terça-feira, 29 de maio de 2012

PÉS E FLAUTA




No poema flauteado
dança versos e pés, bailarina
Métrica e corpo, assimétricos
um giro, dois versos, sem rima

Cirandeia  passos de flauta
sorrindo flor entre dentes
No sopro:  melodias e notas
um verso, dois giros, contente

Murcharam verbos e tons
insípida flor, mastigada
Matou-se o sopro, sem dó
do amor não se dança mais nada

Nem versos, nem giros, nem rimas
os pés, pelas pontas choraram
Divagando gritante silêncio
beijaram saudades, vagaram




UM OBRIGADA BEM GRANDÃO À MINHA CAÇADORA DE IMAGENS E AJUSTADORA DAS MINHAS PALAVRAS, SIMONE... DE QUEM A TODA HORA POSSO TER A ALEGRIA DE RECEBER  ACENO E SORRISO.


domingo, 27 de maio de 2012

ENTRE SAPOS, LOBOS E MULHERZICES


O GOOGLE NÃO ME DISSE A QUEM PERTENCE A IMAGEM

Ele estava lá, jogado no meu armário porque se fica sobre a minha cama, me dano a espirrar. Que espécie de pretenso príncipe é este, que ao invés de se transformar a partir do tal passe de mágica, sob o toque sutil dos lábios da sua amada, lhe causa alergia?

Definitivamente já não se fazem mais príncipes como antigamente, mas bem antigamente mesmo, quando os geniais Irmãos Grimm tiveram a ideia de desmistificar a imagem feiosa do anfíbio sapão, transformando-o no cobiçado moço real.

E não é que a história vingou e há séculos as moçoilas vivem a querer beijar tudo quanto é sapo, a fim de ter a venerável surpresa da metamorfose amorosa? Em tempos em que viver requer urgência, praticidade, sorvendo cada segundo do relógio para transformá-lo em realização profissional ou pessoal, ainda assim elas (elas?) encontram cinco minutos de pausa para suspirarem na janela, a espera que ao longe se aviste o intrépido cavalo branco a galopar em sua direção.

Sapo... Cavalo... Melhor redistribuir esses papéis a outros representantes do reino animal. Esses aí são meio canastrões. Não! Esses aí são canastrões pra caramba! Onde já se ouviu sapo saber montar? É claro que isso não poderia dar em boa coisa, o sujeito anfíbio saiu a cavalgar sem direção e nunca chegou ao destino. Estou confundindo tudo. O sapo que se transforma em príncipe é o mesmo a galopar no cavalo branco? O metamorfoseado traz o sapato pra guria borralheira provar? Xiii... Melhor parar. Daqui a pouco descobrirei que o verdadeiro príncipe é o lobo-mau e a sua bocarra deseja apenas um beijo que o liberte antes da chegada do caçador, disfarçado de Chapeuzinho Vermelho... Melhor ele correr, Chapeuzinhos caçadoras conseguem ser bem tiranas com príncipes atrapalhados em pele de lobo.

Quem determinou que a alma feminina deveria ser assim, fantasiosa? Que espécies de hormônios compuseram a fórmula menininha (Fórmula M)? Por que nos vestimos em modernidade, transpusemos os obstáculos e provamos, sim senhor, inegável capacidade em atuar em quaisquer áreas com a mesma desenvoltura e muito mais sutileza do que os seres de pintinho... e mesmo assim cultivamos, intrínseca, uma súplica do tipo “por favor me avisem quando ouvirem ao longe um galope, é que hoje está frio”?

Mulherezinhas! Somos deliciosamente ebulição, confusão de quereres e pensares, fórmula única, misteriosa e fascinante. O bom é que, a partir da evolução dos tempos, se o príncipe não vem, buzinamos à sua porta e dizemos: “você ainda vai demorar?”... E se o cabra faz cara de “não sei aonde amarrei o meu burrinho multicolorido”, os pneus imediatamente cantam em direção mais instigante.

E segue-se uma busca fingidora de não existir.
Atchim!
Fim... ?  


quinta-feira, 24 de maio de 2012

PRECISA-SE DE SONHO




Precisava ter uma lei, pelo tempo da vida toda, proibindo o sonho da gente de ir-se embora sozinho.

Sem ele a gente fica pequeno, se arrasta pela vida em terreno árido, sente a quentura do chão feito brasa na sola do pé. Sem ele viver é desenho sem lápis de cor.  

Se tem o sonho a gente faz passeio de nuvem, avista Sol e chuva colorindo arco-íris e pensa que se correr, alcança o pote de ouro antes do vento levar pra longe. É doce a vida sonhada, é repleta de melodia como o sopro mágico do flautista.

Quando se esconde, deixa a gente morrendo de fome, e a fome é cheia de medo. Tem um buraco grande que se vê por dentro, um poço sem tampa, sem fundo, sem pena. O poço é um lobisomem comendo o sonhar da gente.

Precisava que o vento amigo, soprasse todos os dias, o sonho pra perto da gente.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

OUTRA NOITE QUE SE VAI



A ideia era falar dos sonhos fragmentados, ou garimpar gestos de nobreza para florir meu texto. Tem momentos em que as palavras me chateiam, gritam, esperneiam para se deitarem sobre o papel eletrônico e quando aqui chegam, emudecem.

Um tanto traíras, mas eu as amo mesmo se portando assim, indolentes.

Aí, em conversa com meu primo, ele me diz que nós sofremos de “insuficiência de recursos” para adquirir certos pequenos bens de consumo. Que maravilha! Ninguém jamais havia me chamado de pobre de marre deci com tanto garbo. Eu agora não quero mais ser chamada de pobre, isso é para os boçais, desprovidos de quaisquer gentilezas. Será que dói esse troço?

Eu bem pensei em falar da entrevista da Xuxa, a Maria da Graça, no Fantástico de domingo... Até fui acometida pela curiosidade mórbida que assola os viventes, a fim de saber qual o grande segredo a ser contado pela moça. Tema complexo, abuso sexual na infância, relato corajoso a fim de estimular movimentos coibidores dessa prática infame. Pois bem, não vi o programa e a culpa foi dela própria. Nos anúncios do programa dizia-se que ela falaria sobre um suposto pedido de casamento vindo do Michael Jackson, interessado em ser pai dos filhos dela. Aí apelou, né não?

Como assim, Maria da Graça? Billie Jean nunca quis casar com ninguém, a menos que a Sininho fosse um personagem real. Achei um pouco demais essa senhora se valer do pobre (não de insuficiência de recursos) para promover sua carreira, que de tão madura, quase cai. Tadinho do ex-vivo, quase fazia aniversário de partida ainda sobre a terra e agora que descansa no leito eterno, a Xuxa quer pagar de noiva. O barato dela parece mesmo ser esse, pagar de enamorada de pilotos e cantores mortos.  

Vou dormir pra amanhã ir à labuta, com a disposição de sempre. Invejável. De tarde receberei minha adorável Maria Clara para fingir ajudá-la a estudar pra prova. Ontem, repassando História, ela me corrigia toda hora quando eu lançava asneiras sobre Lutero e seu descontentamento acerca das atitudes papais à época. Ela dizia: “Tia Memem, você não entendeu direito”... E me dava uma aula feito fosse uma pequena e astuta professora. Agora, vai euzinha tentar dizer que não dou conta desses métodos modernosos de ensino, que ela sabe tudinho porque se aplica nas aulas e não precisa de mim? “Tia, não sei porque, com você eu aprendo mais rápido”... Me calo e seguimos assim, eu fingindo auxiliar, aprendendo tudinho com ela.

Ninguém se candidata a cantar pra eu dormir? Então tá, vou-me num incômodo silêncio, retomando o pensamento nos sonhos que nos abandonam e em gestos de nobreza a serem garimpados. É papo para outra ocasião.

Beijo!

sábado, 19 de maio de 2012

DA MOMENTÂNEA LEVEZA



Como era tolo o pensamento de que o meu gostar era a coisa mais importante do mundo. Gostava e pronto, supunha estar presenteando o outro com um tesouro de incalculável preciosidade.

Meu gostar espiava com olhar pidão, de pura chantagem, silenciosamente suplicando atenção. Portou-se piegas, alardeava sentires, gritava um amor estridente, exibia beleza, cor e desassossego. Alimentava-se de perguntas e exclamações. Meu gostar reclamava.

Pariu em desmesura a saudade, sentida, vermelha... Estúpido, não compreendia a ausência, oferecia desapego ao invés de abrigo, desaprendia a ser amigo, saiu a esmo por caminhos desconhecidos. Meu gostar padecia.

É outro gostar a refletir no espelho, mais velho, reticente, alheio. Já não segura a mão com tanta força, prefere tatuagem rasa no lugar da pele sangrada, sussurra e dá de ombros se não o escutam... Meu gostar parece cansado.

Sem interrogações, um tanto distraído, desbotado, curtindo a beleza das cores calmas, meu gostar fez-se reticências. Até que a próxima metamorfose o pinte em matizes gritantes outra vez...


quinta-feira, 17 de maio de 2012

BOLETIM INFORMATIVO SEM QUALQUER SERVENTIA



Recém-acordada depois de uma indesejável, inexorável, insuportável enxaqueca, para minha alegria (essa frase de novo não!) meu estimado PC, também conhecido como computador está de volta ao lugar de onde jamais deveria ter saído.

Para não ficar totalmente desinternauta, me apropriei do tal tablet do meu irmão (que ele chama carinhosamente de tablete, e eu aperfeiçoei com o singelo título de “tablete de caldo Maggi... ou Knorr... ao gosto do freguês). Gostei desse troço não. Sou retro. Sou retro! Meus dedos gordinhos penaram para se adaptarem ao teclado do sujeito, que parece ter vida própria.

Mas eu queria estar aqui novamente e dizer que ontem estive a espiar os boizinhos reflexivos nos montes ainda verdes e outra vez tive vontade de lhes perguntar porque tem fisionomias tão tristes. Bois branquinhos e quase estáticos vistos por mim nas estradas, podem sim estar intuindo a pouca validade das suas vidas, ora!

Deixemos pra lá a mísera significância dos bovinos e sigamos viagem, cantando The Fevers e lacrimejando com a melhor Dona Lourdes do mundo. Isso porque o motorista, taxista, gente boa demais, um tanto constrangido porque no seu porta-cds não havia nada a me causar euforia musical. Ralhei pra ele deixar de bobagem e aumentar o som com qualquer coisa... Sugeri propositadamente a banda citada, queria testar a memória emotiva da mamãe, a minha. Cantamos entusiasmados as canções populares lá dos anos idos. Éramos quatro corpos cheios de calor (a quentura de Maceió é mesmo duzinferno), fome e cansaço. Queríamos chegar logo em casa depois daquela manhã que durou uns dois séculos, corredores hospitalar megalotados e gritantes... Enfim, voltávamos e cantávamos.

As músicas foram acontecendo, até chegar à armadilha emocional a qual de forma amorosamente tirana submeti Dona Lourdes. Eis que toca “Nathalie” e eu pergunto:
- Gosta dessa música, mãe?
- Claro!
- Por que?
- Por que me lembra você –

Então explicou aos outros dois navegantes, Cicinha, amiga e cuidadora de todas as horas, e o motorista bacaninha, de uma certa galega lindinha que se balançava, sentadinha no chão, visto que não caminhava, ao escutar os primeiros acordes dessa música. Mamãe disse da minha belezura infantil e eu bem acredito. Mamãe não mente, jamais!
- Quando você estava internada naquele navio-hospital infantil, essa música tocou lá em casa, eu chorei, me desesperei e no dia seguinte fiz seu pai me levar pra buscá-la – disse isso com olhinhos lacrimejantes, lindos!

Como é amor essa mulher, meu Deus! O motorista ralhou me sorrindo, que eu era má por tê-la emocionado. A mim coube a imensurável sensação de me obrigar a fazer darem certo as coisas, principalmente por ela, por eles, meus pilares consanguíneos. Não tenho o direito de recuar ou ao menos estacionar. Sem a minha realização, a deles será toda vida incompleta, é assim quando verdadeiramente se ama.

Assim será!
E mamãe me acha linda. Massa! E o taxista, sujeito ímpar, me deu o CD contendo a música-retrato-de-infância. 

Bem bacaninha estar de volta, pessoas!
Beijo!

domingo, 13 de maio de 2012

INDULGÊNCIA



Seca o teu pranto, negro. Não leste a carta? És liberto! Ordena os teus pés descalços a trilharem o teu próprio caminho. Cura as tuas costas açoitadas, limpa a vermelhidão sangrada, enxuga o suor da lida judiada e vai!

És liberto, negro! Não leste a carta em dizeres livres? Havia palavras boas e cristãs. Os santos senhores do açoite, simulando indulgência, afrouxaram-te os ferros e deixaram ruir as paredes da senzala.

A carta, negro, atesta em comovente brancura o direito de ser. Já não há tronco para a tua indolência, nem o uivo ritmado do chicote dançando sobre o teu corpo cansado.

Livraste-te do cativeiro, não desejes súplicas de perdão. Agradeças a fingida benevolência de quem o subjugou, sorveu-te a dignidade e por fim abriu-te as portas de tanto mundo.

Agora vai, negro! Alcança a mão do teu filho, outrora vendido por uns poucos contos de réis. Entoa um canto de tardio adeus aos teus pais, sugados pela indelével brancura até o último fôlego. Por que ainda não fostes? És livre! Não leste a carta?

Desconheces as letras, negro liberto?







quinta-feira, 10 de maio de 2012

CARTA PARA ALÉM DO MAR



E aí amigo, como vai você?

Por saber que te circunda, sombria e corrosiva, a tal angústia, me apresento nesta distância imensurável aonde os passos não chegam e a proximidade é contraditoriamente crescente.

Eu te conto: volta e meia insiste em me rondar essa fulana, impiedosa e ácida, sanguessuga do sossego alheio, que não satisfeita em avivar as mazelas, ainda conduz a tristeza como companheira.

Eu te peço, não a deixe ocultar o luar do lado de dentro. Abusa da impetuosidade e afugenta qualquer remota intenção de estadia mais demorada, dessa que não tem outra ocupação a não ser revirar a nossa casa da alma.

Eu te convido, dança comigo sob a chuva. Seremos os melhores amigos da água derramada do céu e ela será reparadora dos nossos tortos sentires. Vem dançar, amigo. Giraremos feito alegres crianças, teremos molhados o corpo e o espírito, feito tivéssemos fragmentando o fardo da oportunista infelicidade. Dançaremos, lúdicos e livres até que a chuva adormeça e no lado de dentro seja luar outra vez.

E mais tarde, quando acordar o Sol, resplandecerá num brilho intenso. Virá guardião das nossas esperanças e danças, testemunhando em matizes douradas o que só o coração é capaz de bordar explicação.

Até mais, amigo...

REMETENTE: Eu, do lado de cá.
DESTINATÁRIO: Ele, o Tony Manna, lá do outro lado do mar.

Ambos esperando o Sol brilhar... Waiting for the Sun to shine.




domingo, 6 de maio de 2012

NOTURNAS



Na caixa de concreto a mulher se faz prisioneira dos seus próprios sonhos abandonados. Lá fora a lua é soberana, rainha da noite, deitando-se sobre os telhados dormentes. Lua cheia, lua linda, lua nua. Na caixa de concreto, submersa num breu que já não a amedronta, a mulher não percebe a lua sobre a sua cabeça, num convite implícito para juntas pastorarem o céu noturno. São, porém, magnéticas as paredes da tal caixa e ela não consegue (não deseja?) mover músculo sequer a fim de respirar os ares lunares. Não estivesse tão voltada aos seus sonhos desencantados, a mulher decerto aceitaria o chamado e passeariam de mãos dadas prateando pedaços do mundo. E mais tarde, quando o sol dormisse a lua, quando exausto e alegre fosse o regresso, a mulher sopraria a poeira dos sonhos e eles seriam seu alimento outra vez.



O Eterno Espanto

Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha
é com o súbito espanto da primeira vez?

(Quintaneando)


sexta-feira, 4 de maio de 2012

COTIDIANEANDO


O CHÁ

CENA 1 – Manhã sem tanto movimento naquela secretaria escolar. A senhorinha aparentemente ansiosa questiona porque o histórico da filha não foi preparado ainda, pois há muito já tinha solicitado. São várias as tentativas de fazê-la compreender a necessidade de pedir um histórico na escola onde a filha estudara anteriormente. Aflita, se achando incompreendida, fantasiando má vontade por parte de quem a atendia, a senhorinha garra num choro sem solução, afugentando quaisquer tentativas de acalmá-la. A funcionária responsável pelo atendimento, visto que a secretária se ausentara momentaneamente, tenta em vão solucionar o chororô desproposital, afastando de si todo mau pensamento que a fizesse invocar um santo qualquer, com um humor ainda pior, que segurasse a senhorinha pelos ombros e perguntasse, aos gritos: “a senhora apanhou, pra estar chorando?”... Por sorte, a secretária assumiu a missão que lhe era devida, a funcionária à beira de um terceiridadecídio sacou o fone de ouvidos ao som de Nando Reis e não mais foi personagem da cena tragicômica, estendida ainda por seculares minutos. Obrigada, Nando!

CENA 2 – Era uma simples ultrassonografia de tireoide, uma visitinha rápida à clinica no turno da tarde e pronto, mais uma etapa dos pré-operatórios resolvida. Tudo muitíssimo bem se uma das médicas não houvesse faltado no turno matutino e a outra ganhasse de presente todos os pacientes do dia. Clínica lotada de grávidas e outras espécies sem nenhuma paciência, algumas no local desde às sete da manhã. Quase cinco da tarde e a atendente chama uma tal Milene, que havia chegado lá pelas três, alimentada e descansada. A paciente levantou-se querendo estar metida numa burqa, a fim de não olhar pros lados e conferir o olhar de “bora matar essa gordinha” das pessoas em volta. Crescente a vontade de explicar: “gente, é a lei, sou de especialidade ímpar, sabe?”... A doutora deve ter visto injustiça nessa proteção legal e apertou com gosto a garganta da fulana, que gritou em pensamento o arrependimento por não ter providenciado um testamento antes. Os CDs ficariam órfãos, afinal. O exame ocorreu numa velocidade furiosa e na saída outra senhorinha desavisada se ofereceu ao terceiricídio, falando: “quando a pessoa é mais gordinha o exame é bem rápido”... Cicinha, a inexorável guardiã, respondeu antes que o olhar furioso da paciente quase esganada se transformasse em berros: “o dela foi mais rápido porque foi ultrassonografia de tireoide, só por isso”... Ufa! Por que certas pessoas acham simpático proferir inconveniências?

CENA 3 – No afã de conseguir logo o risco cirúrgico, a opção foi levar os retratos do coração para um médico um tanto desconhecido pelas bandas de cá. A paciente, aquela mesma quase esganada e terceiridadecida, contou ao médico da sua ansiedade em conseguir pra ontem o tal atestado, afirmando que o seu coração, embora batesse em descompasso, estava bacaninha de lima silva e os planos cirúrgicos poderiam seguir. Médico mais simpático nunca se ouviu falar. Ordenou à Cicinha, fiel guardiã, que ficasse de olho na paciente, pra seguir direitinho a posologia do remédio de acalmar coração. “Está tudo em ordem pra sua cirurgia, mas não custa sossegar esse rapaz ansioso só um pouco, né?”... No mais, aconselhou-a a escolher uma cerveja bem gelada quando fosse fim de setembro e remoeu-se em vontade de experimentar o “chá” tão bem falado pela paciente com leves tendências etílicas, embora dissesse que jamais ouviu falar em viciantes chás servidos em copinhos, armazenados em barris, oferecidos nos botecos da cidade. Consulta terminada, tudo sacramentado num abraço gloriosamente alvinegro e na promessa de brindar setembro, doce primavera de doutor e paciente ansiosa. Um salve às adoráveis coincidências a criarem laços.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

O CONFRONTO



Encontrei fora de mim o meu coração, bem à vista naquela máquina de enxergar por dentro. Parecia dançar uma coreografia qualquer, um xaxado ou rock’n roll, uma valsa ou tango, exultante e irrequieto, personagem principal na caixa preta cujas luzes o faziam colorido.

Era estranha a sensação de observá-lo além do meu corpo, evidenciando sua inquietude e exibindo movimentos como se quisesse me provar que ele é e vai ser pra sempre o condutor das minhas emoções. Quis confrontá-lo. Desejei dizer “chega”! Precisava fazê-lo compreender o meu cansaço, a fadiga chegada sem nenhum chamado, a imensa vontade de “coisa alguma” e era preciso respeitar as minhas vontades... ou a ausência delas. Eu era a sua guardiã e a mim ele devia obediência.

Ensaiei exaustivamente um discurso, certa de convencê-lo com meus infalíveis argumentos de defesa... Corações também podem ser quietos, serenos, obsequiosos. E se fosse preciso sussurrar palavra dura para lhe coibir arroubos, eu o faria.

Eu pensava enquanto ele seguia seus movimentos exibicionistas, instigado pelas luzes na caixa de fazer colorido. Aquilo não haveria de ser boa coisa, sairia dali ainda mais petulante e propenso aos riscos inerentes à condição de estar pulsante. Armaduras de coração era uma boa invencionice e se alguém não tivesse sido acometido por essa ideia genial, quem sabe eu não o fizesse? Ganharia rios de dinheiro garantido a sobriedade alheia diante das habituais incursões deste órgão, nas terras perigosas dos quereres desmedidos.

Discurso pronto, já me preparava para confrontá-lo, quando as luzes multicoloridas se apagaram e tudo ficou outra vez escuro naquela caixa que instantes antes parecia fabricar vida. Junto, apagou-se a minha coragem, ele já havia voltado a se aconchegar no meu peito, pedindo afago, prometendo sossego... Eu sabia que não duraria meio segundo essa súbita vontade de beber serenidade. Já não via sua dança, embora soubesse que seus passos seguiriam pulsantes até o último respirar.

Fim do exame. Em passos lentos, batidas ensurdecedoras, hora de levar meu coração pra casa.