quinta-feira, 29 de março de 2012

NOTÍCIA VELHA


MILLOR FERNANDES

Tudo já foi dito sobre os assuntos em pauta nesse Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro, que só não cantarei nos versos de Ary Barroso para não assustá-lo com minha voz desentoada.  Morreram Chico Anísio (achei fantástica essa frase, ao ponto de roubá-la). Nem meu amantíssimo Alberto Roberto ficou por aqui para representar. A impressão é que ele, o Chico, viveu mesmo mais de duzentas vidas, tamanha foi a doação em tudo que se propôs a fazer... Definitivamente ele não passou pela vida em brancas nuvens.

E hoje partiu Millor Fernandes. Encontro dos bons lá em cima. Conversa animada não faltará. Minha intimidade com Millor Fernandes é quase nada, vou poupar vossos olhos dos meus comentários vazios. Aliás, estou nesse momento um tanto constrangida porque após ter lido um sujeito questionando o povo brasileiro e a sua culpa quanto aos descaminhos do país. “Político não passa em concurso público, ele é eleito” dizia o fulano, feito apontasse o dedo na cara do Brasil. Ele se queixa do povo que sabe quem é o vencedor do Big Brother Brasil, torce absurdamente para alguém ganhar um milhão e meio de reais sem esforço nenhum e esse mesmo povo não conhecer nada dos seus livros... Coisa feia, povo! Coisa feia, Milene! Por isso que o país está nesse caos continuado, você e outros alienados da sua espécie tem muita responsabilidade nisso tudo, pois perdem em média uma hora por dia dando audiência a um produto tão baixo nível. Há doze anos, antes dessa invencionice televisiva, tudo aqui funcionava perfeitamente. Não havia corrupção. Não havia maus políticos. E todo o povo adorava a literatura clássica, contemporânea e etecétera... Mas amanhã o espírito erudito voltará a reinar, o famigerado programa acabará e tudo será perfeito como antes.

Como falar em maus políticos sem citar o meu amado, idolatrado, salve, salve, estado de Alagoas? O CQC esteve por aqui numa prosa com os moços do legislativo e mais uma vez essa pequena extensão territorial ganhou destaque nacional. Que vergonha!!! Por que, me digam porque num país repleto de políticos da pior espécie (se é que algum lugar existem os de boa safra) justamente por aqui um deles resolve admitir o que até meu sobrinho de dois anos, o Davi e seus cabelos cacheados, já sabe? O sujeito bizarro falou com todas as letras que no Nordeste se compra votos. Que novidade, heim? Euzinha e minha hipertensão quase não nos aguentamos. Sou do tempo em que os caras faziam pose de bons samaritanos, beijavam as cabeças feridentas das crianças nas periferias e jurava amor eterno até o fim da eleição. Agora tanto trabalho é desnecessário, os caras não precisam mais disfarçar a absoluta falta de boa intenção (estou bondosa hoje). Ah, meu pedaço de chão tão sofrido, até quando? Estamos anestesiados? Vampirizaram nossa capacidade de indignação?

Enquanto isso, nas rede sociais, jovens uniformizados em preto e branco, alviverde, rubronegro ou tricoloridos, combinam mais uma batalha para promover a morte de alguns, a imbecilidade de todos... “Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações”, cantou Renato Russo, que se foi sem jamais ter  ido.

Outras velhas notícias mereceriam um comentário, mas estou cansada... Muito cansada do quase nada. Boa noite...


sábado, 24 de março de 2012

NAVEGANTES



Firmaram o pacto sem muita palavra que o dissesse, sem contrato de registro no cartório da bem querência ou depósito antecipado como garantia de reciprocidade. O pacto nasceu em meio à precisão de ambos por amornar o destempero das ideias. O pacto veio pra ser uma espécie de guarda-costas dos fantasmas cultivados naquelas almas. Como se quando um não tivesse suportando o seu próprio bicho-papão interior entregasse aos cuidados do outro, pelo menos por uns passos da longa caminhada.

O pacto que se firmou ganhou vontade própria, quis ser pra sempre, acolheu as angústias daqueles dois, a insanidade inerente à condição de estarem vivos e mostrou-lhes a facilidade do caminho quando se trilha juntos. Firmaram apoio mútuo até a ribanceira do tempo, se preciso fosse. A linha tênue entre a lucidez e a maluquez permanecia acesa, instigando desassossego. O coração, aflito sussurrava um grito de socorro e lá de longe, por trás de tantas montanhas e sem fim, era alegre quando o outro escutava o chamado e socorria ligeiro, como se toda a vida estivesse ali aquela mão estendida...

E um dia, quando tivessem ido todas as noites escuras, quando o passar das horas não fosse mais que minúsculas contas no colar do tempo, quando todos os porquês se apresentassem para compreensão, volitariam sobre a imensidão dos mares, de mãos entrelaçadas como houvera sido por todo o tempo.




segunda-feira, 19 de março de 2012

O RETRATISTA DE OSSOS



Se me é dada uma chance, empurro qualquer compromisso até a ribanceira do calendário. Marcaram mais um dos meus pré-operatórios, o bendito raio-x do tórax, o qual me trazia lembranças traumáticas. Minhas memórias recentes guardam mais carinho pela temida endoscopia digestiva, do que pelo cabuloso em questão.

Pela terceira vez remarcado, não pude mais adiar, mas saí de casa reclamando feito um bebê chorão falando pra mãe que ia passar por tudo aquilo de novo, sentir dor na coluna por ter que ficar de pé sem as minhas parceiras prateadas, tantas vezes quantas fossem necessárias até ficarem bacaninhas as fotografias da minha ossada.

- Mas tem que ir, né fia?

Fui! Nem esperei muito na recepção e o moço chamou.

- Vamos pra guerra, Dona Milene? - Era bem isso mesmo. Como ele havia adivinhado?
- Mas tu promete não judiar tanto de mim?
- Diga aí quem ousou judiar da senhora e eu vou lá dar umas porradas agora.

A simpatia do retratista de ossos me desmontou. Tudo passou rápido e quando eu ficava cansada berrava pra ele me socorrer. Ríamos feito dois velhos conhecidos. Minha prima Aline ria de nós dois, malucos, cada um tentando desempenhar bem o seu papel. Ele me assistia da melhor forma possível, eu procurava caprichar nas poses, até tudo estar supostamente concluído, esperando apenas o crivo do médico. Logo me aparece o moço me dizendo apenas um sorriso... Sem mais, compreendi a necessidade do repeteco.

- Eu sabia que estava fácil demais... lá vem tortura
- É que a senhora tem muita carne, aí não ficou uma visualização tão clara, entende? Agora pare de reclamar e venha logo posar pra mim.
- Eu vou, mas se tu me chamar de senhora gorda de novo, te meto um processo! Sou senhorita levemente rechonchuda.

Ele riu uns dois litros, se defendendo por ter tentado justificar o exame pouco evidente sem apontar a minha fofurice. Depois da última ida para verificação e aceitação do médico, estava tudo bacaninha. A Aline então  comentou que tudo havia sido mais fácil por causa do jeito espontâneo dele. Envolto numa repentina seriedade, falou:

- Sabe por que tento ser assim? Aqui vem pessoas que nem vocês, mas também vem um monte de gente com muito problema de saúde. As pessoas chegam ácidas e querem descontar na gente. Já pensou se eu pego tudo isso, guardo e levo pra casa, ou então rebato e devolvo com o dobro de grosseria a quem já está com a vida tão ruim? Seria um fardo muito pesado. Quando eu vou na U.T.I tento levar esse espírito também. Os caras estão lá, gritando de dor, sem esperança nenhuma e eu brinco, dizendo pra não eles morrerem agora, porque depois vou voltar pra realizar outros exames. E a gente vê as pessoas agonizando, morrendo, sem poder fazer nada. Quando eu posso, vou lá quietinho rezar um Pai Nosso pra quem está mais precisado. Mesmo quando me lembro da minha mãe sendo consumida por um câncer até a morte, procuro pensar sem rancor... Meu sorriso é a minha arma pra não sucumbir... Aqui tem muita tristeza.

Se for a isso que chamam de auto-ajuda, eu aplaudo, eufórica. Palavras vivas se sobrepondo às  páginas frias de um livro cheio de receitas mágicas sobre como sorrir, acenar e ser uma pessoa vitoriosa diante dos problemas.

Gente assim pinta o mundo numa poesia tão linda que todas as estranhezas, por instantes que sejam, se encolhem cheias de remorso por suas vis tentativas em fazer da vida um gigantesco pote de fel. 



quinta-feira, 15 de março de 2012

ARREMEDO


Quisera eu ter um poema
Torto, forte e vermelho
Em rimas, versos pequenos
Cantado em frente ao espelho

Versos que sejam só meus
E de quem mais os quisesse
Paridos em becos e breus
Sentidos feito uma prece

Em gritos fortes, o amor
Beijos de morte, agonia
Olhando os olhos da dor
Vingou, valente, poesia!


O meu arremedo nasceu ontem, sob o acompanhamento dedicado do Rodolfo, me conduzindo como numa valsa, orientando sobre métricas e rimas. Fingi, feito os poetas, compreender tudo dos seus ensinamentos. Simone garimpou a trilha sonora. A memória musical dessa moça, aliada a sua capacidade de conseguir a perfeição na sintonia entre texto e canção impressiona. Essa postagem está aí, está assim, porque eu definitivamente não sei praticar a arte de caminhar sozinha... Versejar é coisa séria, é preciso não macular o seu santo nome... Nem toda palavra rimada e arrumada encontra abrigo onde é a casa da poesia. Hoje, mais do que querer, precisei cometer essa afronta poética. Perdoem-me, deuses da poesia, eu não sei o que faço... Mas insisto em fazê-lo.






quarta-feira, 14 de março de 2012

BOM TOM OU BOM SENSO?



Não lembro quem ou quando, mas um dia me disseram que as listras, pobres listinhas horizontais, eram inimigas de toda a minha vida excessivamente fofa. Elas aumentavam uns quilinhos e isso me incluía no roll dos desafortunados demodés. Eu gostava das bichinhas, mas se o povo fashion falasse que eram proibidas pra mim, eu fingia odiá-las.

Ah, as ditaduras de comportamento, como me causam preguiça! Aos poucos fui percebendo que meu corpo é feito coração de mãe, haverá sempre um lugar cativo para os quilos desconvidados, até a minha irrefutável decisão de expulsá-los. Acabei por aderir às listras, sem culpa alguma, mandando às favas quem ousasse podar minhas escolhas pouco aconselháveis para quem caminha à margem dos padrões.

Andava pensando em dissertar sobre o tema, munida de um intenso desconhecimento na causa, pois de modinhas e tendências entendo lhufas.  Ter visto esse vídeo lá no blog novo do Rike me despertou fortemente a intenção de plágio temático. Querendo, vejam lá que massa  a cara da “repórter” na intenção desastrada de oferecer consulta de moda à uma transeunte... O vídeo é curtinho e bacaninha.

A sensação é a de que temos que carregar, feito uma Bíblia, um livrão do tipo pode-não pode. Há regras de vestimenta para gordinhas, baixinhas, negras, loiras, altas, magrinhas, mulheres de ancas avantajadas, peitudas, cabeludas, as de cabelo curto... Ufa! Glorinha Kalil deve ter uma vida muito ocupada, isso dá um trabalho da gota!

Solidária com essa árdua missão, consciente de que é dever de nós blogueiros provocarmos reflexões, instigarmos e observarmos o comportamento humano, nós que praticamente formamos uma espécie de sociedade antropológica virtual, proponho uma intensa pausa para pensarmos acerca desse tema tão relevante, os tons, os bons e as etiquetas. Cá com meus botões reflexivos, pensei: Enquanto Isaac Newton despertava a criação da sua Lei da Gravidade, observando a queda da maçã universal, talvez um sujeito em outro canto do mundo já tivesse arquitetando as famigeradas leis da etiqueta. Não, né? Essa teoria fabulosa deve ter surgido muito tempo depois. Mas, enfim, o cabra, depois de sentar-se à mesa provavelmente cheio de vermes, o que deve ter lhe tirado completamente o apetite, encontrou tempo para iniciar a construção da cartilha do “bom tom”. Inventou um milhão de talheres, duas centenas de copos para a mesma refeição e sugeriu a condenação máxima para quem ousasse usar a faca na mão errada. Facas na mão esquerda, sempre! Cotovelos à mesa, nunca! Guardanapos sei lá aonde... 

Devo imediatamente pedir asilo político numa tribo indígena da Bolívia, pois eu, ré confessa, proferi intensas facadas na minha porção de carne grelhada, usando a mão direita. Clemência, eu imploro a Glorinha Kalil, patrulheira-mor dos tons, bons ou não. Postei o garfo na mão direita, finquei-o na carne e passei-lhe a faca sem dó nem piedade. Considerando o pouco tempo do ocorrido, é possível que eu vá embora, bem ligeiro, a fim de não ser presa em flagrante delito... Só não sei se usarei listras horizontais azuis ou vermelhas. Oh, dúvida cruel!

Mas não irei sem antes proferir meu grito de guerra do dia:

ÀS FAVAS O BOM TOM! VIVA O BOM SENSO!
Beijos fugitivos!


domingo, 11 de março de 2012

POIS É!

Telejornais me causam uma certa depressão. Gosto mais das fantasias das novelas, onde os homens maus são punidos no final e o bem (quase) sempre prevalece. Telejornais mostram a face dura e feia do cotidiano, como funciona de fato a sociedade e, confesso, oscilo sempre entre a ojeriza e o medo... Medo de saber pra qual buraco sem fundo caminha a humanidade.

Uma matéria, na noite de ontem, mostrava um rapaz, cadeirante, tentando pegar um busão lá na cidade maravilhosa, São Sebastião do Rio de Janeiro. O resultado foi constrangedor, é claro como a mais pura água cristalina. As tentativas obtiveram resultados incríveis. Numa delas o motorista não tinha a chave pra fazer funcionar o bendito elevador. Em outras os motoristas não conseguiam estacionar direito, de modo que o elevador ficasse sincronizadinho com a calçada. O povo lá de dentro pressionava o moço pra tentar subir mesmo assim, eles estavam com pressa, queriam chegar aos seus destinos. O moço respondia que daquele jeito cairia. Um dos motoristas discutiu com o rapaz, ele estava atrapalhando a vida de todo mundo. O negócio enguiçou, não dava mais pra baixar por completo, nem içava. O povo, desigualmente dividido entre os que apoiavam o rapaz e os que o rechaçavam, foram conduzidos a outro ônibus... Aquele demoraria a ser posto novamente em movimento.

As pessoas desciam inconformadas. Elas estavam com mais pressa, queriam chegar aos seus trabalhos. Aquele moço doente – feito se referiu uma senhora – estava ali embaçando a vida corrida deles. Ele respondia que só queria poder pegar uma condução, afinal era um trabalhador, pagador de impostos como todo mundo ali.

Talvez o esperado fosse que ele não tivesse insistido tanto. E tivesse se constrangido por causar aquele transtorno absurdo, ao invés de estar em casa, confortável no sofá, recebendo pensão do INSS, como tantas vezes já me sugeriram. Do que adianta falar-se tanto em educação inclusiva se a sociedade é, foi e sempre será excludente? As palavras são lindas, as leis muitíssimo bem intencionadas, mas parece virem com dizeres implícitos, insinuando que se o cabra puder ser só um pouco deficiente, vai ser melhor pra todo mundo.

Escrevo esse texto depois de ler notícias sobre moradores de rua queimados e mortos no Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal. Será esse um novo esporte o qual desconheço? Li também de um jovem morto à pedradas no Iraque por ser considerado emo... Escrevo esse texto ouvindo Rolando Boldrin, pessoa igual não há no quesito leituras de textos a nos socarem a boca do estômago.

O Boldrin que ouço foi garimpado por um homem chamado João Pedro Almeida, cuja idade é apenas dezesseis anos, autor de um texto hospedado lá no Relicário, o qual eu adoraria que todos fossem ler. A mãe dele, a nossa amiga Si, duvida agora dessa pouca idade. Eu acho que ele já viveu umas quatro décadas, passeando em vários territórios mundo a fora e moldou por aí essa  personalidade crítica, consciente, de um cidadão de verdade.

Lendo esse menino, eu até tenho menos vergonha de mim.





quinta-feira, 8 de março de 2012

ANÚNCIO DO DIA OITO




Troca-se quaisquer homenagens às mulheres, em virtude desse oito de março, por um punhado de atitudes que reflitam na sua condição de igualdade na sociedade. E tal condição implica em atentar e respeitar as peculiaridades do sexo que um dia mentiram “frágil”, cuja força gerou-se única.

Troca-se isso e mais aquilo por leis que efetivamente as protejam contra os atos de braveza covarde dos que um dia mentiram “sexo forte”. Sublime será o dia em que pessoas não mais serão surradas e mortas pelo simples fato da natureza ter-lhes dado a condição de mulher.

Troca-se datas e simbologias pela total ausência de espanto quando uma mulher se tornar presidente da república, ou chefe de estado da nação mais poderosa do planeta, ou a primeira dama do mesmo.

Troca-se flores e bombons, canções e poemas, pelo tempo em que a sociedade tratará mulheres, gays e negros com ações bem mais normais do que lhes oferecerem datas simbólicas como meio para se desculpar por todo o tempo ter sido tão preconceituosa e vil.

Troca-se os imensuráveis “parabéns” num dia supostamente especial, pelo reconhecimento de que ser mulher, mãe, filha, profissional, estudante, parceira, fêmea... é digna de aplauso, cumplicidade e admiração diária. Mulheres são humanas, frágeis, fortes, falíveis, impressionantes, bravas, sensíveis, incansáveis, charmosas... Mulheres são maravilhas todos os dias.


Obrigada aos meus primos queridos, Renato e Cida, 
por mexerem no caldeirão das minhas ideias...


terça-feira, 6 de março de 2012

A CHUVA, O SORVETE, A CANÇÃO AZUL...


DEVIDAMENTE ROUBADA DAS PÁGINAS ALHEIAS... 
MAS BEM QUE PODERIAM SER AS MINHAS, ESTÃO BONITINHAS ASSIM.

Dia desses, para desavermelhar por um breve tempo as minhas unhas, escolhi um pretíssimo. Meu irmão disse que aquela cor é “out”, falou pra eu procurar algo mais fashion e qualquer dúvida perguntasse pra Vitória, a sua primogênita de onze anos. A semi-pré-adolescente entende tudinho do negócio.

Pois bem! Estou aqui me sentindo no céu, com as mocinhas todas pintadinhas de azul e um glitter pra arrematar. Eu as olho e estranho. Quero que os dias se passem logo e o vermelho possa outra vez tomar conta de mim. Avermelhar é bom. Azular também é bom, mas nas unhas não. Careta eu sou? Ainda se usa essa palavra? Minha sobrinha Giovanna diria que minhas teorias são “paia”, o que numa linguagem normal quer dizer justo isso: careta!

Ela não me acha careta. Diz que sou a única adulta com quem consegue ter um papo razoável e onde se encontre muitos pontos em comuns. Sinceramente não sei se posso encarar isso com tranquilidade. Serei eu uma mulher de quarentas descolada, conseguindo transitar no mundo aborrescente sem maiores traumas, ou o tempo passou, meu corpo caminhou e minha mente estagnou? Socorro! Que mêda!

Giovanna já falou pra minha cunhada que gostaria que euzinha fosse a sua mãe. “A Memem me entende...”, berra o projeto de gente nos momentos de crise existencial do tipo “ninguém me ama”. Eu bem gostaria de ter parido Mateus, mas a cegonha voou pra longe. Ingrata! Não pari ou embalei Mateus, nem Giovanna, nem Vitória... Não pari! E hoje até fico alegrinha com essa situação. Não seria muito bom abandonar a pobre criança na porta do vizinho, em plena crise de choro na madruga.

Então cá estou, a cada digitada, uma espiada no azulado cheio de glitter... E a mente me punindo por ter me entregue a uma mega taça de sorvete com direito a pedaços de chocolate branco e farelos de coco. Lasquei-me, eu sei! Tomara que minha adorável companheira vesicular não desperte.

Como eu gosto dessa chuvinha mansa de verão. Principalmente porque não temos rio para transbordar, carregar os lixos para os bueiros e virar aquele caos repetitivo por aí. Aqui a chuva conjuga apenas o seu verbo, chove e pronto. Nem é tão ruim ter apenas um laguinho bestinha, que não faz mal a ninguém. A não ser que o cabra se atreva a mergulhar acidentalmente na nossa poça gigante... Aí o lixo hospitalar se instala no organismo do pobre de Cristo, sem perdão.

Então, porque eu gosto da chuvinha mansa do verão. Por que eu tomei um delicioso sorvete e a Vê permanece adormecida. Por que eu até gostei do azul das minhas unhas, já que o azul dos meus olhos inexiste, musicarei essa postagem com Djavan e o seu Azul... Não porque eu queira falar de amor, o amor de dois, sedutor e dissimulado. Permanece a preguiça  por tempo indeterminado. É só porque meu desejo é cantar... E viver a vida sem óculos escuros, pra enxergar o céu no seu azul mais sublime.

Filosofia de quinta (ainda que hoje seja terça) à parte, vou-me em busca dos meus viveres vermelhos, azuis... Multicoloridos.

Beijos-vos!
  


domingo, 4 de março de 2012

DESCONJUGAÇÃO



Chamei minha folha de papel amarelado e o velho lápis cansado para devanearmos sobre o amor de dois. Encontro marcado para já, mas nem um só rabisco se desenha. É um completo estranho para nós essa vertente do amor, agora percebo.  Como podemos, os três, falarmos do desconhecido? Gostamos dos amares poéticos, dos seus conjugares intensos, das juras de aliança eterna enquanto dure... Mas isso é pouco para querermos compor nossa própria poesia.  É preciso um querer desmedido, um coração inquieto, incansável na arte de verbalizar amores, ainda que sejam vãs as suas tentativas. Eu, a folha pálida e o velho lápis concordamos que essa não é mais a minha condição... Algum dia teria sido? Acometi-me de uma absurda preguiça e sentar à beira do caminho nessa espera amorosa está longe de me ser aprazível. Levantei-me num impulso. Caminhei sem ao menos olhar pra trás e desejei que ele, o amor, pratique o ilusionismo em outra freguesia. Talvez um dia eu pense diferente e convoque outra vez o lápis e a folha, meus fiéis escudeiros, para dizê-lo. Talvez eu siga apenas versejando amores alheios, perfeitos ou feinhos, feito o amor da Adélia Prado nos versos lidos, do meu desejo mentido, no vídeo abaixo. Por tempos indefinidos, não vou querer um amor, seja lá de que jeito for... Invernaram os meus sentires e me agasalhei numa gigantesca e indiferente preguiça.



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