quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

BESTEIRICES



Preste atenção:

Se puder, me mande beijos na face, nas mãos, na testa... Mas no coração não, porque o coração só reflete os afagos que o resto do corpo recebe. Beijos sangrados não devem ser assim tão bacaninhas. Pratique mais da sua criatividade... Ela existe, né?

E também, você pode tentar me chamar de tantas coisas carinhosas, engraçadas e espirituosas... Existe um imenso leque de opções. Por que diabos acha de me chamar justamente de  “gata”? Ah, isso é tão retrô, e nem é aquele retrô charmoso, é non sense total. Fazer o ‘carinhoso’ com uma mulher chamando de ‘gata’ é muita falta de imaginação... É pro teu bem que aviso, acredite.

Ah, outra coisa: eu odeio quando você diz que eu fiquei vermelha a partir de algum tipo de comentário. Saiba, nessa hora eu quero mesmo pular no seu pescocinho suado e se possível deixar por lá as marcas de minhas garras. Caramba! Eu sei que sou praticamente um protótipo de morango humano, então não seja óbvio, pelamordeDeus!

Assim, tem vezes que eu nem estou estressada, mas você insiste em perguntar: “por que está tão estressada?”... Aí, meu bem, a pessoa vira leoa faminta e sedenta. louca pra devorar o coração que nem beijou. Faz isso não, faz não! 

E outra coisa totalmente sem noção é pagar de Michel Teló dizendo a todo instante “ai se eu te pego” para as moças. Caramba! PelamordeDeus outra vez! Assim não dá! Isso definitivamente está a anos-luz de ser engraçado. É no mínimo... Patético! Qualquer mulher de bom senso jamais vai querer você no iminente risco de pegá-la. Cante outra canção, encante!

Às vezes você parece aquelas pessoas da televisão, que sempre dizem “no próximo bloco, você não pode perder”. Tenho vontade de lhes dizer que essa frase infame e sem nenhum apelo não vai fazer telespectador algum isolar o controle remoto. A mim, por exemplo, o efeito é justo o contrário. Tenho vontade de dizer, aos berros: Posso perder sim, e daí???

Precisava dizer isso, nem doeu, não foi? Recapitulemos, então: Não me mande beijo no coração; não me chame de gata; se me ironizar dizendo que fiquei vermelha, é um sujeito quase morto; não sou estressada full time; e não pense que está abafando dizendo “ai se eu te pego” pras garotas..

E nem estou de TPM.

Vou ali assistir a um documentário de cinema iraniano, que eu não posso perder... Já volto!
Beijo!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

NAQUELE TEMPO



Gostava mesmo era daquele tempo onde a aridez da vida se escondia da gente e tudo era simplicidade. Gostava do casal de goiabeiras lá de casa, os canteiros de coentro e a sombra da mangueira do vizinho, que também queria ser do nosso quintal.

Tinha muita riqueza nas fazendas cheias de boizinhos feitos com filhotes de manga verde e palito de fósforo queimados. A gente dizia pra Vó não jogar um palitinho fora, era de serventia na brincadeira de ser feliz. Cajueiro não tinha no quintal, só os pés de goiaba, o coqueiro e a mangueira do vizinho que tinha parentesco com a gente. Eram lindas as plantas da Vó, das folhas dançarinas, do verde tão vivo que dava até gosto. Mas se não tinha pés de caju, a gente passava dias juntando as castanhas dos cajus aparecidos, ansiando o dia que a Vó ia acender um fogo lá no fim do terreiro e as bichinhas ficariam pretinhas de tão tostadas. Aí todo mundo se juntava no chão, munidos de alguma pedra pra tirar as castanhas da casca. A Vó dizia pra não comer naquela hora, só depois: “tá quente, vai dar dor de barriga”, dizia com meiguice a minha miudinha.

Tinha vez que o pai vinha pegar isca pra pescaria do dia seguinte. Ficava com dó das minhocas se remexendo na lata que era uma espécie de minhocário do pai. O terreiro guardava sempre um espaço encharcado por causa do lavador de roupa, porque o chão do terreiro tinha cimento não, então as bichinhas se procriavam pra valer. Eu ajudava na caça, mas ficava com pena. O pai dizia que os peixes não iam aparecer se não lhes dessem comida e as minhocas serviam pra isso.

Naquele tempo o supermercado só tinha na rua. A rua era longe. Então e eu gostava de ir na venda comprar um pouco de óleo, ou gás pra acender o fogo de carvão da Vó. Se fosse muito o trocado dava pra trazer um copo cheio. Mas se faltava um tostão, o Seu Eustáquio anotava no fiado.

De tardezinha, de banho tomado, a gente sentava com o Vô na calçada, enquanto ele tinha conversa com todo caminhante. Eu pensava que quando fosse grande ia querer conhecer um tantão de gente assim. O homem do quebra-queixo passava e não tinha jeito do Vô escapar. “Vocês me aperreiam demais”, dizia ele já trazendo as moedas pra fora do bolso. E logo viria o carro do pão, porque padaria não tinha por perto. Mas o homem do pão já sabia e se o Vô não tava na calçada, lá de dentro se ouvia um grito: “Seu Antônio, vai um pãozinho hoje?”.

Depois de jantar, a gente ainda brincava um pouco antes de ser intimado a entrar em casa. Brincava de boto, se esconder ou então sentava na calçada pra contar estória de trancoso. Era cada bicho feio que tinha nas estórias dos meninos! Na minha cama, espiando o telhado  antes do sono chegar, eu sempre esperava que um monstro daqueles viesse se vingar porque a gente tava maculando a figura dele... Mas logo o sono me pegava no colo e afugentava qualquer bicho feio.

Gostava mesmo era daquele tempo...


LÁ NO RELICÁRIO:  OS VERBOS DELA...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A REVOLUÇÃO DOS COQUEIROS

OS LÍDERES DO MOVIMENTO

Revista diz que Alagoas não acompanha crescimento do Nordeste” é a manchete num site das bandas de cá, publicando uma matéria da revista Valor Econômico que veio esmiuçar os porquês do nosso maltratado estado não desempacar.

Jura que precisava mesmo alguém vir aqui com esses pormenores? Fosse eu uma analista econômica e social craque feito o Leonel, comentaria com garbo, elegância e revolta os mínimos detalhes da referida matéria. Mas não curto estatísticas, não as compreendo e na verdade gosto de ver a prática das tais.

Nos comentários relacionados, um sujeito leitor afirmou que a únicas coisas crescentes por aqui são a corrupção e os coqueiros. Amei isso! Está na hora de se tomar um atitude. É preciso uma revolução, urgente! Acabaremos com esses desmandos com a população, com o meio ambiente, revolucionaremos geral! Se não formos nós, que sejam os coqueiros os rebeldes revolucionários.

Pois se os coqueiros pudessem, já não teriam partido em busca de outros litorais? Sergipe é bem ali, um negocinho minúsculo, porém estruturado, todo arrumadinho. Meu irmão sempre reserva uma semana dos seus janeiros a fim de passear por lá e não se arrepende. Mas faltam os coqueiros. A praia de Atalaia é um imenso território de areia até se poder chegar ao mar – assim ouvi dizer – e a presença de um bom esquadrão de coqueiros viria a deixar o lugar ainda mais convidativo.

A natureza foi mãe de Alagoas. Fez bacaninha os seus desenhos. Pintou um mar em cores únicas. Seus coqueiros bailam caprichosamente. Mas a natureza sozinha não pode fazer todo o trabalho, é preciso uma interação, cumplicidade e o sujeito homem já provou em equação exata que não está muito a fim dessa novela bem intencionada.

Não importa pra eles, os poderosos da vez, se o carnaval partiu dessa pra melhor. Continuam as máscaras, informes mentirosos sobre o desenvolvimento, falsas promessas...  E desse jeito se perpetuam no poder as velhas e destemidas raposas, os capatazes dos currais eleitorais, que pouco se importam com as reais condições humanas e estruturais do lugarzinho abençoado por Deus, saqueado, depenado pela mão maquiavélica dos filhos Dele. Os moços se revezam em prefeituras, câmara estadual, federal, senado, ministérios e nós aqui, menos ativos que os coqueiros, corroborando com tudo.

Houvesse um desfile carnavalesco dos estados brasileiros, ganharíamos estandarte de lata nos quesitos educação (somos os piores, segundo o MEC), violência (por aqui matar virou o esporte da moda – somos os mais violentos, segundo muita gente), corrupção (melhor nem comentar), entre outros tantos itens importantes.

Quando eles se forem numa imensa caravana, os coqueiros, em busca de um litoral mais acolhedor, com melhores incentivos fiscais, menos corrupção, vou junto com eles. Portarei cartazes com os dizeres “SOMOS PLANTAS, MAS NÃO SOMOS ANTAS”, “NOSSA SOMBRA TEM MAIS VIDA, NOSSOS COCOS MAIS SABORES”, “ABAIXO A CORRUPÇAO, SALVEM O COQUEIRÃO”...

Enquanto isso, seguimos nessa interminável peça teatral, onde o povo cumpre única e exclusivamente o infinito papel de bobo da corte. Infinito enquanto dure, diria o poetinha.






sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

OUTROS CARNAVAIS...



Tenho uma imensa dívida de gratidão com quem num dia sem absolutamente nada melhor pra fazer, decidiu que era preciso parar cinco dias de todo fevereiro a fim de se dedicar aos prazeres mais frívolos. Beber, cair, levantar... É o lema. É carnaval. Então o sujeito genial deve ter pensado: “o ano começa em primeiro de janeiro, é fato, mas podemos fingir esse começo e seguir empurrando com a barriga até passar a maior festa profana do planeta, só depois pensaremos no que fazer a fim de movimentar os ponteiros nessa terra de tolos”... Imagina isso lá no Japão, o país parando uma semana para se correr atrás do trio elétrico de última geração? Adoro essa disposição festiva do nosso povo.

O fato é: fez-se o carnaval. Fez-se a folia pra muitos e o completo ócio sem nenhum remorso para outros, como euzinha. Se fizer uma pequena viagem de volta lá nas minhas lembranças, sorrirei a saudade lembrando as caras sujas de maisena, as xiringas de plástico (eu não sei como escreve esse troço), objeto de desejo de todas as crianças para se molharem mutuamente. Os mais velhos alertavam para o cuidado necessário, pois no carnaval as pessoas perdiam a noção, bebiam muito e saiam por aí a cometer loucuras, então o bom era sempre brincar por perto e correr pra casa na menor ameaça de insanidade carnavalesca. Se eles sonhassem que perder a noção e cometer absurdez se tornaria rotina diária.

O período carnaval-litorâneo é marca jamais apagada na minha memória. Viagens animadíssimas, barulho, batucada, "quanto riso, oh, quanta alegria"... Tantas noites mal dormidas, deliciosamente bem vividas. Música, lua, sol... Mar! Ele estava lá todos os dias me esperando para acordá-lo e vê-lo deitar. Éramos jovens, éramos livres, fomos intensos.

Hoje o meu carnaval é sinônimo de dormir muito, alguns encontros descontraídos e o eterno agradecimento ao cabra inventador do feriadíssimo por me dar tantos dias ociosos sem motivo aparente. Os carros partem todos para o litoral e a cidade fica numa semi-tranquilidade, porque tranqüilidade absoluta só se encontra nos sonhos mais remotos. Que os céus abençoem aos viajantes carnavalescos. Boa folia responsável para todos. Se dirigirem, não bebam, se beberem não me chamem porque a Vê é braba.

E na quinta-feira aguardaremos o efetivo início do ano de dois mil e doze, caso o motor da engrenagem não tarde esse processo... Será? Pensando bem, vou querer é dez dias de folga, feito meus queridos lá de Brasília. Eu os compreendo, trabalham tanto, tadinhos. Essa carga horária de dois dias semanais é desumana, precisam mesmo se esbaldar por aí nos camarotes soteropolitanos, cariocas, recifenses. Carecem se distrair, são filhos de Deus, são filhos delas, aquelas moças que prestam favores pessoais em troca de uns bons reais. Mas elas, as moças prestadoras de serviços íntimos, não estão lá muito felizes com essa atribuição de maternidade. Preocupam-se com a sua reputação. Ouvi dizer...

E pra não deixar transparecer uma indiferença irreal para com estes festejos sagradamente profanos, trarei Paulinho da Viola para musicar essa postagem, no seu clássico e lindíssimo “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”... Sou uma alagoana que ama o Botafogo e a Portela, sim senhor!

E meu coração se deixou levar...




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

SOBRE O RISO, O OVO E A FALTA DE NOVIDADE



Fim de noite, meus pensamentos chatinhos deveriam estar desmaiando de sono, mas não cedem e eu fico aqui, confabulando comigo mesma sobre o quase nada. Antes dessa conversa emimesmada, proseava com Denise, na tentativa de não deixá-la ir dormir, afinal no meu relógio ainda nem era meia noite...

Falava sobre o quanto me causa trauma responder à pergunta “quais as novidades?”... Acho que sou a pessoa mais sem novidades dessa terra redondamente chata. Meu amigo Edvaldo tem a petulância de me ligar só pra lançar a pergunta infame, pois sabe o quanto me agrada. Vou pensar na hipótese de elaborar uma listinha de pequenas novidades desinteressantes, assim terei resposta na ponta da língua quando for questionada. Direi “Ah, não te contei ainda?”... E lanço qualquer bobagem com cara de novidade repetida.

O papo seguia e falávamos sobre o riso largo substituindo a vontade de deixar correrem as lágrimas. Ora! Quem já não sentiu essa comichão por chorar e desandou a rir sem parar? O riso é mágico. Se ele não anula por completo a tristeza, ao menos atua como um bálsamo e faz tudo parecer até suportável. Pra não deixar a dita cuja (tristeza) fazer morada e o riso largado, gargalhada despudorada, é um “agitório” e tanto... Agitório é uma palavrinha usada pela minha vó miudinha se referindo a algo que poderia ajudar numa determinada situação. Se no almoço a “mistura” não era suficiente, o ovo podia bem ser um “agitório”... Podia sim.

Novidade (falta dela), riso, tristeza... Ovo. Não sei como a prosa emimesmada trilhou esse caminho. Preciso arrumar um inspetor pras minhas palavras, elas adolesceram. O fato é que bateu saudade da vó, do minúsculo quarto de costura, onde eu me sentava no batente da porta a recolher os seus retalhos pra fazer roupinhas de boneca. E ela me ensinava a chulear, fazer pontos de espinha de peixe. E eu bagunçava a máquina dela, que sempre tentava lançar um olhar bravo, mas aqueles olhinhos sorridentes não nunca conseguiam completar a missão. Então compreendi a tristeza risonha da Denise, a impotência com a qual somos acometidos quando temos que desatar os laços. Tenho imensa dificuldade em desatar os laços, embora saiba que isso ocorre alheio à minha vontade.

Me despeço com a frase bacaninha deixada pela Denise lá no meu mural, antes de levar sua ansiedade risonha pra ir dormir: “A tristeza é um muro entre dois jardins”... Após a frase de Gibran, ela disse: “Vale apena não, né Mi?”... Vale não, Denise, vale não!

O amanhã nos reserva um imenso cesto de risos, amém!


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

RUDOLPH E A BRUXINHA - Sob a Oliveira de Flores Rosadas

QUERIDOS AMIGOS COMENTADORES DO POST "IMENSOS PEDAÇOS DE AMOR", COMO EXPLIQUEI, AQUELA HOMENAGEM DEVERIA DESDE SEMPRE ESTAR NO SETE RAMOS, MAS POR MOTIVOS DE MALUQUICE DESSA QUE VOS FALA, NÃO FOI POSSÍVEL FAZÊ-LO ONTEM. AGORA TUDO ESTÁ EM ORDEM E A POSTAGEM ESTÁ ONDE É DEVIDO. OBRIGADA A QUEM VEIO...



Enquanto fazia seu passeio vespertino, brincando com as flores do campo, a menina torcia por outra combinação celeste naquele dia. Era treze de fevereiro, aniversário de Rudolph e na cesta havia muito mais que sessenta e seis motivos para um abraço afetuoso. Pediu à mãe que fizesse um pequeno bolo. Ela mesma se encarregou dos docinhos e demais guloseimas para um delicioso piquenique sob o pé de oliveira de flores rosadas, que inexplicavelmente havia brotado depois daquele encontro no natal do ano passado, quando os dois, juntos, fizeram correr de medo uma nuvem negra metida à vilã.

Enraizou-se ali bem mais que uma planta com características incomuns. Nasceu verdadeiramente uma amizade carregada em afeto e cumplicidade. A partir de então, estiveram amorosamente presentes na vida um do outro, vivenciando sonhos, risos, abraços, apoio...

A bruxinha trilhava o caminho até o pé de oliveira e lembrava-se do quanto adorava ser ouvinte das histórias de Rudolph. Nesses momentos seus olhinhos sorridentes brilhavam e o pensamento caminhava pelos ares, pegando carona nos aviões viajantes dele, pousando em desertos povoados por sisudos camelos, ou brincando com num solo cobertinho de neve.  Ele parecia um personagem de filmes da Sessão da Tarde, aqueles moços adoradores de aventura.

Versos, sonetos, sextilhas, notas, músicas, musas, estrelas, sonhos. Parecia caber o mundo na mente daquele homem e a menina costumava beber cada letra num encantamento comovente. Para ela, o amigo guardava em si todas as respostas do mundo e estando por perto era uma oportunidade de mergulhar nesse mar de sabedoria.

Neste dia especial ela não o cansaria pedindo para repetir suas histórias. Cantaria, desafinada e contente, uma cantiga singela falando de sapos e pererecas que adoram dançar e depois leria um poema, daqueles desinventados, falando em flores impetuosas que só nascem quando bem querem.

Sob a árvore que simbolizava aquela amizade ela já o avistava. Apressava os passinhos auxiliados pelas muletinhas travessas, queria logo abraçar o amigo e dizer que lá no céu, todas aquelas nuvens cheinhas, estavam todas carregadas das bênçãos que cairiam sobre ele, naquela agradável tarde de fevereiro do seu aniversário.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SEGUNDA DE FILME E FEIRA



Fiz prática da ditadura escrita. Exigi que me voltassem as palavras e elas, coagidas, cederam ao meu poder inquestionável. Não perguntei por onde andaram, por alguns momentos desejei que por lá ficassem, mas, arrependida, supliquei o retorno.

Denise disse assim: “Você vai se reconciliar com as suas palavras, elas me fazem mais feliz”... Abri um sorriso constrangedoramente feliz e fui buscá-las de volta para o ninho.  

Hoje foi um daqueles dias em que eu pagaria pra não sair de casa, mas a urgência não me permitiu a folga. Todas as segundas acontece a feira livre da cidade, diferente das existentes nos bairros, cada uma com seu dia particular.  Arapiraca já foi famosa pela sua feira, considerada a maior do Nordeste e eu vivi isso e perto quando acompanhava meu pai nessa dura, porém divertida função. Adorava aquela torre de babel, que ao contrário da bíblica, todos os seus participantes se compreendiam em meio à imensa falação. Me divertia ouvir meu pai tentando se fazer ouvir no clássico “moça bonita não paga, mas também não leva”. Adorava também todas as coisas engordativas compradas por ele, enquanto eu permanecia sobre as suas caixas de madeira, como um enfeite mimoso.

Revivi tudo isso nesta segunda-feira, mas apenas dentro da minha memória cheia de saudade. A feira já não é famosa, já não carrega o charme rústico de outrora, nem a camaradagem e espirituosidade dos seus componentes. Caminhei por ela porque o meu destino pedia isso... Deveria chegar a dois laboratórios e oferecer meus bracinhos fofos ao sacrifício. Me senti a própria vítima do Drácula imaginando meu sangue preencher quatro tubinhos daqueles, apenas no primeiro laboratório. Somente imaginei porque eu não tenho coragem de olhar esse vampirismo. Mas as pessoas por lá eram tão simpáticas e educadas que eu teria deixado me tirarem um litro de sangue sem reclamação alguma. O moço, vampiro de mim, de tão gentil quase me fez apaixonar à primeira dentada. No segundo laboratório deixei o Drácula para trás e me senti em “A Espera de Um Milagre”.  O assento preto bem parecia uma cadeira elétrica e eu prontamente ofereci meu braço direito, antes que algum desavisado ativasse qualquer coisa que levasse euzinha para o além.

Coincidentemente os dois laboratórios são localizados na mesma região, ambos embaralhados com a feira, mas não tão perto que eu pudesse seguir a pé. Feito a Angélica, porém com a pinta oculta, fui de táxi de um canto a outro.  O condutor (acho uma lindeza esse nome) era um sujeito daqueles que devia existir aos montes. A todos os pedestres na aflitiva espera para atravessar, generosamente parava e acenava para que o fizessem. As senhorinhas agradeciam com um sorriso e logo mais ali na frente, o gesto se repetia. Mais tarde era a vez do meu sensível coração ser analisado. Estendi-me na maca toda trabalhada nos negocinhos eletrônicos em pulso, tornozelo e peito nu. Estaria chegando o momento “Silêncio dos Inocentes”?

Findada a sessão cinema da vida real, voltei pra casa no mesmo bat-táxi , vestida num calor infernal pensando que se os meus próximos exames forem marcados num dia qualquer entre terça e sexta e bem longe da região da feira desprovida de charme, vou ficar bem feliz...

Uns beijos!


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

TRISTESSE IN DUO...

CONVITE À TRISTEZA

Vai-te, mulher lacrimosa,
Aqui não foste chamada
Nem em verso, nem em prosa,
Bateste em porta errada.

Não guardo dentro do peito
Nenhum lugar para ti,
Nem te reservo o direito
De descansares aqui.

Talvez umas visitinhas
Quando quaisquer musas minhas
Dos meus versos se esquecerem;

Mas te convido à saída
Assim que a Beleza e a Vida
À minha porta baterem.


Me dando a honra da sua presença, 
varrendo comigo todo e qualquer vestígio em pó de tristeza...
Fevereiro de 2012



Dissimulada, fica à espreita de mim no afã de uma sedução desesperada. Não me entrego, comigo a fulana não se cria! Posso até suportar a sua presença escurecendo o céu sobre minha cabeça, mas logo o vento amigo a empurra para bem longe e tudo fica ensolarado outra vez. Das minhas dores ela não se alimenta, não senhor! Escapo, lisa, feito o Mané driblando os joões. Suplica o meu choro e eu desdenho das suas investidas patéticas, dou de ombros, rodopio na chuva... Deliciosamente louca, danço à vida, canto a canção sentida, do amor que espalharei só pelo tempo da minha existência. Lacrimeja desgostosa, porque minha alma tem choro breve, que logo evapora quando mais uma vez me beija o vento, adorável protetor. A melancolia em mim não faz morada, é chuva passageira e quando insinua demora eu escancaro a porta e aponto gentilmente a saída. Peço que vá embora e não volte nunca mais. Acontece que ela, a tristeza, é assim... Finge aceitar o fim, mas se esconde, sorrateira, à espreita de mim. Não vê que sou camponesa a cultivar pés de alegria?




Tem Rita Lee, adoravelmente louca, no Relicário...