domingo, 29 de abril de 2012

ACALANTO




Toda noite se deitam
no chão do meu quintal
Iluminadas, alumiando
Um escuro que é tão meu
Tão breu
Um estranho e familiar escuro

Toda noite me trazem acalanto
Sopram meu pranto
Pro vento levar
O vento, quem sabe,
Lave meu pranto no mar
Deixe meus medos pra lá

Toda noite tomam de mim
os segredos
Regozijam desejos
Tatuam-me os beijos
E me dormem, toda noite
Estrelas.



texto bacaninha 
do Tony, 
vai lá.

sábado, 28 de abril de 2012

AS COTAS DA DISCÓRDIA




Vez ou outra eu me meto em conversas que não são minhas, expresso desimportantes opiniões acerca de muita coisa ou quase nada.

As tais cotas raciais, as cotas da discórdia, é uma dessas conversas. Tanto se ouve, tanto se diz e o imbróglio continua. Sou contra ou a favor? É simples dessa maneira? Não é simples. Não é brincadeira. É assunto sério que vai muito mais além de mero desencontro de opiniões entre repudiar ou apoiar.

Das considerações a respeito do tema, lê-se, por exemplo, que as cotas são absurdas ao  ponto de funcionarem como estimuladoras do racismo. Lê-se que se houvessem cotas para brancos, o povo logo se voltaria contra, haveria acusação de preconceito e mais uma imensidade de blablablás descabidos. “Já pensou se fosse criado o movimento dos anglo-saxônicos descendentes?”... Não acredito que li tamanha asneira. Qual seria a reclamação dos brancões? Poderiam se rebelar contra o sistema astro rei a assolar vermelhidão em suas peles translúcidas, coisa assim.

A questão é bem mais complexa do que atribuir ao negro menos capacidade intelectual e por isso, piedosamente oferecer-lhe vagas roubadas de outrem. Há quem chame os negros de “bando de hipócritas” por aceitarem a facilidade e é outra absurdez sem tamanho. Por suposta superioridade racial, um povo subjugou outro por cruéis centenas de anos, então quando não havia mais jeito de manter a situação de escravidão, sem nenhuma dignidade, abriram-lhe as portas e os lançaram aos leões. “Não querem sair do conforto do meu tronco para serem livres? Vão lá e se virem!”... E assim tem sido por todo o tempo, eles tem buscado se virar num país onde igualdade social e racial não passa de utopia. Então, também por isso eu não consigo torcer o nariz para as tais cotas da discórdia.

É obviamente injusto que um aluno anglosaxônico-descendente (só rindo), lascado de tão pobre, perca a vaga para outro apenas porque o sujeito tem uma dosagem a mais de melanina e as pequenas injustiças me causam asco. É tudo muito confuso, mas a confusão começou naquelas citadas centenas de anos, quando os portugas por cá chegaram com suas naus megalotadas de meliantes. Já previam? Talvez tenham pensado: “qualquer espécie de vagabundo que levarmos para aquela terra de futuros brincalhões serve, eles aceitarão sambando”.

Pela maioria continuaria tudo como está, rendendo-se homenagens aos negros no Treze de Maio e Vinte de Novembro e deixando cair o queixo quando um sujeito negão conseguir aparição fora da esfera esportiva, pagodeira ou policial. Pela maioria os séculos de judiação e crueldade ficariam no passado, pois os viventes de hoje não tem nada a ver com isso, afinal não escravizaram ninguém. Quem dera fosse tão simplista essa visão.

Quem dera vivêssemos num país aonde os esparadrapos não fizessem as vezes das ações efetivas para se conseguir um mínimo de decência no que se refere a igualdade social, racial, moral (querendo, siga na rima)... Não precisaríamos de cotas ou bolsas família, estiagem, tempestade, carnaval, futebol se lá nas raízes dos problemas, que são muitos, fosse aplicado um antídoto contra pragas denominadas demagogia, corrupção, alienação e vários etecéteras... Segue abaixo um comentário de um amigo, sujeito valente, importado da Mãe África, cobertinho de melanina, por quem nutro uma admiração inigualável e costumo ouvi-lo atenciosamente:

“Cuidar dos pobres é a responsabilidade do governo oferecendo uma boa educação e igualdade de chances no mercado de trabalho. Só que os pobres no Brasil são principalmente os negros. O problema não é erradicar a pobreza, o problema é a igualdade de oportunidades. Se as coisas continuarem como estão, o negro será para sempre excluído... As pessoas que são contra colocam tudo dentro da mesma cesta. Pobreza é uma coisa e danos causados ao povo negro é outra e estes danos devem ser corrigidos”.

Mais que uma opinião a fim de parecer intelectualmente apta a participar de um bate-papo-cabeça, leu-se nessa página toda vida amarelada, sensações, sentimentos e lamentos embutidos,  doloridos de espiar para os lados e visualizar tudo pintado nas cores da desigualdade.

Acometeu-me, num ímpeto, uma inquietação crônica novíssima: deverei eu elaborar um manifesto me desculpando com a sociedade brasileira por ter me feito valer das tais vagas em concurso público para os portadores de necessidades especialíssimas? Careço outra vez da ajuda dos esmiuçadores das mentes dementes... Quem eu sou? Qual a parte que me cabe desta bagaceira?

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!


sexta-feira, 27 de abril de 2012

MAIS DO MESMO




Engavetei o meu texto ultramegamaxipoético, não cumpri! Tá de castigo o sujeitinho podador dos meus quereres eruditos, porque sou bem má.

Bom, fosse eu uma garota má, não haveria recebido da Simone o singelo apelido de  “Pombinha”. Pombas são boas aves, simbolizam a paz e vários etecéteras. Gosto. Além do mais, me remete a uma coisa que eu acho muito simpática: as freiras. Elas não são coisas, pelamordeDeus, não quis insinuar isso. Eu apenas as acho parecidas, as pombas e as freiras, especialmente quando vestidas no hábito cinza. Gostava de observá-las caminhando aos pares, ligeirinhas, numa praça aqui na terrinha... Após relevantes observações deste nível, sempre recebia generosos beliscões da minha irmã, seguido de um nada sutil “sua herege”.

Talvez eu tenha descoberto a minha relevantíssma missão nessa vida. Vim ao mundo para ser a observadora-mor das redes sociais. São mesmo incríveis... E insanas. De tanto observá-las, percebo a urgência em procurar um profissional sossegador de mentes... dementes. Regina! Denise! Me acudam, pelo amor de São Luiz do Gonzaga, o Rei do Baião! Tenho percebido que sou de fato uma pessoa estranha e não sei como fazer para me adaptar. Certa vez postaram por lá, na rede social do momento, uma imagem com dizeres mais ou menos assim: “ESSA PESSOA AMA A MÃE. Se você também ama a sua mãe e não tem vergonha de dizer, compartilhe”. Gente do céu, como assim? Quem é o ignóbil que tem vergonha de gritar seu amor pela própria mãe??? Se a pessoa não praticar o compartilhamento em questão, odeia a progenitora? Céus! Entrei em profunda crise existencial, duvidando de tanto amor guardado em meu peito, pela melhor Dona Lourdes do mundo, a minha mãe.. Talvez eu até vá neste instante acordá-la e cantar, no estilo Roupa Nova de ser: “Mãe, eu te amo e vou gritar pra todo mundo ouvir”... Tenho salvação, não tenho?

Ah, é melhor confessar logo todos os meus crimes terríveis e tentar a sorte no banco dos réus virtuais. Sou forte. Eu não vi Matrix! Nunca acompanhei um capítulo inteiro do Chaves! Não sei quem foi o Mestre Yoda! Pikachu não é do meu tempo! Alguém pode me dizer quem é o Tazo? E a Tati Bernardi? Caio Fernando Abreu escreveu mesmo tudo que atribuem a ele?

Inundada por tantas inquietações, chego a duvidar do meu próprio eu interior. Quem sou? Por onde andei todo esse tempo que estive ausente dos assuntos realmente pertinentes? Me falta o léxico, preciso me reencontrar. Por que ESSA PESSOA (será que sou eu?) tem apenas a certeza de que ama verdadeiramente a sua mãe, mas não vai compartilhar por absoluta preguiça.

Vou ali. E “se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar, quando eu me encontrar”...

 Abençoadas sejam as pombas, as freiras e é claro, todas as mães desse mundão sem porteira, porque ESSA PESSOA (tô mesmo achando que sou eu) ama imensuravelmente a sua e gritará se preciso for. Gritar sem compartilhar, pode?


Beijos-vos!


segunda-feira, 23 de abril de 2012

LIVRE SOLIDÃO


Sem dor, sem lamento, sem nada... Na penumbra da sala, a mulher, a canção e a dança comungavam a solidão do ambiente em que a luz, minguante feito o luar daquela noite, não esboçava desejo em compartilhar daquele momento de absoluto deleite. A mulher havia aberto o velho baú onde mantinha aprisionados os tais sentires. Do que lhe serviam eles, amontoados, sufocando até perderem o fôlego? Saltaram contentes, e se deram as mãos numa dança cheia de sentimentalidade. Eram inquietos, insanos, pulsantes... Eram seus, os sentires e eles não a machucavam... Nem a solidão a machucava, não depois de tanto tempo a compartilharem a meia-luz daquele parco cômodo. A mulher sabia que eles logo partiriam em busca de outras canções e os esperaria ansiosa. Sem baús de madeira podre, sem porões cheirando a mofo, seriam livres e dançarinos os sentimentos de fazerem canção



sábado, 21 de abril de 2012

TOLAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DE UMA LIMONADA SEM AÇÚCAR


Vamos nós:

Pra começo de conversa, Joaquim José não podia ter incluído uma cláusula no seu contrato de morte, impedindo que nenhum vinte um de abril pousasse no fim de semana?

Vendo uma imagem inteligente lá no Facebook, onde o cavalheiro gentilmente abre a porta do carro para a dama, eu penso: Pra que tenho braços? Enquanto o moço ameaçasse dar a volta para executar esse ato de inigualável gentileza e nulidade, me encontraria de pé, sorrindo e acenando. A imagem era lá dos anos 50, quando os moços deixavam seus brotos em casa e rumavam pra a “casa das primas”.

A cachacinha tem função anestesiante para dores biliares. Fiz essa descoberta científica ontem à noite, depois de provar pra lá de meia dúzia, a título de pesquisa, obviamente. Só não compreendo porque elas, as cachacinhas, são tão enamoradas da dor de cabeça do dia seguinte... Impetuosidade etílica não combina mais comigo, definitivamente.

Meu sono secou hoje, em pleno sábado e feriado sem graça, antes das nove da manhã. Isso não é justo. Morfeu é tão metido a cuidador do sono alheio e me abandona logo num dia assim? Falseta!

Nos porões internéticos está havendo uma conspiração para me agraciar, quando setembro chegar, com a presença de um carro de mensagens para aniversariantes desavisados. Só porque falei da vergonha alheia que senti quando uma vizinha passou por esse imensurável constrangimento essa semana. Tive vontade de abraçá-la e pedir perdão pela falta de noção humana... Mas é vizinha nova, não a conheço ainda, sofri calada. O fato é que lá no mês das flores, se souberem da minha prisão, é que recebi à balas de chocolate, atiradas do meu estilingue, esse povo ameaçador de mim.

Um pouco de muito açúcar: Rodolfo Barcellos, nosso amigo poeta, bruxo, astrônomo, jardineiro da noite, foi classificado em nono lugar no Concurso Nacional Novos Poetas, entre duas mil e trezentas inscrições. Rodolfo é mesmo sujeito de talento e carisma incomuns.

Sem mais para o momento, despeço-me para me dirigir à vizinha da vergonha alheia, a fim de solicitar uma xícara de açúcar. Mas deixo vossas senhorias com essa música ensurdecedoramente linda, do Oswaldo Montenegro, cujo apreço eu nunca cultivei muito (que não me leiam os amantíssimos e inveterados emepebistas). Me nocauteou o sujeito barbudo e passei a semana buscando motivos para postá-la. Não há motivo melhor do que a própria canção.

Sejamos todos felizes agora.






MUITOS AGRADECIMENTOS AO TATTO , POR GENEROSAMENTE TER CRIADO O BANNER ACIMA, LINDO DE VIVER, A FIM DAR MAIS CHARME AO MEU CANTO DAS CRÔNICAS INQUIETAS.

BEIJO, BARBUDO MAIS LINDO DE TODOS!


domingo, 15 de abril de 2012

A DIFÍCIL ARTE DE NÃO SER INVISÍVEL



Me comove como as pessoas olham para mim, essa figura linda, loira e fofa, e de imediato são acometidas por uma enorme simpatia. Como são queridas, elas, o seu carinho e a compaixão involuntariamente lançada pelos seus olhares. Não as culpo. Apenas sorrio sem acenar.

Tive uma amostra disso por esses dias, quando estive num Centro de Saúde a fim de suplicar ao cardiologista que atestasse a minha saúde de leoa e me liberasse para a tão esperada cirurgia. Antes de entrar eu penso que o povo todo vai se virar pra me espiar feito fosse uma marciana-cangaceira. Mas logo depois meu pensamento diz que é bobagem, o povo tem mais o que fazer do que ficar me espiando... Em milésimos de segundo constato que o meu pensar primogênito estava com a razão. Misericórdia! Saiba, caro amigo, toda vez que você desejar ardentemente se manter imperceptível num lugar, aí sim será o centro das atenções. Aquela senhora simpática numas duas filas à frente da sua não se cansará de virar a coluna, no máximo que o seu bico-de-papagaio permitir, a fim de lançar sorrisos como dissesse: “tadinha, que vida dura ela deve ter, carregando essas pernas de ferro (são de prata, minha senhora) e ainda mais com o corpinho passando do limite. Nesse instante você dá graças por haver uma lei fingidora de cumplicidade que permite descaradamente deixar pra trás todas as pessoas que estavam na espera desde às 7 da manhã.

Por essas e outras sou a discrição em forma de mulher... Quer dizer, venho desejando isso há mais de quatro décadas. Eu me recuso, por exemplo, a usar óculos escuros, embora meus olhinhos sejam tão sensíveis à luz do sol. É recorrente na minha imaginação a cena das pessoas me dando moedinhas no meio da rua, consternadas com minha deficiência duplicada... Além de muletante, cega, seria necessidade especial demais pra uma pessoa só, pensariam as pessoas de bom coração. Se ao menos pudesse enriquecer com as generosas e solidárias moedas alheias...   

Sobre a difícil arte de exibir excesso de fofura, me lembrei da Denise ontem, na madruga, acometida pela síndrome de Magali... Falei pra ela comer alguma coisa, já que a fome havia se apresentado. “Vou assaltar a geladeira e comer uma suculenta maçã”, respondeu a moça. Como assim? Por isso toda a vida fui uma gordinha atípica. Os magrelos (feito a Denise) vivem por aí a assaltar geladeiras e ficam impunes, não lhes acumula uma grama de gordura. Enquanto nós, as atraímos até nos sonhos. O fato é que eu não levaria o menor jeito pra me tornar criminosa alimentar. Eu não correria riscos por causa de uma maçã, não mesmo! Se fosse pra me tornar uma meliante da madrugada, violadora de geladeiras indefesas, que fosse por um pudim, um doce de leite daqueles de comer o pote inteiro... Mas pela fruta do pecado, não senhor! Eva e Denise que o façam por mim.

Pra um domingo sonso, suposto bonzinho, mas que carrega a segunda-feira pela mão, já besteirei o suficiente. Vou agora mesmo pedir licença à minha geladeira para pegar uma suculenta (arghh) fatia de ricota... Servidos?


sexta-feira, 13 de abril de 2012

OUTROS LUARES, TANTOS SENTIRES



Tinha luas que a sua sentimentalidade era muito mais do que o corpo podia suportar. Escapulia-lhe pelos poros e se agigantavam diante dela, sem nenhuma intenção de recuo. Achava tudo aquilo sem precisão de ser. Quando enluarava assim, os sentires desmedidos a assombravam e ela só queria correr pra longe, alcançar lua serena. Mas era ilusório o desejo de fuga, lhe pertenciam os quereres e sabia que cedo ou tarde eles praticariam da habitual transitoriedade, indo embora de dentro dela. Gostava quando eles partiam, só assim desfrutava de alguma sensatez. Nessa efemeridade parecia clara a condição livre dos sentimentos. Apenas estavam ali, mas não lhe pertenciam. Era inútil gritá-los aos moucos ouvidos alheios, na sua mania estranha de punir alma que fosse com seus alardes de afetuosidade... Fosse lua cheia, louca, transbordante; fosse minguante, reflexivo e quieto o luar, carecia aprender os cantares da noite para quando fizessem figuras vorazes as tolas sentimentalidades. Tinha luas em que bastavam os cantares sussurrados.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

ALEGRIA, SIM SENHOR!


O mundo anda muito doente, o mundo anda muito doidão, cada vez mais alucinado. Anda bebendo xampu, o mundão, ao invés de passar no cabelo, só pode.

Vamos elaborar: o feriado convida, a praia espera, descanso e curtição são merecidos. Supostamente tudo sob controle, a noite vem, o corpo se entrega, sonolência coletiva... Todos pros braços de Morfeu, Hipnos ou sabe-se lá quais foram os deuses acolhedores. Já se faz manhã, o astro-rei invade, acelera o despertar... Algo não está nos eixos. Falta um carro. Alguém saiu no carro? Não! Entraram na casa, sorrateiros, rastejantes, partiram. Levaram o carro... Desassossegaram a paz alheia. Chamem a polícia. Polícia? Sim... Ela veio, ela sempre vem, mas é de boa atitude agradar os moços que trabalham nela pra eles fazerem direitinho o que é da obrigação. Aperto de mão. Ajutório na mão. Garantia de nada! Tem nada não, o seguro resolve tudo. Seguro? Sim, aquela prestação que se paga pra ter direito àquilo que se comprou. Uma espécie de acordo entre o bem e o proprietário para ficarem mais tempos juntos. Então se roubam o carro, o seguro segura a onda. Segura? Insegura relação. Reza a lenda que em muitos casos o proprietário implora pros moços, atuais sócios, darem cabo do produto de vez, porque assim o seguro assegura um auto novinho em folha. Do contrário, o seguro diz o quanto se vai pagar pra ter de volta o carro em condições de rodar. O sujeito está é bem lascado!

Mundo, você é mesmo bem doidão!

Por isso quero mais é cantar o Poetinha, quando diz que “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração”... Cansei de pirar contigo, mundão! Não vou te deixar manchar minha coleção de alegrias, são minhas e preciosas. Estão seguramente guardadas no meu relicário de lembranças e nem ouse tentar estragá-las. Lembra daquele telefonema numa tarde qualquer e do outro lado da linha uma voz carioca lá de Niterói, falava quase em verso: “Dona Milene, me deu uma vontade imensa de ouvir sua voz”? Quer alegria mais encantadora? Ah, mundão insano, posso refrescar vossa memória enlouquecida contando daquela outra tarde qualquer, num outro telefonema, num sotaque diferente, que só queria compartilhar o que viam seus olhos naquele instante. E foi um relato tão lindo, vivo, real. Quase toquei o céu. Alcancei o horizonte. Senti o cheiro da verde vida... Eu estive realmente lá... E foi sublime. Você é mesmo maluco se acha que a saudade não é motivo de ser alegre. Não dá pra sentir uma saudade triste de alguém tão doce e amável como é aquela menina, a minha Ellen, cujo tempo nem tentou cometer a asneira de nos afastar, porque o elo é forte demais, bonito demais. Nos fizeram sobrinha e tia. Somos amigas. Fomos, por alegres e velozes dias, parceiras e molecas. Estivemos felizes. E por falar em saudades, domingo é bom na arte de fazer encontrar alegria. Sugere convidar o amigo pra sentar à mesa e quando se vê, todo o cardápio de riso e bem-querer está disposto, como se jamais tivesse se recolhido. E o tempo finge sequer ter caminhado, porque ali, naquela mesa, há um imensurável amor chamado AMIZADE.

Em tempos idos, nas minhas agendas escolares, uma frase do Poetinha Vinícius era presença constante: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”... Ah, até o meu respirar é clichê. Que arte mais alegre é encontrar... Quem dera a alegria do encontro fosse canção de todos os dias.

Ah, vamos cantar?


quarta-feira, 4 de abril de 2012

DA IMPORTANTE DESIMPORTÂNCIA



É frase acertadamente parafraseada que “cada um sabe a dor e a delícia de ser blogueiro”. Como diriam os twitteiros de plantão: #fato! No início tudo é empolgação, temas bacaninhas surgem aos montes, inspiração transborda. Ao caminhar do tempo as coisas inevitavelmente se modificam. Os temas e a inspiração ganham nuances de escassez ou nos tornamos mais exigentes? Um pouco de cada coisa, um muito de tudo.

Talvez a descrição aproximada do que ocorre seja a ausência da urgência, presença marcante no começo blogosférico de cada um. Hoje, a mim particularmente, não interessa postar por postar, oferecer ao meu intrépido blog um alimento qualquer apenas com o intuito de encher-lhe o bucho, sem nenhum teor nutritivo. Então espio a pretensa postagem, não curto e não compartilho. Isso em absoluto implica dizer que somente publico textos incríveis, divisores de água, revolucionários, marcadores de época ou coisa que o valha. Nada disso! Aqui continua sendo o canto da palavra solta, palavra qualquer, variada, misturada, estampada... Palavra, porque eu a adoro.

Além do mais, depois de mais de dois anos nessa agridoce vida blogueira, já não se tem mais tanta palavra pra dissertar sobre o mesmo tema. Eis que surge, outra vez cheia de  penitência, peixe e chocolate, a Páscoa. E eu me lembro novamente da Semana Santa de outrora, lá nos meus anos idos, quando tudo era inocência, quando achávamos ter comprado o bilhete diretinho pro inferno por ter cometido um mínimo deslize na sexta-feira do “nada pode”. Não vou repetir tudo outra vez... Não vou customizar ou repaginar. Não... Minhas palavras que se virem e se façam outras.

Acompanhei alguns amigos que desaceleraram a participação na blogosfera e acabaram desistindo de vez. Hoje eu os compreendo. Cria-se por aqui um código meio confuso de “tu me agrada que eu te agrado”, “te dei a grande honra de te seguir, vai lá e faz o mesmo”, e outras pequenas regrinhas, implícitas ou não, que acabam podando a espontaneidade. A vontade de comentar um texto ou postagem qualquer, pelo simples fato de ter gostado, ou discordado, não pode ser substituída pela obrigatoriedade em comentar. E eu afirmo com total conhecimento de causa, porque fiquei um certo tempo meio murcha pela diminuição das tais opiniões no meu blog. Hoje isso está bem melhor resolvido de mim para mim mesma. Dei o direito às pessoas de me não me acharem a oitava maravilha do mundo. Que bacana, heim? Humildade é tudo nessa vida... Acho até que nas farmácias esse item devia ser oferecido à venda, aos frascos... E fracos também.

Mais de dois anos navegando nesse mar oscilante, entre calmaria e tempestade, compartilhei desse desinteresse do qual alguns amigos foram acometidos. Por que não fui embora? Talvez o principal motivo seja eu considerar isso tudo uma grande brincadeira. Talvez o fato de eu me levar muito pouco a sério me mantenha na janela, vendo a palavra alheia passar, pendurando as minhas próprias no varal. Palavras de chita, de renda, algodão ou seda... Gosto mesmo é de palavra, não importa qual roupa ela vista.


domingo, 1 de abril de 2012

MADRUGADA DE QUASE ABRIL




A pretensão era elaborar um texto transbordando em erudição, discorrendo sobre o talento das noites de sábado para delatar a solidão alheia. Eu semearia as águas de março do Jobim, que esse ano não molharam o meu chão e isso decerto daria uma pitada inteligente à composição. Citaria a frase “são promessas de vida no meu coração” e afirmaria, vibrante, que em meu coração as promessas de vida podem até adormecer, mas basta um sopro forte e as brasas avivam outra vez. Para continuar a construção insone, sorveria palavras da Simone e Denise, mulheres fortes e tão cheias do que sentir; plenas em determinação, alegria, dom de metamorfosear...  Portadoras da síndrome da inquietude inspiradora! De repente a folha de papel se encheria de reflexões compartilhadas, parágrafos líricos, pequeno mosaico de sentires tatuados por três mulheres, empunhando, valentes, uma rosa de rubra vivacidade. Se desenharia bonito o conto erudito da noite de sábado, das águas que não choveram e das três mulheres que só sabiam cantar bem alto a mais linda canção de viver.