, pois o preconceito ainda esta muito presente em nossa sociedade, e sabemos que a intensão das grandes emissoras de TV com programas como o Esquenta, é nada mais que angariar mais aldiência, conquistar a famigerada classe C, que esta tão em alta e não acabar com o preconceito.

    Abraços

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  18. Andei por longe, não foi culpa minha, mas do trabalho. Muita correria no fim de ano. As coisas se ajeitam, né!
    "De perto ninguém é normal." A frase não é minha, por isso tem valor. Não sou bom para julgar; isso que é bom. A única "deficiência" real e concreta é a do cérebro, que impede o sujeito de conseguir respeitar o próximo. Esses sim são deficientes. O pior é que nem sabe que fazem tudo tão errado. Não têm sequer essa capacidade de compreensão, porque pertencem a uma sub-raça. Educação e respeito deveria vir no 'chip' de cada um, mas é acessório e parece que custa caro. Enfim, vamos vivendo e levando. Um dia haverá de ter governantes capazes de pelo menos sensibilizarem-se com a situação e fazer o que é dever.
    Excelente texto, Milene! Parabéns pela capacidade de enfiar o dedo na ferida. Abraços e ótima semana!

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