domingo, 29 de janeiro de 2012

A BETERRABA E O PROTESTO


Aos quarenta e dois anos de existência fiz as pazes com a beterraba. Desde sempre cismei que o legume não era lá coisa pra se comer rezando, carregando uma matiz estranha daquelas. E jamais quis provar. Hoje, por motivos de força maior (força da Vê, impotência minha), resolvi experimentar a raiz de cor forte e não é que até gostei? Não se trata de uma iguaria daquelas de se lamber os beiços, mas me tornei amiga de infância da bichinha discriminada. Na falta de algo pra protestar, qualquer horas dessas lanço uma campanha do tipo SALVEM A BETERRABA, DA SAÚDE ALIADA!

Aliás, protestar é mesmo massa. A prática está bem em evidência nos dias atuais e nós que reclamávamos da falta de motivação dessa geração a não se mover para absolutamente nada além de mexer em mouses e joystick, agora temos a obrigação de aplaudi-los. Quem não puder ir às ruas, de punho erguido, grito de guerra entoado, basta acompanhar pelas redes sociais. Lá se encontra um cardápio variado de protestos, campanhas solidárias e tantas outras coisinhas interessantes. Deseja compartilhar, por exemplo, uma imagem de criança defeituosa? Nós facilitaremos isso pra você. Acidentes medonhos? Você está no lugar certo. Uma frase de efeito sobre Deus, daquelas bem originais do tipo DEUS É FIEL? Tarefa fácil! Deus ficará feliz contigo. E depois que você der glória a Ele, gostaria de compartilhar aquelas imagens bizarras de pessoas “exóticas”, desdentadas, feias, gordas e pobres, que vieram ao mundo só pra nos divertir? Não se preocupe meu amigo, temos aos montes para oferecer. Rimos e desdenhamos deles porque somos espirituosos, mas no fundo somos todos filhotes de Deus, bacaninhas e solidários.

Para um final de manhã de domingo, explorei um tema um tanto ácido. Mas assim é a vida, meus caros. Adoce a sua limonada a seu gosto, escolha a sua causa e siga protestando. Vamos fazer um mundo melhor, alcançaremos um milhão de assinaturas para tirar do ar o BBB, LDB, LBV  PMDB... Me sugiram mais siglas contendo o B, gostei delas...

Me deem licença, vou ali comer uma beterraba e protestar.
Beijos!


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A ARTE DE FAZER CARA DE PAISAGEM



É preciso uma técnica apurada para lidar com situações tão embaraçosas. Sou ré confessa, pratico da total falta de sinceridade em momentos assim.

Euzinha, numa dessas visitas ao hospital, para a pratica do derramamento de soro na veia, ou tomar (in)delicadas injeções no bumbum(zão), encontro uma simpática senhora acenando enlouquecida para mim, correndo, entusiasmada para me abraçar... Eu cutucava a minha memória a fim de saber de quem se tratava. Ela, a memória, caduca, fez ouvidos moucos. Então vesti-me de uma cara-de-pau digna de “The Oscar Goes To Milene” e retribuí  sorrisos, abraços e afins. A mulher desconsiderou minha fisionomia dolorida e me bombardeou com perguntas para as quais eu não tinha resposta alguma: “Você ainda está lá?” (oi?), “Como está o pessoal todo?” (da onde?), “Mas você está fazendo o que por aqui?”... Mal balbuciei que minha vesícula indócil me conduziu até lá, a senhorinha não parava de falar e isso só me deixava mais aflita por desconhecer a figura. Intermináveis minutos depois, ela foi embora, não sem antes dizer que precisávamos nos encontrar com mais frequência, obviamente num canto mais convidativo... Eu? Concordei, é claro! Encontrarei com grande alegria aquela senhorinha que me tem tanto apreço e cujo nome e procedência nem desconfio.

Talvez eu tenha herdado essa habilidade para situações embaraçosas da minha mãe. Há muitos anos, na cidadezinha onde nasceu, um dos seus primos então candidato a vereador, contava com os votos dos seus amados familiares. Na seção em que Dona Lourdes votou, o pobre projeto de político não obteve um mísero voto, nem o da prima querida. Questionada pelo ex-futuro vereador desconsolado, ela disse que só podia ter sido um erro de contagem, só podia... O sujeito não lidou bem com esse "equívoco" e deixou de falar com a prima-eleitora distraída.

Não que seja do meu agrado me perder em situações inconvenientes, mas elas me perseguem, ora! Esses dias um moço foi com a esposa solicitar um histórico escolar e eu, numa atuação de maluquez absoluta, chamei a pessoa pelo nome da ex-esposa do sujeito. Não apanhei. Falei que os nomes delas me confundiram, acenei e mudei rapidão de assunto. As pessoas tem mesmo que se casar tantas vezes e me embaralhar desse jeito? Não é justo...

E quando a intenção é praticar a fofurice e o resultado é um absurdo desastre? Me refiro ao dia em que estava na porta de casa, fazendo nadinha, e lá ao longe caminhavam, a alguns passos de passarem diante de mim, a mãe (pensava eu) e uma irmã da minha vizinha. Eu não a via fazia um tempo, então aproveitei para cumprimentá-la, pois nutro uma simpatia por aquela senhorinha cativante:

- Dona Netinha, tudo bem?

Seguiu-se um risinho constrangedor e a resposta fatal:

- Não é minha mãe não, Milene, é minha irmã Fulana.

Desejei correr e fechar o mundo atrás de mim, mas pratiquei da minha habitual e rubra cara-de-pau e consegui formular uma frase com requintes de estupidez:

- Nossa, mas elas estão muito parecidas. É que Dona Netinha não aparenta a idade que tem, né?

As duas riram um riso amarelo e seguiram...

Para finalizar a lista de bizarrices milenares: Eu e minha amiga Lê, menina meio arapiraquense, meio paulistana, costumamos nos chamar afetuosamente de ‘palhaça’. Certo diz recebo uma ligação das bandas de lá e a moça insistia em falar com a dona Milene. Gênio que sou, atestei que era a Lê brincando comigo.

- Diz aí, palhaça!
- Como? A senhora é a dona Milene?
- Nem to achando graça na brincadeira, já sei que é você, palhaça.
- Me chame a dona Milene, por favor.
- Pare de frescura, oxente! (Nem foi ‘oxente’ o meu berro, foi um palavrão bacaninha mesmo) Aonde você acha que consegue me enganar, égua? É uma palhaça mesmo!
- Deve estar havendo algum engano, sou a Cicrana, atendente da Oi e gostaria de estar falando com a dona Milene, vou estar mostrando um plano especial para ela.

Não ouvi o plano superlotado de gerúndios da moça. A moça não ouviu mais nada a não ser a minha risada estrondosa, seguida do “tum-tum-tum” do telefone delicadamente batido na sua carinha.

Pois é...
Beijos!


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ESPERA



Cão vadio, largado à beira dos trilhos... O que espera? A passagem de um comboio que o leve a conhecer o mundo em busca do que ainda não viu? De um vagão qualquer, nesses seus tolos devaneios, descerá o seu sonho, o seu amor? Quem sabe esse amor seja seu antigo dono... Quem sabe seu dono esteja mesmo no tal trem... Quem sabe ele, seu dono, nem se lembre mais de você. Quem sabe? Ninguem! O que todo mundo sabe é que enquanto você se permite deitar à espera, esse trem não para. Entre uma estação e outra, entre invernos e outonos, segue sempre conduzindo, pra lá e pra cá, amores, desamores, oportunidades e vida... Mas não pra quem espera, apenas pra quem embarca. Tudo bem, tudo bem! Já te amolei o bastante, insistindo que você saia dessa inércia. Volta para o seu sono... Volta à sua espera. Mas, é preciso que se lembre,há mais de duas décadas já não há trens por esses trilhos, há vinte e cinco anos já não há a quem esperar...

Por Luck Lemes



Ele me perguntou o que eu via nessa imagem. Falei: “uma varanda, um lugar convidativo, que inspira tranquilidade, uma varanda de uma velha casa”... Me disse se tratar de uma pequena estação ferroviária, lá de São Lourenço, interior das Minas Gerais, onde mora esse meu amigo cuja sentimentalidade é maior do que ele nem supõe. A tal estação foi desativada há mais de vinte e cinco anos e agora serve de refúgio para cães vadios, à espera de não se sabe quem, ou o que... Então ele literalmente retratou o momento, em imagem e palavra. Saiu de improviso o texto acima, com alguns pitacos dessa que vos escreve. Não são raras as vezes em que me pego conversando com o Luck e tentando ter da vida a sua visão. Por que a vida aos seus olhos é tão linda, tão significativa, tão real, ainda que cheia de sonhos...



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

EFÊMEROS


Mais uma vez estávamos ali, os dois, silenciosos e cúmplices, compartilhando a generosidade do vento. A mim, acariciava os cabelos, num trançado esvoaçante e embaraçado. A ele, incitava um bailado sedutor e sereno. Eu já havia me habituado com tais encontros mágicos, ainda que efêmeros.

Desejei correr pra ele e lhe contar como havia sido feliz o meu dia. Quisera gritar em meio a espalhafatosas gargalhadas, descalça, numa alegria insana, dos horizontes que de repente se abriram e me fizeram verão.

Nos meus lábios um sorriso suave delatava o encanto. Se pudesse, naquele instante, me deixaria lamber pelo seu balancear cheio de malemolência. Deitaria, vulnerável, ao alcance do beijo salgado. Em silêncio, eu lhe permitiria ouvir a canção alegre entoada por minha alma. Ele daria graças, faria graça, num ir e vir magnetizante, lindamente desnudo num azul em reflexos dourados.

Eu parecia ouvir o seu grito silencioso, dizendo em ondas: “vem mais perto, se lança em mim”... O sinal aberto indicava que era preciso seguir. Da janela do carro em movimento, ensaiei um aceno, derramei um suspiro apaixonado, e carreguei comigo, outra vez, apenas a fotografia.


DA JANELA DO CARRO ALHEIO, 
PRAIA DA PONTA VERDE, MACEIÓ/AL, TARDE DE QUARTA-FEIRA, 
DEZOITO DE JANEIRO DESTE ANO QUE VOCÊ JÁ SABE.



domingo, 15 de janeiro de 2012

O AMOR E OUTRAS IMPORTÂNCIAS


Ontem fiquei de tocaia nas esquinas virtuais (palavras de Rodolfo) a fim de intimar os amigos desavisados a falarem uma frase curta sobre o que lhes dizia o amor. Publiquei suas curtas considerações lá no Relicário e fiquei satisfeitinha de lima silva com o resultado. Um improviso é mesmo uma coisa bacaninha. Acho que toda a concepção da postagem, entre ideia e realização não levou mais que meia hora e ficou bem massa. Eu espero vocês irem conferir, enquanto fico por aqui jogando paciência, combinado?

Dez minutos depois...

Podemos continuar? Vamos lá então, vou continuar vos enrolando, porque não tenho nenhum tema para hoje. Na verdade esse texto é um pretexto (ui!) para vocês visitarem o meu caçula que tem complexo de rejeição, tadinho. Não sejam maus meninos!

Continuar falando de amor seria uma boa prática, mas é um tema sobre o qual não ando tendo muita afinidade. Moço bonito, o amor. Moço difícil, o amor. O Cristiano Mello falou no seu comentário por lá que se o amor não fosse tão reprimido o mundo não seria essa feiura toda. Concordo. Hoje o moderno é ser prático, se adequar às mudanças, globalizar, otimizar, sei lá o quá! Odeio esses verbos de vida moderna. É muito chato esse papo de vida prática, de matar um leão por dia, ou ser engolido por ele... Tudo deve ser minimamente articulado, medido feito uma tabela do Excel. A minha vida não é uma tabela do Excel! É um rascunho manuscrito e vez ou outra eu apago algumas linhas, escrevo umas novas e vou seguindo. E o amor que não se atreva a se perder de mim!

Estou aqui pensando em outro tema pra completar esse post... Que tal falarmos do sucesso do Michel Teló na Europa, com aquela coreografia elaboradíssima para uma música e letra no mesmo patamar? Não, né? Assunto mais cansativo esse, deixa o cara pegar quem ele quiser. Sucessão municipal? A gente pode trocar figurinha sobre os candidatos de nossas cidades, todos ilustres honestíssimos cidadãos e as perspectivas de um futuro social promissor... Também não? É, tais assuntos iam azedar nosso início de semana e definitivamente não queremos isso. Vamos dormir, então? Sou uma pessoa de boa fé, não os entreterei em vão...

Uns beijos,
Meus queridos!


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

DESCONEXA





Pedaços de mim perdidos no tempo. Pedaços de mim, com medo. Eu não abro a porta, mas o medo bate. Eu não abro a porta, saio pela janela. Eu saio. Corro. Contra o vento, contra o medo, devagar eu corro. Eu corro e chuva. Eu corro e flores. E sol. Outra vez chove. E escurece o céu. É bonito o escuro do céu. Eu peço que ele me banhe. Me cubra inteira de água das nuvens escuras. Ele me banha o corpo. Desencarde minha alma. Eu corro na chuva. Eu sorrio e corro. Eu choro e olho pro céu. E o tempo passa. E de novo flores. Mas ainda o medo... O medo!



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A MUDEZ E O IMPROVISO



Sábado eu fui almoçar com a Cida e mais a população quase toda lá da roça cibernética aonde ela vem repousar a beleza, feito o Obama quando sai da Casa Branca para uma temporada na casa de veraneio.  É tão bom quando ela sai de trás dessa tela e vem me abraçar. E a gente faz as palhaçadas costumeiras, sendo bem mais prazeroso espiar no seu zóio d’água.  E estavam os primos todos. E foi bem massa.

No mesmo sábado, no final da tarde, eu estava num boteco bacaninha que tem por aqui. O nome é deveras sugestivo, se chama Escritório, pensado no intuito de fazer os moços dizerem às suas esposas, quando caçados via telefone: "estou no Escritório, chego já, já"... Só não sei como explicam o barulho ao fundo. Fui rever amigos e rir... E conversar. Adoro essa prática, me faz sentir vivinha de Lima Silva, sem precisar atravessar porta nenhuma... Né, Rodolfo?

Me faltou tomar aquelas cachacinhas de nomes bonitinhos: café com leite, Gabriela, chicletinho... Viciantes! Dessa vez, porém, o bom senso gritou pra eu me proteger, a Vê anda insuportável, mas não darei audiência pra ela... Só lhes comento sobre a dita cuja depois de enviá-la pra guilhotina, o que será em breve. Visitas dominicais ao Pronto Socorro não é um programa pra se chamar de agradável. O bendito equilíbrio, o riso do sábado, misturando-se com o choro de domingo. Equilíbrios são chatos. Por que todo o tempo não pode ser pintado em riso?

Será que alguém ainda se dá conta de quando mudo o meu layout nesse canto irrequieto? É parte da minha insanidade, já me conformei. Vou mudar tantas vezes que nem sei quantas, é só me dar na telha de achar um layout lindo e de repente começar a repará-lo enfeitado demais, colorido demais, impessoal demais. Poucos viram o último. Muitos verão este, porque pretendo demorar com essa vestimenta por um tempo. Um tempo é suficiente, não é?

Antes de partir (por hoje, não vou atravessar a porta fechada ainda), compartilho uma música pra alegrar nossa segunda-feira abençoada.

Uns beijos.
Dançam comigo?
Me abracem!





sábado, 7 de janeiro de 2012

SEM TÍTULO (MEIO MUDA)



Já na primeira semana desse imenso livro em 366 páginas em branco, não sei aonde foi parar o meu discurso de que sou eu o fator determinante para que o ano novinho em folha discorra bacaninha. É preciso atitude, fazer valer, correr atrás e todo o blá-blá-blá sabido.

Queria mesmo era ter tudo prontinho, jogar nas mãos do ano corrente todas as responsas e esperar, apenas esperar. A pior parte de ser adulta é essa coisa de tomar decisões, peitar os obstáculos, ser corajosa... Isso me dá uma preguiça desmedida. Essa medida é um disfarce do medo, eu sei. Ele gosta de máscaras, se esconde por trás da inércia e fica cochichando feito um diabinho: “assim tá bom, vai arriscar pra quê?”... E a gente não arrisca. E a vida não perdoa. Ela me força a enfrentar o que eu nem queria e fico brava com ela por isso. E depois agradeço, porque se dependesse da minha iniciativa a tal zona de conforto jamais seria maculada.

Macular é preciso, assim como o “navegar” do poeta, só não posso garantir que o sentido do “é preciso” seja o mesmo. Macular, cometer (feito disse o Ivan alguns posts atrás), provocar a vida, gritar pra ela um sonoro “eu estou aqui e não vou passar desapercebida”.

A impaciência tem sido minha fiel companheira nessas primeiras páginas do ano. Um prefácio, talvez, visto que em terras brasilis só depois do carnaval é que o caldeirão ferve pra valer. Enquanto isso se acompanha as mesmas matérias televisivas feito fossem velhas reportagens. Chove nos mesmos lugares, casas vão  por água, pessoas morrem e os moços de gravatas se reúnem... Suponho que as pautas sejam arquivadas e todos os anos atualizem apenas as datas a fim de poupar trabalho. Falta-me léxico. Sobra-me impaciência... E eu nem queria essa companhia.

Na próxima terça-feira o país novamente arruma um assunto de suma importância para discutir. Começa o BBB, cuja sigla é de conhecimento geral e os pouparei. Então a população se divide entre os fanáticos pelo programa e os que repudiam o formato besteirol. E as redes sociais se tornarão uma chatice ainda maior, com os compartilhamentos prol e contra, a arrogância dos que supõem possuir o título de intelectual-mor do país, versus a alienação partidária de boa parte dos telespectadores. Confesso que ambos os lados me causam tédio. Provavelmente me sentarei à poltrona para ver alguns “capítulos”, fazendo valer minha curiosidade, enquanto lanço um xingamento e outro e que o programa é uma grandissíssima porcaria. Mas tenho estado apreensiva se vou mesmo cometer esse grave delito. Receio perder o direito a minha cadeira na ABL , além de ser expulsa do convívio com meus colegas intelectuais, cujo grau de cultura é algo incomparável, não admitindo atitudes medonhas como essa. Refletirei.

Sobre isso, somente mais uma indagação: Não seria mais inteligente por parte dos que não gostam do Reallity Plim-Plim, simplesmente ignorar o tal programa, do que gastar tanto tempo e palavrório se dedicando à execração do mesmo?

Essa é uma questão extremamente importante, apenas os grandes filósofos serão capazes de solucioná-la e isso requer tempo... Talvez mais umas doze edições bebebenianas.

Parafraseando Martin Luther King, eu tenho um sonho. Um dia viverei numa nação aonde assuntos de fato relevantes sejam levados tão a sério quanto os que compõem nosso cardápio diário. Nesse sonho sou movida à paciência para assuntos tolos, preconceitos idiotas disfarçados em brincadeiras descoladas e aturo com maestria a pseudo-filosofia do intelectual metido à deus da cultura.

Me deem licença, preciso ir ao boticário mais próximo comprar meia dúzia de frascos cheios de paciência. Metade deles usarei para aturar a mim mesma e essa minha tendência à abordagem de assuntos idiotas. Dito isto, vou ali macular e cometer a vida.

Abracem-me!


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O RESGATE

  
Pelo tempo em que foi encomendada a coroa de flores, já devia e muito ter chegado ao destino. Todos se entreolhavam impacientes, pois o féretro se preparava pra sair sem a homenagem da turma da escola ao pai da amiga tão querida...
- Liga pra floricultura!
- Boa ideia!
- Alô, moça é o seguinte: encomendamos uma coroa de flores faz o maior tempo e até agora nada. O que houve?
- Me confirme o endereço, por favor.
- Rua Projetada, sem número.
- Minha senhora, nosso entregador confirmou a entrega da coroa neste endereço, deve estar havendo algum equívoco, procure aí com mais atenção.
Uma coroa de flores não é necessariamente um objeto que possa estar assim tão oculto a ponto de não ser visto numa espiada mais dinâmica, mas todos se incumbiram de dar uma última verificada, para a fatal conclusão: definitivamente a dita cuja não estava naquele recinto... Para onde fugiria uma coroa de flores?
Sem mais o que fazer, seguiram o cortejo naquela lentidão habitual quando pessoas destemidas fazem o trajeto a pé. Os carros praticamente não andam e o teste de paciência é enorme. Tudo, porém, em nome da solidariedade para com uma amiga numa situação tão difícil.
Na porta do cemitério dá-se o encontro de dois cortejos, o outro um tanto adiantado. Sobre o caixão do enterro concorrente desfilam algumas coroas, relembrando a turma da insatisfação pela homenagem não prestada. De repente alguém salta:
- Ei, olha ali no caixão do outro enterro, é a nossa coroa!
- É nada, tá doido?
- É sim, vê lá o nome da escola, é a nossa!
- Eita gota, foi entregue no velório errado. E agora?
- Deixa pra lá, já era – Argumentou alguém mais conformado.
- Deixa pra lá nada, vou lá buscar agora, peraí.
E foi-se o marido da professora, solidário na frustração da turma, fazer o resgate da pobre coroa sequestrada. Sem um pingo de cerimônia, pediu licença aos que rodeavam o caixão em vias de ser colocado nos temidos sete palmos:
- Lincença, mas essa coroa não é desse enterro não – falou enquanto erguia a dita cuja sobre a cabeça, passando em meio à pequena multidão entre um enterro e outro, depositando ao lugar aonde deveria ter nascido pra enfeitar.
Enquanto se dava tal ação, os demais homenageadores trataram de se esconder, cada um por trás de um túmulo mais perto, desacreditando na coragem do moço herói em proporcionar a uma desassossegada coroa de flores, o descanso merecido.
Bem poderia ter sido colocado um epitáfio com os dizeres: “Esse jazigo é o abrigo do Senhor Fulano de Tal e sua fidelíssima companheira mais florida... Florinda”. Que descansem em paz.

EM TEMPO: 
Eu bem queria gravar a minha irmã em pessoa e voz narrando esse episódio. 
No ajuntamento festivo de virada de ano, 
todos nós talvez tenhamos tirado do nosso saco de risadas, 
um riso descontrolado como poucas vezes na vida, ouvindo-a contar a história...
 Ela é a esposa do herói protetor das coroas sequestradas. 
O herói é meu cunhado Fabinho, gente boa pra dedéu, 
menino grandão que vocês adorariam conhecer... Beijos, pessoas